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terça-feira, 5 de janeiro de 2021

UMA GRANDE LIÇÃO DE VIDA - Alberto Landi

 

 



UMA GRANDE LIÇÃO DE VIDA

Alberto Landi

 

 

Michel era um marciano que vivia num planeta bem distante. Era um pequeno ser de cabeça cônica e grandes olhos de cor violeta. Seus braços eram longos se alargavam ainda mais quando tinha que alcançar algo.

Um dia, entrou  na nave espacial e saiu numa longa viagem, queria explorar um pouco o Universo e passar por dezenas de Planetas em inúmeras aventuras até chegar  á lua.

Em poucas horas algo imprevisto acontece, teve um acidente de percurso e teve que aterrissar  em um planeta desconhecido. Não podia sair dali sem ajuda de outra nave.  Pensou como poderia fazê-lo, até que teve uma ideia:

Conectou-se com alguns animaizinhos amistosos desse planeta, eram de várias espécies, pediu para que o ajudassem. Os pequenos amigos se reuniram e decidiram fazer uma grande montanha, subindo uns em cima dos outros até chegar à Michel.

Foi muito difícil a escalada, mas finalmente conseguiram chegar e resgatar o amigo marciano. Quando já estavam descendo a escada, um desastre acontece, e um dos animaizinhos não pode evitar o espirro e toda a escada veio abaixo.

Michel pensou que os seus amigos haviam se chateado com ele, com o desabamento da escada e por ele ter pedido a ajuda deles.  Mas foi justamente o contrário. Quando os animais se recuperaram do desabamento, todos começaram a saltitar e dar palmas por ter conseguido salvar o amigo marciano.

Os animais estavam super orgulhosos pelo grande feito. O marciano Michel despediu-se afetuosamente deles e partiu de volta ao seu planeta ansioso para contar aos seus amigos e familiares o ocorrido no início de sua viagem.

Como aqueles persistentes amigos desprendidos se empenharam em ajudá-lo sem pedir nada em troca? Os marcianos depois de ouvirem  todo o relato de Michel entenderam a importância de um trabalho em equipe, e da boa vontade e a solidariedade dos pequenos animais.

Desde então, nenhum marciano quis viajar só em suas naves e continuaram a explorar o Universo indo sempre em dois, indo aos mais longínquos rincões do Universo.

Aprenderam uma grande lição de vida: 

A importância do que é a solidariedade e a ajuda nem que seja com sacrifício para protegerem uns aos outros, quando necessário!   

 

O COMPUTADOR TEIMOSO E VINGATIVO - Leon Vagliengo

 

 



O COMPUTADOR TEIMOSO E VINGATIVO

Leon Vagliengo

Todas as tardes das quintas-feiras, pouco antes das quinze horas, Leon transfere o seu Computador para um local com melhor recepção da internet, porque se iniciará, de forma virtual, a aula de escrita que muito aprecia. Os instantes da transferência são a única situação em que o velho Computador, que já não dispõe de bateria, fica totalmente desligado, pois outras razões, que não vêm ao caso, exigem que permaneça permanentemente ligado. Naturalmente, após a transferência de local, precisa ser novamente ligado para a aula.

E foi aí que tudo se complicou.

O Computador, sem compreender as razões de seu dono, não estava gostando nada do tratamento recebido. Foi acumulando a sua raiva, semana a semana, e finalmente, naquela quinta-feira, perdeu completamente a paciência:

QUEM ELE PENSA QUE É?” – ruminou, referindo-se a seu dono já com intenções vingativas. E continuou, a cada momento mais descontrolado, justificando para si mesmo as razões de sua revolta: “Me deixa ligado durante o dia todo e a noite toda, nem posso descansar, não respeita a minha idade. E de repente me liga e desliga sem mais nem menos e quer que eu funcione como e quando bem entende. HOJE ELE VAI SE ARREPENDER!”.

Se bem pensou, melhor o fez.

Leon foi ficando aflito. Sua aula virtual de escrita começara às quinze horas e ele já vinha tentando ativar o Google Chrome desde bem antes disso, e nada. E sem o Chrome não haveria o acesso ao aplicativo da reunião, o Zoom. Sem contar o deboche que o Computador lhe impunha! Funcionavam os outros programas, mas aquele de que ele precisava, nada. Aquele Computador ingrato, que ele mantinha em uso por razões que poderiam ser consideradas apenas afetivas, sabia bem como irritá-lo.

Quanto mais o Leon tentava, mais exultava o seu Computador, aquele ser inanimado que agora, todo animado, comemorava aquelas suas pequenas e mesquinhas vitórias: “Ele já me reiniciou duas vezes, me fiz de morto. Só porque é meu dono, pensa que pode tudo? POIS SIM! Vou lhe dar uma bela canseira”.

Vinte e cinco minutos se passaram desde que se iniciara a aula, Leon tentando de tudo, sem sucesso. Pobre aluno frustrado! E o Computador continuava a comemorar, agora mais calmo, mas em tom maquiavélico:

Veja só o desespero dele. Está perdendo a aula, bem feito! Novamente me desligou e teve que esperar, porque eu sou lento mesmo, até para desligar. Vai ligar outra vez, com certeza, esse cara é insistente. Azar dele, eu também me demoro em religar. E tão cedo não vou funcionar naqueles programas que ele quer”.

Meia hora de aula perdida. Nova tentativa, novo desligamento, nova espera, novo ligamento, nova espera. Leon já não estava apenas aflito. Estava bravo, no limite! Subitamente deu um grunhido nervoso, seguido de um tapa na mesa, e exclamou, quase gritando:

FUNCIONA, COMPUTADOR MISERÁVEL! OS TEUS DIAS ESTÃO CONTADOS!

Foi então que o Computador se deu conta de que havia exagerado e a coisa tinha ficado feia. Embora já bem desatualizado em razão de sua idade e mesmo sem contar com modernos recursos de inteligência emocional, fez valer a alta tecnologia de seu gênero, conseguindo captar e processar os novos dados emanados por Leon, que traziam sinais inequívocos da tragédia que se delineava para o Dispositivo, traduzidos pela forma nervosa como estavam sendo teclados, repetidamente, os mesmos comandos. Sua raiva dos primeiros momentos já passara, e resolveu, então, arrazoar que o castigo que proporcionara a seu dono já tinha sido o bastante. Estava satisfeito, seria melhor mudar de atitude:

Pensando bem, o Leon, nervoso, pode se tornar um perigo. Estamos no décimo sexto andar, e eu estou perto da janela, que está aberta! Acho que já foi o suficiente, me vinguei. Mas, quem sabe? Se ele não me cuidar melhor, talvez eu repita a dose na próxima quinta feira”.

A partir desse momento Leon sentiu o sabor do triunfo. Aquela rodelinha girando de forma irritante, que indicava que o comando estava num processamento interminável, finalmente parou, e eis que, enfim, o Chrome assumiu completamente a tela. Acionado o Zoom, a seguir tudo aconteceu muito rápido, surgindo na tela do seu Computador as vozes e as telinhas com as imagens dos seus amigos e da professora, que logo saudaram a sua chegada.

Leon ficou tão feliz e aliviado ao ouvi-los e revê-los, que até se esqueceu das dificuldades por que passara. Mergulhou nos assuntos da aula e já nem pensava mais em trocar o seu querido companheiro e velho amigo Computador.

Querido companheiro e velho amigo...?

Provavelmente Leon voltaria a pensar nisso na quinta-feira da semana seguinte, por volta das quinze horas...

 


domingo, 3 de janeiro de 2021

ARTHUR O CRUEL - Alberto Landi

 



ARTHUR O CRUEL

Alberto Landi

 

Era uma vez um pirata muito ruim que todos chamavam de "Arthur o cruel". Tinha uma aparência aterrorizadora. Segurava sempre um archote aceso na mão. Portava dois cintos de armas e cada cinto com 3 coldres de pistola.

Usava chapéu tricórnio de feltro com uma pluma, casaco de veludo fino debruado normalmente roubado de mercadores, camisa vermelha berrante e calças fortes até os joelhos com ligas de cor vermelha, amarela e verde, sapatos de fivelas com franjas para esconder as facas usadas para defesa.

Fazia jus à fama, matava sem dó nem piedade. A tripulação o temia, causava tanto medo nos inimigos que todos desistiam de atacá-lo, assim que o viam, reconheciam a bandeira tremulando na caravela, que já era temida em todos os mares.

Certo dia, singrando suavemente pelo mar, foram abordados por uma caravela inimiga e no final de uma curta batalha, porém sangrenta onde houve mortes de ambos os lados, toda a tripulação foi capturada. A corveta de origem Jamaicana tinha uma bandeira hasteada com uma caveira humana e as tíbias cruzadas em fundo negro.

Foram todos levados para uma ilha deserta e a tripulação presa juntos em uma enorme jaula. Arthur o Cruel, como era o mais feroz de todos, ficou preso sozinho em outro local amarrado em correntes recebendo açoites diários, não se comunicava com os demais. Nem sequer podia ouvi-los.

Após alguns dias, toda a tripulação foi solta e se esqueceram do Arthur, enjaulado e só. Os demais tripulantes da caravela tampouco se lembraram dele pois era tão cruel e desagradável que ninguém o queria por perto, trataram de ir embora se livrando do pirata.

Por sorte um morador da ilha se deu conta de que o pirata seguia enjaulado e finalmente o soltou. Tarde demais, a sua caravela havia zarpado sem ele.

Os moradores da ilha se reuniram e deliberaram decidindo convidar Arthur a ficar, mesmo porque raramente passava uma caravela por ali, não havia alternativa para ele, disseram:

— Você tem que mudar de atitude e a maneira de ser. Se você nos causar problemas, vamos deixá-lo em qualquer parte. Imediatamente o pirata concordou com a proposta!

— A propósito, como te chamas perguntaram?

—Todos me chamam de Arthur o Cruel, respondeu o pirata:

— Mas você tem nome, não? Ou vai me dizer que gostas que te chamem de Cruel:

—Sou Arthur Malcom, nascido em Glasgow, Escócia:

— Então meu caro, daqui para frente você será Arthur Malcom. Arthur o Cruel morre hoje e há muito trabalho aqui nesta ilha, venha trabalhar conosco.

Com o passar do tempo Arthur foi mudando e cada vez mais se aproximando dos novos companheiros. Nas horas de folga ficava pensando arrependido de todas as maldades que fez e nas vidas que ceifou. Daí acabou se tornando amigo inseparável daqueles que o acolheram e mudaram sua vida.

O pirata, se converteu, era outro homem, não lembrava mais aquele Capitão osso duro de roer, agora estava integrado e se destacando no trabalho da comunidade.

Despertou a beleza interior do agora Arthur Malcom!  

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

O COPO TEIMOSO - Dinah Ribeiro de Amorim





O COPO TEIMOSO

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Dona Marina, funcionária aposentada, reúne uma vez por semana as amigas,  para um joguinho de cartas. Fazem desse entretenimento um compromisso inadiável. Além do jogo, é servido um lanche de intervalo, que sempre consiste num refresco em copos de cristal e um bolo feito por Maria, ajudante de anos, preparado para a ocasião.

Na semana em que a filha de Dona Marina chega de uma viagem à Inglaterra e é presenteada com lindo aparelho de chá, em louça pintada, orgulho de toda dona de casa, resolve oferecer às amigas, um delicioso chá de menta, junto ao bolo de Maria, deixando de lado os copos de cristal.

Não é que os copos, enciumados, acostumados a serem usados, quando o armário é aberto e as xícaras retiradas, um deles, o mais teimoso, se atira ao chão, com raiva, mal dando tempo de Maria apanhá-lo. Virou cacos, o coitado.

Era também bonito e valioso, mas muito ciumento e teimoso.

 

A HISTÓRIA DO JACARÉ ACACIO - Claudionor Dias da Costa

 

 

A HISTÓRIA DO JACARÉ ACÁCIO

Claudionor Dias da Costa

 

                Eu sou o Zezinho e vou contar a vocês uma história emocionante.

                Sempre depois do almoço eu e meus amigos   brincávamos   na rua e mamãe recomendava:

                − Brinquem bastante, mas não fiquem muito perto do lago!

                Como somos travessos, dava mais vontade de ir até lá.

                Meu amigo Dentinho era terrível, queria porque queria, ir ao lago e se deixasse até nadaria.       

                Apressados entramos na vendinha do Senhor Antônio para ver as novidades de balas e doces, e davam água na boca.                  

                  De repente ouvimos o vozeirão dele:

             — Meninos vocês souberam da história do jacaré?

                Ficamos com os olhos esbugalhados com a cara assustada do Senhor Antônio, o que aumentou nosso pavor. Ele continuou falando:

                  — O Oscar, aquele jardineiro da Prefeitura quem me contou. Disse que estava fazendo limpeza do mato perto do lago. Deu uma paradinha para descansar e se assustou olhando para a frente em direção a água.

Nesse instante o vendeiro tinha os olhos de pavor:

                −Sabem o que ele viu?

Arriscou uns segundos esperando respostas, mas a gente estava mudo:

                — Nada mais nada menos do que um “baita” jacaré na margem.

                Nesse momento encostado no balcão quase caímos de costas.  Olhei pro Dentinho, ele já não parecia tão afim de cair no lago.

                Saímos para a calçada e ficamos comentando a tarde inteira duvidando do tal aparecimento do jacaré. Achamos que o Senhor Oscar teve uma ilusão ou coisa parecida.

                Mais tarde, chegando em casa, mamãe perguntou se estava tudo bem. Achou que eu estava meio amarelo e preocupado.

                 No jantar fiquei quieto, conversei muito pouco com papai e mamãe.

                 Naquela noite, revirei muito na cama e tive um pesadelo com o jacaré, e o que poderia fazer conosco se nos pegasse.

                    Após dois dias com provas na escola, ficamos novamente livres para brincadeiras e saímos pela rua despreocupados.

                    Nos cansamos de empinar pipas e, mais ainda do futebol no campinho de terra.

                    Procurando novidades, Dentinho teve a ideia de amedrontar as meninas da turma. Fomos até perto delas que brincavam de pular corda e ele foi logo gritando:

                — Vamos rápido para o lago que tem uma surpresa!

                   Corremos rindo com a certeza de pregar um susto nas meninas.

                   Olhamos e não vimos nada. Sentamos um pouquinho longe da margem e ficamos “batendo papo” observando o surgimento de algum movimento na água. Estávamos ansiosos para “aprontar” com as meninas, muito embora, confesso que eu também tinha medo.

                   Até que lá pelas tantas, o Dentinho começou o suspense:

                  A água está se mexendo lá embaixo. Estão vendo?

                   Todos ficaram apreensivos e logo ele foi gritando:

                — É um jacaré!

                  As meninas agitadas, se esconderam atrás de uma árvore e ficaram observando atentas para confirmar se era verdade.

                  Aquele vulto escuro veio se aproximando mais para perto.

                  Surgiu no meio do lago e deu para ver claramente um jacaré. O Senhor Oscar tinha razão.

                   Fomos embora num atropelo só, ainda olhando para trás não acreditando naquilo. As meninas, nem se fala.

                  No dia seguinte, muito mais curiosos e querendo ver de novo a figura daquele bicho, Dentinho nos empurrava para ir até lá. Foi o que aconteceu.

                   Sentamo-nos próximo da margem. Não demorou muito e o jacaré veio em nossa direção.

                   Com toda a nossa pouca coragem, ficamos surpresos quando um pouco mais perto, ele tirou a cabeça da água e disse:

                   − Não fiquem com medo meninos. Eu sou meio feio, até reconheço, mas sou manso e posso até ser amigo de vocês.

                    Aquilo nos deixou perplexos, não acreditamos que estávamos ouvindo um jacaré.

                    E começamos a conversar com ele, que contou a sua história dizendo que seu nome era Acácio. Começamos a gostar dele e ficamos amigos.      

                   Depois de um tempo, ele olhou para nós meio tristonho e pediu:

                   — Tenho que confessar que quando vocês ficam na margem conversando e tomando sorvete, fico ao longe com tremenda vontade de estar junto. E mais ainda, quero experimentar aquele de morango bonito com três bolas.

                    Nessa hora pedi que esperassem que já voltava.

                    Fui até a praça e arrastei o   Senhor João sorveteiro até o lago. No caminho contei a história do jacaré Acácio para ele e disse que pagaríamos o sorvete.

                    Sorrindo se aproximou e disse ao Acácio:

                     — Soube que você quer tomar sorvete, né?

                    E preparou um bem grande com três bolas de morango conforme o pedido do nosso mais novo amigo jacaré. Ele saiu do lago ficou em duas patas em pé. Agarrando o sorvete deu um grande sorriso com seu bocão e um montão de dentes. Agradeceu muito olhando para nós. Fiz até   uma foto com o celular.

                    Contamos tudo à mamãe e papai que vibraram com a história.

                    A partir daquele dia, sempre íamos ao lago e brincávamos muito com o Acácio. Até nadávamos juntos,  e muitas vezes nos sentávamos em suas costas imitando um barco.

                     Ele ficava muito feliz e nós também.

                     Essa foi a história do jacaré Acácio que gostava de sorvetes.         

MARGARETH FOTOGRAFA UM CRIME. - Dinah Ribeiro de Amorim

 




MARGARETH FOTOGRAFA UM CRIME.

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Margareth, fotógrafa profissional, trabalha para a Revista Eventos. Sempre que surgem novidades é chamada e, como a cidade do Aconchego está sempre acontecendo, fotografa muito.

Frio, calor, chuvas, dias ensolarados, lá está ela, de máquina na mão, tentando cobrir desfiles, comícios, festividades e cenas do cotidiano, com o objetivo de agradar o leitor.

Dias de folga são raros e, quando acontecem, procura passá-los dormindo; mal se dedica à família, pai e mãe idosos. Isso a contraria e, num raro domingo livre, resolve levá-los a passear no campo. Coloca os pais no carro e fecha a porta de casa, quando o celular toca insistentemente. É o diretor da revista que lhe pede para fotografar com urgência um comício contra o atual secretário de saúde da cidade. Querem sua demissão.

" Logo Dr. Alfredo, pensa ela, um médico tão bom! Querido por todos. Qual será a causa?"

Tristonha, pede aos pais que voltem para casa e desculpa-se, tem trabalho. Outro dia sairão.

Os pais, acostumados com a sua profissão, sorriem e se preparam para o domingo de sempre, na televisão.

Margareth dirige rápido em direção à Secretaria de Saúde, com a entrada bloqueada por seguranças, que impedem pessoas em tumulto.

Gritam todos ao mesmo tempo: "Abaixo Dr. Alfredo! Queremos justiça! Devolvam nosso dinheiro!"

Espantada, a moça prepara a máquina e bate as fotos iniciais da manifestação, sem saber do que se trata, mas curiosa. Locomove-se rapidamente, tenta infiltrar-se entre eles, cada vez mais numerosos e irrequietos. Leva um empurrão e derruba a máquina, que cai ainda explodindo fotos...

Apanha-a com rapidez, evita que pisem, examina-a com cuidado e procura outro lugar. Continua a observar o que acontece. Escuta um estampido, semelhante a tiro, quando estava no meio da multidão e alguém cai. Aflita, tenta ajustar a máquina, que não funciona. Acontece um silêncio, rodeiam a pessoa atingida, o tumulto cessa e a maioria corre apressada. Com certeza aquilo não era previsto. A polícia e uma ambulância chegam rápidas ao local e Margareth reconhece o corpo gordo de Dr. Alfredo, imóvel, ser levado na maca. Policiais interrogam os presentes, algemam os mais exaltados e percebem uma arma jogada no chão, ao lado de um homem afro descendente. Acham-no suspeito. Aproximam-se e, com aspereza, perguntam se a arma é dele. O homem negro nega, jogaram-na após o tiro. Os policiais duvidam e empurram-no ao chão. Puxam seus braços e o algemam também. “Todos para a delegacia! ”

Em instantes, o comício se desfaz, os que conseguem fogem, a paz se restabelece. Margareth, angustiada, vai à revista, conversar com o diretor. Confusa, mal sabe como se explicar. Conseguiu poucas fotos, não soube o porquê do tumulto e como foi o crime.

Thiago, seu chefe, explica-lhe que Dr. Alfredo criou um plano de saúde barato, popular, com pequenas contribuições mensais e promessas de atendimento. Isso não aconteceu. Quando as pessoas necessitaram do plano, não havia nem Pronto Socorro. Daí a revolta da população. Muitos doentes sofreram, houve até mortes prematuras. Queriam justiça, mas, homicídio, ninguém esperou... Perderam o controle quando o avistaram e tentou se explicar. Agora, era chegar ao culpado. Tudo indica que foi o homem negro perto da arma.

Na delegacia, muitos interrogatórios, quais foram os planejadores do tumulto, detenções, deveriam ter recorrido às autoridades legais, mas o mais atingido foi José, o negro encontrado perto da arma. Queriam forçá-lo a confessar o crime. A maioria foi solta por falta de provas e José, sem um advogado que o defendesse, apanhou muito e ficou detido.

Caracterizou-se crime grave com o falecimento de Dr. Alfredo, transformou-se de réu popular a vítima. José, o acusado violento e sem controle, preso, aguarda julgamento.

Margareth não é jornalista nem fotógrafa policial, o caso é novidade em sua vida profissional, mas fica atenta e medita sobre o assunto. Tem intuição que algum erro ocorre na acusação policial. Não acredita que o José seja o culpado. Não tem ficha policial, boa família, pobre, honesto, trabalhador, nem porte de arma possui. Comenta com o chefe e discute as várias opiniões. Lembra-se de buscar a máquina no conserto.

Com a máquina na mão, Thiago revela no computador as poucas fotos antes de bater no chão. Ele e Margareth prestam atenção e, uma delas, a última, mostra um grupo acotovelado em torno de Dr. Alfredo, que cai após o tiro. José não está entre eles, mas o movimento da arma sendo jogada e abandonada aos seus pés é bem nítido, resta agora saber quem foi.

Margareth e Thiago exclamam: ”O homem é inocente! Temos que ir à polícia. ”

Na delegacia, ansiosos, controlam as emoções. Precisam conversar com o delegado encarregado do caso, Dr. Mourão. Esperam minutos que parecem séculos e entram na sala do delegado. Avisam que possuem fotos relacionadas à morte do Dr. Alfredo.

Dr. Mourão acha que o caso está praticamente resolvido, liga a máquina de Margareth ao seu computador, olha as fotos com ligeiro interesse. Não sabia que a moça esteve fotografando o evento. Esse interesse aumenta quando percebe a última, que mostra a arma sendo jogada por alguém aos pés de José. Agora. É localizar quem esteve no grupo próximo ao médico, uma longa e difícil pesquisa. Isso inocentou o homem preso injustamente, e orientam-no para cobrar pelos danos morais que sofreu.

Thiago e Margareth se confessam amigos de José e não saem da delegacia até a soltura. O até então cabisbaixo, melancólico, amargurado e já conformado José, aparece, quase feliz, em total agradecimento.

O final desse caso policial será a futura reportagem que Margareth e Thiago farão, quando a polícia descobrir o verdadeiro culpado. A revista Eventos, além das frivolidades da cidade, cobrirá também assuntos humanitários, de interesse e bem-estar da população.

 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

MELISSA A SAPECA - Alberto Landi

 




MELISSA A SAPECA

Alberto Landi

 

Melissa era uma ovelha, branca e suave como o algodão, vivia saltitando pelos verdes pastos. Essa era a sua diversão. Mas, apesar de ser a mais idosa do rebanho, era desobediente. E isso preocupava o bom pastor.

— Melissa, há muitos perigos por aí, não vá muito longe, é melhor me obedecer, sou o seu pastor e te quero muito bem, nem sei o que fazer se eu a perder.

 

Para ter controle sobre Melissa, e tê-la junto com ele, comprou novelos de lã, e propôs a ela que fizesse meias para as demais ovelhas do rebanho, o inverno que estava se aproximando.

 

Melissa gostou da ideia e começou a tricotar. Isso fez com que ela se mantivesse ocupada, e não saísse pelos pastos sozinha.

 

Porém, num dia ensolarado, saiu e nem ligou quando o pastor a chamou para se reunir com o rebanho. Estava tão distraída ,que nem notou que uma tempestade estava se aproximando.

 

O pastor de volta, contou as ovelhas, e justamente estava faltando a Melissa. Ela havia deixado as meias todas jogadas no canto.

 

O pastor muito preocupado, começou a orar para que ela aparecesse:

Não fuja Melissa, não consigo te ver nesses imensos pastos. Volte para o seu rebanho e para o seu pastor. Me ajude a organizar a distribuição das meias que você tricotou.

 

Melissa não apareceu, havia rolado numa ribanceira no meio de umas plantações. O pastor de tanto procurá-la acabou encontrando. Muito chorosa se disse arrependida do que fez, pela desobediência.

 

A partir desse momento, Melissa tornou-se uma ovelha obediente e ficava sempre em alerta ao que o pastor falava.

 

Disse o pastor:

—Melissa olhe sempre por onde anda, há muitos perigos por aí. Não vá muito longe., fique sempre próximo de mim. Sou seu pastor, te quero muito bem. Se você se aborreceu tricotando para as suas amiguinhas, não precisa mais fazê-lo.

E assim a ovelha Melissa, nunca mais se afastou de seu querido pastor, já que era muito estimada!

 

1º lugar - PRESENTE HUMANO - Ana Catarina Sant’Anna Maués

 


Ana Catarina Sant’Anna Maués


1º colocado

CONCURSO DE NATAL ICAL 2020


Presente humano

Ana Catarina Sant’Anna Maués


   Músicas, enfeites, animação, comércio com altos índices de vendas, hum! Este ano o Natal promete ser dos melhores, dizia Bruna na mesa do almoço. Rodrigo, no entanto, estava ali apenas fisicamente, pois os pensamentos o levavam para bem longe. Bruna insistiu:

— Querido, estou falando com você?

— Oh! Sim benzinho, me desculpe, estou longe.

— Você fará aquilo este ano novamente? Perguntou ela.

— Sim! Você entende né, é muito importante para mim e para eles também.

— Entender eu entendo, mas acho esquisito dar este tipo de presente para as pessoas.

   Mais tarde Rodrigo, em frente ao espelho, arrumava a barba postiça, já todo vestido de vermelho, calçou as botas e veio para a sala onde esposa e um casal de amigos o aguardavam para a ceia.

— Ora, ora, tá bonito hein! Brincam sorridentes quando o veem.

   Ele, eloquente, respondeu:

— Vou dar uma voltinha e já venho. Não comecem a ceia sem mim.

   O casal convidado estranhou, mas Bruna veio em socorro:

— Como um bom papai Noel ele vai entregar alguns presentes, mas não se preocupem, ele volta logo.

   Rodrigo bateu a porta do carro e dirigindo foi observando as ruas fervilhando de pessoas com pacotes que se denunciavam serem presentes. As luzes coloridas cintilando em árvores e bonecos na frente das casas davam o tom festivo à noite especial, mas ele procurava por algo bem diferente do que via. Nesta busca ele foi se afastando da agitação e chegando à periferia da cidade, encontrou o que procurava. De longe avistou um jovem sentado sozinho no banco de uma praça. Aproximou-se e ofereceu um lanche que tirou do saco que carregava nas costas. Rodrigo tinha um dom especial, um carisma cativante e conseguiu tirar daquele rapaz o porquê de estar na véspera do Natal sem família, sem amigos. Com mais um pouco de conversa ele convenceu o jovem a entrar no seu carro e seguir até a próxima pessoa que desta vez não estava só. Ele viu uma moça carregando uma criança com apenas alguns meses de vida. Com o mesmo gesto e simpatia ofereceu o lanche e a prosa veio em seguida, e pouco tempo depois ela e o bebê também entraram no carro.

   Ele olhou o relógio e calculou que havia tempo para mais uma pessoa, e neste momento viu um idoso deitado sob a marquise de um velho depósito abandonado. Parou o carro, ofereceu o lanche e recolheu mais um para o automóvel. Já contavam três os escolhidos desta noite. O carro avançou pelas ruas deixando para trás a vida que levavam.

   Rodrigo parou na frente de uma casa bem modesta, bateu, e uma moça abriu a porta, de pronto estranhou a figura de um Noel na sua frente, mas ele com dom celestial conseguiu que ela o escutasse. Depois de algum tempo foi até o carro e trouxe o jovem, aquele primeiro com quem teve contato.

   Ali, na porta mesmo ocorreu um compromisso da parte do rapaz e um sentimento de acolhimento da parte da moça. O jovem havia se envolvido com assalto a mão armada, foi preso, e quando terminou de cumprir a pena não teve coragem de voltar para casa, mesmo com profundo arrependimento no peito pelo mal,  e grande vergonha que fez passar sua irmã, afinal eram só os dois, um contava com o outro e ele falhou feio, decepcionando-a quando entrou para o mundo do crime, porém um pedido de perdão sincero e a palavra de que seria um homem honrado, desta noite em diante, bastaram para que a irmã o acolhesse com ternura.

  Ao retornar ao carro contou aos outros, o quanto estava feliz com o resultado da entrega deste seu primeiro presente.

   O próximo seria a jovem mãe com seu bebê de cinco meses. Desta vez o bairro era nobre e uma mansão podia ser vista no final da rua. Margarida era o nome da moça. Rodrigo sozinho, atravessou o jardim, mas antes de tocar na campainha colheu uma flor. Quem atendeu foi um casal elegantemente vestido. Ele entregou a flor dizendo apenas, que uma outra flor de nome Margarida havia mandado entregar. Em segundos a senhora chorou copiosamente, e o senhor prendeu o choro, então Rodrigo aproveitou para dizer que apesar de tudo que a fez sair de casa, das más companhias, das drogas e tudo o mais, ela agora amadureceu e pedia perdão, pois tinha uma criança para cuidar, o netinho deles. Dizendo isto foi até o carro e trouxe Margarida e a criança. Ao vê-los os pais os abraçaram e um pacto de amor se estabeleceu.

   Voltando ao veículo, após a entrega de seu segundo presente, notou que o senhorzinho não estava mais lá. Olhou em volta e o viu longe, caminhando na avenida. Correu e o alcançou. Num breve diálogo ele expôs o receio, disse que no caso dele não teria chance alguma, que a família não o queria de volta, que o álcool fez destruir tudo que de bom havia nele, que os filhos o expulsaram de casa com razão, pois até pequenos furtos ele já andava fazendo para gastar com bebida, que era incontrolável o seu vício, mas Rodrigo sempre determinado, não desistia fácil, por isso articulou uma, duas, três vezes sobre a possibilidade dele estar errado, até que o convenceu de tentar, afinal o “não” ele já tinha.

   Chegaram, e uma bonita festa acontecia dentro da casa, já na parte rural da cidade. Rodrigo bateu palmas o mais forte que pode, a música estava alta e ninguém escutou. Resolveu então entrar de mãos dadas com o senhorzinho que se chamava Emanuel, e mudo esperou que os notassem. Não demorou e alguém desligou o som. Todos voltaram-se e perplexos ficaram, até que uma criança, o netinho do recém chegado veio e abraçando-o disse:
 — Vovô, quanta saudade!

   Depois disso não houve mais o que dizer ou o que explicar. A família toda reunida festejou a chegada de Emanuel que se comprometeu a ficar longe do álcool, e os dois filhos mais velhos acertaram de providenciar um tratamento para o pai.

   Saindo dali, Rodrigo estava pleno de alegria, como uma taça transbordava felicidade. Ao chegar em casa com sorriso de orelha a orelha percebeu as luzes apagadas e estranhou a casa toda no escuro. Abriu a porta chamando pela esposa e neste momento com gritos de vivas as luzes acenderam e apareceram, não apenas Bruna, que planejou a surpresa, mas também o casal de amigos e muitos dos que, nos outros Natais, ele deu como presente, e vieram abraçá-lo em mais um ano de gratidão, pois estavam perdidos e foram encontrados.



2º lugar - DUAS CRIANÇAS - Suzana da Cunha Lima

 




2º colocado

CONCURSO DE NATAL ICAL 2020

DUAS CRIANÇAS

Suzana da Cunha Lima

Ele nasceu há mais de dois mil anos em Belém, uma cidadezinha da Palestina, e foi colocado, recém-nascido, numa manjedoura.  Ainda bebê, precisou se refugiar no Egito, para fugir da sanha infanticida dos soldados do Rei Herodes.

Quando o perigo acabou, voltou para sua terra onde cresceu, pobre e analfabeto. Morreu aos trinta e três anos, nas mãos dos carrascos de seu próprio povo.

Ele era Jesus de Nazaré, um Rei cujo reino não é deste mundo, porém o Poder transformador de sua Palavra e de sua Verdade permanece vivo até hoje.

Aylan Kurdi nasceu dois mil anos depois, em Korbana, na Síria, e morreu, ainda criança, coberta de espuma e sal, nas praias de Ali Hoca, em Bodrun, Turquia.  Levada pelas ondas, como um dejeto qualquer, é um símbolo trágico do desespero migratório, que tem sepultado tantas vidas e tantos sonhos. 

 Aylan Kurdi também precisou fugir do longo braço dos soldados de sua própria pátria, esfacelada pela guerra civil e por um perverso fanatismo que não obedece a nenhuma regra ou convenção humana civilizada.

Ele morreu, porém, sua voz ressurge no grito e indignação dos povos e, quem sabe, consiga tocar, com sua inocência, os corações dos que possuem poderes para conter o Mal.

Há uma verdadeira e profunda ligação entre estas duas crianças: ambas fugiam da opressão de seus governos totalitários, ambas buscavam um espaço de liberdade para viver seus sonhos e cumprir sua missão.

O mundo caminha entre o Bem e o Mal desde que o primeiro homem pisou neste planeta.  O Mal se impõe pela violência e o Bem age pela paz.

Estamos nesta encruzilhada, é o que me vem à mente nesta época em que celebramos o nascimento de Jesus, cada vez mais angustiados e desesperançados diante da extrema crueldade como o Mal se manifesta.

Será que chegou a hora de nós, homens e mulheres do Bem, nos levantarmos contra a barbárie e desembainharmos também nossas espadas?

Espadas de coragem e inconformismo, oferecendo o que temos de melhor, nossos talentos, nossa voz e nossa arte, para que não aconteça mais outros Aylans Kurdi.

(Baseado em fatos reais)

Suzana da Cunha Lima

Encontro misterioso - Alberto Landi

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