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quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Maria Eugênia, a viúva fru-fru - Hirtis Lazarin

 




Maria Eugênia, a viúva fru-fru

Hirtis Lazarin

 

Maria Eugênia saía da butique mais fashion da sua cidade. Pulando de alegria e com um sorriso que rasgava seu rosto, parecia uma criança que acabava de ganhar a primeira viagem à Disney. Uma criança deslumbrada diante das ótimas perspectivas que se abriam bem pertinho dos seus olhos.

Mal conseguia segurar tantas sacolas de compras. O seu motorista levou uma bronca feia, quando várias delas foram parar no meio da rua. Não sei se escaparam das suas mãos ou se ela as soltou de propósito. O homem, distraído e se deliciando nas baforadas do cigarro, não se deu conta da chegada da patroa.   

Ninguém podia imaginar que essa senhora acabara de ficar viúva. Fazia apenas um mês que Otávio estava enterrado. Um casamento de quinze anos. A família acreditava que eram felizes. Sabia de algumas brigas: vozes alteradas, batidas de porta, saídas súbitas da mesa do almoço, mas nada que fosse tão diferente de qualquer outro casal. Usufruíam juntos das regalias que o dinheiro pode oferecer. E o dinheiro, além de sustentar prazeres e emoções sem fim, concede grande poder, neste mundo capitalista que nos cerca.

Cavalheiro e discreto, ninguém desconfiava que Otávio era um homem ciumento e controlador. Maria Eugênia nunca comentou ou reclamou, nem com Helena, sua amiga mais íntima. Era sempre ele quem tomava todas as decisões na vida do casal, inclusive supervisionava as roupas que a esposa deveria vestir. E sempre dava a entender que tudo era amigavelmente compartilhado.

Teria ela medo de perder as regalias, já que vinha de uma família humilde? Cresceu vendo a mãe contando moedas, repartindo um pedaço pequeno de carne entre os três filhos. Nada sobrava e nem era o suficiente para satisfazer a fome das crianças.

A jovem mulher tinha quarenta anos e estava muito bem conservada pelos cosméticos trazidos de Paris. Mas conservar os costumes de casada, ela não queria não. Expulsou a solidão antes mesmo de sua chegada e decidiu pintar a vida com as cores do arco-íris. 

Ela mudou de hábitos. Ela mudou o cabelo. Ela mudou o guarda-roupa, repleto de roupas clássicas e discretas. Declarou-se livre e assumiu o leme do seu barco, pronta pra  dar quantas voltas quisesse dar. 

A transformação causou um rebuliço na família de Otávio, que passou a chamá-la, maldosamente, de “viúva fru-fru”. Os comentários e questionamentos não tiravam o bom humor da moça e não interferiam em seus planos. Sabia que enfrentaria dissabores e, auxiliada por um bom psicólogo, se fortaleceu pra enfrentá-los. Afastou-se de alguns familiares mais radicais e aproximou-se de outros que a entenderam. Na verdade, o apelido pegou e ela até gostava e se identificava como essa tal viuvinha fru-fru.

Mas não demorou tanto tempo assim pra que a sua vida voltasse à calmaria. Afinal de contas, Maria Eugênia era uma mulher responsável e não jogaria suas conquistas, janela afora. Curtir a vida não implica necessariamente em falta de juízo. E ela era uma mulher cheia de juízo e sabia como administrar a vida financeira. Otávio deixou-a muito bem amparada. 

Viajou várias vezes ao exterior, frequentava teatro e restaurantes finos. Fez muitos amigos e não pretendia se envolver emocionalmente tão cedo. E, pra preencher os horários vagos, matriculou-se num curso online de inglês.

Era mais de meia-noite, madrugada de domingo e ela voltava de uma viagem à casa de sua mãe, numa cidadezinha próxima. Trovões e raios acompanhados de vento forte antecederam um temporal inesperado.  Muito rápido e o limpador de para-brisa não dava mais conta. O que se via à frente, era água, e muita água. 

Nessa hora, o medo é inevitável e o mais seguro seria parar no acostamento e esperar. Foi o que ela fez. Minutos depois, o seu carro sofreu uma forte colisão na traseira. Outro motorista, que estava em alta velocidade, derrapou na pista escorregadia e, descontrolado, chocou-se contra o carro de Maria Eugênia. Na sequência, uma forte explosão.

A moça ficou gravemente ferida, resistiu alguns dias de intenso sofrimento, mas não sobreviveu.

Quase um mês após o falecimento, a melhor amiga, Helena, sem acreditar na tragédia, caminhava entre os túmulos do cemitério, carregando, com certa dificuldade, uma placa de bronze.

Maria Eugênia incumbiu-a de uma missão: colocar, na lápide do seu túmulo, uma placa dourada onde se lia:

                                               Aqui jaz a “viúva fru-fru”. 

 

ENCANTOS DE VILLA BORGHESE - Alberto Landi



 


 ENCANTOS DE VILLA BORGHESE

Alberto Landi

 

Villa Borghese, um dos parques mais encantadores de Roma, leva o nome da família Borghese que desempenhou um papel significativo na vida cultural da cidade.

O cardeal Scipione um grande patrono das artes no século XVII, construiu essa Villa como um refúgio da beleza e inspiração.

Era um bonito dia de primavera, o sol brilhava sobre os jardins e o parque de Villa Borghese, em Roma.

As flores desabrochavam em cores vibrantes, espalhando seu perfume no ar.

Os pássaros cantavam alegremente, criando uma trilha sonora encantadora para os visitantes que passeavam pelos caminhos sinuosos do parque.

Nesse local havia um parque com um pequeno lago onde cisnes majestosos nadavam graciosamente. Casais caminhavam de mãos dadas, admirando a beleza natural ao seu redor. Observava casais sentados em bancos de pedra, sob a sombra de árvores frondosas, trocando olhares e juras de amor.

Enquanto isso, crianças corriam e brincavam livremente pelos gramados verdejantes, suas risadas ecoavam pelo ar.  Um artista capturava a beleza da paisagem em seu cavalete, transformando-a em uma obra de arte.

Enquanto caminhava, uma serenidade profunda envolvia meu coração, como um manto suave que acalmava todas as minhas inquietações.

A beleza das esculturas e a suave brisa traziam à minha mente memórias nostálgicas. Era uma mistura de alegria e saudade em um só momento.

As esculturas ao longo do parque acrescentavam um charme todo especial, deixando todos os visitantes extasiados com sua beleza e historia.

As águas das fontes representavam a pureza e a serenidade, refletindo a beleza dos jardins ao redor e convidando todos a um momento de contemplação e paz.

Ao entardecer, as luzes suaves se acendiam, iluminando os caminhos e realçando a beleza do cenário. Casais se abraçavam enquanto observavam o por do sol pintar o céu de tons dourados e rosados, criando um espetáculo inesquecível.

Assim, em meio à natureza exuberante e a tranquilidade do lugar, histórias de amor, alegria e inspiração se desenrolavam a cada dia, como se o próprio ambiente fosse um palco onde os sentimentos mais profundos ganhavam vida e se entrelaçavam em um eterno espetáculo, tornando este lugar um verdadeiro refúgio de beleza e encantamento em meio a agitação da cidade eterna!

Atualmente continua sendo um oásis de tranquilidade e arte, atraindo visitantes de todo o mundo!

 

 

SURPRESA NA IGREJA - Helio Fernando Salema

 




SURPRESA NA IGREJA

Helio Fernando Salema

 

A multidão aguardava a chegada da noiva, lotando completamente o pátio da igreja. Alguns ansiando pela chegada da figura principal, outros duvidando que ela viesse.

Durante a semana vários boatos intrigaram a pequena cidade onde Lívia residia com sua família. Por dois anos ela foi noiva do Antonio, que residia numa cidade próxima. Até viajar para a capital, onde consultaria um médico, ao regressar terminou o noivado com Antonio. Que nunca se conformou com o rompimento.

O médico Dr. Gilberto, viúvo e bem mais velho que Lívia, começou a frequentar a casa dela, nos fins de semana. Embora de comportamentos bastante discretos não evitou os comentários dos vizinhos.

Finalmente um carro vem vagarosamente, em direção à igreja, seguido de vários outros automóveis. Estaciona, logo é cercado por familiares. Depois de uma longa espera, a porta se abre e surge a tão esperada noiva. Lívia desce e olhando, sorrateiramente, para as pessoas que se postavam junto a porta da igreja. Vira para o lado direito e faz um sinal para sua mãe aproximar. Conversam ao pé do ouvido, de cabeça baixa, vira-se em direção à porta do carro, como se fosse entrar. A mãe aproxima o seu rosto junto ao da filha e lhe diz algo. O pai dá alguns passos em direção à filha e oferece seu braço.

Dentro da igreja Gilberto olha o relógio, vira-se em direção aos padrinhos, respira demoradamente, olha para o teto da igreja como se solicitando ajuda. O padre o observa discretamente. Em seguida, o padre Firmino mira para a entrada da igreja com um olhar de alguém assustado e percebendo que algo, estranho demais, estava para acontecer.

A porta da igreja, lentamente, se abre e ao som de órgão, a noiva, de cabeça baixa e passos curtos, evitando olhar para os lados, se encaminha em direção ao altar. O noivo vai ao encontro e oferece seu braço e recebe do futuro sogro, sua filha. Ambos se posicionam em frente ao padre que inicia a cerimônia.

Após a conclusão da cerimônia o padre avisa que os noivos receberão os cumprimentos no salão paroquial. Atendendo à solicitação, as pessoas se dirigem para aguardar os recém-casados. O padre se retira, os noivos e padrinhos ficam tirando fotos.

A igreja estava quase totalmente vazia, quando Lívia percebe que uma senhora se aproxima, se assusta, com a boca aberta e expressando uma surpresa fantástica fica paralisada:

— Minha menina, Lili. Nada neste mundo, nem ninguém, faria eu mudar da ideia de vir assistir ao seu casamento. Vi você nascer, cuidei de você até ficar mocinha. Todos os dias rezarei pedindo a Deus para que você seja muito feliz e que Deus dê forças ao meu filho, Antonio para aceitar o destino.

Assim, com um forte abraço, dois rostos se grudam, quatro olhos derramam rios de lágrimas.

 

Renascimento - Adelaide Dittmers

 


Renascimento

Adelaide Dittmers

 

A mulher abriu os olhos lentamente.  Imagens embaçadas turvavam sua visão. Aos poucos foram ficando nítidas.  Aparelhos estavam ligados nela. Um monitor media os batimentos cardíacos.  Onde estava? A confusão atordoou-a.  Tentou levantar um braço e sentiu a picada da agulha, que a alimentava de soro. O movimento acionou a luz, que chamava a equipe médica. Uma enfermeira e um médico apareceram.  Ela os fitou.  Quis perguntar o que estava acontecendo, mas não conseguiu articular as palavras.

Os dois a olhavam com uma expressão de surpresa e entreolharam-se admirados.  Não havia esperança de vê-la voltar.  Apenas se mantinha viva ligada aos aparelhos.  Há três longos anos estava ali depois de uma espécie de síncope após um parto complicado.

O médico colocou a mão no braço da jovem, que fechava e abria os olhos, tentando retomar a consciência. 

— Calma, disse ele com um sorriso comovido.  Está tudo bem!

— Onde estou?

— Você dormiu por um longo tempo.

– Dormi?  Os olhos vagando de um lado para outro para tentar entender o que lhe acontecera.

— Sim. Respondeu, evitando dar mais explicações para não aturdi-la ainda mais. E ficou ao seu lado enquanto a enfermeira saiu apressada para avisar a equipe da UTI e a família.

A notícia incendiou o lugar e se espalhou pelo hospital.

A memória da jovem foi voltando aos poucos de maneira muito confusa. O perigo da eclampsia, o medo do parto, as vozes tentando acordá-la, tudo girava em sua mente. E agora, os médicos a cercavam.  Onde estava a criança? E o marido? Com dificuldade perguntou:

— Meu bebê?

Olhares se cruzaram como flechas.  Tinham que tomar muito cuidado com as respostas.  Um deles disse mansamente:

— Ele está bem! Sua família foi avisada, mas só poderá vê-la amanhã.

— Por quê?

— Será melhor para seu restabelecimento.  Amanhã você estará mais pronta para recebê-los. O seu apagão foi longo.

— Apagão?

— Não se preocupe com isso. O importante é que você está conosco agora.

Ela tentava entender essas meias respostas.  Então o médico perguntou:

— Qual é o seu nome?

— Vera Santos Oliveira.

— Qual é a sua idade?

— Trinta anos.

Ele sorriu.  Tudo estava normalizando. O milagre da vida estava ali diante deles.

No decorrer do dia, foram acompanhando os progressos de Vera e ao fim do dia resolveram contar-lhe o que realmente lhe acontecera. O espanto calou-lhe o rosto e os movimentos.  O médico pousou a mão delicadamente em sua cabeça.

— Parabéns, menina! Bem-vinda de volta à vida!

A voz embargada traia a frieza esperada na profissão. O olhar de Vera sentiu a emoção do homem à sua frente.  Com voz trêmula, sussurrou:

— E meu bebê?

— É uma menina. Tem três anos.

As lágrimas presas encobriram seus olhos e deslizaram suavemente pelas suas faces.

— E meu marido? Meus pais?

— Você os verá, amanhã.

Ela cobriu o rosto com as mãos e os soluços a sacudiram.

O barulho de uma maca a acordou no dia seguinte.  Uma enfermeira anotou seus sinais vitais e desligou os aparelhos que ainda a monitoravam.

— Aonde vocês vão me levar? Perguntou insegura.

— Você passará por uma ressonância e se estiver tudo bem, irá para o quarto.

— Quando vou ver minha família?

— Depois do exame, poderá vê-los.

Eram oito horas, quando foi instalada no quarto. A enfermeira pegou o seu pulso e mediu a pressão. O coração estava acelerado e a pressão tinha subido.  Logo lhe deu uma medicação para baixar sua ansiedade.  Em seguida, levantou a cortina e o sol inundou o lugar.

— O dia está lindo, Vera!

Nesse momento, bateram à porta.  Vera segurou a respiração.  Diante dela, os pais surgiram sorrindo e chorando ao mesmo tempo. O abraço triplo foi longo e incontido. Atrás deles, seu marido segurava a filha assustada. O rapaz aproximou-se, mas a menina agarrava-se a ele.  Vera conteve a vontade de apertá-la em seus braços.  Apesar da forte emoção, sentiu que a pequena precisava de tempo. Ao deter os olhos no marido, percebeu um estranho constrangimento na sua expressão. Como se ele estivesse incomodado com a situação.

Dias se passaram e as visitas constantes dos pais a animavam. A menina vinha com eles, mas se mostrava arredia, o que a enchia de tristeza. O marido não apareceu mais e os pais diziam que estava trabalhando muito.

Finalmente, os médicos anunciaram que poderia ir para casa. A felicidade coloriu seu rosto. Quando os pais chegaram para buscá-la, a primeira pergunta foi:

— Cadê o Walter?

A desconfiança e o medo estamparam-se no olhar ansioso da moça.

Os pais se entreolharam e a mãe segurou as mãos da filha e com voz pousada contou que depois de um ano, em que ela ficou em coma, as esperanças de que ela sobrevivesse eram quase zero e o genro começou a namorar uma moça, que estava com ele até hoje.  Fez uma longa pausa para controlar a respiração e acrescentou que o casal tinha um bebê de quatro meses.

Vera se recostou no sofá.  Uma nuvem de tristeza espalhou-se pelo seu rosto. Eles se amavam tanto.  Como era frágil e fugidio o amor de um homem.

— E a minha filha?

— Mora com eles, mas você pode pedir a guarda dela.    

Vera abraçou a mãe e afastando-se disse comovida.

— Tudo a seu tempo, mamãe! Tenho vocês ao meu lado. Primeiro tenho que retomar minha vida.  Fui forte o suficiente para voltar. Serei forte para recomeçar a viver.       

 

terça-feira, 6 de agosto de 2024

CAPITÃO MENDES - Adelaide Dittmers

 



CAPITÃO MENDES

Adelaide Dittmers

 

O velho aviãozinho soltou um ronco profundo e cansado no esforço de alçar vôo mais uma vez. No comando, um homem também entrado em anos concentrado em guiá-lo para alcançar as alturas. O rosto sério encobria a imensa satisfação que lhe ia na alma.

O céu azul pontilhado por nuvens brancas abraçou-os. Os raios de sol iluminaram as asas azuis e vermelhas do pequeno avião ao dar uma volta para perseguir caminhos incertos.

Capitão Mendes era conhecido e admirado na pequena cidade, em que vivia.  Construíra o pequeno avião e riscava os ares em ousadas manobras.  Voar era sua paixão.

Ia para onde seu coração mandava, deixando ao acaso os rumos a tomar. Sobrevoava montanhas, campos e algumas vezes a orla marítima. Respirava a aventura de estar nas alturas e de ver a vida passar lá embaixo. Aterrissava em lugares inóspitos, sorvendo a felicidade de suas andanças audaciosas.

Enfrentava os perigos com a segurança de que iria superá-los.  Muitos lhe perguntavam se não tinha medo de que o avião sofresse uma pane. Ele dava de ombros e respondia que não tinha medo de morrer e sim de não viver.

Naquela bonita manhã, voando para um destino incerto e se deixando levar para algum lugar, que o surpreendesse, ao passar por um grande pasto, vislumbrou uma cena que o assustou.  Um homem fugia a cavalo, enquanto outro jazia no capinzal.

Com uma brusca manobra, começou a descer e aterrissou perigosamente perto do homem.  Desceu as escadas correndo e alcançou o ferido, cuja camisa estava rubra de sangue.

O pobre homem lançou-lhe um olhar suplicante.

— O que aconteceu? Perguntou, ajoelhando-se ao lado dele.

— Um tiro! Balbuciou e desmaiou.

Mendes levantou a camisa da vítima.  Havia duas perfurações na altura da cintura.   Rápido, tirou a camiseta e a enrolou no ferimento. Bateu levemente no rosto do homem para acordá-lo.  Quando conseguiu, com imenso esforço o levantou e o incentivou a ir ao hospital.  Colocou os braços dele sobre seus ombros e o arrastou até a aeronave.

Arfando com dificuldade, sentou-se na relva para recuperar as forças após ter acomodado o ferido no pequeno espaço do avião.

Levantou ainda ofegante e assumiu o comando de seu companheiro de aventuras. No caminho, já emitiu um SOS para que o homem fosse atendido rapidamente.  Ao aterrissar na curta pista de seu sítio, uma velha ambulância os esperava.

Levado ao hospital, o homem foi atendido com rapidez e foi submetido a uma cirurgia para a retirada dos projéteis, que felizmente não tinham atingido nenhum órgão.  Fora de perigo e se recuperando bem, o fazendeiro contou que seu agressor era um vizinho, que comprara terras naquela região recentemente, e invadira uma grande área de sua fazenda.  Quando foi notificado pelos meios legais de que tinha que devolver o que roubara, ficou furioso.

Naquela manhã, tinha ido ao pasto examinar uma vaca prenhe, que estava próxima de ter um bezerro, quando de repente, o vizinho chegou a galope e atirou.

Mendes foi homenageado pela sua coragem e eficiência no salvamento ao fazendeiro.

E quando o velho avião decolava para novas aventuras, olhares de respeito o seguiam. E sorrisos lembravam da frase preferida do destemido aviador.

“Não tenho medo de morrer e sim de não viver”.

 

O Despertar - Adelaide Dittmers

 



O Despertar

Adelaide Dittmers

 

O rapazinho de treze anos apertou os olhos feridos pela claridade súbita.  Quando conseguiu abri-los maravilhou-se com o que viu.  Muitas descrições, tinha ouvido sobre o lado de fora, mas o que estava vendo a tudo superava.  Era como se acabasse de ter saído do útero materno.  Como se nascesse naquele momento.

Árvores floridas, um céu vestido de um azul intenso, onde nuvens brancas desenhavam diversas formas.  Abaixo, um rio esverdeado e vigoroso correndo pelo seu leito pedregoso.

O jovem sentiu-se aturdido e sentou-se para recuperar o fôlego e as forças.  Lágrimas cristalinas rolaram de seus olhos. Ele perdera tudo isso por tantos anos.  Vivera na obscuridade ouvindo as diversas histórias dos mais velhos.

Um homem estendeu-lhe os óculos escuros.

— Coloque isso! Você precisa se acostumar com a claridade!

O menino o pegou e o colocou, mas o retirou.

Queria sorver toda aquela luz, queria sentir aquele mundo, que estava experimentando pela primeira vez.

O vento que lhe desmanchava o cabelo era uma dádiva inesperada e balançava a cabeça para senti-lo como se fosse uma carícia.

Saíra de uma caverna para outra realidade. E uma pergunta imperiosa surgiu em sua mente. O que lhe reservaria esse novo mundo... Imenso demais. Misterioso demais. Inesperado demais.

Levantou-se e, com passos incertos, começou a descer a encosta da montanha. O rio o atraia como um ímã.  Abaixava ocasionalmente para pegar uma flor e a cheirava como um animalzinho fareja algo delicioso.

Os outros, que com ele haviam saído do frio e triste bunker, pararam e o deixaram seguir.

A água fria do rio molhou os pés descalços e encharcou-lhe a roupa. Um arrepio de prazer percorreu-lhe o corpo. O menino pisava com cuidado no solo de pedras lisas, apreciando cada contato com aquela natureza, que desconhecera até agora.

Uma voz feminina ecoou à distância:

— Venha, filho.  Temos que ir.

Ele voltou-se vagarosamente.

— Posso ficar mais um pouco?

— Seu avô está sendo esperado.  Precisamos partir já.

O jovem saiu devagar da água e dirigiu-se para o grupo de pessoas, que o esperavam mais acima.

Na sua cabecinha fervilhavam lembranças desencontradas.  Os dias em que homens traziam suprimentos para o bunker e reuniam-se com o avô sob as lâmpadas, que espalhavam uma luz tênue no ambiente. Momentos únicos, em que traziam notícias do mundo exterior.

A guerra, na qual o país mergulhara na tentativa de conter a invasão por outro povo. A fuga desesperada do avô, que governava a nação, juntamente com a família e componentes do governo. O esconderijo naquele lugar escuro. A resistência daqueles que queriam libertar a terra nativa dos opressores e a fidelidade ao avô, escondida no coração de cada combatente. Histórias que ouvira e tivera dificuldade de entender.

Mergulhado nesses pensamentos, chegou perto do grupo.  Olhos emocionados pousaram sobre ele.  Um senhor de cabelos prateados aproximou-se e acarinhou-lhe a cabeça.

— Pedro, você tem muito a descobrir.  Vamos até a estrada.  Carros nos esperam.

Umas trinta pessoas começaram a caminhar até a estrada.  Já tinham lhe contado que os rebeldes conseguiram expulsar os invasores após tantos anos de lutas e armadilhas ao inimigo e o país foi liberto. O que aconteceria, agora?

Ao alcançarem a estrada, vários carros os esperavam. Os olhos de Pedro arregalaram-se.  Pela primeira vez, via um carro.  Um “Ahhh”, de surpresa, escapou-lhe da boca e deu uma volta pelos veículos, admirando cada detalhe.  O menino estava admirado diante daquela realidade, que conhecera apenas pelas descrições e fotografias.  Tudo era muito maior, mais impactante.    As longas conversas com os adultos, as perguntas constantes que fizera resultaram em uma pálida ideia do mundo exterior.

Sorrisos estamparam-se nos rostos das pessoas. O jovem tinha sido o filho de todos durante os longos e tenebrosos anos em que viveram naquele lugar inóspito.  Ele foi a única alegria e um dos fortes motivos de manterem a esperança de lá sair.

De repente, parou. A alegria e o espanto diante das descobertas chocavam-se dentro dele.  Correu para perto dos pais e abraçou-os como um bebê que pede colo para se sentir protegido.

O avô derramou um olhar carinhoso sobre o neto, compreendendo os sentimentos contraditórios que o deviam estar sacudindo.

— Vamos, Pedro! Entre no carro.  Precisamos ir para a cidade.  Estão nos esperando.

Todos tomaram seus lugares e seguiram pela estrada estreita de terra.

O menino tinha os olhos pregados na janela, observando a paisagem que desfilava rapidamente. O sacolejar do veículo e as curvas do caminho o nausearam e a comitiva parou para ele pôr para fora todo o espanto e emoção que aquele mundo novo estava lhe causando.

Algumas horas passaram e pequenas habitações surgiram.

— Casas! Estamos chegando?

— Ainda não!  Veja vamos pegar aquela estrada!

Uma estrada asfaltada estendia-se a perder de vista.  Os carros a acessaram, aumentando a velocidade. O mau estado da pista fazia com que desviassem dos inúmeros buracos, mas mesmo assim tudo parecia voar ao lado de Pedro.  Ao longe, plantações de diversas cores passavam por eles simetricamente alinhadas.  Aqui ou ali, viam-se construções em ruínas.

Muitos quilômetros depois, surgiu mais abaixo de uma colina uma grande cidade.

— Agora estamos chegando, não é?

— Sim, Pedro. É a nossa cidade. A capital do país. Respondeu o avô, com os olhos marejados. 

  Nesse momento, seus pensamentos voaram para a companheira de muitos anos, que não resistiu ao longo tempo de confinamento e que não compartilharia com ele a emoção de retornar ao que tinham deixado.

A cidade os recebeu engalanada.  Bandeirinhas agitavam-se nas mãos do povo para receber o chefe da nação, que a maioria julgara que estava morto.

Espantado, o menino encolheu-se no banco do carro.  As surpresas estavam sendo demasiadas para um único dia de sua curta vida. A angústia dele foi percebida pela mãe, que o enlaçou com um dos braços e acalmou-o com palavras ternas.

Edifícios destruídos eram avistados ao longo do trajeto.  Eram os vestígios da guerra e essa triste realidade abalou o jovem mais uma vez.

Mais adiante, chegaram a uma grande praça, onde uma bela construção se erguia.  O cortejo parou.  Uma multidão lotava o lugar e o nome do avô era ouvido em altos brados.  Saíram dos carros. O avô subiu as escadas lentamente.  Soldados enfileirados prestavam-lhe continência.  Ao chegar a um patamar, no topo das escadas, um microfone o esperava.  Virou-se devagar para o povo e acenou.  Alto, rosto traçado por vincos profundos e olhar intenso.  Transpirava carisma e integridade por todos os poros. A voz firme, mas emocionada, soou pelo lugar e um grande silêncio apagou o burburinho que reinava.

Em um discurso breve, ele agradeceu a todos pela luta pela liberdade e lealdade ao país e a seus princípios mais profundos.  Ao terminar, uma ovação explodiu.  Ele curvou a cabeça em sinal de agradecimento e respeito à coragem daquele povo sofrido. Acenou mais uma vez e virou-se, entrando no palácio. Os companheiros de exílio e aqueles que o ajudaram a reconquistar o país, o seguiram.

Na grande sala, abraçaram-se emocionados.  Uma mesa posta, com várias iguarias, os esperava. O avô, porém, recusou a refeição. 

— Estou exausto.  Preciso descansar.  Vejo vocês amanhã para traçarmos os próximos passos para reerguer o país.  Há muito trabalho a fazer.

E levantando uma das mãos, cumprimentou a todos com um sorriso e saiu da sala.  Os presentes acompanharam-no com olhares de respeito.  Admiravam a bravura daquele homem, que manteve a nação unida, oculto e preso em um bunker no âmago de uma distante montanha, orientando seus homens a resistir e lutar pela expulsão dos invasores.

Quando toda a população soube que o seu líder estava vivo e, mesmo escondido, ajudou a alcançar a vitória, o orgulho despedaçado pelos anos de submissão acendeu-se em cada homem, em cada mulher, em cada velho, em cada criança.

A refeição transcorreu em um clima festivo, que disfarçava uma certa tensão em cada participante, afinal o desafio de ora em diante seria enorme e já pesava nos ombros dos que ajudariam a levantar o país.

Pedro não escondia a agitação que lhe sacudia o íntimo.  Para os seus verdes anos, tudo era muito desafiador. Olhava de um lado para o outro, sentindo a emoção contraditória de cada um, ao mesmo tempo que se surpreendia com o brilho dos talheres de prata, com a louça de filetes dourados e com a alvura da toalha.

Quando o jantar terminou, já os últimos raios de sol incendiavam a sala de tons avermelhados. O jovem correu para a janela.

— O que está acontecendo no céu?

Os pais aproximaram-se:

— É o pôr-do-sol! Não é maravilhoso? Perguntou o pai e completou: Está anunciando o cair da noite. 

Pedro estremeceu:

— Não quero ver a noite! É muito escura!

Na sua memória, surgiu a imagem negra de uma tempestade que atingiu a montanha e do vendaval que abriu e quase derrubou a porta oculta do bunker.  Pessoas correndo para fechá-la. O susto e o medo que se apoderou de todos. A confusão que lhe permitiu ir até a entrada e presenciar a escuridão, o forte aguaceiro e os raios que riscavam o céu. O pânico que o paralisou e o contato com uma mão que o levou para dentro, onde a avó o acolheu em seus braços.

O pai tirou-o dos seus pensamentos.

— Sei do que você está recordando.  Aquela escuridão foi consequência do temporal.  Hoje o dia foi claro e ensolarado. Você vai ficar surpreso ao apreciar a noite.

 — Vamos subir, exclamou a mãe. Você precisa tomar um banho e descansar. Foram muitas as emoções. Mas antes de ir para a cama, vamos admirar a noite do terraço para afastar a má impressão que ficou daquela tempestade.

E, pegando o filho pela mão, subiram a escada. Mas Pedro virou-se:

— Pai, você sobe depois para vermos a noite juntos.

O medo ainda pairava sobre ele.

As luzes piscantes das estrelas e uma enorme e alaranjada lua cheia enfeitavam o céu quando saíram para o terraço.

— Meu Deus! Quantas estrelas! A lua é linda!  Estou vendo o universo, não é?

— Sim, uma pequena parte dele.  Respondeu o pai.

Um profundo suspiro exalou das mais profundas entranhas do menino.  Um torvelinho de pensamentos tentava processar tudo o que estava vivendo e descobrindo em um único dia.  Sacudiu a cabeça, tentando ordenar o que lhe passava pela mente.

— Estou cansado!

— Vamos entrar! Você precisa de um bom sono!

Já deitado, recebeu os beijos dos pais. A cama macia o abraçou e o aconchegou.

— Deixem a porta do terraço aberta!

O luar prateado, salpicado de estrelas, iluminou e embalou os sonhos de Pedro.


A CARTOMANTE - Alberto Landi

 

 



A CARTOMANTE

Alberto Landi

 

Em uma cidade movimentada como São Paulo, onde os edifícios se elevam em direção ao céu, vivia Franco, homem de negócios conhecido por sua determinação e carisma.

Ele era admirado por sua habilidade de conquistar qualquer desafio que surgisse em seu caminho, sempre confiante em seu destino, moldado por suas próprias mãos.

Um dia, estando de férias em um local pitoresco do Caribe, ele soube que havia nos arredores do hotel uma cartomante espanhola de nome Carmem, que diziam ter o poder de ler o futuro nas cartas de tarô.

Curioso e cético, decidiu entrar na tenda colorida para leitura do destino.

Enquanto aguardava ansiosamente para ser atendido, um ar de mistério e incerteza, uma senhora de olhos profundos mergulhou nas cartas velhas e desbotadas, buscando respostas no tecido do tempo.

Com uma expressão séria e concentrada, a vidente começou a revelar as visões que se desdobravam diante dela, descobrindo segredos ocultos e verdades enterradas sob as camadas do passado.

Franco, inicialmente cético, sentiu seu coração se encher de emoção à medida que as palavras de Carmem ecoavam na tenda silenciosa.

— “Vejo um caminho tortuoso que você percorreu cheio de desafios e tribulações” murmurou a vidente com uma voz suave, mas carregada de significado”, e também vejo uma luz brilhante no horizonte, uma oportunidade de renovação que aguarda suas escolhas.

Ele prendeu a respiração, capturado pela intensidade das palavras de Carmem, que pareciam penetrar fundo em sua alma, revelando verdades que ele próprio havia tentado esconder. As lágrimas brotaram em seus olhos enquanto ele reconhecia a sabedoria contida nas cartas misteriosas e no olhar perspicaz da vidente.

— Você carrega consigo o peso do passado, mas também o potencial do futuro. Continuando com seus dedos delicados, desenhava em um papel figuras complexas.

— “Sou seu guia no caminho para iluminação, com sabedoria estou aqui para ajudá-lo a encontrar respostas e alcançar a paz interior.”

A escolha é sua, dizia, aceitar o desafio da mudança ou permanecer estagnado na sombra do que foi.

Com o coração transbordando de emoção e determinação, ele olhou nos olhos da Carmem, vendo não apenas uma leitora de cartas habilidosa, mas sim uma orientadora empática que o convidava a abraçar seu próprio destino com coragem e esperança.

— Tudo na vida é como uma tempestade, mas vou te ajudar a passar por ela.

E assim, naquele momento efêmero entre o passado e o futuro, ele se sentiu renovado pela força das palavras e pelas promessas de um novo começo que aguardava além das sombras do passado!

 

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

A herança não pode tardar - Pedro Henrique

                          


 

A herança não pode tardar

Pedro Henrique

 

Dinheiro, sim, dinheiro, essa palavra que me delicia a boca. Que com cada uma de suas 8 letras e 7 fonemas tem o poder de reger a vida. Não há quem não o queira, não há quem não o deseje, não há quem não o ambicione. Se acham que vim aqui lhes contar algo simplório, convido-os a se retirar. Esta história é perigosa.

Uns dizem que tudo começou devido à vaidade, outros, ou por uma desgraça. Eu, porém, me coloco entre as afirmações e permito a visão macro dos fatos. Trata-se de uma mulher abastada, que teve acesso a todos os privilégios. Seu nome? Magnólia Monteiro dos Santos, filha de Lúcia Monteiro dos Santos e Rafael Vitório dos Santos, um dos empresários mais respeitados da indústria alimentícia, que infelizmente faleceu.

Toda sua fortuna recaiu nos braços de Lúcia, e não se importou com inventário nem com a distribuição da parte da Magnólia, afinal a filha ainda era uma criança. Ela, então, desfrutava de uma vida que, aos olhos dos outros, a inveja se fazia inevitável. Falo de jantares, viagens internacionais, roupas do mais fino tecido, uma casa que caberia um bairro inteiro, joias que valiam prédios e todas as coisas boas inerentes à vida daqueles que são agraciados com ouro e prata.

Criou sozinha a filha Magnólia. Claro, teve ajuda da babá e dos outros funcionários da casa, estes não sabiam como lidar com os mandos e desmandos da pequena Magnólia. A menina era autoritária; aí daquele que questionasse uma ordem sua. Se pedisse para você pegar o brinquedo que queria, deveria ir correndo, pois, se assim não o fizesse, se jogaria no chão em prantos e persuadiria, com a mais sofisticada das atuações, Lúcia Monteiro dos Santos, a entregar sua carta de demissão.

Além de tudo, era vaidosa. Não aceitava qualquer sapatilha, queria da Chanel; não gostava de qualquer maquiagem, queria a mais cara. Não lhe importava o preço, importava que era a melhor. Lúcia se deixava levar pelos caprichos da filha, e assim a menina cresceu se sentindo a verdadeira Cleópatra, a verdadeira rainha da terra. Muitos afirmavam que nela residia o próprio diabo. Era má e gostava de ser.

Magnólia cresceu e, como toda menina bonita, foi alvo dos olhares de um homem sedutor: Alberto de Campos Nunes, um grande empresário do ramo imobiliário da cidade de São Paulo.

Não havia uma que não se entregasse ao seu charme. Alberto, para Magnólia, não era senão uma questão de honra. Queria provar para si mesma e para todos que era capaz de seduzir quem quisesse.

Não demorou muito para ambos se casarem e terem sua primeira filha, Emanuela Campos dos Santos. Os anos se passaram e, com eles, a juventude de Lúcia também. Quando chegou aos 70 anos, uma doença bateu à porta. Todavia, não só a doença foi a grande questão entre a família. Havia algo acontecendo; a maldição começou a surgir das sombras e ganhar vida na multidão. A empresa de Alberto estava indo à falência, o assunto foi o mais enfatizado durante semanas na casa da família, não havia solução. Sendo assim, o casal arquitetou um plano para resolver o problema: acelerar a morte de Lúcia.

Pois, desta forma, Magnólia herdaria tudo e poderia ajudar o marido.

Quando Alberto contou o plano para Magnólia, ela nem ao menos se assustou. Pelo contrário, degustou a ideia como quem degusta o prato mais saboroso que já comeu até então. E juntos, estabeleceram uma estratégia para executar Lúcia. Era o seguinte: numa noite de sábado, quando Magnólia voltasse com Lúcia do hospital, deveria ser forjado um assalto em frente à garagem do casarão. O ladrão, no entanto, só teria um alvo, e não era o dinheiro.

E assim se sucedeu. Era uma noite fria quando Lúcia retornou para casa ao lado da filha, depois de sua passagem pelo hospital, como já era de costume devido à sua doença. Magnólia estacionou o carro em um ponto diferente dessa vez. Lúcia achou estranho e questionou a filha.

— Por que estacionou aqui fora?

— Ah, estacionei aqui porque só vou entrar com a senhora e depois vou sair com o carro. Vou encontrar umas amigas no shopping.

— Ah, sim.

Então, quando Lúcia colocou os pés para fora do veículo e foi em direção ao portão, a filha, ciente dos fatos futuros, se precaveu e ficou alguns metros afastada da mãe. Desta forma, como planejado, veio um homem das sombras, do nada, encapuzado como quem queria permanecer no anonimato, sacou uma arma e, em voz de mando, ordenou:

— Passa tudo, passa tudo.

Lúcia olhou assustada para o rapaz e depois levou seu olhar para a filha, percebendo que nela não havia nenhum pouco de desespero. Estranhada, olhou novamente para o rapaz que disparou três tiros. A bolsa permaneceu nas mãos de Lúcia, dinheiro nenhum foi levado, roubo nenhum foi cometido. Estava feito.

Lúcia tombou no chão. Sufocando, olhou para a filha e, com o pouco de voz que tinha, rogou-a:

— Me ajuda.

Magnólia se aproximou da mãe, abaixou-se ao seu lado direito e pegou sua mão.

— Ah, mamãe, eu queria tanto lhe ajudar, mas não posso. A senhora vai ficar bem, eu juro.

— Só me ajuda, por favor.

Magnólia levou a mão aos cabelos grisalhos da mãe, e Lúcia, como quem já foi graduada nas malandragens da vida, soube o que acabara de ocorrer. Olhava com espanto e medo, com terror, para a própria filha. Não reconhecia o ser humano que estava à sua frente, não reconhecia a menininha que tinha criado, dando-lhe de tudo. Se perguntava: "Onde foi que eu errei?" Pensava, como há muito tempo, que a vida era um local onde as crueldades fazem parte do ecossistema.

Era assim e sempre foi. O culpado? Bom, lhes digo: o dinheiro.

Lúcia, entretanto, em todos aqueles devaneios rápidos que passavam como um carro em alta velocidade por sua mente, só teve a capacidade de verbalizar uma única sentença, da qual precisava mais do que tudo dá resposta.

— Por quê?

— Ah, mamãe, a herança não pode tardar.

 



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