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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O boato - Alberto Landi

 


O boato

Alberto Landi


Helena era secretária de uma companhia de seguros. Miguel, seu chefe, era um homem respeitado pelos funcionários, mas cuja autoridade também despertava sentimentos diversos.

Ela era magra, alta, parecia até um esqueleto ambulante.

Tinha 1,80 de altura e parecia ter sido montada a partir de um kit de construção de robôs.

Tudo começou com uma frase quase inocente.

Durante uma conversa com uma colega de trabalho, Helena disse em voz baixa:

— Dizem que Miguel vai embora.

Não havia certeza em suas palavras, apenas insinuação.

Mas, ao perceber a surpresa no semblante dela, sentiu algo inesperado, a sensação de que, por alguns instantes, tinha poder sobre o que os outros pensavam.

Ela não sabia explicar por que aquela sensação lhe agradava tanto.

A possibilidade de Miguel deixar a empresa parecia despertar nela sentimentos que preferia não revelar.

No dia seguinte, alguém lhe perguntou:

— Você soube?

Ela fingiu surpresa.

— Soube o que?

A pergunta trouxe-lhe uma satisfação secreta.

O boato, ainda tímido, começava a caminhar.

Ela acrescentava uma dúvida aqui, uma pausa ali, um detalhe que não existia. Nunca afirmava completamente, deixava que os outros completassem a história.

E isso lhe dava prazer.

Observava silenciosa, enquanto a pequena semente crescia.

O que começava com uma frase transformava-se agora em uma história. A história em suspeita e a suspeita começava a ganhar vida própria. O que começou tímido passou a ser temido.

Quanto maior ficava, maior era sua satisfação.

Já não precisava dizer muita coisa; bastava uma expressão, um olhar, uma frase interrompida e o boato fazia o resto.

Até que, certa manhã, ouviu seu próprio nome. Parou. O boato havia mudado de direção.

Agora diziam que ela sabia de tudo, que fora ela quem espalhara a história, que havia motivos ocultos por trás de suas palavras.

Pela primeira vez sentiu medo, tentou corrigir o que havia criado, quis dizer que tudo não passara de uma invenção sua, que Miguel não iria embora, mas ninguém queria ouvir a verdade, o boato já havia percorrido a companhia inteira.


O boato já não precisava dela; era como uma criatura que, depois de ganhar vida, aprendera a caminhar sozinha.

E agora era temido.

Ela percebeu então algo que nunca imaginara: o boato precisava de outro boato para continuar existindo.

Uma mentira alimentava outra. Uma dúvida criava uma suspeita, e a suspeita precisava de uma nova história.

E a história já não obedecia à sua criadora.

Naquela noite decidiu contar a verdade; precisava destruir o boato antes que ele a destruísse.

Mas sua colega, ao chegar, ouviu dela:

— Não adianta mais, agora estão dizendo outra coisa.

Helena sentiu um frio percorrer o corpo.

— O que?

A colega, a quem Helena havia contado tudo no início, hesitou:

— Que você inventou tudo para esconder alguma coisa ainda maior.

Ela ficou em silêncio. Percebeu, então, que estava diante de algo que já não podia controlar.

O boato precisava de outro boato para sobreviver.

E a cada tentativa de apagá-lo, apenas lhe dava novo alimento.

Naquela noite, diante do espelho, ela finalmente compreendeu: não havia criado apenas um boato, havia criado uma sombra.

E algumas sombras, depois que aprendem o caminho, deixam de perseguir quem as criou.

Passam a acompanhá-la!




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