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quarta-feira, 16 de março de 2022

A IMPORTÂNCIA DE ESCREVER - Henrique Schnaider

 


A IMPORTÂNCIA DE ESCREVER

Henrique Schnaider

 

Não fui um bom aluno nas aulas de Português desde o curso primário. Tive muitas dificuldades, minhas notas não eram boas.

Assino o Jornal O Estado de São Paulo desde os anos de 1970. Comecei a melhorar na escrita, quando resolvi enviar minhas opiniões sobre notícias e textos dos mais variados comentaristas que escreviam para o Jornal na sessão do Mural dos leitores.

Com o passar do tempo, meus comentários começaram a ser publicados no dia seguinte e dessa forma de duas a três vezes por semana. Me senti obrigado, é lógico de uma forma positiva, a melhorar o meu português, pois me sentia constrangido quando o Editor corrigia algo do meu texto original.

Então muitas vezes eu verificava que não havia nenhuma correção, o que me deixava muito satisfeito com a minha evolução. Assim foi por muitos anos, sendo publicado e conhecido pelo Editor e por outros assinantes do Jornal que me enviavam e-mails comentando o que eu escrevi.

Dessa forma senti que melhorei muito no Português na escrita, mas ainda falhando na pontuação. Sempre usei termos difíceis, mas que são do meu conhecimento. Cheguei a ser convidado para participar de um Fórum na sede do Jornal.

O palestrante seria o Ministro Gilmar Mendes e não me senti com vontade de comparecer, devido ao fato de não ter uma opinião muito favorável a este Ministro.

Até que chegou um dia, durante o Governo de Michel Temer, escrevi um texto contundente de crítica ao Jornal por se omitir sobre coisas erradas deste senhor ao qual me refiro como uma raposa felpuda.

Deste dia para frente o Jornal num claro rompimento, nunca mais publicou nenhum comentário meu.

Foi neste momento que comecei a frequentar o ICAL e receber as aulas da Professora Ana. A princípio senti muita dificuldade de me ambientar e escrever os contos. Resisti e me mantive firme e assim estou até hoje no nosso querido ICAL.

Já escrevi dezenas de histórias. Melhorei mais ainda meu português e participei de dois livros editados. Conheci a Hirtis Lazarin e a minha convivência com meus colegas tem sido excelente, fiz muitas amizades as eu prezo muito.

Estou até hoje no ICAL sempre aprendendo, cada dia uma coisa nova, e sobre figuras de linguagem. Espero continuar por muitos e muitos anos convivendo com meus colegas e com a Hirtis e que Deus nos dê saúde física e mental para continuarmos assistindo as aulas da professora Ana e aprendendo e mantendo nosso português em dia.

 

 

quinta-feira, 3 de março de 2022

A PRAÇA - Henrique Schnaider

 





A PRAÇA

Henrique Schnaider

 

Gilberto chegou cedo naquela praça enorme mais parecendo um parque. A primeira impressão foi de encantamento, tal a beleza do local cheio de árvores que existiam lá. De todos os tipos, gigantes de copas muito altas, proporcionando um sombreado aconchegante.

Havia também árvores de outros tipos, como o ipê amarelo, manacá da serra, Cambuci, Ingá, canelinha. Árvores gigantes como a copaíba, coqueiros reais, araucárias, figueira brava, o maravilhoso jequitibá branco.

Gilberto ficou com água na boca quando indo mais para dentro da enorme praça, deu de cara com pitangueiras, jabuticabeiras, as goiabeiras que crescem em todos os lugares. Ele percebeu que alguém plantou a graviola que não é nativa aqui da terra.

Ele continuou andando e encontrou uma enorme paineira bem no centro da praça. Havia um chafariz ao lado com um enorme jato d’agua, refrescando o local.

Os bancos estavam tomados com casais de namorados que pelo encanto do local, trocavam carícias e olhares apaixonados. Gilberto até suspirou, sentindo falta da sua amada. Finalmente achou um cantinho para se sentar e poder apreciar mais coisas que a praça oferecia.

Dezenas de passarinhos tomavam conta das árvores desde o os sabiás laranjeiras com o seu canto triste e bonito envolvendo o local. Os bem-te-vis chamando a todos com seu piado bem-te-viiii. Gilberto se encantou quando chegaram nas árvores um bando de maritacas e perequitinhos tuim causando um barulho enorme com seus cri cri cri.

Gilberto ficou com água na boca quando ali perto as pipocas pulavam sem parar no carrinho do pipoqueiro, espalhando no ar seu cheiro característico que a todos atraí. Ele adorava pipoca doce enchendo o carrinho com sua cor vermelha de sabor delicioso.

A praça estava lotada de pessoas desde as mais simples até algumas vestidas com roupas elegantes, alegres parecendo estar felizes apenas por estarem ali. Todas passeando vagarosamente saboreando os aromas e perfumes espalhados pelo ar.  

Crianças brincavam no parquinho correndo para poder usar todos os brinquedos ao mesmo tempo. Os pais fiscalizavam para que as coisas corressem na mais completa paz e a algazarra não virasse bagunça.

Para colaborar com este paraíso na terra, o dia estava lindo, nenhuma nuvem no mata-borrão do céu. Uma brisa corria pelos canteiros aliviando as pessoas e deixando a temperatura agradável.

Gilberto percebeu que, como não podia deixar de ser, lá estava o vendedor de cachorro-quente com filas de pessoas para comprar e saborear um dos sanduíches mais populares do país. Logo ao lado a barraca do pastel lotada de gente, cada um escolhendo o pastel do seu gosto, palmito, carne, calabresa etc.

Gilberto resolveu andar mais um pouco e viu um outro lado da praça, muitas pessoas adestrando e ensinando seus cães a conviverem com os outros amigos caninos, dentro de um canil que havia no local. O au au da cachorrada era ensurdecedor.

A mistura de ruídos das crianças, passarinhos e dos cachorros deixava a praça cheia de vida. As cores das flores, das roupas coloridas das pessoas e dos passarinhos, coloriam a praça com muito encantamento.

Gilberto viu que havia lâmpadas coloridas na praça toda, que permitiam passeios noturnos. Ele parou para sentir os perfumes que vinham de todos os lados e os sabores de todas comidas do local se misturavam e competiam entre si.

A tarde caia e dava a praça um ar ainda mais bonito recebendo os últimos raios do sol.

Gilberto resolveu ir embora, mas com a certeza que voltaria naquela praça muitas outras vezes.

A Praça - Adelaide Dittmers

 




A Praça

Adelaide Dittmers

 

A praça deitava-se languidamente sob um sol morno de primavera.  Flores de todas as cores salpicavam o extenso e macio gramado.  Árvores espalhavam-se pelo belo jardim, oferecendo as sombras generosas àqueles que as quisessem desfrutar.

Bancos distribuíam-se pelos os largos caminhos, que a cortavam, onde pessoas sentavam-se para admirar o lugar ou para ficar imersas em suas leituras. No centro do gramado, crianças corriam para lá e para cá, respirando liberdade e prazer, como só os pequenos sabem usufruir de maneira plena e sem freios.  Algumas delas desciam velozmente pelos escorregadores ou balançavam-se tão alto, como que almejando chegar ao céu.  Subiam e desciam no trepa-trepa e seus gritos de alegria ecoavam por todo o canto.

Sob uma frondosa árvore, uma família estendeu uma toalha, em que colocou várias iguarias e acomodou-se para apreciar a paisagem, gozando de um saboroso pic-nic.  Conversavam e riam animados, com certeza esquecendo os problemas do quotidiano.

Mais adiante, um homem de cabelos longos e desgrenhados, vestido com roupas rotas e sujas, dormia ao lado de uma garrafa vazia.   O que será que o levou àquele estado?

Cães passeavam com seus donos, felizes pelo passeio, rosnando e latindo para outros, que por eles passavam ou aproximando-se para cheirá-los, abanando o rabo numa tentativa de reconhecimento.

Bicicletas, patins e skates deslizavam, atravessando a praça de ponta a ponta;

Dois senhores de idade avançada andavam devagar, apoiados em suas bengalas, lançando olhares nostálgicos à vida que se derramava pelo jardim e que aos poucos lhes fugia.

Um casal de papagaios passou ruidosamente pelos ares, chamando a atenção dos freqüentadores, que apontavam para eles, mostrando às crianças aquelas aves tão simpáticas e barulhentas.

No alto de uma árvore, um bem-te-vi entoou seu belo canto, enquanto bem abaixo, um beija-flor sugava o pólen de uma flor.

As horas foram passando e a tarde vestiu-se com os tons alaranjados, rosas e lilases do pôr-do-sol.  O deslumbramento pelo espetáculo, que anuncia o fim do dia, tomou conta do coração de todos, fazendo-os se sentir parte daquele momento mágico, que a natureza proporciona.

Aos poucos, o lugar foi ficando vazio e solitário e quando a noite chegou de mansinho com sua roupagem estrelada e prateada pelo luar, a praça adormeceu placidamente embalada pelo silêncio.

A praça - Ana Catarina S. Maués



A praça

Ana Catarina S. Maués

 

Existe uma praça que parece uma reserva florestal, mais pela aparência do que pelo tamanho. Em cem metros quadrados, no formato de um coração, ela pulsa como tal quando abriga, num amor celestial, animais e plantas em harmonia e perfeição. Pássaros de todos os tamanhos e com diferentes cantos, podem ser vistos e ouvidos como orquestra afinada e brincando em revogadas, tiram arrepios de quem os vê, em rasantes, por entre os troncos das frondosas Nogueiras. Borboletas exibem suas divertidas roupagens e de flor em flor, no centro da praça, em festival de cheiro e cor, disputam o néctar oferecido também às abelhas, que em voos rápidos e ligeiros, evitam chocar-se umas com os outras promovendo assim, verdadeira dança de arrancar aplausos de alguém observa.

       Na relva, bem cuidada, esquilos movimentam-se de um canto ao outro a procura de nozes, parando de tempo em tempo a saboreá-las com olhinhos atentos a outro que queira furtar.

        Bancos de pedra compõem a paisagem, sem esquecer os casais apaixonados que a exalar amor, em beijos molhados, enchem de ternura todo o lugar.


Tudo vale a pena quando a alma não é pequena - Hirtis Lazarin

 




Tudo vale a pena quando a alma não é pequena

Hirtis Lazarin

 

Ela olhou-se no espelho antes de deixar o quarto pequeno e bem organizado.

Cabelos volumosos e ondulados, revoltos em flocos acinzentados, um batom rosa claro cintilava nos lábios não tão carnudos quanto outrora e um colar de pérolas miudinhas que nunca desgrudou do seu pescoço.  Ajeitou a gola do vestido azul marinho, decote em X, deixando à mostra o contorno do busto avantajado.

Deu meia volta, aprovou a imagem refletida e completou o ritual com um perfume delicado, escolhido entre os muitos que enfeitavam o criado mudo.

Desceu as escadas com cautela para não se perder no salto.  Era teimosa e infringia as normas da casa.

A sala de estar era espaçosa e confortável para atender pessoas exigentes.  As poltronas espalhadas eram macias e o tecido brilhoso indicava que foram compradas recentemente. Um arranjo de flores frescas coloria uma mesinha de canto entalhada em madeira nobre.  Um burburinho de vozes, às vezes, um mais acalorado atrapalhava o bate-papo de alguém que contava retalhos da vida.

Dona Dora, a loirinha dos olhos azuis, tricotava ao lado de Jurema.  Jurema folheava rapidamente uma revista e não conseguia ler.  Já perdera os óculos incontáveis vezes e tinha medo de contar à filha.  Seu Geraldo era o mais velho da casa e não tinha travas na língua.  Outros cochilavam...

Laurita chegou despercebida e sentou-se ao piano. Os primeiros acordes foram capazes, não só de atrair a atenção do pequeno público como também de ouvir gritinhos acanhados solicitando melodias.

Depois de atender a vários pedidos, levantou-se, fez um gesto de agradecimento e recostou-se numa poltrona afastada das demais.

Laurita era uma senhora de fino trato.  Construía as frases com correção e pronunciava com destaque os “R” e “S” das palavras. Foi atriz de teatro e conquistou todas as glórias que a carreira pode oferecer. Sempre rejeitou trabalhos na T.V., pois nada era mais gratificante que o contato direto com o público. O aplauso é a energia que fortalece o artista.

Foi feliz no casamento enquanto durou...  Acreditou que, juntos, tivessem descoberto a chave mágica do companheirismo, do respeito e da tolerância. Com muito trabalho e dedicação, o casal conquistou um patrimônio que lhe permitia desfrutar os prazeres da vida e garantia uma velhice saudável.

O trabalho de Laurita passou a exigir apresentações fora da capital e as viagens tornaram-se rotineiras.  E, não raras vezes, Arturo, envolvido em negócios da empresa, mão pode acompanhá-la.  E, foi assim, que as oportunidades de traição começaram.  Começou sem querer e se tornou rotineira.

Envolvida em muitos ensaios e eventos, ela se descuidou das finanças, pois a confiança absoluta que sempre depositou no esposo garantia-lhe tranquilidade.

Tudo desmoronou quando o gerente do banco a convocou para uma reunião secreta. Saldo vermelho na conta corrente, a casa hipotecada e uma solicitação de empréstimo.

Não havia outra saída para ela senão a separação, acreditar nos seus quarenta e três anos e canalizar a dor no trabalho com paixão.

Quantas vezes, o cansaço emocional, o desânimo e o desespero chegavam... Mas, a força da alma feminina ia derrubando os obstáculos.

Hoje, Laurita tem setenta e oito anos e vive numa Casa de Repouso.  Está feliz e usa sua arte para fazer o que mais gosta:  preencher seu tempo e daqueles que se tornaram sua família.

 

quarta-feira, 2 de março de 2022

O REI DA TAPIOCA - Henrique Schnaider




O REI DA TAPIOCA

Henrique Schnaider 


Juarez nasceu dentro de um lar pobre e totalmente desestruturado. A mãe Rita era carinhosa, dava atenção em tempo integral ao filho, enchendo-o de mimos e carinhos. Dizia “ por pior que seja a situação na vida, sempre mantenha o bom humor e a alegria de viver”.

O pai Antunes, bêbado inveterado, não parava em emprego nenhum. Vivia no boteco do Cabeção, pendurando a conta que só crescia. Lá pelas tantas, cambaleando chegava em casa, e do nada arrumava motivos para agredir a família.  

O que mais irritava a Antunes é que apesar de ele infernizar a mulher e o filho, os dois continuavam a sorrir não perdendo o bom humor. Isso acabava por desconcertar ao pai que tratava de ir dormir.

Juarez às vezes ficava triste devido à miséria e à vida infeliz que levavam., ele e os pais. Mas, logo lembrava dos conselhos da mãe, um bálsamo na vida do pobre menino. Devido à vida de humilhação, o objetivo dele era de um dia ser rico. Este sentimento agora crescia, um bolo bem-feito com a ajuda do fermento.

A família, para não passar fome, vivia de doações. Rita aceitava de bom grado tudo que recebia. As roupas e sapatos que Juarez usava, eram números bem acima do dele. Quando ia para a escola muito malvestido, os colegas não o perdoavam e caçoavam dele, inclusive lhe apelidaram de Patatí (palhaço famoso pelo sapato enorme que usava).

Apesar das tantas agruras, Juarez vivia demonstrando seu bom astral.  Aos 15 anos começou a trabalhar, além de estudar. Ajudava em casa, e conseguia juntar uns caraminguás, para poder comprar roupas e sapatos usados, mas que eram seu número. Assim, a aparência melhorou.

Trabalhou no mesmo emprego dos 15 aos 18 anos, sempre ajudando em casa, onde as coisas iam de mal a pior. O pai de tanto beber, acabou morrendo de cirrose hepática. Juarez, agora mais do que nunca, além de manter e ajudar a mãe, poupava um pouco de dinheiro para realizar o sonho de fabricar e vender tapiocas.  “Vou ficar muito rico com esse negócio! ”.

Finalmente, com um bom dinheiro guardado, largou o emprego e começou em casa, com a ajuda da mãe, a fazer e vender tapioca. Era um empreendimento modesto ainda, mas Juarez estruturou muito bem sua carteira de clientes.

Dessa forma o negócio progrediu, e se ampliou a tal ponto que Juarez ficou conhecido como o rei da tapioca. Chegou a ter 50 empregados. 

Acabou conhecendo o luxo e a riqueza, mas sempre mantendo o lema de sua mãe já falecida, do bom astral, alegria e sempre com um sorriso no rosto. Casou-se e a felicidade se completou com a chegada dos 3 filhos, mas parece que os bons tempos não duraram para sempre.

Juarez acabou metendo os pés pelas mãos em maus negócios nos quais foi sempre aconselhado por um vigarista que lhe deu um golpe enorme e Juarez perdeu tudo. Voltando à miséria, ele e a família. Apesar do desastre financeiro, o agora empresário falido, não esqueceu o lema de sua mãe e não perdeu o sorriso e a esperança de superar as dificuldades.

Dessa forma aquele menino que tanto sofreu na infância, mas que aprendeu, que sempre haveria uma forma de conseguir ultrapassar, tudo de ruim que a vida lhe proporcionasse. Agora já um homem na casa dos 50 anos de idade, outra vez na miséria e sentado numa cadeira de balanço, na varanda da casa onde estavam morando de favor, fechou os olhos, lembrou da querida mãe, já tão distante em outro mundo, e de suas sábias palavras de incentivo. Sorriu com a certeza de que bons tempos viriam de novo.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Tudo passa, só o amor não passa - Ana Catarina S. Maués

 


Tudo passa, só o amor não passa

Ana Catarina S. Maués

 

   É como viver um “Déjà Vu”, pois retornei à casa que me coube de herança da família. Estou sentado na mesma cadeira desgastada, olhando pelo janelão o jardim sem cuidado e também a calçada, mais adiante, com a antiga falha precisando reparo e assim sendo, não tem como evitar as lembranças. Era assim que eu vivia há cerca de dez anos atrás, antes dos anos de riqueza e fartura que experimentei ao lado de minha amada. Porém, hoje me pego repetindo a mesma rotina, acordando cedo, tomando os panfletos e saindo nas avenidas distribuindo-os. Como nos tempos de outrora, uns dias o dinheiro dá para os gastos com a comida, em outros o pão mofado serve de alimento, mas nem por isso me deixo abater. Vejo o que ainda possuo e tiro energias saudáveis e positivas de tudo isso. Que bom ter um lugar que me abriga da chuva e do sol, que bom ter móveis, mesmo que velhos e, principalmente, meu antigo rádio, em cima da cômoda, a me proporcionar viagens incríveis nas melodias que dele vibram. O otimismo é grande companheiro, sei que esta situação não durará para sempre. Apesar de eu já contar 80 anos, não me deixo entristecer. Assim como no passado, dos meus 70 aos 80, conquistei fama, dinheiro e poder, isso tudo se repetirá e eu novamente terei fartura e dias dourados.

     Hoje a memória está aguçada. Os sentidos não fazem eu chegar às lágrimas por que sou duro de roer. Lembranças são sempre bem-vindas, carregadas de tristezas, jamais. Neste torpor, deixo-me conduzir ao dia que a conheci, mulher que mudaria tudo em minha vida.

      Minha rotina é cansativa. Acordar cedo e até quando o sol está a pino ficar nas esquinas distribuindo panfletos, é bem difícil. Camarão é o que pretendo vender. Não sou dono nem sócio de nada, faço um bico que ofereceram para eu não passar fome. Mas nem por isso sou triste e acabrunhado. Sou uma festa viva, meu dia a dia a Deus pertence, minha única preocupação é passar mais e mais folhetos, porém se não conseguir, não altero meu humor. Não brigo com a vida, levo ela assim com entusiasmo do alto das minhas setenta primaveras. E assim eu ia, até que um dia aconteceu algo inusitado.

       Estava eu, como de costume, esperando o semáforo fechar para os veículos, quando um BMW parou e, lentamente, o vidro da janela desceu e, aquele olhar dela tomou conta de mim, de pronto me envolveu, sei que o brilho do meu, também não passou despercebido, pois ela pegou da minha mão o papel amassado, meio cerimoniosa, e sem palavra alguma deu a partida no carro, me deixando entre nuvens de coraçõezinhos.

     No outro dia eu lá estava, rezando para que ela aparecesse e novamente nossos olhares se encontrassem. Precisamente, às onze horas e quarenta minutos ela encostou o carro e esperou que eu me achegasse. Pediu uma grande encomenda dizendo que fazia questão que eu fosse entregar. Passou-me o endereço, já anotado num papel, se foi. Meu coração batia acelerado e eu constatei que ainda podia me apaixonar.

     Dizem que um anjo chamado Cupido, flecha os corações deixando-os enamorados, porém no nosso caso foram os camarões. De encomenda em encomenda nossas conversas se estreitaram. Ela sozinha, rica, bem-sucedida, morava bem, vivia bem, só precisava de um companheiro, um amor, conversas, sorrisos, um baile e outro pra dançar, beijar e outras coisinhas mais, e disso eu entendia muito. Tiramos a sorte grande, ela suprindo suas carências interiores e eu me refastelando no dinheiro que não mais faltava. Meu jeito simples, aventureiro, que fugia ao padrão empaletozado do dia a dia dela, nos aproximou. Em dois meses eu já estava instalado entre lençóis alvos e travesseiros com cheiro de alfazema.

     Ela era fiscal de tributos, tinha renda privilegiada, trabalhava no interior, mas residia na capital. Nossos finais de semana e feriados eram viajando. Tomávamos o avião e embarcávamos para passeios rápidos em ilhas, resorts, clube de pesca, carnaval fora de época e tantos passeios quantos nossos sonhos pudessem ser realizados. Foi numa dessas viagens que eu conheci os Cassinos. Uau! Percebi que combinavam comigo. Sentia a sorte entre os dedos quando os dados os tocavam. Enriqueci. Numa única noite consegui o que trabalhando a vida toda distribuindo panfletos jamais conseguiria. Não precisava mais do dinheiro dela para as viagens ou roupas caras ou joias e relógios com que me presenteava. Eu estava com ela de coração limpo, a amava verdadeiramente.

     O tempo passava e eu cada vez gastava mais e mais. Cheguei a ser famoso Chamavam-me de o Rei dos dados. Pude sentir o poder bater à porta e eu deixei entrar. Usufrui de tudo o que o dinheiro vindo do jogo ofereceu, mas sempre com ela. Virei um “bon-vivant”. Eu e minha amada estamos cada vez mais apaixonados.

      Um dia a sorte virou. Eu não acreditava que pudesse acontecer, mas comprovei na pele.  Perdi a fortuna que consegui com um ano de sorte, foi uma jogada azarada. Combinamos, eu e ela, que aquela seria a noite final, nunca mais entraríamos num cassino.

      Voltei a viver do conforto que ela oferecia. Nos entendíamos bem, o amor entre nós era perceptível, bastava que alguém passasse algumas horas conosco. Ela falava doce quando precisava puxar minha orelha, eu bastava olhar para ela fixo, que já entendia não ter gostado disso ou daquilo. Nossa vida caminhava perfeita.

     Um dia ela se queixou de uma dor no abdômen. Tínhamos uma viagem marcada para Caruaru para curtirmos uma festa junina dentro de um trem. Mas eu fiquei logo preocupado e fiz com que ela faltasse ao trabalho nesta semana e fizesse os exames. Foi diagnosticado pedra na vesícula.

     Ela teve que ficar internada e logo marcaram a cirurgia. Nossas preocupações eram diferentes. Ela com a perda da viagem, e eu com o pós-operatório dela.

        Essa é a hora, nas minhas lembranças, que não consigo conter as lágrimas. Quando lembro que ela não saiu com vida da cirurgia.

        Não preciso dizer que nossa história de amor interrompida estupidamente, trouxe consequências. Hoje eu voltei a distribuir panfletos, mas isso eu tiro de letra, porém viver sem a alegria dela, aquela luz que iluminava meus dias, isso é o mais difícil, que tento a cada segundo superar.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

O segredo - Adelaide Dittmers

 


O segredo

Adelaide Dittmers

 

Rogério atendeu ao telefone no escritório.  A expressão de seu rosto tornou-se dura e contrariada.  De forma gélida e ríspida, disse à pessoa do outro lado, que não podia conversar naquele momento.  Mentiu que estava em reunião. Uma voz estridente soou no seu ouvido.  Com raiva, desligou o telefone.

Colocou as mãos sobre o rosto.  Isso não podia continuar.  A pressão que estava sofrendo estava ficando cada vez mais insuportável, mas como poderia resolver a situação sem revelar o segredo que guardava há anos e que, se tornado público, iria desestabilizar sua vida e colocar em risco a fama de homem honesto e de caráter ilibado.  Tinha que achar uma solução para que não viesse à tona.

Tentou ler os papéis, que cobriam a escrivaninha, mas não conseguiu se concentrar.  Levantou-se, pegou o paletó e saiu da sala, avisando a secretária, que tinha um compromisso particular.

Chegou à casa com um semblante carregado.  Luísa, sua mulher, olhou-o surpresa.  Ele nunca chegava tão cedo.

— O que você tem?  Aconteceu alguma coisa?

— Estou com uma baita dor de cabeça.  Vou tomar um comprimido e me deitar um pouco.

Preocupada, ela argumentou:

— Você nunca tem dor de cabeça.  Será que não é melhor ligar para o Dr. Osvaldo?

— Imagina!  Tive insônia à noite.  Estou com um problema difícil de resolver no trabalho.  Acho que é estresse.

O olhar penetrante e interrogativo de Luísa acompanhou-o enquanto ele subia as escadas. Ultimamente andava estranho e nervoso.  Irritava-se por qualquer coisa.  A justificativa do problema no trabalho não a convenceu.  Sempre foi um homem seguro e hábil em resolver questões desafiadoras.

Sentou-se na poltrona da sala de estar e pegou um livro e antes de abri-lo olhou em volta.  O ambiente tinha mobília leve e clara.  Tapete, objetos e quadros em perfeita harmonia.  A casa era um retrato dela.  A vida devia ser assim, com tudo no seu devido lugar.  Colocou o livro no colo e começou a divagar.  Tinha uma vida boa, fez várias viagens pelo mundo, partilhava momentos felizes com muitos amigos, nada lhe faltava: roupas caras, joias e tudo o que o dinheiro pode comprar.  O único empecilho para sua paz, no entanto, era o segredo, que guardava há tanto tempo, que amargava seu caminhar e que não podia contar a ninguém para sua vida não desabar como um prédio velho e mal construído.

Nesse momento, Diana entrou na sala, como um furacão, mochila nas costas, as chaves do carro na mão.  Bonita e, cheia de energia, estava sempre correndo, como se a vida fosse lhe fugir.  Estava no último ano da faculdade de jornalismo.  Inteligente, curiosa e ativa iria se dar bem na profissão escolhida, pensou a mãe sorrindo para ela.

— Oi mãe! Tudo bem?  Tive que fazer uma entrevista com um político do alto escalão.  Foi demais! Acho que me saí bem.  Despejou ela, quase sem respirar, sobre a mãe.

— Parabéns, filha!

— Estou fazendo tudo para ser contratada depois do estágio.  Imagina, mãe, eu trabalhar nesse jornal tão importante no país.

Beijou a mãe e continuou:

— Vou subir para tomar um banho! Já volto para contar tudo para você.

A jovem e a mochila foram pela escada acima.  Luísa seguiu com um olhar carinhoso.  Que ela nunca descobrisse o segredo.  Então a mãe gritou:

— Não faça barulho, seu pai voltou do trabalho com dor de cabeça!

Diana parou pensativa em um dos degraus, e depois continuou a subir mais devagar.  No quarto, jogou a mochila na cama.  Despiu as roupas, que foram jogadas em uma cadeira e foi para o chuveiro.  A água tépida caiu como uma bênção no seu corpo. Foi um dia exaustivo e desafiador. Estava feliz com a profissão que escolhera.  Sempre colhia elogios dos professores. A única pedra em seu caminho era o segredo, que descobrira há pouco tempo, deixando-a arrasada.  Às vezes, tinha vontade de atirá-lo aos quatro ventos, mas a coragem lhe faltava.

Mais tarde o jantar foi servido.  O silêncio reinava na sala. Somente o ruído dos talheres era ouvido.   Diana, quis quebrar o gelo, perguntando ao pai como se sentia.

— Estou melhor! - E sem levantar a cabeça, continuou a comer.

Ela, então, começou a contar como a entrevista transcorreu, mas percebeu que Rogério estava longe. Apenas balançava a cabeça para disfarçar que não estava ouvindo. Diana parou de falar e mãe e filha trocaram olhares preocupados.  Terminado o jantar, Rogério levantou-se e deu boa noite para as duas mulheres.

— O que está acontecendo com ele?

— Não sei.  Disse que era um problema de trabalho.

No dia seguinte, Rogério saiu muito cedo e recusou o café da manhã, no entanto só chegou ao escritório às onze horas.  Entrou apressado, fisionomia fechada.  Um “bom-dia” seco foi jogado à secretária, que notou a palidez no rosto do chefe.  Chamou-a e disse que não queria ser incomodado.

Tirou o paletó, sentou-se e afrouxou o nó da gravata.  Sentia-se sufocado.  O que aconteceria se fosse revelado o que guardara por tanto tempo.  Era refém daquele maldito segredo.

De repente, uma dor aguda apertou o seu peito, o suor escorreu pelas têmporas, tentou aspirar o ar, que lhe fugia.  Com dificuldade chamou a secretária, que se assustou ao ver o estado do chefe.  Com rapidez, ligou para o departamento médico e logo Rogério foi atendido, mas apesar dos esforços do médico, não resistiu.

O velório estava cheio.  Muito estimado, ninguém se conformava com a morte súbita dele.  Luísa e Diana muito abatidas aproximaram-se do caixão.  Abraçadas, consolavam-se mutuamente.  A mãe olhou para o marido, que foi o amor de sua vida.  Quanto sofrimento ela aguentou firme.  A filha pensou que agora o segredo nunca seria revelado.

Nesse momento, uma mulher desconhecida e dois jovens adolescentes entraram e chegaram perto do morto.  Luísa e Diana fixaram o olhar nela.  A mulher sustentou o olhar de mãe e da filha, com os olhos cheios de ódio e depositou uma rosa no peito do morto.  Os jovens tentavam esconder as lágrimas que teimavam em deslizar pelos seus rostos.

Luísa e Diana entreolharam-se, e Diana puxou a mãe para fora da sala.  No jardim, que cercava aquele lugar lúgubre, novamente uma olhou para a outra com compaixão e perceberam que ambas sabiam de tudo e intimamente se perguntaram se aquele segredo iria morrer com Rogério ou seria revelado.

 

O SEGREDO DE REBECA - Henrique Schnaider

 



O SEGREDO DE REBECA

Henrique Schnaider

Rebeca era uma pessoa de gênio bom, cordata e desde menina, a santinha aos olhos da família. Ia muito bem em tudo e desde os primeiros estudos, já se destacava das outras meninas. Era sempre a primeira da classe, exemplo para as coleguinhas. Dessa forma sempre recebia prêmios como melhor aluna da classe.

Sempre se destacando, chegou à Faculdade fez vestibular e entrou com um pé nas costas em primeiro lugar no curso de Psicologia. Durante os estudos conheceu Aníbal, colega de classe, inteligente e culto, se destacando assim como ela dos demais colegas.

Rebeca se interessou pelo rapaz, pois além de bom aluno era um homem atraente. A recíproca foi verdadeira já que Aníbal viu em Rebeca a mulher dos seus sonhos. Começaram a sair e os encontros se tornaram frequentes.

O amor desabrochou na vida dos dois. Na paixão e na admiração pelas pessoas que eram. Depois do namoro veio o noivado que logo aconteceu com o apoio da família de ambos. A vida dos dois exalava felicidade, amor e encanto.

Na formatura de ambos, Rebeca foi escolhida para a Paraninfa da turma com o apoio entusiasmado de Aníbal. Se casaram logo depois numa festa de arromba inesquecível. Queriam os dois que aquele momento não terminasse nunca.

Depois de dois anos de convivência feliz, nasceu Dora, fruto do amor, uma linda menina.

Tudo ia na mais completa felicidade e harmonia. Dora cresceu num lar perfeito e já estava com doze anos quando os fatos trágicos se sucederam. Sempre tem um “mas”.

Tinham como vizinhos Armando e Nilda, casal sem filhos. Com o tempo a amizade foi crescendo e se tornaram muito próximos. Rebeca começa a sentir uma atração crescente por Armando. Ele por sua vez demonstrou o mesmo interesse por ela e assim começaram os encontros furtivos.

Certo dia Rebeca e Armando estavam na casa dele se beijando loucamente certos de Nilda não estivesse em casa, quando de repente ela entra na sala e pega os dois numa situação inexplicável. O clima se tornou pesado e começou uma discussão violenta entre Armando e Nilda. Em seguida Armando agrediu violentamente a esposa que caiu batendo a cabeça na quina da escada, causando um traumatismo craneano.

Armando e Rebeca ficaram ali se olhando por um tempo sem saber o que fazer. O rapaz despertou daquele choque, pois não teve intenção de matar a esposa. Imediatamente colocou a mulher no carro e partiu em desabalada carreira rumo ao Hospital.

Para infortúnio do Armando, Nilda já chegou morta sem chances de ser socorrida. O marido declarou que a mulher quando se dirigia à escada, tropeçou e bateu com a cabeça na quina.

O álibi foi perfeito e a polícia encerrou o caso sem maiores problemas, acreditando na versão de Armando que disse que Rebeca tinha vindo visitar Nilda e viu quando a tragédia aconteceu. Ele não teve mais coragem de olhar e conversar sequer com Rebeca. Armando tratou de mudar-se dali para bem longe e nunca mais se viram.

Rebeca nunca mais teve paz na vida e possuía um sentimento múltiplo arrasando com ela, um misto de arrependimento pela traição ao marido. Por ser testemunha participante de um crime culposo que nunca mais deixaria seus pensamentos e a torturava o tempo todo. Também pelo fato de ter se omitido de revelar a verdade ao Delegado.

O marido Aníbal e a filha Dora desconfiavam que Rebeca guardava um segredo sobre os acontecimentos trágicos na casa vizinha e por mais que a pressionassem, não conseguiam arrancar dela uma única palavra,  e pensava ela:

“Como poderei contar o verdadeiro acontecido? Traição, omissão, incapacidade de superar tudo pelo que passou.”

Rebeca estava desesperada ao ponto de pensar em suicídio ou revelar toda a verdade. Até que um dia, já à beira da loucura, pediu ao marido e a filha que fossem junto com ela à delegacia pois queria prestar um testemunho sobre a verdade de tudo o que havia acontecido naquele fatídico dia.

Será que a polícia iria atrás de Armando por não ter contado a verdade no seu depoimento? Aníbal e Dora depois de tomarem conhecimento de toda a verdade, vão perdoar Rebeca e a vida poderá voltar como era antes? Aguardem os próximos capítulos. 

 

O Padre Gigio - Alberto Landi

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