A CARTA
Adelaide Dittmers
Helena sentou-se no velho banco de madeira. Olhou demoradamente para aquela casa, que assistiu silenciosa sua infância e mocidade.
Abriu a bolsa e retirou uma carta amarelada pelo tempo, apertou-a entre as mãos. O rosto de Augusto surgiu diante dela. Os grandes e ternos olhos castanhos, o sorriso, a voz calma e calorosa. Como amara aquele homem? Os anos vividos conseguiram apagar aquele amor.
Por que ele foi embora? Por que não se despediu dela e deixou apenas aquela carta, que os pais entregaram-lhe, dizendo que nunca confiaram nele, que era um pobretão querendo o dinheiro da família, que não se dignara a terminar com ela pessoalmente.
Ela se endireitou no banco ao se lembrar de que quase jogaram o papel em suas mãos.
Daquele dia em diante, ela se fechou para a vida. Não confiou em mais ninguém. Todos a chamavam de “a viúva solteirona”.
Quando os pais morreram, fechou a casa e foi morar em uma cidade distante. Aprendeu a pintar e suas telas tinham traços fortes e pinceladas marcantes. A fama não lhe trouxe alegria, mas pintar a levava para outro mundo, onde ela não era ela, apenas uma testemunha da existência.
Colocou, então, a carta em uma gaveta e tentou se esquecer do passado. O medo de lê-la e descobrir que o amor de Augusto fora uma mentira impediu que abrisse aquele envelope.
Porém, em uma noite insone, a tirou e a segurou. Tinha que lê-la e esquecer definitivamente o amor de sua vida.
Resolveu voltar à casa que abandonara e, agora sentada naquele banco, testemunha de muitas promessas entre os dois, iria abri-la.
Com mãos trêmulas, rasgou o envelope, colocou os óculos e, ao começar a ler, teve que interromper para limpar as lentes, embaçadas pelas lágrimas.
Descobriu, então, que eram mais uma declaração de amor, das tantas que ele lhe fizera, e lhe revelando que os pais dela o obrigaram a ir embora, escrever que não a amava. Proibiram também que voltasse a encontrá-la. Ele escreveu o que exigiram, mostrou para eles, mas mudou sorrateiramente o conteúdo. Iria esperá-la na praça para fugirem.
Helena se levantou devagar. O peso da verdade refletiu na lentidão de seus passos. Vinte e cinco anos tinham se passado. Os pensamentos rodopiavam como se levados por um forte vento. Caminhou automaticamente até a praça, por onde tantas vezes passearam. Chegando lá, foi até o meio do jardim, onde havia uma fonte, e colocou a mão na água fria. De repente, ouviu uma voz atrás dela.
— Helena! Não acredito que é você!
Virou-se assustada, um homem de cabelos grisalhos e ternos olhos castanhos sorria para ela.
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