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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A CARTA - PEDRO HENRIQUE

 



A CARTA

PEDRO HENRIQUE


O cheiro de poeira invade minhas narinas, navegando por minhas vísceras, adentrando minha alma, bagunçando minha memória, marejando meus olhos…

Ando pela sala; a cada passo, um peso recai sobre meus ombros, fazendo meu corpo fraquejar. Não rompo ao ponto de cair no chão, todavia, marcho como um guerreiro que se recusa a ceder ao inimigo e luta, mesmo sem ter recursos para isso.

Esta sala, estas paredes, estes rebocos, tudo aqui me é tão familiar, tão íntimo e, de certa forma, hoje, tão longínquo…

Anos atrás, adentrei por estas portas com um homem me carregando no colo. Augusto sempre teve gosto de me mostrar o quão forte era. E se tem uma palavra que me vem à mente quando olho para estas paredes, é “força”. Quanto suor não foi preciso cair do meu rosto e do meu ex-marido para erguermos este barraco. 

Foram muitas manhãs, tardes e noites lavando roupas e rezando à minha Nossa Senhora, pedindo-lhe força e amparo. 

Augusto, por sua vez, teve de chegar todo dia com o corpo coberto de graxa, mas tudo valeu a pena: tínhamos nosso abrigo, um lugar para, finalmente, chamar de nosso.

Ando mais um pouco, lágrimas me dominam, mas preciso observar, preciso contemplar. 

Sinto vontade de vê-lo outra vez, de tocar seu corpo, sentir sua barba rala roçar minha bochecha tímida. Há tanta saudade das noites em que abríamos nossa garrafa de vinho e dançávamos nosso forró preferido. Só ele e eu. Ele e eu e nosso infinito…

Augusto foi um bom marido. Não tivemos filhos. Nem eu nem ele queríamos. Éramos felizes assim. Como disse: ele e eu. 

Achei: o banco de madeira que ele fez para passarmos a noite olhando para o nada, jogando conversa fora e nos divertindo com as graças de Amora. 

Não me lembro onde a enterramos. Aquela gata foi tão boa para mim. No entanto, é a natureza dura e brutal da vida: tudo. Um dia. Chega ao fim.

Sento-me no banco e sinto meu peito sacudir quando toco o relevo das iniciais de nossos nomes. Foram tantos anos aqui, sentindo sua inicial fundida à minha: assim sempre fomos, né, querido: uma alma grudada na outra. “O homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne.”

Tantos anos depois lembro de você aqui comigo. Por que tinha que acabar? Você sabia que eu não aguentaria? Sabia que os anos iriam vir e eu não teria forças para sair da cama, sabia que dormiria em meio aos meus próprios dejetos, sabia que iria tentar contra minha própria vida. Você sabia, Augusto, e ainda assim fez o que fez.

Eu te odeio, eu te odeio. Filho de uma grande puta você é. Filho de uma grande puta. Grito. 

Não vou derramar uma lágrima por você. Não vou. Por quê? Por quê? O que ele tinha e que eu não pudesse lhe dar? Ele era mais alto, forte; ele era melhor do que fui. Foi por isso, Augusto? Diga-me, eu preciso saber?

Vasculho a bolsa. Abraço o envelope. Não sei se tenho coragem de abrir. Não posso contemplar a caligrafia do desgraçado que me abandonou para viver sua aventura. Não posso perdoá-lo. Simplesmente não posso. 

Não é justo. Você dorme com uma pessoa. Unem-se em matrimônio. Tornar-se parte vital um do outro e tudo que me foi deixado é esta carta? Não. Não aceito. 

Enquanto eu viver, seremos sempre você e eu, querido. Você, eu, amora, nosso forró preferido e nossas iniciais grafadas em um lugar do mundo. 


FIM!


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