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quinta-feira, 29 de julho de 2021

O GRANDE TWIST - Helio Salema

 


O GRANDE TWIST

Helio Salema

 

Na fazenda em que meu tio trabalhava havia muitos animais. Nós crianças gostávamos do bode DODÔ, porque ele puxava a carrocinha com três crianças de cada vez. Era uma farra. Dar milhos para as galinhas e colher ovos era uma maravilha. Tão bom quanto tomar banho no ribeirão. Escalar os pés de frutas era competição para quem subisse mais alto e colhesse mais.

O único lugar que não podíamos nem chegar perto era cercado do touro twist.

 O velho Manuel que vivia ali há muitos anos, disse que a filha do dono, deu este nome porque quando pequenininho ele não parava. Pulava pra todos os lados. Parecia que estava dançando.

Ele contava e ria ao mesmo tempo. Dizia que nunca viu ninguém dançar assim.

A baia tinha duas cercas de arame farpado com mourões grossos e muito resistentes. Ficava abaixo da estrada quase um buraco. Mesmo os adultos evitavam chegar perto da cerca, pois isso deixaria o touro enfezado.

Um dia uma criança muito curiosa aproximou-se da cerca, quando viu o touro agitado saiu correndo e chorando igual bezerro desmamado.

O dono da fazenda tinha muito orgulho do Twist, que sempre ganhava troféus. Ele dizia que o touro valia muito dinheiro. Eu não entendia o porquê. Para mim ele é majestoso e imponente. Bonito de ser admirado de longe.

Um dia quando eu chegava do colégio, encontrei lá em casa meu tio. Queria saber se no próximo feriado eu iria passar na fazenda.

Fiquei contente com a possibilidade, mas quando ele disse que o touro tinha morrido, fiquei triste e nunca mais quis voltar à fazenda.

 

O MEDO - Alberto Landi

 


O MEDO

Alberto Landi

 

O medo cresce toma conta de mim, corro, corro o mais que posso, desesperado.

Preciso escapar dessa noite de trevas e terror que envolve todo meu ser, todo meu corpo; preciso alcançar a luz, o dia, fugir das estrelas e da noite enluarada que brilham nessa vasta escuridão desse céu infinito!

As árvores dessa floresta de breu parecem monstros, que me engolem como fantasmas e eu corro ainda mais e quanto mais corro mais perto eu fico dos meus medos.

No caminho passo pelas margens altas e abruptas de um rio. À esquerda desde a estrada até a linha do céu um amontoado de nuvens, estendem-se campos não ceifados.

São raramente interrompidos por florestas que predominam carvalhos e olmos. As florestas em barrancos profundos, vão até o rio e com descidas íngremes e abruptas atravessam a estrada.

O vento bate no meu rosto rasgando minha pele com um furor tão intenso, zumbindo nos meus ouvidos como o uivo de lobos famintos.

Meu corpo treme sem controle com pavor dos monstros e fantasmas nas matas que se formam ao meu redor, correndo na mesma direção!

Acordo suado, cansado como vindo de uma maratona; mas meus pés debaixo dos lençóis, estão feridos cheios de galhos e folhas secas, enroscados como samambaias famintas sugando o caule de uma árvore.

Ufa! Esse foi um sonho de uma noite de outono que não gostaria que acontecesse novamente!

 

O sonho de uma árvore - Ana Catarina Sant’Anna Maués

 


O sonho de uma árvore

Ana Catarina Sant’Anna Maués

 

   Meu tronco largo indica os anos que tenho, posso adiantar que já passam de cem. Estou firme, plantada no meio de uma estreita praça e tenho orgulho da minha solidão, pois posso aproveitar, do alto dos meus quase cinco metros, o sol a aquecer minhas folhagens, e em  noite de lua, receber o presente de sua doce luminosidade acarinhar-me.

   Dou abrigo a vários tipos de ninhadas, pois recebo a visita de enamorados Trinca-ferro, Corrupião, Canário e outras tantas espécies, e como retribuição recebo belas melodias. Acolho com satisfação, a encantar meus galhos orquídeas em suas mais belas floradas. E assim passo o tempo, porém quando vejo as crianças a brincar próximas a mim, fico triste com minha impossibilidade de com elas correr sem limite.

   Apesar de não ser frutífera, tenho consciência de minha importância para homens e mulheres que desfrutam de minha sombra, mas a facilidade que têm de deslocar-se de um lado ao outro chega a incomodar-me, uma pitada de inveja surge. Liberdade é o nome. Não chego a chorar ou desesperar, mas minha vontade de vez por outra trocar de lugar, ver outras paisagens faz apertar o coração. Todavia de uma coisa não me permito privar-me, posso sonhar, e quando sonho sou livre e consigo fazer o que quiser, até mesmo fazer de um galho meu, o esboço de um menino e senti-lo desprender-se de mim, indo correr e brincar como se ser humano fosse.

terça-feira, 20 de julho de 2021

SONHOS DORMINDO, SONHOS... SONHANDO - Leon Alfonsin Vagliengo

 



SONHOS DORMINDO, SONHOS... SONHANDO

Leon Alfonsin Vagliengo


Sonhos dormindo são ventos de ilusão

qu’invadem o sono num momento,

provocando prazer ou inquietação

sem nunca requerer consentimento.

 

Por vezes são brisas gostosas

embalando um sono feliz,

ou ventanias chuvosas

portando alertas hostis.

 

Em minutos nos revelam

os pavores da vivência  

que, furtivos, ameaçam

nossa paz, sem indulgência.

 

Ou compensam, outras vezes

desilusões que passamos,

perante tantos reveses

pelos quais nos inculpamos.

 

Quando sonho sonhos dormindo,

de muitos nem fico lembrado;

de outros acordo sorrindo,

despertam-me alguns, assustado.

 

Um dia eu estava sonhando,

e o sonho não ia embora.

Tanto estava me agradando,

que acabei perdendo a hora.

 

Sonhar um sonho acordado é bem diferente,

é devaneio de júbilo, de empolgação.

Uma esperança plantada na mente da gente

na busca de felicidade e realização.

 

Sobre os mistérios do sonho

há tanta filosofia!

a conclusão eu proponho:

bom, mesmo, é o da padaria.

 

Métrica - vídeo da Brasil Escola



MÉTRICA 
FORMA D EMEDIR OS VERSOS DA POESIA

Tipos de Estrofes - vídeo do Brasil Escola


TIPOS DE ESTROFES NA POESIA

Tipos de Rimas - vídeo do Brasil Escola

TIPOS DE RIMAS


terça-feira, 13 de julho de 2021

A MALDIÇÃO DO BISPO - Alberto Landi

 



A MALDIÇÃO DO BISPO

Alberto Landi

 

O cenário é a Idade Média, um tempo de pessoas humildes e muita pobreza fora dos arredores do castelo, uma época em que o poder girava em torno da coroa e da igreja, e que o povo nunca se atrevia a questionar suas vontades.

O pequeno lugar é um vilarejo medieval da Escócia, famoso por sua prisão de segurança máxima, com um programa disciplinar rígido; trabalhos forçados, rotina cheia de restrições. Muito avançado para esse tempo, se tornou famosa na Escócia.

Os dias de outono dourado continuavam claros, a terra endurecida pela geada matinal repleta de pequenas folhas secas, do salgueiro como se tivessem sido cortadas e enroladas em tubinhos, emanando aquele odor amargo e marrom de folhagem de muitas espécies que se espalhavam farfalhantes como peças num tabuleiro de jogo de damas.

Batidas de machados e o repique dos sinos do campanário vindos da floresta eram escutados ao longe.

A história é de um casal jovem que se apaixona, mas   são impedidos de viver o amor em sua plenitude, graças à maldição lançada pelo bispo que habitava no castelo.

O bispo de aparência severa, má e lúgubre olhar enviesado, simulado e nada eclesiástico, por ciúmes e inveja, o maquiavélico jogou uma maldição no apaixonado casal.

Miriam transforma-se num falcão durante o dia, enquanto o cavaleiro Henry se torna um lobisomem à noite, impedindo dessa maneira o contato físico e sentimental entre eles. O único momento em que se veem é durante alguns instantes no crepúsculo.

Um prisioneiro de nome George, conhecido por Mirror, se tornou famoso por ter conseguido escapar das masmorras da prisão e agora refugiado na floresta.

Ele é procurado por Henry, para ajudá-lo na vingança contra o bispo. Mirror torna-se aliado do jovem casal e por meio de suas magias e alquimias, aprendido e herdado dos monges beneditinos, consegue desfazer a maldição e reverter a cruel praga imposta pelo bispo.

Assim o casal pode viver o seu amor como outrora. A maldição foi quebrada graças à intervenção de George. Os três entraram no castelo, enfrentaram e denunciaram o bispo.

Isso demonstra que o poder eclesiástico já havia na Idade Média, e as alquimias e magias predominavam na época.

O LIVRO - Alberto Landi

 



O LIVRO

Alberto Landi

 

Resolvi organizar a pequena biblioteca que tenho em casa e acabei encontrando um livro bem interessante que li há muitos anos. Estava bem conservado como a maioria dos outros com capa dura, páginas em papel offset de alta qualidade e características que garantem cores vivas e nitidez, textura lisa e boa opacidade, proporcionando uma leitura e um manuseio bem confortável.

Comecei a reler, sentado em uma poltrona do meu pequeno jardim rodeado de flores, um ambiente externo bem prazeroso.

A história em si é bem interessante, faz-me lembrar de alguns filmes cujo cenário é uma pequena cidade turística da França, onde acontece um tiroteio, dentro de um ônibus de turismo num city-tour.

Numa das paradas, um homem sai às pressas, em fuga, após ter atirado em um dos turistas.

Um policial estava lendo um jornal em frente à parada de ônibus, e percebendo o que havia ocorrido, sacou a arma e atirou, mas infelizmente o assassino foi mais rápido e o policial foi atingido.

E a história prosseguiu numa perseguição heroica do policial que mesmo ferido conseguiu capturar o assassino!

Terminei a leitura do livro, bem tarde da noite, quando ouvi um grito de terror vindo da casa ao lado; era de minha vizinha, alertando que um homem havia entrado em sua garagem e roubado a bicicleta.

Tentei ajudar correndo atrás do ladrão que conseguiu ficar fora de meu alcance, mas eu ainda estava com o livro nas mãos.

Não consegui recuperar a bicicleta roubada e ainda  perdi meu livro que   caiu dentro de um bueiro!

O livro que havia guardado por tantos anos se foi...


quinta-feira, 8 de julho de 2021

ESPERANÇA - Claudionor Dias da Costa

 


           


 ESPERANÇA

Claudionor Dias da Costa

 

 

Andei a procura do amor sem fim

Na estrada encontrei a flor sonhada

Surpreendido fui pelo cavaleiro alado

De repente levou a donzela amada

 

Perdido nas curvas de espaço infinito

Confuso em  labirinto a caminhar

Dúvidas provocantes no túnel do tempo

Sinto desejo de um novo despertar

 

Eis que surge na vida uma onda

No balanço inquieto sem esperar

Doce mão da esperança me toca

Como águia valente querendo voar.

 

Encontro forte de luminoso olhar

Ao longe deixo a caverna da dor

Alegria da entrega no belo sorriso

Confiante parto para o novo Amor.

 

quarta-feira, 7 de julho de 2021

A escolha - Adelaide Dittmers

 


A escolha

Adelaide Dittmers

 

Silas olhava pela janela perdido em pensamentos. A chuva tamborilava na vidraça.  Sempre adorava sentir o barulho das águas, que desciam como bênçãos do céu, acalmando-o e deixando-o entorpecido.  Hoje, porém, não conseguia amenizar sua ansiedade e preocupações.  Acabara de se aposentar e sua renda não cobria as despesas rotineiras.  Dívidas estavam se acumulando.  Além disso, o casamento de mais de trinta anos desmoronava-se a cada dia.  Sua esposa adorava fazer compras e viagens, acusando-o de ser um fracassado.  A separação pioraria ainda mais sua situação.

O toque do celular assustou-o e despertou-o da absorção. Número desconhecido, e se fosse uma cobrança, mas ponderou que seria melhor saber do que se tratava.

Do outro lado da linha, uma voz masculina, de maneira muito educada o convidou para uma reunião no dia seguinte, que seria muito importante para ele.

Admirado e impulsionado por uma grande curiosidade, porque o homem sabia tudo sobre suas dificuldades, ele aceitou ir ao encontro.

Às três horas da tarde do outro dia, chegou ao lugar indicado. Uma construção de arquitetura arrojada erguia-se à sua frente. Entrou com passos lentos e indecisos, e deparou-se com um amplo saguão, onde se viam câmeras e telas com várias informações. Não havia recepcionistas, mas uma voz robotizada perguntou o seu nome e o orientou o caminho a seguir para a sala de reunião.

Espantado e confuso seguiu a indicação daquela voz.  Percorreu um corredor e ao fundo um homem de jaleco branco já o esperava.  Cumprimentaram-se secamente e entraram em uma sala, que parecia um laboratório, com balcões cobertos por frascos e paredes forradas de prateleiras repletas de livros.  O homem convidou-o a sentar-se à frente de uma escrivaninha branca, coberta por um vidro e com vários aparelhos estranhos.  Curioso, observou-o atentamente, tinha cabelos grisalhos, óculos e olhar intenso, nem a sombra de um sorriso se projetava em sua face.

Com uma voz pausada, começou a explicar-lhe o que queriam dele.  Apresentou-se como cientista chefe da organização, que era um laboratório de pesquisas avançadas e vanguardistas, onde realizavam experiências tão impactantes, que não podiam ser do conhecimento público. 

Explicou-lhe que o escolheram porque sabiam de seus problemas e que esse conhecimento fazia parte dos recursos tecnológicos de que dispunham.

Silas estava cada vez mais assustado e aturdido com tudo o que ouvia.  O que será que queriam dele?

O homem de jaleco branco chamou, então, por um comunicador uma pessoa e uma bela mulher entrou na sala e o cumprimentou, sentando-se em uma cadeira próxima ao chefe.

Nesse momento, o cientista começou a explicar o motivo do convite a Silas àquela reunião.

Estavam desenvolvendo uma pesquisa ultra-secreta, em que rejuvenesceriam o físico da pessoa em cerca de trinta anos.  A memória, no entanto, permaneceria e era uma mudança irreversível.  Essa pessoa seria monitorada e era proibida de contar a alguém ao que estava se submetendo.  Forjariam a morte dela para disfarçar seu desaparecimento repentino.  O prêmio seria cem milhões de dólares, uma mansão equipada, um avião particular e carros a escolher, e seria servido por empregados particulares.  Se ele não aceitasse o que lhe estavam oferecendo, teria que manter segredo pelo resto da vida e tinha três dias para dar uma resposta.

Silas estava atordoado, não conseguia articular uma palavra.  Sua expressão era de uma completa confusão.  Seria isso um sonho ou um pesadelo?

A moça permaneceu em silêncio e no fim da explicação, sorriu-lhe simpaticamente. Pareceu-lhe que ela era mais humana que o chefe.

Silas levantou-se com dificuldade e como um autômato despediu-se dos dois com apertos de mãos.

Naquela noite, não conseguiu pregar o olho.  Levantou-se e foi até a sala.  Olhou cada detalhe, cada quadro, cada objeto.  O que faria? Ficar trinta anos mais jovem, milionário e livrar-se de seus problemas pessoais não era uma má idéia. Seu coração galopava no peito, enquanto passeava pelo cômodo.  

Na manhã seguinte telefonou ao seu único filho e marcou um almoço.  Quando o filho chegou ao restaurante, foi surpreendido por um forte e afetuoso abraço do pai. Era um bonito rapaz de trinta anos, de olhar meigo e tranqüilo.  Muito parecido com ele nessa idade.

-Aconteceu alguma coisa, pai?  Você está bem?

- Estou.  De repente fiquei com saudades de você.

- Nos vimos há dois dias. Você está doente?

- Não. Fique tranquilo. Coisas de um velho de sessenta anos.

- Mas ter sessenta anos não significa velhice.

Sentaram-se à mesa, conversando e rindo felizes. Eram muito amigos. O moço estava contente de ver o pai alegre. Ultimamente o via sempre muito calado e desanimado.  Estava mais envelhecido, os cabelos tinham ficado brancos, mas mesmo assim era um bonito homem.

No fim do almoço, Silas abraçou o filho calorosamente, escondendo uma lágrima, que teimosamente surgiu em seus olhos.  O jovem estranhou a emoção do pai. O que estaria acontecendo com ele?  Aquele almoço parecia uma despedida. 

Ao chegar à casa, a esposa estava zangada porque a máquina de lavar roupa tinha quebrado e começou a reclamar que não podiam consertar por falta de dinheiro.  Silas, pacientemente, lhe disse que mandaria consertar e nesse momento a decisão estava tomada. Iria aceitar ser cobaia daquela pesquisa científica.

Na manhã seguinte, pegou as chaves de casa, a carteira de dinheiro com as fotografias da família, o celular, tirou a aliança do dedo e colocou-a na carteira.  Entrou na cozinha, onde a mulher fazia o café da manhã.  Olhou longamente para a companheira de tantos anos e pensou tristemente no que sobrara daquele amor dos primeiros tempos, apenas desentendimentos, indiferença e cansaço. Lúcia era uma boa mulher, mas nos últimos anos se tornara amarga e distante.

- Não vou tomar café!

-Por que? Vai sair?

- Tenho um compromisso com um amigo. E num impulso beijou-a na testa e passou a mão pelas suas faces.

Ela estranhou o comportamento do marido. Há tempos que ele não a acarinhava.

Momentos depois estava a caminho do laboratório.  Um vendaval de pensamentos varria sua mente.  Uma torrente de emoções contraditórias chocava-se dentro dele.  Tinha que ter coragem, a vida não estava lhe oferecendo nada de bom.  Não tinha objetivos nem esperança de alcançar os sonhos da juventude.  Agora estava diante da oportunidade de voltar a ser jovem e milionário, mas com a experiência colhida durante anos, que o ajudaria a conquistar tudo o que jamais conseguiu.

Quando, no entanto, chegou e estacionou seu velho carro, uma onda angustiante o tomou.  Estaria agindo de maneira certa?  Amava seu filho e lá no fundo também amava aquela mulher rabugenta.  Ligou o carro, mas desligou novamente. Não, tinha que ser forte. E decidido, saiu do carro.

Entrou no saguão e surpreendeu-se ao ouvir a voz metálica do recepcionista robótico ecoar pelo recinto.

-Favor dirigir-se à sala do Dr. Francisco.  Dra. Martha e ele o esperam.

Como eles sabiam que tinha chegado.  Não os avisara.  Era tudo muito estranho, surreal mesmo.

Os dois cientistas vieram recebê-lo.  Um meio sorriso despontava em suas faces, enquanto os olhos permaneciam sérios.  Perguntaram-lhe se estava disposto a submeter-se à experiência e depois de um breve silêncio, respondeu que sim.

Então explicaram que medicações iriam ser aplicadas diretamente em suas veias até a manhã seguinte e que iria ser mantido sedado por vinte e quatro horas, quando acordasse estaria de volta aos seus trinta anos.  Nesse período estaria inserido em um grande tubo e todo o seu processo metabólico seria controlado.

Silas soltou um grande suspiro.  Estava com muito medo, mas tinha chegado até ali e não voltaria atrás.

Encaminharam-no para um quarto em que havia uma cama e vários aparelhos.  Mostraram-lhe um biombo, onde deveria se despir e colocar um camisolão branco e explicaram que quando voltasse a si, lá estariam roupas novas para ele vestir e iniciar a nova vida. Pediram para que o celular fosse deixado com eles.

Como iria conservar os objetos, que trouxera sem que fossem percebidos.  Na parte de trás do biombo, viu um pequeno banco de madeira.  Tinha certeza que câmeras o espiavam, então ao tirar a roupa, disfarçadamente escondeu os objetos embaixo do banco.

Quando saiu, Dr. Francisco lhe estendeu um contrato, com todas as exigências assumidas ao se submeter à pesquisa e a total confidencialidade a respeito de sua transformação.  Assinado o documento, ele deitou-se na cama.  Espetaram-lhe uma agulha e de uma garrafinha começou a gotejar uma droga relaxante e outra para prepará-lo para a substância que o levaria de volta à mocidade.

No dia seguinte, durante quatro horas recebeu a droga de sua transformação.  Pelas vinte e quatro horas seguintes ficou sedado.  Ao acordar, enxergou dois vultos ao seu lado, que pouco a pouco, foram se tornando nítidos. Atordoado, precisou de algum tempo para se lembrar porque estava ali.  Tentou se mexer, mas vários eletrodos ligavam-se ao seu corpo.

Os cientistas sorriram para ele.

- Você está bem? Perguntou o Dr. Francisco.

- Mais ou menos. Estou tonto.  Por que estou ligado a esses aparelhos?

-  A tontura vai logo passar e os eletrodos estão controlando o funcionamento de todos os seus órgãos.  Está tudo bem. A experiência foi um sucesso e agora você é um jovem de trinta anos.

- Quando vou poder me levantar?

- Vamos desligar os aparelhos e você ficará deitado por uma hora.  Será avaliado e depois

... vida nova!

Mais tarde levantou-se e surpreendentemente estava se sentindo ótimo.  Seguindo a indicação do pesquisador foi até o biombo.  Um grande espelho tinha sido colocado ali.  Refletido nele havia um bonito jovem.  Não era possível.   Passando a mão pelos cabelos agora negros novamente, começou a admirar seu próprio rosto. Tirou o camisolão, jogando-a no chão.  A barriga proeminente desaparecera e um corpo atlético refletiu-se no espelho. 

- Esse sou eu agora, pensou.  Era difícil acreditar em tudo o que estava acontecendo. Vestiu-se lentamente.  As roupas eram bonitas, de marcas caras. Ao se vestir, lembrou dos objetos escondidos.  Discretamente, olhou debaixo do banco e lá estavam eles, não tinham sido achados. Pegou-os e guardou-os nos bolsos.

O homem, que saiu detrás do biombo, provocou um ohhh!... de admiração dos cientistas.  A dra. Martha não se conteve:

- Você está lindo! E lhe deu um abraço.  Vai conquistar muitas mulheres!

Os dois o acompanharam até o estacionamento e ele perguntou:

- Cadê meu carro?

- Seu carro sofreu um acidente grave, pegou fogo e para todos você morreu carbonizado.

- Que horror!  Seu rosto franziu em uma expressão de desespero.  Minha família deve ter levado um grande choque.  Coitados!!

- Foi o combinado, não é?

O rosto do rapaz nublou-se de tristeza.

- E agora para onde vou?

- O motorista o levará à sua nova casa e a sua nova vida.

Despediram-se, avisando-o que teria que retornar para exames mensalmente.

Silas entrou no carro.  Tudo parecia diferente.  As casas e as ruas passavam velozmente.  Apalpava seu peito, seu corpo.  Estaria sonhando?

O motorista entrou em uma rua arborizada, cujas calçadas eram rodeadas por plantas floridas e onde grandes mansões desfilavam magníficas e imponentes.  Parou em frente a uma delas e deu uma chave a Silas.

-Esta é sua casa.  Boa sorte, rapaz!

O jovem desceu do carro estupefato.  Um grande portão com uma guarita ao lado estava diante dele.  Quando se aproximou, o portão se abriu.  Um porteiro acenou-lhe de dentro da guarita.  Ele entrou.  Um vasto jardim estendia-se até a casa, forrado por um extenso gramado salpicado por canteiros de flores.     

Com passos lentos, atravessou o jardim, sorvendo toda aquela beleza.  No lado esquerdo, uma piscina brilhava com os reflexos do sol.  Chegou à porta principal da casa e uma jovem serviçal já o estava esperando. 

A moça o introduziu na grande sala, decorada com móveis modernos e tapetes persas, e foi lhe mostrando cada cômodo.  Na cozinha, uma senhora simpática preparava o almoço e lhe deu as boas vindas.  Subiram pelas largas escadas e ele foi levado ao seu quarto, composto de banheiro e um imenso closet, repleto de roupas.  Tudo estava mobiliado e arrumado primorosamente.  Silas estava boquiaberto.  A moça saiu, deixando-a à vontade.

 Aproximando-se da grande cama de casal, notou no criado-mudo um envelope lacrado endereçado a ele.  Curioso, abriu-o e encontrou um bilhete: ¨Aqui estão seus novos documentos. ¨ Com mãos trêmulas pegou-os e ali estavam carteira de identidade, CPF e até uma nova carteira de habilitação.  Leu o nome nos documentos.  Agora ele chamava-se Sérgio Figueiredo.  Como conseguiram tudo isso? ¨Ah¨, pensou. ¨Com dinheiro tudo se consegue¨.

Foi até uma larga porta, que levava a uma sacada e aspirou o ar fresco da manhã.  O coração descompassado pulsava desvairado, diante de tantas emoções contraditórias.  Era agora um homem de trinta anos, sem família, com um passado trancado dentro dele...e sem saber direito que rumo tomar.

Os dias foram passando e ele se esforçava para aceitar a nova vida. Tinha tudo o que queria.  Era servido como a um rei.  Desfrutava de um conforto, que nunca sonhara ter.  Dirigia os carros mais desejados por todos.  Entretanto, uma solidão avassaladora invadia o seu ser.

Uma noite, então, resolveu sair e ir a uma discoteca para se divertir e encontrar outros jovens como ele agora era. 

Entrou timidamente no lugar.  A pista de dança estava cheia e a moçada dançava solta ao som de batidas muito altas de uma música estranha aos seus ouvidos.  O ambiente era meio escuro, com luzes coloridas, que piscavam incessantemente.  Fechou e abriu os olhos, incomodado com isso. 

Foi até o balcão de bebidas e pediu um drinque.  Tinha que vencer a timidez e o estranhamento daquela situação nova e desafiadora.

Uma bela jovem aproximou-se dele com um copo na mão.

- Olá! Está sozinho?  Perguntou, lançando-lhe um sorriso.

- Estou! Respondeu desconfortável. 

- Carolina! Apresentou-se. E ela tocou o copo dele em um brinde. 

- Si...Sérgio. Respondeu atrapalhado e pouco à vontade.

Entabularam uma conversa.  Carolina era extrovertida e divertida.  Silas, agora, Sérgio tentava acompanhar a moça, mas não entendia as novas gírias e o jeito diferente dos jovens modernos. Muitos anos o separavam dessa nova realidade.

De repente, a moça colocou o copo no balcão e o puxou para a pista.  Uma expressão de pavor apareceu no rosto do rapaz, que tentou disfarçar sua confusão e tropeçando lá foi ele para a fervilhante pista. Aos poucos foi se soltando e dançaram e se divertiram pelo resto da noite.

Na hora de se despedir, a moça premiou-o com um longo beijo e convidou-o para ir ao seu apartamento.  Ele disfarçou o espanto.  No seu tempo, esse comportamento já começava a acontecer com os mais ousados, mas era o homem que fazia esse tipo de convite e não a mulher.

Quando Carolina viu a Porsche novinha do rapaz, não se conteve:

_ Cara, além de lindo, você é abonado!

- Um pouco! Respondeu atrapalhado.

Chegou em casa na hora do almoço.  Pediu que o servissem à beira da piscina e enquanto descansava, depois da lauta refeição, pensava em tudo o que estava acontecendo.

Como um clarão, os pensamentos voaram para a antiga família.  Como estaria seu filho e sua mulher? Sentiu uma dor, que lhe invadiu até o mais recôndito do seu ser.  Sacudiu a cabeça, expulsando os sentimentos de tristeza, que queriam dominá-lo.  Agora era um homem rico.  Tinha que aproveitar a nova vida e sorvê-la ater o último gole.

Nos dias, que se seguiram, teve vários encontros com Carolina, mas começou a se cansar dela. A experiência de vida, que ele carregava, não combinava com a dela. Estava cansado dela.  Terminaram o namoro.

Muitas outras mulheres atravessaram o seu caminho. Queria relacionamentos curtos e uma vida despreocupada.  Não queria, nem conseguia se aprofundar em nada. Várias festas e viagens preenchiam os seus dias.

Passou-se um ano e certa manhã, sentado no belo jardim da casa, um forte sentimento de solidão o invadiu. Tinha muito dinheiro.  Tudo o que desejasse, vinha às suas mãos.  Percebeu que o esforço para conquistar um objetivo era motivador e dava prazer à existência.

Tirou do bolso a velha carteira com as fotografias da família e as chaves da antiga casa. Fitou as fotos por um longo tempo e apertou as chaves em sua mão. Uma saudade intensa o assaltou e o surpreendeu.

Levantou-se e resolveu voltar à cidade em que vivera para, pelo menos, observar alguém da família de longe.  Duas horas depois chegou perto da casa do filho.  Era um domingo.  Um táxi parou na frente da casa e sua mulher saltou para a calçada.  Deixara de pintar o cabelo, que estava grisalho e quando se virou para fechar a porta do carro, notou nela um semblante fechado e entristecido.

Logo o filho veio receber a mãe com um sorriso amoroso no rosto. Como eram parecidos! Desde pequeno era ele em miniatura.

Remorso e melancolia tomaram seu coração.  Tivera uma família, dificuldades e lutas, mas era a sua vida. Perdera tudo, só lhe sobrara dinheiro e amigos e amigas, que, talvez só se interessassem por ele, por saberem-no muito rico.

Naquele momento, daria tudo para ver sua mulher carregada de sacolas de compras, conseguidas com o parco dinheiro que lhe dava.

Voltou para casa com um imenso peso na alma e um arrependimento, que sabia tardio, invadiu-o, como um tsunami invade e arrasa tudo à sua volta.

Vagou pelo quarto, sem conseguir dormir, a noite inteira.  Levantou-se muito cedo. Tinha tomado uma decisão. Sentou-se à escrivaninha de seu quarto e redigiu um testamento, em que deixava metade de sua fortuna para a antiga família e a outra metade para seus empregados e instituições de caridade.  Quando terminou estava sereno.

Saiu e foi a um tabelião registrar o legado. Voltou à casa e passou o dia passeando pelo jardim.  Um pássaro passou voando e ele olhou-o tristemente, invejando a sua liberdade.

No jantar, convidou os empregados a sentarem-se com ele, o que causou um grande espanto em todos.  Ele era um bom patrão, gentil, educado e os tratava muito bem e com respeito, mas não esperavam esse convite. O jantar pedido por ele à cozinheira era um prato, que ele adorava, quando criança.

Depois do jantar, subiu para o quarto, seu rosto parecia iluminado por uma tranqüilidade nunca sentida.

Na manhã seguinte, como já era quase meio-dia e Sergio não tinha aparecido para tomar o café, a camareira bateu à porta do quarto e não houve resposta.  Preocupada abriu a porta e lá estava Sergio ou Silas, sem vida, ao lado de um vidro de comprimidos.

A escolha fora feita. 

E a vida ... - Helio Salema

 




E a vida ...

Helio Salema

 

Caindo gota a gota

Sem molhar o coração

Nada eu sentia

Era a sua ilusão

 

Lágrimas verdadeiras

Não alteram histórias costumeiras

Éramos crianças brincando

Faz de contas, de ciumeiras

 

O doce som da mentira

Magoa mais a alma sofredora,

Que o amargo estrondo da verdade

Mesmo que fere, não magoa

 

Sempre usando o perdão

Fomos construindo sonhos

Mas na realidade o que fomos?

Irresponsáveis na ilusão

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...