A flecha de Bernini
Alberto Landi
Quando entrou na Capela Cornaro, em Roma, Helena não sabia exatamente o que procurava.
Talvez procurasse apenas alguns minutos de silencio.
Havia chegado à Itália carregando uma lembrança que evitara durante quase trinta anos.
Guardara a carta na gaveta, depois, numa caixa, e mais tarde, entre as páginas de um livro que raramente abria, como se escondê-la pudesse também silenciar o passado.
Era mais fácil conservar uma carta fechada do que enfrentar aquilo que poderia estar escrito dentro dela.
Helena tinha vinte e oito anos quando conheceu Miguel.
Ele era restaurador de obras de arte e trabalhava numa pequena igreja de Roma. Ela estudava história da arte e costumava passar longos minutos observando o trabalho cuidadoso das mãos de Miguel.
Foi assim que começaram. Sem grandes declarações.
Um café depois do trabalho, uma caminhada pelas ruas antigas, livros esquecidos na casa um do outro, conversas que se prolongavam até a noite.
E, pouco a pouco, descobriram haver encontrado algo raro: a tranquilidade de estar ao lado de alguém sem precisar fingir.
Miguel queria permanecer em Roma, onde haviam construído tantas lembranças. Ela, porem, recebera uma proposta de trabalho em seu país de origem, e o destino começava a colocá-los diante de caminhos diferentes.
Era uma oportunidade rara, exatamente aquilo que havia sonhado durante anos.
Miguel pediu que ela ficasse, porém ela hesitou, não porque não o amasse, mas porque tinha medo.
Medo de abandonar a carreira, de depender de alguém, de escolher o amor e, um dia, descobrir que havia feito a escolha errada.
Naquela noite, discutiram. Miguel olhou para ela e perguntou:
— Você está indo porque quer ir ou tem medo de ficar?
Ela não respondeu, e o silêncio foi sua resposta; na manhã seguinte partiu.
Durante algum tempo, trocaram cartas; depois, elas ficaram mais raras.
Até que uma delas deixou de receber resposta.
O tempo passou…
Anos mais tarde, Helena soube que Miguel sofrera um acidente enquanto trabalhava na restauração de uma igreja.
Sobreviveu, mas ficou com sequelas que encerraram sua carreira.
Ela nunca soube se ele havia tentado procurá-la, e nunca soube se ele a culpava.
E essa dúvida tornou-se sua verdadeira ferida.
Ela nunca se casou, não porque não tivesse tido oportunidade, mas porque, no fundo, acreditava ter deixado escapar o único amor que realmente importava.
Durante quase trinta anos, carregou aquela culpa em silencio.
Até aquela tarde em Roma, diante dela estava a escultura de Êxtase de Santa Teresa, de Bernini.
Helena aproximou-se; o mármore parecia respirar.
Teresa estava reclinada sobre as nuvens, os olhos cerrados, o rosto suspenso entre a dor e a entrega.
Ao seu lado, um anjo sorria, segurando uma flecha.
Helena conhecia a história.
Teresa de Ávila havia descrito uma experiência mística em que um anjo a atingia com uma flecha de ouro. A ferida provocava dor, mas também uma espécie de êxtase, como se o amor divino atravessasse seu corpo.
Ela ficou observando a flecha.
— Por que uma flecha? — murmurou
Durante toda a vida pensara que ela servia apenas para ferir, mas o anjo do escultor não parecia cruel, não havia violência estampada em seu rosto, a flecha não parecia uma arma, e sim uma passagem.
Ela sentou-se e, pela primeira vez em muitos anos, pensou que talvez algumas feridas não existissem para destruir, talvez para revelar.
Naquela noite, de volta ao hotel, abriu a mala.
Retirou um livro antigo, abriu-o; a carta ainda estava lá.
Durante alguns segundos, seus dedos tremeram, depois rompeu o envelope, leu e descobriu que, durante todo esse tempo, havia carregado uma culpa que não lhe pertencia.
Miguel escrevera.
Você não me abandonou, apenas escolheu o caminho que, naquele momento, conseguia escolher. Eu também teria medo.
Ela parou, continuou lendo. Miguel contava que nunca a odiara, mas que algumas vezes pensava em procurá-la, mas não sabia se deveria interromper a vida que ela havia escolhido.
Não quero que você passe o resto da vida acreditando que foi sua culpa.
Ela fechou os olhos, chorou, não pelo homem que perdera. Chorou pela mulher que havia sido aos vinte e oito anos.
.
Aquela jovem não sabia o que o tempo lhe ensinaria.
Não sabia que algumas escolhas só parecem erradas porque conhecemos suas consequências.
E ela finalmente compreendeu que passara trinta anos condenando uma mulher por não possuir, aos vinte e oito, a sabedoria que só a vida poderia lhe dar.
Na manhã seguinte, voltou à Capela Cornaro, ficou diante de Teresa, depois olhou para a flecha, agora compreendia.
A flecha havia atravessado o coração de Teresa para conduzi-la ao êxtase.
A da Helena havia atravessado o tempo para conduzi-la à verdade.
Talvez fosse isso que Bernini tivesse compreendido, que o amor, por vezes, não se perde quando duas pessoas seguem caminhos diferentes, mas permanece naquilo que viveram.
Algumas feridas não chegam para nos destruir, e sim para abrir aquilo que o medo manteve fechado.
Ela permaneceu alguns instantes em silêncio, depois sorriu; não precisava voltar ao passado, nem encontrar Miguel, nem refazer a escolha.
Precisava apenas deixar de punir aquela jovem que um dia teve medo de ficar.
Saiu da capela; Roma estava diante dela, antiga, barulhenta, luminosa.
As pessoas caminhavam pelas ruas sem saber que, naquele instante, uma mulher acabara de devolver a si mesma trinta anos de vida.
Ela caminhou devagar e percebeu que algumas dores não desaparecem, apenas deixam de mandar em nós.
Então olhou uma última vez para a porta da capela e pensou na flecha.
A mesma que ferira Teresa havia lhe ensinado outra coisa.
Há feridas que não foram feitas para nos destruir; foram feitas para deixar entrar a luz!
Notas
A flecha havia atravessado Helena trinta anos antes. Agora, diante da escultura de Bernini, compreendeu que aquela antiga ferida já não tinha forças para prendê-la.
Na escultura, a flecha representa o amor divino que fere e transforma.
Com Helena, ganha outro significado: a lembrança de uma ferida antiga que, após três décadas, deixa de aprisioná-la. Representa a passagem da dor para a libertação.
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