As Linguarudas do bairro
Adelaide Dittmers
Cristina entrou na casa, esbaforida. Não podia acreditar no que acabara de ouvir. Duas vizinhas conhecidas por suas línguas venenosas estavam se deliciando com a história da traição de Mario, um homem respeitado por todos, que sempre lutava para melhorar o bairro em que viviam. Discreto e educado, agia sem alardes para conseguir um asfaltamento em alguma rua ou para limparem os bueiros, que podiam causar um alagamento nas épocas de chuva.
Segundo elas, houve uma briga feia entre ele e a mulher. Os gritos dos dois foram ouvidos por toda a vizinhança e o estampido de algo que caiu com violência no chão assustou todos.
A mãe, ao ver a agitação da filha e ao escutar o que ela acabara de contar, ponderou que aquela história não era confiável porque as duas mulheres eram conhecidas pelos seus mexericos e adoravam cornetear tudo o que poderia ser errado, verdadeiro ou falso na vida alheia,
— Será verdade? A mãe questionou. Ele sempre me pareceu um homem tão sério.
— Também fiquei na dúvida! Diz Cristina.
— Não sei não. Essas duas são tão fofoqueiras… ele não é uma pessoa briguenta. Ao contrário, sempre tão centrado e gentil. Não consigo acreditar!
O pai, que estava no escritório trabalhando em um processo, aparece na sala.
— O que está acontecendo?
Cristina repete o que ouviu das vizinhas.
— Vocês vão acreditar no que dizem essas duas. Elas aumentam tudo o que ouvem por aí. E muitas vezes já espalharam notícias falsas. São duas solteironas infelizes e frustradas. E prosseguiu: Mario é uma boa pessoa e a sua vida particular só interessa a ele.
— Então você aprovaria se, por acaso, ele tivesse uma relação fora do casamento? Diz a mãe, já com as garras de fora.
— Não disse isso. É que não temos o direito de meter o nariz na vida dos outros. Seja considerado certo ou errado o que fazem. E digo mais: quem muito acusa é que pode ter o rabo preso.
— Ah! Júlio, você quer dizer que elas… Não, não posso acreditar! São duas linguarudas, mas… será que seriam capazes de ter uma vida… nem ouso falar…
— Aqueles de quem a gente menos espera…
— Você está sabendo de alguma coisa dessas duas?
— Tudo é possível. Nunca se sabe… Às vezes, quem só olha para o lado… quer desviar a atenção de seus feitos desonestos.
Cristina olhou para os pais e, com um sorriso maroto, disse:
— Nossa! Acho que se remexerem a vida de todo o mundo. Sei lá… o que vamos descobrir.
— É melhor então nos fixarmos na nossa própria vida. Disse a mãe. E deixarmos os outros resolverem seus problemas, suas desavenças e não sei mais o que…
— A não ser que estejamos na berlinda. Completou o pai.
E, com um sorriso zombeteiro, acrescentou:
De repente, vão dizer que o meu escritório de advocacia também está envolvido nesse caso do Vorcaro.
E os três caíram na gargalhada.
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