GIZA, a investigadora
Alberto Landi
Giza, mulher idosa, mal vestida, mochila nas costas, olhar acurado. Atravessa a cidade como sombra, com roupas gastas e passos firmes.
A mochila nas costas guarda mais segredos do que pertences. Ninguém repara nela, é apenas uma presença apagada na paisagem urbana. Mas seus olhos trabalham, seguem passos, recolhem gestos.
Seu olhar, ainda preciso, lê pessoas como quem folheia arquivos antigos.
Ninguém suspeita daquela mulher idosa que pede informação nas esquinas. Já foi bela, e essa beleza agora apagada virou seu melhor disfarce. Ela é investigadora, não das que exibem distintivos, mas das que sobrevivem na sombra.
Ela segue rastros invisíveis, daqueles que só o tempo ensina a ver. Está sempre atrás de alguém.
Criminosos passam por ela sem notar que estão sendo caçados. Cada gesto seu é calculado, cada silêncio, uma armadilha.
E, quando decide agir, ninguém percebe que já é tarde demais.
Naquela noite, ela atravessa o subúrbio silencioso até encontrar um velho prédio de corredores estreitos, onde uma porta descascada chama imediatamente sua atenção. O homem lá dentro ri alto, seguro de sua impunidade. Ela não bate, apenas espera como sempre fez.
Finalmente encontrei-o, Antonio Benevides, murmurou. Empurrou a porta devagar e entrou no apartamento envolto em penumbra.
--Quem é você para entrar desse jeito em minha casa? — Perguntou, apertando o charuto cubano entre os dedos grossos.
Ele era moreno, de estatura mediana, cabelos grisalhos em um rabo de cavalo e correntes de ouro no pescoço.
A fumaça subia lenta pelo apartamento de paredes úmidas e luz amarelada.
Giza permaneceu imóvel na porta descascada. A velha mochila pendia dos ombros como se carregasse apenas roupas velhas, mas seus olhos atentos examinavam cada detalhe do cômodo.
— Curioso — disse em voz baixa.
Homens culpados sempre perguntam: quem sou eu? Os inocentes perguntam o que aconteceu.
Antonio soltou uma risada curta, nervosa, e tomou outro gole de rum.
— Você entrou no apartamento errado, sua velha.
— Não. Passei meses procurando este endereço.
O silêncio endureceu o ambiente. O ponteiro do relógio velho de parede parecia bater mais alto.
— O que você quer? Dinheiro? — Perguntou ele, tentando recuperar a arrogância.
Giza aproximou-se devagar.
— Quero nomes. Quero saber onde estão os documentos e quem mandou apagar Celso Ferreira.
Antonio desviou o olhar pela primeira vez.
— Não sei do que está falando.
Giza então retirou do bolso um pequeno isqueiro de metal riscado pelo tempo e colocou-o sobre a mesa.
Antonio empalideceu.
— Esse isqueiro estava no apartamento do homem que você assassinou há sete anos — disse E. Desde então, venho seguindo o rastro da fumaça que você deixou pelo caminho.
Antonio apagou nervosamente o charuto no cinzeiro, encolhendo-se no sofá, parecendo menor em sua estatura do que realmente era.
Ele passou as mãos pelos cabelos, agora úmidos de suor. O cheiro de rum, tabaco e mofo parecia sufocar o pequeno apartamento.
— Você não percebe com quem está mexendo — murmurou.
Giza puxou uma cadeira e sentou-se diante dele como quem visita um velho conhecido.
— Entendo mais do que imagina.
Ela abriu a mochila gasta e retirou uma pasta fina, amarelada pelo tempo. Fotografias escorregaram sobre a mesa: notas fiscais, rostos desfocados, placas de carros, um retrato antigo de Celso Ferreira sorrindo ao lado da esposa e de uma menina pequena.
Antonio observou tudo em silencio.
— A menina cresceu sem pai — disse Giza. A esposa faleceu esperando justiça, e você continuou fumando charutos caros como se o passado tivesse apodrecido sozinho.
Ele tentou manter a firmeza.
— Eu apenas obedecia ordens.
— Todo covarde diz isso em algum momento.
Do lado de fora, ouviu-se uma sirene bem distante cruzando a madrugada. Ela não desviou os olhos dele.
— Quem mandou matar Celso?
Ele hesitou, as mãos tremiam levemente ao alcançar o copo de rum.
— Se eu informar, eles me matam.
Giza inclinou-se para frente, e se não falar, continuará morrendo um pouco toda a noite.
O velho ventilador girava no teto com um ruído metálico insistente.
Finalmente, ele respirou fundo. Foi por causa dos arquivos do porto. Celso descobriu desvios de carga, armas, documentos falsos, gente importante envolvida.
— Nomes — exigiu Giza.
Ele fechou os olhos por um momento como quem atravessava uma porta sem retorno.
Alguns políticos e empresários estavam envolvidos, mas havia um homem, o chamavam de dom Álvaro.
Ela permaneceu imóvel, mas seus dedos apertaram discretamente a borda da mochila.
Aquele nome estava escrito havia anos em uma folha dobrada no fundo do bolso interno.
E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que estava perto do verdadeiro inimigo.
A chuva começou a bater nas janelas do prédio com violência, espalhando goteiras pelas paredes descascadas do apartamento.
Benevides parecia envelhecer diante dela a cada segundo.
— Onde encontrou dom Álvaro? Perguntou Giza.
Ele demorou a responder. O medo agora falava mais alto do que a arrogância.
— Ninguém encontra aquele homem, ele aparece quando menos se espera.
Giza levantou-se lentamente. Seus joelhos estalaram discretamente, mas a sua presença continuava firme e ameaçadora.
— Todo homem deixa rastros, Antonio.
Ela guardou as fotografias na pasta enquanto ele acendia outro charuto com mãos tremulas.
— Você não faz ideia do tamanho disso. . O porto era só uma parte. Havia muita gente envolvida. Celso tentou entregar tudo aos federais.
— E alguém entregou Celso antes! Ele baixou a cabeça, o silêncio confirmou o que as palavras evitavam.
Ela caminhou até a janela, e lá embaixo a cidade seguia indiferente: ônibus vazios, faróis cortando a chuva, pessoas correndo sob marquises.
— Quem puxou o gatilho? Perguntou ela sem se virar.
Ele demorou para responder. Fui eu.
A frase caiu pesada no apartamento.
Por alguns segundos, ouviu-se apenas o ventilador cansado e a chuva.
Ela fechou os olhos por alguns instantes, não havia surpresa em seu rosto, apenas um cansaço antigo profundo.
— Celso pediu para viver?
Antonio apertou os dedos ao redor do copo. Pediu.
— E mesmo assim você atirou.
— Eu tinha uma filha pequena, eles ameaçaram minha família.
Ela virou-se devagar. O medo explica muita coisa, Antonio, mas não apaga o sangue.
Ele tentou dizer algo, mas parou ao vê-la abrir novamente a velha mochila.
De dentro dela, ela retirou um pequeno gravador portátil. A luz vermelha ainda piscava.
Ele empalideceu. Você gravou tudo, cada palavra.
Nesse instante, ouviu-se um ruído seco no corredor e passos.
Ela ergueu os olhos para a porta descascada e percebeu imediatamente que alguém mais havia chegado.
Celso Ferreira era um funcionário ligado ao porto, discreto, metódico e aparentemente comum. Trabalhando entre documentos de carga, registros de navios e autorizações alfandegárias, acabou descobrindo um esquema criminoso muito maior do que imaginava.
Ele percebeu desvios de mercadorias, falsificação de documentos, lavagem de dinheiro envolvendo políticos e empresários. Diferente de outros que preferiram o silêncio, ele decidiu reunir provas.
Mas a sua maior tragédia foi acreditar que ainda existiam pessoas honestas suficientes para protegê-lo.
Antes de morrer, ele tentou entregar os arquivos às autoridades. Passou semanas escondendo documentos, fazendo cópias e mudando rotinas para proteger a esposa e a filha. Mesmo assim, acabou traído.
Ele era o tipo de homem tímido, educado, sempre carregando pastas debaixo do braço e falando baixo demais. Porém, justamente por isso, ninguém imaginava que teria coragem de enfrentar gente tão poderosa.
Para Giza, o caso nunca foi apenas sobre um assassinato.
Celso representava algo raro, alguém comum que escolheu não se vender. E talvez por enxergar nisso uma dignidade quase esquecida.
Na velha fotografia que Giza guardava na mochila, Celso aparece sorrindo ao lado da família num domingo simples de verão. É essa imagem, mais do que os documentos, que a faz continuar caminhando pelas ruas atrás dos nomes da lista.
Os passos no corredor pararam diante da porta descascada. Antonio empalideceu.
— Eles me encontraram, sussurrou.
Mas, antes que pudesse reagir, ouviu-se uma batida forte.
— Polícia! Abram a porta!
Ele levou a mão ao peito, sem saber se sentia alívio ou pavor. Giza continuou imóvel.
Outra batida mais insistente.
Giza caminhou lentamente até a entrada e abriu. Três policiais entraram com armas erguidas, o cheiro da chuva entrou com eles.
— Ninguém se mexe!
— Antonio levantou as mãos imediatamente.
Um dos policiais olhou para ela com estranheza. A velha mochila, os sapatos gastos, o rosto marcado pelo tempo, nada nela lembrava alguém capaz de desmontar anos de silêncio criminoso.
— A senhora chamou a polícia? Perguntou um dos oficiais.
Ela apenas apontou para o gravador sobre a mesa.
— A confissão está inteira aí.
O oficial aproximou-se devagar, apertou o botão e ouviu a voz trêmula de Antonio.
Fui eu.
O ambiente mergulhou num silêncio pesado. Do lado de fora, a chuva começava a diminuir.
Antonio foi algemado sem resistência.
Ao passar por Giza, evitou encará-la.
Ela ajeitou a mochila nos ombros.
Os policiais conduziram Antonio pelo corredor estreito do prédio. As luzes frias piscaram sobre as paredes úmidas enquanto vizinhos curiosos abriam portas apenas alguns centímetros.
Um dos oficiais voltou-se para Giza.
— A senhora deveria ir conosco prestar depoimento.
Ela deu um sorriso cansado, meu depoimento começou há muitos anos.
Antes que ele insistisse, ela já caminhava em direção às escadas.
Lá embaixo, a cidade ainda brilhava, molhada pela chuva da madrugada. Ônibus transitavam quase vazios, um jornaleiro abria sua banca, em algum lugar distante ouvia-se música de Nelson Gonçalves.
Ela desapareceu na calçada como mais uma figura anônima entre tantas outras.
Mas na mochila velha, ainda restavam nomes na lista.
E, enquanto a cidade despertava sem notar sua presença, ela já seguia em direção à próxima missão!
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