Atrás da Cortina
Hirtis Lazarin
Para os adultos, o condomínio “Residencial Villaggio” era um local seguro, protegido por portaria blindada, câmeras de alta definição e três regras sagradas: não andar de skate na calçada, não fazer barulho após as vinte e duas horas e fingir que todas as famílias são bem educadas.
Josefina — ela odiava esse nome — quebrava as duas primeiras regras por puro tédio e a terceira por pura desconfiança.
Pra ela, aquele lugar era um ninho de cobras engravatadas e, pra cada regra criada, tinha certeza de que havia um segredo que eles tentavam, desesperadamente, esconder dela.
Sentada bem camuflada no topo do muro de três metros, à espera da perua escolar, Josefina observa o SUV blindado do vizinho sair pelo portão duplo da portaria. O motorista sorri e acena cordialmente para o segurança da guarita.
De cara feia e olhos cerrados: “É, gente… Vocês acreditam…? Prestem atenção em quem sorri demais, às sete horas da manhã, num dia frio. Pra mim, ou está mentindo, ou está prestes a cometer um crime.
A única exceção no mundo hipervigilante de Josefina era o Leo, a única pessoa pra quem ela confessava seus pequenos “crimes” de condomínio. Enquanto o resto do mundo parecia fantasiado de comercial de margarina, Leo era real. Se Josefina decidisse invadir a casa do síndico na calada da noite apenas para provar uma teoria paranoica, ela sabia que não iria sozinha; ele estaria pronto pra aceitar e dividir as consequências.
Enquanto ela enxergava segredos perigosos em cada “bom dia” dos vizinhos, o amigo trazia leveza e uma coragem moleque que a fazia baixar a guarda.
Sentado no tapete do quarto da menina, Leo girava um chaveiro no dedo, assistindo à cena com um sorriso de canto.
— Pronto? — Perguntou ele, guardando o chaveiro no bolso. — O censo da zona oeste foi concluído?
— Não brinca, menino. Isso é segurança básica. — Josefina respondeu tão compenetrada e séria como um enxadrista em campeonato mundial.
Ela examina cada movimento das pessoas ao seu redor, antecipando ameaças que, com certeza, nunca acontecerão.
— Dividi o prédio em três categorias cruciais: os Insuportáveis, os Suspeitos e os… Toleráveis.
Ela abriu o caderno na primeira página, mostrando uma caligrafia impecável com palavras escritas com canetas de três cores diferentes.
— Na lista vermelha… são os que eu não suporto, o topo vai para o Seu Ribeiro, do 42. Ele passa o dia olhando pelo olho mágico e finge que está regando as plantas no corredor só para ouvir a conversa dos outros. Um perigo. Logo atrás vem a Dona Marluce, do 61. Aqueles bolos que ela traz “por pura gentileza” têm cara de suborno. Ninguém é tão legal assim sem querer algo em troca.
Léo soltou uma risada alta, deitando-se no tapete.
— JOSEEEFINAAA… a mulher é tão doce! E a lista verde? Tem alguém que se salvou do seu tribunal?
Ela travou na hora quando ele pronunciou cada sílaba daquele nome odiado, com uma lentidão cruel. O som arrastado soou como uma provocação, fazendo o sangue dela ferver instantaneamente enquanto ela cravava as unhas na palma da mão, fuzilando-o com o olhar.
— Quantas vezes vou ter que repetir? Eu não gosto desse nome. É uma relíquia herdada de minha bisavó paterna; deveria ter ficado no século passado. Parece nome de menina velha. Fala sério… Você acha que Josefina combina comigo?
— Para de drama, Fininha — provocou-a novamente, sabendo qual apelido ela mais odiava. — Se você fosse personagem de uma história infantil, seria a vilã desconfiada que mora na torre. Combina com você.
Josefina guardou um… dois… palavrões na garganta. A provocação de Leo ficou no ar, desafiadora. Qualquer outra pessoa que dissesse aquilo viraria inimiga mortal de Josefina, mas com ele era diferente. Eles ficaram ali parados, medindo forças em silêncio por alguns instantes, até que a faísca de briga perdeu o fôlego. O garoto desviou o olhar, mantendo na boca um sorriso maroto, e Josefina descruzou os braços, relaxando os ombros. Ninguém insistiu no assunto. O silêncio que se seguiu não era desconfortável; era o jeito deles de dizer que estava tudo bem e que a amizade continuava intacta.
E a conversa pode continuar tranquila.
— A lista verde…
— Apenas duas famílias são aceitáveis — apontou ela. — Os Oliveira, do 14. Eles têm três gatos, nunca fazem barulho e o filho deles passa o dia jogando videogame com fone de ouvido. Ou seja, zero interação, o que os torna vizinhos perfeitos. E a Dona Sônia, aquela senhora idosa do térreo que cuida do jardim. Ela não faz perguntas difíceis e uma vez me defendeu quando o Seu Ribeiro reclamou que a gente estava correndo no pátio.
— Sabe, amigo, morar em condomínio só me deu uma certeza: não dá para confiar em ninguém. Vivo cercada de muros e portões, mas os meus bloqueios mentais são ainda maiores. A única exceção é você, o único amigo que realmente me conhece e em quem confio de olhos fechados. De resto, mantenho distância.
Josefina não confiava em ninguém; os vizinhos eram apenas rostos suspeitos atrás de janelas fechadas. Só o Léo tinha permissão para cruzar seus muros de desconfiança e, nos dias bons, era o único que conseguia fazê-la esquecer o peso daquele nome antiquado.
Leo inclinou-se para frente, curioso — Onde entro nisso tudo?
— Você não está no dossiê, Leo — disse ela, guardando o caderno na gaveta com chave. — Você é o meu parceiro de equipe. E agora que mapeei o terreno, a gente precisa planejar como evitar o andar do Seu Ribeiro na hora de descer até o térreo.
Os dois entraram no elevador e foram até a quadra e se acomodaram no chão de cimento, com as costas apoiadas na grade de ferro. O silêncio estava confortável, até que o olhar afiado de Josefina travou num ponto no bloco da frente.
No terceiro andar, a cortina do apartamento 32 se moveu. Um homem de terno, segurando uma maleta escura, olhou para os lados antes de puxar o tecido fino.
— Muito estranho! O casal que mora ali — conheço os dois — trabalha muito e o imóvel permanece vazio o dia todo.
Josefina sentiu o sangue ferver de desconfiança. Quem era aquele cara? Por que ele estava se escondendo? Ela deu um soco forte no joelho de Léo, sem tirar os olhos da janela, revoltada porque ninguém mais parecia notar que algo muito errado estava prestes a acontecer naquele condomínio.
Leo soltou um resmungo pelo soco no joelho, massageando o local, mas seus olhos seguiram a direção do dedo apontado de Josefina. Ele olhou pra janela do apartamento 32, agora com a cortina completamente fechada. Voltou a encarar a amiga com aquele sorrisinho de deboche.
— Josefina, você está assistindo a muitos filmes de espionagem — Léo sussurrou, embora estivesse achando graça. — Aquele apartamento está para alugar há meses. Deve ser só o corretor ou o dono limpando o lugar.
— Corretores não se escondem atrás da cortina parecendo fugitivos, Léo! — Ela rebateu, segurando o braço dele com força. — Conheço as pessoas deste condomínio. Aquele terno, aquela maleta… Tem alguma coisa muito errada ali e vai acontecer agora.
Enquanto discutem na quadra, o homem de terno sai do prédio principal a passos rápidos. (mais adiante essa expressão já é dita)
— Ele está saindo! — Puxando Leo pela manga da camiseta antes que ele pudesse rebater.
O homem de terno cruzou o pátio a passos largos, sem olhar para os lados. A maleta escura balançava pesadamente ao lado de sua perna. Ele passou pela portaria, acenou de forma mecânica para o porteiro e ganhou a calçada da rua movimentada.
— A gente vai mesmo atrás dele? O tom de deboche havia sumido, substituído por uma faísca de pura adrenalina. Aquele lado danado dele adorava quebrar a rotina pra acompanhar as maluquices da amiga.
— Claro que vamos. — Josefina já estava correndo em direção à entrada principal.
Eles passaram pela saída do condomínio tentando parecer naturais — o que, para dois adolescentes de treze anos sem rumo, significava caminhar rápido demais e olhar para trás a cada cinco segundos. Quando pisaram na calçada da rua, o homem já estava a quase meio quarteirão de distância, dobrando a esquina perto da padaria.
Josefina apertou o passo, mantendo uma distância segura, usando os carros estacionados e os postes como escudo para os seus olhos atentos. Leo ia logo atrás, fingindo mexer no celular para disfarçar, mas com os olhos fixos nas costas do terno cinza. Ela não sabia pra onde aquele homem estava indo, mas sua intuição dizia que o mistério do apartamento 32 estava prestes a ser revelado na próxima esquina.
O homem de terno diminuiu o passo de repente. Josefina empacou na calçada, puxando Léo pelo braço pra trás de uma banca de jornais. O homem olhou para trás e, com os olhos cerrados, varreu a rua com o olhar. Ele sabia que estava sendo seguido.
— Viu só? — Josefina sussurrou, o coração batendo na garganta. — Ele percebeu.
Antes que Léo pudesse responder, o homem acelerou o passo quase num trote, dobrou a esquina seguinte à esquerda e entrou numa rua bem mais estreita e movimentada por causa do comércio local.
— Vamos, corre! — Léo chamou, agora totalmente investido na missão.
Os dois dispararam e viraram a esquina logo atrás dele, mas a calçada ali estava cheia. O homem de terno usou a multidão a seu favor. Ele ziguezagueava entre as pessoas, jogando o corpo para o lado, sumindo e aparecendo entre os pedestres. Josefina tentava não perder o terno cinza de vista.
De repente, o homem pegou um caminho inesperado: entrou numa galeria antiga de lojas, um lugar com várias saídas e corredores escuros.
— Ele entrou ali! — Josefina apontou, parando na entrada da galeria cheia de letreiros de neon piscando. — Se a gente perder ele de vista agora, nunca mais vamos saber o que estava acontecendo naquele apartamento.
Ela puxou o amigo pelo braço e os dois entraram na galeria, com os olhos bem abertos. O homem de terno fazia movimentos absurdamente exagerados: ele olhava para trás dramaticamente, fingia falar no relógio de pulso como se fosse um rádio e dobrava os corredores quase colando o corpo nas paredes, parecendo um vilão de desenho animado. Para a desconfiada, aquilo era a prova máxima de um crime internacional. Para o homem, era apenas uma quarta-feira divertida.
Ele entrou num corredor sem saída, perto dos banheiros antigos, e parou de costas. Josefina e Léo espiaram pela quina da parede, prendendo a respiração. O homem colocou a maleta no chão, olhou para o teto de forma misteriosa e, devagar, começou a abrir os fechos metálicos: Clac! Clac!
— Não saia do lugar — Josefina gritou, não aguentando mais a ansiedade, dando um passo à frente com os punhos cerrados. Léo tentou puxá-la de volta, tarde demais.
O homem se virou devagar, com uma expressão séria que logo se desfez num enorme sorriso. Ele abriu a tampa da maleta misteriosa e revelou o conteúdo: não havia dinheiro falso, nem planos secretos e nem joias roubadas. A maleta estava completamente lotada de gibis antigos e brinquedos.
Ele tirou o paletó, totalmente relaxado. —Souu o tio do Léo! Seu pai me deu a chave do apartamento 32 — há tempo estava vazio — pra eu guardar, por alguns dias, minhas caixas de mudança. O Léo me mandou uma mensagem da quadra dizendo que a vizinha mais desconfiada do prédio estava de olho em mim, e eu resolvi entrar no personagem e brincar com você.
A garota cruzou os braços, com as bochechas vermelhas de vergonha e raiva. O mundo de Josefina desabou naquele segundo. Ela olhou para o lado e viu Léo se acabando de tanto rir, apontando pra ela, orgulhoso da peça que havia pregado com o tio. Para eles, era só uma piada. Para ela, uma humilhação pública. A única pessoa, pra quem ela desarmava os escudos havia usado o seu maior traço — a desconfiança — para transformá-la em piada.
Josefina ignorou as desculpas, não gritou, não chorou e não fez cena. Ela apenas deu um passo para trás e cravou os olhos em Léo. Foi um olhar de desprezo puro, frio e cortante, daqueles que desarmam qualquer um. Ele percebeu o erro na hora e o riso murchou.
Ela correu. Correu pela calçada movimentada, passou batido pela portaria do condomínio e só parou quando fechou a porta do próprio quarto. Aquela tarde mudou tudo. Josefina cortou Léo da sua vida de forma definitiva. O orgulho e a mágoa falaram mais alto e a brincadeira do menino custou caro.
Até hoje, eles moram no mesmo condomínio, cruzam-se pelos corredores, mas nunca mais se falaram.
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