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quarta-feira, 30 de março de 2022

A PORTA - Helio Fernando Salema

 



A PORTA

Helio Fernando Salema

 

Sexta-feira no início da noite, CRIS recebeu um telefonema de Sandra, que estava desesperada. Sua voz era trêmula, como o barulho das folhas das palmeiras em tempestade, e em alguns momentos interrompida por choro, como uma criança que não consegue separar o momento de falar e o de chorar.

Quase não conseguia explicar o que acontecera. Momentos de silêncio deixavam dúvidas e preocupações, várias vezes CRIS tinha que perguntar se ela estava se sentindo bem.

Quando finalmente, começou se acalmar, foi lentamente explicando o acontecido, a todo instante repetia palavras de ofensas:    

 “Aquele verme sem escrúpulos”, depois de 5 anos, resolveu terminar sem dar a menor satisfação, miserável…. Ele me paga…. Miserável.

Todo este desabafo sua amiga de infância ouviu atentamente. E a cada instante mais preocupada ficava. Não tinha a menor ideia de como socorrê-la.

Usando palavras de estímulo, lembrando a ela, que outrora já havia passado por maus momentos e teve forças para superar, certamente agora não seria diferente.

Depois de longos minutos, em que relatou tudo que lhe passava pela cabeça sem rumo, e ouvindo as palavras confortantes, aos poucos Sandra se deu conta de que o relacionamento chegara ao fim, mas na sua vida ainda havia muito chão para caminhar e água dos rios para ver passar.

Subitamente lhe surgiu uma ideia. Sair para uma balada para tentar se animar.

Mas, ao mesmo tempo, não se sentia forte o suficiente para ir sozinha. Apelou para a amiga acompanhá-la. O que, a princípio, esta não via o convite como algo bom para ambas.

O noivo da CRIS estava num congresso em outra cidade, só retornaria na próxima semana. Também porque não costumava sair à noite sem a presença do noivo. Nem frequentar baladas. Geralmente iam ao teatro, cinema e jantares com amigos. Tentou contatar com ele, mas em vão.

Não tendo outra alternativa, e diante da situação aflita da amiga, pensou na possibilidade de atendê-la. Mas colocou algumas restrições, como a escolha do local e não aceitar companhia de qualquer cavalheiro.

Assim, ao chegarem ao local da balada, escolhida por Sandra, CRIS percebeu que era um lugar que sua amiga conhecia muito bem.

Completamente avesso aos lugares preferidos por CRIS, que pensou até em desistir. Seria sair sem avisar a amiga ou inventar uma boa desculpa. Mas como ter certeza de que ela não ficaria aborrecida, sentindo-se abandonada? Ao perceber a mudança positiva de ânimo da amiga, preferiu aguardar.

Mas, finalmente, por mais que tentasse permanecer ali, não se sentia bem. Vendo que a amiga já arrumara um jovem para se distrair, decidiu ir ao toalhete e depois avisaria que estava saindo.

A casa estava lotada. Com muito custo, conseguiu seguir a indicação do letreiro. Ao abrir a porta, viu que era um corredor com várias outras portas, sem nenhuma indicação. Assustada ficou parada.

Poucos segundos depois, duas moças entraram pelo mesmo corredor, então decidiu segui-las. No toalhete ficou mais tranquila, principalmente por estar longe do barulho do salão, havia iluminação e perfumes que preenchiam o ar.

Pensou em ficar ali por um longo tempo ao invés de ir embora deixando sua amiga assim tão cedo. Comparando sua situação ali no toalhete, que não era nada agradável, era, porém, menos ruim do que a da amiga horas antes.

Até que entrou um grupo fazendo algazarra, não teve escolha, saiu. No corredor com tantas portas, com muita pressa e preocupada em encontrar a amiga na escuridão do salão. CRIS abriu a primeira porta que viu.

Ficou assustada ao ver que era uma sala, onde um casal, sem roupas, fazia amor tão caloroso que não perceberam sua presença. Muito assustada, não acreditava ser real o que estava vendo, parecia cena de um filme.

Quando o casal percebeu que estava sendo observado, houve um espanto, provocado pelo homem que reconheceu a CRIS, sua noiva.

Ela manteve a porta aberta ao máximo e imediatamente começou a gritar:

— Socorro…. Socorro!

Rapidamente apareceu um segurança, ela foi apontando para a sala:

— Foi dali…. Foi ela…. Um estupro …Estupro!

Vários outros seguranças foram entrando, seguidos por curiosos, ela aproveitou a multidão que lotava o local, logrou sair de mansinho, sem ser notada.

Com muito custo encontrou Sandra no salão e lhe disse que ia embora. Sandra a acompanhou. Na calçada encontraram um táxi, e foram para o apartamento de Sandra.

Lá chegando, depois de alguns minutos confortavelmente acomodadas, a sós e menos assustadas, CRIS pelo que viu, e Sandra pelo que não viu, mas sem entender o alvoroço da amiga para sair da balada tão depressa e nervosa. Ficaram por algum tempo em silêncio total.

Sandra aguardou até que tudo se acalmasse para perguntar o que aconteceu.

Após contar tudo com muita calma, como quem resignada, aceitava, o que sabiamente não tinha poderes para modificar. Ficou em silêncio, como se esperando uma resposta de Sandra.

Esta, mal acreditando no que acabara de ouvir e lembrando do sacrifício que a amiga fez para ajudá-la e também, pelo fato de que fora ela, quem sugeriu a balada, disse a CRIS que podia ficar ali aquela noite.

Foi uma noite difícil para ambas, que não conseguiram dormir tranquilamente. As lembranças atordoaram suas cabeças, ainda com dificuldades para se concentrarem em situações menos desagradáveis.

Na manhã seguinte, depois de um bom café e um momento de serenidade, Sandra deduz que seu problema já não era tão desastroso, como um terremoto, diante da situação de sua amiga.

Assim se sentiu em condições de ajudar. Iniciaram então a análise das possibilidades. Planos não faltaram. De comum acordo ficou decido que CRIS ficaria morando ali com Sandra.

 

Enquanto isso no apartamento de CRIS o telefone tocou e tocou por muitos dias. 


CABO DA ROCA - Alberto Landi

 




CABO DA ROCA

Alberto Landi

 

O cabo da Roca, é uma pequena península que se estende da serra de Sintra, a oeste de Lisboa, até o Atlântico.

A visão do sol envolto pela neblina nesse dia, parecia um disco de prata. O final da tarde era um espetáculo a parte, pois o sol refletia no azul e na vastidão do oceano, como uma bola de fogo cor de laranja.    

Localizado na freguesia de Colares, que faz parte de Sintra, a cerca de 40 km da região central de Lisboa e a 16 km de Cascais.

A visão que se tem dos paredões e rochas junto ao oceano é impressionante.

Camões já mencionava nos Lusíadas:   ¨Aqui é onde a terra se acaba e o mar começa.

Já diziam os poetas, que aqui é um promontório da lua.

A vista panorâmica também para a serra é fantástica.

A imensidão do oceano remete-nos imediatamente para uma reflexão pessoal e histórica sobre os descobrimentos portugueses.

É onde Febos repousa no oceano. Era o deus romano equivalente ao grego Apolo.

 

No céu, pairavam uma águia branca e dois falcões. Nos prados vizinhos, flores silvestres, arbustos de alecrim e amora, tremulavam na brisa.

Pelo caminho, em direção a feira dominical, um jumento puxava uma carroça carregada de legumes, limões, coentros. Do lado do mar, abaixo da falésia, contornando a costa de Cascais ouvia-se o chape chape lento dos barcos, que levavam o pescado para o mercado da Ribeira.

O cabo é uma grande falésia com mais de 140 metros de altura, é o ponto mais ocidental de Portugal continental e da Europa continental. Deste local ate Nova York, são aproximadamente 5.200 km de mar.

Este foi um passeio que me impressionou muito, devido a imensidão do oceano, falésias e a serra com sua imensa floresta.

 

quarta-feira, 23 de março de 2022

ESTRUTURA DO ENREDO

 

ESTURTURA DO ENREDO


Aqui temos um anagrama da construção de uma história.

A arquitetura, os esboço em gráfico, do passo-a-passo de um conto, seria assim:










A TAPEÇARIA - ALBERTO LANDI

 

Museu Guggenheim, Bilbao




A TAPEÇARIA

Alberto Landi

 

Olhando para uma tapeçaria que adornava a parede do museu Guggenheim, na cidade de Bilbao, notei que algumas linhas de lã compunham o desenho de um casal de mãos dadas e que estava sentado em um banco de jardim, tendo ao fundo um cenário de árvores plantadas em um gramado com um lago no meio.

Este casal aparentava estar numa festa de gente com mais de 60 anos de idade, e que havia muitos gestos de entrelaçamento de suas mãos, muita candura e um amor que emanava dos seus olhos.

Este museu, como a maior parte de todos, é tombado pelo patrimônio histórico, trata-se de um museu que abriga vários objetos antigos, pinturas, as mais diversas possíveis, de artistas renomados. No teto das salas havia afrescos, com vários tipos de imagens.

A tapeçaria, que retratava aquele casal, me espantou e me absorveu um bom tempo de contemplação, pois à medida que olhava para eles, observava que no seu entorno, havia fios que estavam desgastados e desbotados.

A imaginação correu solta, e admiti se tratar de um casal que superou as provações que a vida lhe impôs, pois, as linhas que formavam o tecido com suas imagens estavam íntegras, tanto na forma como na sua coloração.

A vida destas duas pessoas que se olhavam com brandura, com as mãos dadas, foi elaborada por uma hábil tecelã, a que chamei de destino. Para chegarem neste dia retratado, em que a luz do sol iluminava de uma forma suave, considerei que estariam comemorando o fato de estarem unidos por um longo período de suas vidas. Neste olhar havia além do carinho recíproco, o reconhecimento pela união.

A talentosa mulher que teceu os fios deixou que notássemos a diferença das outras linhas tecidas e que não suportaram a ação do tempo e que por isso ficaram puídas e se desprenderam.

A conclusão a que havia chegado, depois de tanto apreciar aquela tapeçaria, é que o destino, segundo as mãos da fiandeira, não uniu todos os fios com a mesma intensidade, e me fez entender o porquê de muitos casais não conseguirem suportar a ação do tempo.

Acredito que muita coisa depende do ser humano, mas nem sempre a pessoa que tece, aperta de maneira suficiente os nós que formam as tramas do destino, assim, as linhas que foram ligadas com frouxidão irão se soltar com o passar do tempo.

Somos os que conseguimos superar a ação do tempo de uma vida conjugal, não percebemos, mas em várias circunstâncias do tempo operamos como restauradores de um objeto de arte precioso, e nos aliamos à hábil tecelã para que as linhas das nossas vidas não sejam desfeitas, rompidas ou desbotadas.

Dizia minha avó ao fazer o seu tricô, que para cada ponto se dá um nó, caso contrário ele se desmancha. Os nossos nós estão firmes no tempo e espero que aguentem bem até a grande obra terminar a nossa vida.

Hoje em dia é muito raro isso, confesso que até me espanta!

 

terça-feira, 22 de março de 2022

Duas irmãs - Ana Catarina S. Maués

 


 Duas irmãs

Ana Catarina S. Maués

 

     Oh! Que dia lindo. Oh! Que dia lindo! Era assim que Norma entrava pela manhã no quarto escuro da irmã mais velha. Sempre cantarolando uma canção, puxando o edredom que descansava suavemente por sobre o corpo de Sônia e esta, como querendo fugir daquela alegria contagiante, enroscava-se cada vez mais para dentro do cobertor.

— Levante minha irmã, mas desperte feliz, certo. Deixe aí no travesseiro essa cara fechada. O sol está frio, a brisa sopra suave, teremos uma manhã gostosa.

     Irmãs, com diferença de dois anos da primeira para a segunda, tudo dividiam, desde uma fatia de bolo até roupas, sapatos e bolsas.

— Norma, não sei que sapato usar pra missa, se este fechado ou essa sandalinha baixa, talvez você me empreste aquele de salto rampa marrom, que se acha?

— Claro minha irmã pode pegar.

— Ah! Deixa. Vou com este aqui mesmo. Respondeu Sônia, mas ainda com cara de indecisa.

    Estudavam na mesma escola, em séries diferentes, mas isso não as impediam de irem e voltarem juntas para casa, numa amizade elogiável a quem observasse.

     Os pais eram atentos com as notas das filhas no colégio principalmente com as da mais velha que, segundo eles, era lenta e preguiçosa.

 —  Norma, fiquei com nota vermelha. O que faço? Disse com as lágrimas já escapulindo dos olhos.

    —  Calma, daremos um jeito. Mas por favor não chore. Eu vou imitar a letra da mamãe no caderno de avisos e aí você não mostra pra ela, só mostra quando a nota vier azul, pois você vai tirar nota melhor da outra vez não vai?  

    Em casa ajudavam nas tarefas, porém quando algo saia errado para não ver Sônia choramingando por causa da bronca a ser recebida, Norma logo assumia a culpa.

    De alma doce e angelical Sônia, era protegida pela irmã mais nova com personalidade arrojada e determinada.

    Uma vez, na saída do colégio, elas se encontraram com umas meninas de outra escola que começaram a puxar encrenca. Dizer coisinhas sobre o cabelo delas que era desarrumado, que elas exalavam mau cheiro, coisas desse tipo.  Foi Sônia com sua humildade natural que segurou a irmã para que não saísse uma briga de socos e pontapés.  

     

     O coração de ambas não havia despertado para o amor até que um dia, chegou um aluno novo no colégio. Rapaz alto, corpo atlético, braço robusto, cabelo bem cortado, modelo ideal das meninas.

     Norma investiu forte na conquista. Primeiro mandou um bilhetinho anônimo. Depois mandou recadinhos audaciosos pelas amigas, depois propôs um encontro, mas ele não dava atenção.

     Em casa ela contava tudo para a irmã, que calada ficava sem revelar o sentimento de amor que nutria pelo mesmo rapaz.

     Até que devido a insistência de Norma, eles iniciaram um namorinho, mas na verdade era para ele se aproximar de Sônia que cada vez mais dominava e avançava dentro do coração dele, que, pelo seu jeito inseguro de ser, não tinha coragem de se revelar para ela e se viu no emaranhado promovido por Norma.

    O envolvimento dos dois só durou uma semana. Logo, logo o sentimento verdadeiro por Sônia explodiu e sem poder segurar se declarou.

    Com o tempo a paixão se consolidou, Sônia mesmo recatada, conseguiu roubar o coração do moço, para tristeza de Norma que passou a perseguir o casal fazendo muitas intrigas. Dissimulada enchia a cabeça de Sônia falando de infidelidade do moço que se chamava Paulo. Mas não adiantava as mentiras de Norma, o casal era bem estruturado, apesar da pouca idade.

     O tempo passou e as coisas se ajeitaram. Não sei se Norma conseguiu olhar para Paulo como cunhado, pois era muito engraçado ver ele caminhando de mãos dadas com as duas, vindo do colégio, ou indo à missa aos domingos. Os três pareciam muito unidos.

     E deu casamento. Paulo e Sônia casaram, logo depois da formatura do colegial. Ele conseguiu um bom emprego e não perdeu tempo. No papel o casamento foi a dois, mas entre quatro paredes será que não ficou a três?


quarta-feira, 16 de março de 2022

Consequências - Hirtis Lazarin

 


Consequências

Hirtis Lazarin

 

Já é primavera.  Despontam os primeiros raios do amanhecer.  Chegam leves e brincalhões, esgueirando-se entre galhos e folhas das árvores mais altas.  Acordam pássaros ainda nos ninhos. Aos poucos se fortalecem e colorem a natureza.  Inspiração aos poetas e a “Monet”.

Essa felicidade bate à porta da família Rodrigues, mas não consegue entrar.

Na cozinha, o casal toma o café da manhã.  Cada um senta-se na ponta da mesa comprida.  Ela, abatida, olheiras profundas mostram que chorou muito e, provavelmente, passou a noite em claro.  Ele, vez ou outra, lança-lhe um olhar amargo e enfurecido. Irrequieto, derruba café na camisa branca. Raivoso, empurra a cadeira e sai esbravejando.

Cristina e Fernando estão casados há quase trinta anos.  Têm dois filhos: Rui, formado em medicina e Vitor, estudante de veterinária.

Um casal modelo e bem-sucedido.  Ele, diretor numa multinacional e ela psicóloga e orientadora vocacional, numa escola alemã.  Gente simples e hospitaleira que coleciona amigos.  Sempre há um motivo para reuni-los e festejar.

Fernando chegou do trabalho bem mais tarde, mesmo sabendo que a esposa prepara e espera-o para o jantar todos os dias.  Ele atravessa a cozinha.   A casa está silenciosa e muito escura.  Tateando as paredes, encontra o interruptor da sala.

Cristina está caída aos pés da escada de mármore que dá acesso ao piso superior.  Os cabelos loiros estão avermelhados e um fio grosso de sangue escorre da cabeça ao pescoço.

Em pânico, ele toma-lhe o pulso.  Não há sinal vital.  O corpo gélido.  Cristina está morta.  Fernando corre de um lado pro outro sem saber o que fazer.  O celular, procura e não acha.  Grita por socorro e os vizinhos, solidários, entram na casa.   A polícia chega rápido.

As hipóteses são muitas... Ela sofreu mal súbito e rolou escada abaixo ou desequilibrou-se no salto alto do sapato... À primeira vista, a casa está em ordem, as portas todas trancadas e nenhuma vidraça quebrada.

O corpo é encaminhado ao IML e a casa interditada para que a perícia fizesse as investigações, sem correr o risco de alteração da cena do crime.

Concluiu-se que Cristina foi morta na cozinha.  Sobre a mesa, havia um livro de receitas aberto às páginas 45 e 46, respingadas de sangue.  Ao lado, ingredientes para um bolo de chocolate, o preferido do esposo.

Provavelmente, um bastão grosso de madeira golpeou sua cabeça por trás.  Ela estava com o tronco inclinado pra frente, compenetrada na leitura da receita. Foi surpreendida e não teve tempo pra reagir.  O corpo foi arrastado e o “luminol” mostrou um rastro de sangue da cozinha até os pés da escada. Esse bastão ainda não foi encontrado.

O crime aconteceu justamente no dia em que os funcionários não estavam presentes.  Era hábito do casal conceder-lhes folga extra, uma vez por mês

O delegado convocou familiares, amigos, vizinhos e todos que frequentavam a casa.  O casal era um exemplo de família.  Nenhuma suspeita.  Quinze dias depois, quando tudo já havia sido virado e revirado, todos voltaram a nova rotina, se é que há rotina onde aconteceu um assassinato.

Fernando autorizou, logo nos primeiros dias, que a governanta Amélia encaixotasse os pertences da esposa.  Eram muitas roupas, sapatos, bolsas de grife e perfumes importados.  Faria um bazar e o dinheiro arrecadado seria distribuído às instituições.  Insuportável sentir o cheiro de Cristina.  O casamento perfeito de duas pessoas que driblam os problemas em busca da solução.

Trabalho difícil para Amélia.   As duas não tinham segredos.  Tantos anos trabalhando na mesma casa, convivendo com as crianças, participando dos bons e maus momentos... Tornaram-se grandes amigas e confidentes em todos os detalhes da vida.  Um mistério.  Não conhecia ninguém que tivesse qualquer rancor por Cristina. Ela contava-lhe tudo.

Numa bolsa pequena, a governanta encontrou a agenda da patroa. Folheando-a aleatoriamente, e sem interesse em ler as anotações, chegou à página onde estava registrado o dia anterior à morte de Cristina.   Chamou-lhe a atenção a letra grande, tremida e grafada com tinta vermelha.  E muitos coraçõezinhos desenhados... Sentiu arrepios e um pressentimento ruim causou-lhe náuseas.   Só se deu conta do tempo que tinha passado, quando Fernando chegou da rua e chamou-a lá do andar de baixo.   Já era noite.

Guardou a agenda e, no dia seguinte, entregou-a ao delegado.  Meses depois, dois homens foram novamente convocados e um deles, como suspeito, ficou preso preventivamente.

Na última página da agenda, Cistina escreveu:

“Uma hora da manhã.   Contei a Fernando o que me torturava há vinte anos. Contei que Vitor não era seu filho.  Era filho de um de nossos melhores amigos.  Aconteceu depois de muita bebida.  Estávamos a sós, num boteco.  De madrugada.  Nem me lembro direito como aconteceu.  Acordei nua no motel ao lado dele.

Fernando ouviu tudo sem dizer uma única palavra, sem pedir mais explicações. O silêncio dele me torturava. Eu queria que reagisse, que gritasse.  A formatura de Vitor é no mês que vem e eu precisava contar. Meu casamento tá destruído. A traição, foi uma única vez.  Eu jurei que foi uma única vez.  Pedi perdão mil vezes. Tentei não chorar.   Cai de joelhos.  Sempre fui fiel.

Fernando permaneceu mudo e os olhos vermelhos descarregaram-me todo ódio que existe no mundo.  Fechou os punhos para não me bater, e deu um soco no espelho da penteadeira.  Cacos voaram pelo quarto todo. E sua mão sangrou. Chutando o que encontrou à frente, trancou-se no quarto de visitas.  Eu ouvi urros, muitos urros.”

OBSERVAÇÃO:  “Passei a noite em claro e, como faço todas as manhãs, vou preparar o café pra nós dois.  Só me resta aguardar as consequências. ”

 

ZÉ DO PICADINHO - Henrique Schnaider

 


ZÉ DO PICADINHO

Henrique Schnaider

 

Vou contar uma história que vem da minha juventude que é mesmo de causar espanto. Ela é verdadeira e estes crimes tomaram conta dos jornais da época.

José Alves dos Santos nasceu num lar pobre no interior de São Paulo na cidade de Pirassununga. Ele foi o terceiro de quatro filhos do casal. Sua mãe se desdobrava ao ter que cuidar dos meninos, carinhosa, sempre dando atenção e fazendo o possível para que a vida deles fosse a melhor que ela podia oferecer.

O pai era um péssimo marido, vagabundo, alcoólatra e violento, fazia da vida da mãe e de José e seus irmãos, um verdadeiro inferno aqui na terra. Além de não trabalhar, surrava os meninos sem nenhuma razão. Enquanto a mãe saía para trabalhar fazendo faxina e ganhando os seus míseros trocados e outras doações de roupas e alimentos que as patroas lhe davam.

Quando chegava do serviço, era dolorido de se ver, com as crianças todas marcadas de vergões, pelas pancadas recebidas do pai. Arlindo completamente embriagado, recebia a esposa com pancadaria, exigindo que ela fosse para o fogão preparar a refeição para todos.

Dessa forma a vida triste foi passando e nenhuma esperança de melhoras. José e os irmãos transbordavam de tanta revolta. A desgraça rondava a casa onde José e os irmãos moravam.

Um dia a esposa chegou em casa e foi recebida a murros e pontapés e caiu desfalecida sem chances de sobreviver. Os filhos já adolescentes, não suportaram mais tamanha violência. Juntos foram para cima do pai agredindo-o com pedaços de pau, levando-o à morte.

Neste dia os rapazes se tornaram órfãos e resolveram cada um ir pro seu lado. José foi à estação e pegou um trem com os trocados que tinha e veio para a Capital São Paulo. Foi parar numa pensão na rua Aurora. Saiu a procura de emprego e acabou trabalhando como carregador no Mercado Central.

A vida seguiu seu rumo, já com Jose adulto, mas ele era de fazer pouca amizade e carregava com ele a dor de uma revolta imensa de ter presenciado e participado no fim das contas, de tanta violência ao se desfazer a sua família,

Jose que morava na zona de prostituição, começou a se relacionar com as prostitutas da região. No começo tudo seguia o curso normal de quem pagava para ter um carinho e uma relação sexual. Mas ele não ficou satisfeito e as coisas pareciam piorar. Até que um dia José depois de se deitar com uma prostituta, sentiu uma violência e um ímpeto muito grande e sem controle matou a indigitada.

Com aquele corpo estendido na cama, José pensou como se livrar do cadáver. Pegou uma faca bem afiada e destrinchou o corpo em vários pedaços e colocou numa mala. Saiu dali carregando aqueles pedaços de gente e foi de táxi até o rio Tietê e sem testemunhas jogou a mala no rio.

O instinto assassino de José não parou na primeira vítima. Continuou a matar, picar e jogar no rio.

A polícia investigando aqueles crimes sem solução e com os jornais da época explodindo em manchetes enormes. Falando do Zé do picadinho, apelido que deram sem saber a quem se referiam. A opinião pública exigindo e pressionando as autoridades para uma solução daqueles crimes bárbaros.

Um dia seguindo sua rotina de crimes. José foi carregando sua mala em direção ao rio e para sorte da polícia e das prostitutas, passava por ali um carro policial na rotina de ronda. Viram aquele suspeito com a mala e pararam a viatura e se aproximaram dele. Mandaram abrir para ver o que levava e, já desconfiados, encontraram o corpo de uma mulher, em pedaços.  

José foi preso e condenado a muitos anos de prisão. Passado algum tempo, ele foi solto por bom comportamento. Mas o seu instinto assassino estava apenas adormecido. Despertou novamente e as mortes voltaram a acontecer.

Para a polícia não foi difícil localizar Zé do Picadinho e ele voltou para a prisão, ali permanecendo até o final dos seus dias.

Contei esta história porque depois de alguns anos aconteceu de um dia eu estar na casa do meu amigo de infância Carlos Azolini que trabalhou como Perito Criminal em São Paulo. Inclusive trabalhou no caso do Zé do Picadinho. Ele buscou uma pasta, tirou e me mostrou fotos dos crimes praticados. Me deixando espantado com o que eu vi.

Na época que os crimes aconteceram. Era espantoso saber dos fatos acontecidos com os crimes e da forma como foram praticados. Mas depois de ter visto as fotos deles. A minha sensação foi de horror, pois eu não podia acreditar que o ser humano fosse capaz de tamanha violência.

Mas infelizmente este é o mundo em que vivemos e a cada dia nos surpreende de forma negativa.

 

INACEITÁVEL - Helio Fernando Salema

 



INACEITÁVEL

Helio Fernando Salema


Estava como carona num carro em uma das principais avenidas de uma grande cidade. Assim que o final fechou, percebi, que ao longe, vinha um menino colocando um saco plástico com algumas balas, no retrovisor de cada veículo.

Muito antes de chegar ao carro em que eu estava, voltou correndo. Consegui vê-lo pegando cada saco numa rapidez incrível.

O sinal abriu, andamos lentamente, até pararmos antes de atravessarmos. Lá estava ele na calçada aguardando o fechamento do sinal.

Ao ver que estava fechado no nosso sentido, veio correndo e novamente pôs sua mercadoria nos retrovisores. Pela altura calculei que deveria ter no máximo dez anos. Usava um tênis simples, bermuda e camiseta. Cabelos penteados e o rosto que parecia limpo.

Quando passou por mim, acompanhei seus passos pelo retrovisor. Durante todo o trajeto não logrou nenhuma venda.    

O trânsito evoluiu e poucos minutos depois estávamos em uma outra avenida.

Ao pararmos, inicialmente não vi ninguém que estivesse aproveitando o local para fazer qualquer tipo de comércio.

Logo depois aparece um outro menino, que aparentava ter pelo menos doze anos, com um pedaço de papelão, mostrando para os motoristas. Com roupas um pouco sujas e com semblante desanimador. Vi que ele não conseguiu coisa alguma.

Passando por outros cruzamentos, sem parar, vi que nas calçadas, perto dos sinais havia crianças.

Ao chegar em casa, satisfeito por ter concluído tudo o que havia planejado, comecei a pensar naquilo que em poucos minutos me causara indignação.

 

Há pelo menos duas décadas, quando eu residia numa pequena cidade, em outro estado. Fui a uma cidade próxima para reunir-me com amigos. Pela primeira vez eu participaria. A finalidade era arrecadar brinquedos ou recursos para o Natal de crianças pobres.

Ao me aproximar deles, uma criança bem pequena, chegou perto de mim, e estendendo a mão,  pediu-me um dinheiro para comprar leite. Instintivamente peguei uma nota, dei àquela menina, que agradeceu e saiu correndo, numa direção que não percebi.

Ao chegar junto aos meus amigos nós nos cumprimentamos. Logo ao término das cortesias, um deles chamou minha atenção:

— Você não deveria ter dado dinheiro para aquela menina.

Um pouco espantado:

— Ora…Por que não?

— A mãe dela é que manda ela ficar pedindo. Não é por necessidade. É para a mãe comprar bebidas.

Como eu não conhecia esse fato, nem pensei em debater. Um outro amigo logo comentou algo sobre a reunião e assim o assunto ficou no passado.

Em casa à noite, lembrei-me do ocorrido e durante horas fiquei a meditar, se eu estava errado…“sim”. Não é um procedimento correto dar dinheiro a uma criança sem ter certeza do que ela fará.

Mas como vou saber o que aquela menina faria?…Se necessitava ou não?

Qual a certeza de que ela estava acompanhada?

Geralmente nessas ocasiões há alguém, responsável ou irresponsável por trás?

Eu teria autoridade para punir aquele adulto?

O fato de ter um adulto apoiando ou mandando piora ainda mais a situação. Mas por quê a criança não estava na escola? Se foi em horário de aula e em dia de semana?  

Não a conheço. Não é minha parente.

Mas é um ser humano. E se ela estivesse realmente necessitando? Cabe a mim indagar ou cobrar explicações?

Em alguns momentos sinto que faço parte de uma sociedade incapaz de reagir, ou de saber exigir.

Completamente impotente diante de situações que envolvem crianças e o futuro do país que desejo para os meus filhos e netos.

Não é necessário tomar prédios para transformá-los em escola, pois temos espaços de sobra.

Recursos não são tão difíceis de se conseguir. Será que as crianças no trânsito conseguem recursos suficientes para se manter?

Quem tem autoridade para agir nesses casos? Há leis que protegem essas crianças ou punem quem as exploram?

Nesses casos pode um cidadão comum ocupar o lugar das autoridades?  As autoridades não sabem que isso ocorre? Ou sabem, mas se omitem?

Faltam recursos? Falta vontade? Falta tudo que pode contribuir na solução, e sobram argumentos para as desculpas?

Dormi muito tarde. Acordei cedo, com o corpo dolorido e mau humorado. Foi um dia muito doloroso.

 

Ainda hoje, depois muitos anos, ainda me incomoda bastante, essas lembranças.

Tomei uma decisão. Quando um politico me abordar, vou perguntar o que ele já fez ou está fazendo pela escola pública.

Não aceito promessas. No passado, as promessas nos deram crianças analfabetas, no presente, jovens sem perspectivas, e no futuro, certamente será um desastre.

Aconteceu num domingo - Ana Catarina S. Maués

 



Aconteceu num domingo  

Ana Catarina S. Maués


     E tudo começou a ficar muito iluminado, de uma claridade intensa, mais forte que o dia lá fora. E vultos tomaram conta de todo o lugar, que parecendo anjos, caminhavam ora por entre o povo reunido, ora subiam e desciam em rasantes por sobre a cabeça dos que ali estavam. Um espetáculo que deixava a todos em êxtase. A visão era como se estivessem diante de holograma, pois os seres não podiam ser tocados, a imagem em terceira dimensão, desfazia-se com a tentativa de segurá-la.

      Tarde ensolarada. A devota Mara Lúcia, em passos largos, caminhava rumo a capela, próxima de sua residência, para a oração do terço, mas o salto agulha a atrasava, pois fazia, vez por outra, ela torcer o pé tornando o percurso mais longo.

     Enfim chegou, ainda a tempo de fazer, junto com o sacerdote, o sinal da cruz de início do terço.

     A reza lenta e compassada somada ao calor, faziam-na dar cabeçadas em um cochilo nada apropriado. Sentia-se estranha, nunca havia feito aquela oração de modo tão displicente.

     Terminado o terço, hora da santa missa. O padre deu início à celebração e Mara Lúcia continuava bem zonza. Abria os olhos com dificuldade, mas eles não obedeciam, tinham vontade própria, eles zombavam de sua intenção. Quando parecia bem acordada ela entrava em discussão consigo mesmo, mas o que será isso eu dormi bem à noite, não acordei tão cedo, não estava com sono quando saí de casa muito pelo contrário estava bem esperta para não chegar atrasada ao terço uma hora boa para um café será que alguém notou minhas cabeçadas na capela tem bastante gente caramba que vergonha logo eu conhecida como a mais devota da comunidade. Ainda em pensamentos, mas percebeu o olhar atento da amiga Carol, deu um sorrisinho, um aceno e voltou-se para a santa missa, todavia mais um longo cochilo.

     — Vão em paz, e o Senhor vos abençoe.

     Mara Lúcia assustou-se! E com seus botões dizia, meu Deus terminou a missa e se acompanhei metade dela foi muito, mas agora vem a adoração do Santíssimo, não posso ficar desse jeito. Levantou-se arrumando a saia, e dirigiu-se ao sanitário na lateral do prédio.

     Lá chegando jogou água fria no rosto, esfregou bem os olhos, abriu a bolsa procurando um batom, e retornou certa de que o sono a deixara.

     O Santíssimo já estava exposto. Mara Lúcia ajoelhou-se no banco em frente a hóstia consagrada e foi nesta hora que ela viu um feixe de luz saindo do ostensório. A luz crescia e avançava vindo em direção a ela, tomando conta de todo o salão.  Abaixou a cabeça e arrepiada, só lembrava de pedir perdão pelos seus pecados. Ela não tinha coragem de abrir os olhos e quem sabe ver Jesus, pensava que se isso acontecesse iria morrer por ver o poder do Cristo. Passados alguns instantes de um frenético torpor, tomou coragem e nesse momento pode contemplar a cena mais inusitada de sua vida. Viu a glória de Deus. Eram homens com asas, vestidos de um branco alvo, como jamais vira, que não andavam, deslizavam por entre as pessoas, enquanto outros pairavam próximo a cabeça delas e outros deslocavam-se como que voando, mas sem bater as asas, tudo ocorrendo dentro de uma aura mais clara que o sol de meio dia, porém sem afetar a visão. Mara Lúcia podia ver tudo sem sentir seus olhos ofuscados.

     A visão demorou alguns segundos, o suficiente para deixá-la inebriada, sem saber se foi arrebatada ao céu ou se o céu veio visitar a capela. Olhou em volta e as pessoas pareciam estar em transe.

A Adoração ao Santíssimo acabou. Mara Lúcia saiu da capela e não falou com ninguém sobre a visão. Todos saíram mudos, sem se cumprimentarem como de costume.

     Amanheceu. O sol chegou pisando forte na grama do jardim. Mara Lúcia acordou trazendo bem nítida a visão do dia anterior. Somente agora tinha a intenção de tecer algum comentário com alguém que também esteve lá. Lembrou da amiga Carol, com a qual trocou aceno e resolveu telefonar.

 — Oi Carol, que bom que atendeu.

 

— Oi Mara, comigo tudo bem e com você?

— Amiga, o que foi aquilo ontem na hora da adoração em? Perguntou Mara Lúcia.

   — Pois é, você passou tão mal. O padre interrompeu a adoração, chamamos o SAMU, eu fui com você até o hospital de emergência, você estava muito alterada, não falava coisa com coisa, de início pensei ser uma insolação, pois o calor era demais, mas os médicos disseram que você teve um AVC. Graças a Deus você reagiu bem e voltou logo a si.

   —  Carol! Do que você está falando? Perguntou muito assustada Mara Lúcia.

  — Do piripaque que você teve na capela ontem. Você não lembra?

 Cruz credo! Eu não lembro de nada não. Meu Deus! Eu liguei pra te falar de uma coisa totalmente inusitada, e você me diz isso!

— Verdade amiga, foi um corre-corre danado. Você ficou muito doida.

   Mara Lúcia sem entender nada, teve que acreditar na colega e até hoje não sabe explicar se o que viu foi verdadeiro ou efeito do acidente vascular cerebral que sofreu.

O Padre Gigio - Alberto Landi

  O Padre Gigio Alberto Landi O padre Gigio estava no seu limite. O assédio das beatas nos momentos íntimos do confessionário tinha se torna...