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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Helena e Augusto - Alberto Landi

 


Helena e Augusto Alberto Landi Helena sempre teve uma relação silenciosa com a arte. Gostava de passar horas em museus, caminhando, apreciando sem pressa entre pinturas e esculturas, como se cada obra guardasse uma história que só revelasse alguma coisa a quem tivesse paciência para olhar. Foi numa dessas tardes, na Pinacoteca de São Paulo, que conheceu Augusto. Ela estava diante de uma escultura havia algum tempo, quando ouviu uma voz ao seu lado: — O que você está procurando nela? Helena virou-se. Um homem que não conhecia sorria discretamente. — Não estou procurando nada. — Então por que está apreciando há tanto tempo? Ela voltou os olhos para a escultura. — Talvez porque algumas coisas não precisem ser entendidas de imediato. Augusto sorriu, concordo! Foi assim que tudo começou. Sem apresentação, sem promessas, sem que nenhum dos dois pudesse imaginar que aquele encontro aparentemente casual mudaria suas vidas. Depois daquela tarde, Helena passou a encontrar Augusto com freqüência. Às vezes na Pinacoteca, outras vezes em cafés próximos ao museu. Conversavam sobre arte, livros, viagens e sobre tudo aquilo que ainda porventura pretendiam conhecer. E, sem perceberem exatamente quando e como aconteceu, começaram a falar também um do outro. O tempo passou… Vieram os passeios, os domingos, as pequenas discussões e as reconciliações. Vieram também os planos que pareciam eternos, até que um dia tudo mudou. Helena foi embora. Durante anos, guardou dentro de si a certeza de que Augusto não havia tentado impedi-la. Interpretou o silêncio dele como uma escolha e, com o tempo, transformou essa escolha em abandono. Nunca soube da doença de Augusto. Nunca soube que, quando a viu partir, ele já carregava dentro de si a certeza de que não teria muitos anos pela frente. Ele morreu no início daquela história que ela nunca conseguiu terminar. E ela seguiu a vida, ou pelo menos foi isso que tentou fazer. Muitos anos se passaram, Helena voltou à casa onde passou a infância e juventude. Quando chegou, encontrou tudo menor do que guardava na lembrança. O jardim não tinha as roseiras nem os jasmins. A pintura das paredes internas estava toda descascada pelo tempo. O velho banco de madeira continuava sob a sombra da arvore. . Passaram-se tantos anos imaginando aquele momento que agora, diante dele, não sabia o que fazer. No portão, ouviu um ruído na calçada. Em seguida, passos. ¨ Ela levantou os olhos e, por um instante, teve a impressão de reconhecer aquela maneira de andar. O coração acelerou. — Augusto? A figura se moveu, mas era apenas um homem que passava pela calçada, repleta de folhas de outono que estalavam sob seus passos. Ela permaneceu imóvel por alguns segundos. Ficou ali, sozinha com o passado diante dela. Às vezes a saudade não devolve quem partiu, devolve apenas a ilusão de que ele ainda pode voltar. Voltou ao jardim, sentou-se no velho banco e foi então que tirou da bolsa um envelope já muito envelhecido pelo tempo. Durante todos aqueles anos, ela não abrira a carta porque, no fundo, temia encontrar nela aquilo que mais doía: a confirmação de que ele realmente a havia esquecido; ela simplesmente não se sentia capaz de lê-la. A carta de Augusto. Agora não havia mais razão para esperar. Passou os dedos sobre a letra, reconheceu de imediato a caligrafia. No envelope, ainda estava escrito o nome de Augusto. Ela ficou imóvel, não precisava abrir para saber. Por um momento, não conseguiu respirar. Conhecia aquelas linhas inclinadas, o modo como algumas palavras pareciam se aproximar umas das outras, como se tivessem sido escritas com pressa. ¨Helena, Se um dia você voltar, talvez seja tarde demais para dizer aquilo que deveria ter dito há muitos anos. Ela parou, respirou fundo e continuou: Nunca quis que você fosse embora. Naquela noite, quando você me perguntou se eu a amava, não soube responder. Não porque o amor tivesse acabado, mas porque sabia que me encontrava doente e não queria que você passasse o resto da vida cuidando de alguém que já começava a desaparecer. Helena levou a mão à boca; as lágrimas chegaram sem pressa. Continuou lendo: Você pensou que escolhi partir; na verdade, fui eu quem escolheu deixá-la livre. ¨ Ela cerrou os olhos, agora compreendia; não havia sido falta de amor, mas sim, uma forma silenciosa, imperfeita e dolorosa de amar. Ela ficou algum tempo em silêncio, com a carta nas mãos. — Você devia ter me contado — murmurou para si mesma. O vento de outono passou pelas árvores e, por um breve instante, sentiu novamente aquela presença, não como alguém que pudesse voltar, mas como uma lembrança que finalmente encontrara seu lugar. Então pensou na primeira vez que vira Augusto. Naquela tarde distante, na Pinacoteca, diante da escultura que ela contemplara por tanto tempo, lembrou-se da pergunta. — O que você está procurando nela? E a resposta que dera: — Talvez porque algumas coisas não precisem ser entendidas de imediato. Ela sorriu, talvez estivesse falando de si mesma sem saber. Talvez, desde o começo, estivesse procurando algo que só compreenderia muitos anos depois. Dobrou a carta com cuidado, levantou-se e caminhou até a janela, abriu-a, o ar da manhã entrou devagar, movimentando as cortinas. Lá fora o jardim parecia outro. Talvez fosse ela quem finalmente o enxergasse de outra maneira. Ela olhou uma última vez para a casa; Augusto não estava ali, nunca mais estaria. Mas agora não precisava procurá-lo. Algumas histórias não terminam quando alguém parte, mas quando finalmente compreendemos aquilo que ficou. Fechou a porta e seguiu pelo caminho; atrás dela, as janelas permaneceram abertas. E, dentro daquela casa, pela primeira vez em muitos anos, o passado já não parecia esperar por ninguém.

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