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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

ENCONTRO INESPERADO DOS DOIS DAVIS - Alberto Landi

 



 ENCONTRO INESPERADO DOS DOIS DAVIS
Alberto Landi


Florença despertava sob uma luz dourada que se refletia nas águas tranquilas do Arno, enquanto a cúpula de Santa Maria del Fiore já brilhava ao longe, como uma sentinela sobre a cidade. 

A Ponte Vecchio já começava a ganhar vida. Os primeiros transeuntes atravessavam o rio em direção ao Palazzo Pitti, enquanto as lojas começavam a abrir suas portas.

A cidade parecia despertar um tanto lenta, mas Florença nunca acordava em silêncio. Havia sempre o murmúrio das águas, o som dos passos sobre as pedras antigas e aquela sensação de que, a cada esquina, a história estava esperando ser encontrada.

Nas ruas estreitas, o perfume dos pães recém-assados misturava-se ao ar fresco da manhã. Michelangelo sentia que uma escultura destinada à eternidade começava a revelar-se diante do mármore silencioso.

Ele observava o seu Davi imóvel, sereno, com os olhos fixos no destino.

Parecia que ele não havia esculpido, mas libertado de dentro do bloco de mármore.

Mais de um século depois, em Roma, Bernini contemplava o seu próprio Davi.  O corpo estava torcido, os músculos tensos, o rosto concentrado no instante do ataque. Ali o mármore parecia respirar, como se a escultura pudesse avançar um passo e lançar a funda contra o gigante.

Certa noite, Bernini teve um sonho. Encontrou-se diante de duas esculturas vivas: o seu Davi e o de Michelangelo. Sob a luz da lua, as duas figuras pareciam respirar, então o romano olhou para o florentino e perguntou:

— Você ainda espera pelo combate? 

— Sim. Estou reunindo coragem para enfrentá-lo, respondeu Davi de Michelangelo.

— Eu não espero. Já estou dentro dele, disse o de Bernini.

— Qual de nós é o mais forte? — perguntou o de Bernini.

O Davi florentino sorriu. — A força não está apenas no movimento, muitas vezes reside no silêncio antes da decisão.

Davi, o romano, apertou a funda, e o silêncio já se transformou em ação.

Então compreenderam que não eram rivais, eram duas formas diferentes de representar a mesma coragem e uma mesma verdade.

Ao amanhecer, o sonho havia chegado ao fim.

Michelangelo havia dado ao mármore a grandeza da alma humana; Bernini havia ensinado o mármore a dançar, lutar e avançar no tempo.

Cada escultura voltou ao seu lugar de origem, mas, desde então, quem contempla o de Michelangelo fazia a coragem nascer do silêncio do mármore.

Dois gênios, duas épocas, duas formas de tocar a eternidade e uma mesma verdade: quando a arte é realmente grande, até a pedra parece guardar um sopro de vida!



Amazing Grace - A noite em que o mar silenciou - Alberto Landi

 



Amazing Grace 

A noite em que o mar silenciou

Alberto Landi


O Atlântico não conhecia misericórdia naquela noite.

Era 21 de março de 1748.

A bordo do Greyhound, o jovem John Newton enfrenta uma tempestade que parecia arrancar o próprio navio do oceano.

As ondas subiam como montanhas negras, o vento rasgava as velas.

A madeira do navio gemia a cada golpe do mar.

Newton já conhecia o oceano, suas calmarias e fúrias, mas naquela noite havia algo diferente. Pela primeira vez, ele percebeu que não tinha controle sobre o próprio destino. Um estrondo fez o navio estremecer, a água começou a invadir o porão, os homens corriam de um lado para outro, tentando salvar a embarcação.

Newton trabalhou; durante horas todos lutaram contra o mar.

Exausto, ele percebeu uma coisa que talvez nunca tivesse admitido antes: podia perder tudo, o navio e a vida.

Talvez naquele instante começasse a perder também a imagem que tinha de si mesmo.

Newton gritou por Deus; não foi uma oração elaborada, foi o grito desesperado de um homem que descobrira, no meio da imensidão do oceano, a própria fragilidade.

O navio sobreviveu, ele também.

Mas alguma coisa havia mudado, não naquele instante completamente; a transformação levaria anos.

Ele ainda carregaria consigo as contradições de sua vida e sua participação no tráfico de escravos.

Mais tarde, porém, abandonaria o mar e tornar-se-ia pastor, e denunciaria a escravidão que um dia ajudara a sustentar.

Anos depois, olhando para sua própria história, escreveria versos sobre a graça.

Uma graça que, segundo sua fé, encontraria um homem perdido, um homem que havia atravessado a tempestade do oceano e, principalmente, a tempestade de si mesmo.

Amazing Grace, how sweet the sound. 

Mas a história daquela canção não terminaria com Newton.

Mais de dois séculos se passaram.

Ele morreu, os navios desapareceram no horizonte, aquela noite de tempestade tornou-se memória, mas suas palavras permaneceram.

Amazing Grace atravessou gerações, países e séculos. Foi cantada em igrejas, em momentos de dor, de despedida e de esperança. Sua melodia encontrou novas vozes, novos lugares e novas histórias.

O homem que um dia gritara por misericórdia no meio do Atlântico já não estava ali, mas sua transformação continuava viajando.

Talvez seja esse o mistério das grandes canções.

Algumas nascem de uma vida, mas deixam de pertencer somente a quem as escreveu. Elas atravessam o tempo, e séculos depois, ainda conseguem tocar a alma de alguém que talvez nem conheça a história daquele homem perdido no mar, porque algumas tempestades terminam quando o mar se acalma; outras continuam dentro de nós até o dia em que finalmente aprendemos a olhar para trás.

Newton olhou. Descobriu que a verdadeira viagem não havia sido aquela que atravessara o Atlântico, mas que o levaria de volta para dentro de sua própria alma.

A canção não nasceu simplesmente de uma tempestade, e sim, de uma vida inteira de transformação!

Deu asas aos versos de Newton e, assim, o que nasceu como poema se eternizou como uma canção!


Eu e os botões - Hirtis Lazarin



Eu e os botões

Hirtis Lazarin


Eu deveria ter suspeitado no dia em que tirei da caixa meu secador novo. Ele tinha um design moderno demais, um acabamento fosco meio sinistro — não era a cor que escolhi, alguns botões que pareciam o painel de controle de um foguete espacial.

Estava atrasada para o trabalho, com o cabelo pingando e sem tempo pra ler todas aquelas instruções que, de tão pequenas, as letras pareciam formiguinhas atrapalhadas.

Meio desconfiada e à frente do espelho, girei o cabo de um lado para o outro e apertei um dos botões — foi no chute. 

No primeiro clique, em vez de um sopro morno e azul, bem reconfortante, ele emitiu um estrondo de turbina de avião. Disparou um jato tão frio que congelou imediatamente a ponta do meu nariz e meu gato despencou da cadeira.

Tentei outro botão e o danado emperrou.

Segundos depois, sem eu mudar meu dedo da posição anterior, ele decidiu viajar do modo “Polo Norte” ao modo “Lavas de Vulcão”. Senti o cheiro de queimado. Arranquei o aparelho da tomada com um puxão violento que quase levou o filtro de linha junto.

Olhei pra caixa recém-aberta no chão, cercada por plástico bolha.  Meu rosto queimava de raiva. Joguei o secador sobre a cama desarrumada e a minha vontade era transformá-lo num amontoado de pecinhas inúteis, mas como sou apenas uma trabalhadora mal remunerada…

“Chega!” Olhei para o relógio. Os ponteiros, parecia que andavam mais rápido que o normal. E o meu cabelo continuava molhado. 

Sem tempo pra decifrar a engenharia aeroespacial do aparelho, amarrei um lenço estampado na cabeça, à la “Carmen Miranda”, peguei a bolsa e saí voando. Eliminei todo pensamento negativo pra que o mau humor não atrapalhasse meu dia. 

O que eu não esperava foi o que aconteceu duas horas depois. O celular vibrou no meio de uma reunião importante. Era uma notificação do aplicativo “Casa Inteligente” integrado ao celular. 

Eu sabia que a mensagem se referia ao secador, mas “turbina”, “autodestruição”, “térmicas” era um conjunto de palavras que não tinham qualquer significado pra mim. Ignorei a informação.

No meio da tarde, entre uma planilha e outra, senti calafrios na minha espinha. Pensei no meu gato e no secador possuído em cima da cama. Se aquele monstro tecnológico, cheio de botões, resolvesse ligar sozinho no modo “turbina espacial”, o coitado do bichinho seria arremessado contra a parede ou, pior, ganharia uma escova progressiva forçada. Não tive dúvidas, inventei para o chefe uma dor de dente terrível e, em menos de cinco minutos, já estava dentro de um táxi.

Encontrei duas vizinhas e o síndico parados à minha porta. Quando entrei no quarto, o secador rodopiava sobre os lençóis e emitia um som verde fantasmagórico.

Encolhido atrás da cortina pesada, meu gatinho assustado parecia tentar se fundir com a parede. Os olhos arregalados e cheios de pânico, o pelo arrepiado e o corpo miúdo e trêmulo revelavam o tamanho do seu medo.

O síndico, mexendo aqui e acolá, descobriu que um botão do secador estava   acionado. A manhã inteira, uma voz feminina e aguda, dando “Bom dia! Tudo bem com você?” atormentou a vizinhança inteira.

No dia seguinte, acordei decidida. Envolvi o secador no plástico bolha, arrumei-o cuidadosamente na mesma caixa — que, por sorte, estava intacta — e fui até a agência de Correio mais próxima. 

Antes de entregar o pacote definitivo ao atendente, olhei pela última vez para a embalagem. Lá estava a modelo, estática e perfeita, ostentando cabelos sedosos flutuando num vento invisível. Tive a absoluta certeza de que o sorriso congelado daquela mulher na caixa não era de simpatia, mas de puro deboche. Era como se a foto estivesse me humilhando e comemorando a vitória da tecnologia contra os mais velhos.

Entreguei o embrulho para o atendente e, via SEDEX, despachei o secador para a loja “Shoppee”.

Caminhei sem olhar para trás. 

 Senti-me derrotada.


O boato - Alberto Landi

 


O boato

Alberto Landi


Helena era secretária de uma companhia de seguros. Miguel, seu chefe, era um homem respeitado pelos funcionários, mas cuja autoridade também despertava sentimentos diversos.

Ela era magra, alta, parecia até um esqueleto ambulante.

Tinha 1,80 de altura e parecia ter sido montada a partir de um kit de construção de robôs.

Tudo começou com uma frase quase inocente.

Durante uma conversa com uma colega de trabalho, Helena disse em voz baixa:

— Dizem que Miguel vai embora.

Não havia certeza em suas palavras, apenas insinuação.

Mas, ao perceber a surpresa no semblante dela, sentiu algo inesperado, a sensação de que, por alguns instantes, tinha poder sobre o que os outros pensavam.

Ela não sabia explicar por que aquela sensação lhe agradava tanto.

A possibilidade de Miguel deixar a empresa parecia despertar nela sentimentos que preferia não revelar.

No dia seguinte, alguém lhe perguntou:

— Você soube?

Ela fingiu surpresa.

— Soube o que?

A pergunta trouxe-lhe uma satisfação secreta.

O boato, ainda tímido, começava a caminhar.

Ela acrescentava uma dúvida aqui, uma pausa ali, um detalhe que não existia. Nunca afirmava completamente, deixava que os outros completassem a história.

E isso lhe dava prazer.

Observava silenciosa, enquanto a pequena semente crescia.

O que começava com uma frase transformava-se agora em uma história. A história em suspeita e a suspeita começava a ganhar vida própria. O que começou tímido passou a ser temido.

Quanto maior ficava, maior era sua satisfação.

Já não precisava dizer muita coisa; bastava uma expressão, um olhar, uma frase interrompida e o boato fazia o resto.

Até que, certa manhã, ouviu seu próprio nome. Parou. O boato havia mudado de direção.

Agora diziam que ela sabia de tudo, que fora ela quem espalhara a história, que havia motivos ocultos por trás de suas palavras.

Pela primeira vez sentiu medo, tentou corrigir o que havia criado, quis dizer que tudo não passara de uma invenção sua, que Miguel não iria embora, mas ninguém queria ouvir a verdade, o boato já havia percorrido a companhia inteira.


O boato já não precisava dela; era como uma criatura que, depois de ganhar vida, aprendera a caminhar sozinha.

E agora era temido.

Ela percebeu então algo que nunca imaginara: o boato precisava de outro boato para continuar existindo.

Uma mentira alimentava outra. Uma dúvida criava uma suspeita, e a suspeita precisava de uma nova história.

E a história já não obedecia à sua criadora.

Naquela noite decidiu contar a verdade; precisava destruir o boato antes que ele a destruísse.

Mas sua colega, ao chegar, ouviu dela:

— Não adianta mais, agora estão dizendo outra coisa.

Helena sentiu um frio percorrer o corpo.

— O que?

A colega, a quem Helena havia contado tudo no início, hesitou:

— Que você inventou tudo para esconder alguma coisa ainda maior.

Ela ficou em silêncio. Percebeu, então, que estava diante de algo que já não podia controlar.

O boato precisava de outro boato para sobreviver.

E a cada tentativa de apagá-lo, apenas lhe dava novo alimento.

Naquela noite, diante do espelho, ela finalmente compreendeu: não havia criado apenas um boato, havia criado uma sombra.

E algumas sombras, depois que aprendem o caminho, deixam de perseguir quem as criou.

Passam a acompanhá-la!




ENCONTRO INESPERADO DOS DOIS DAVIS - Alberto Landi

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