Tempos de Guerra
Adelaide Dittmers
José acordou assustado. O som agudo de uma sirene avisou que um novo bombardeio iria atingir a cidade. Estava naquele país para uma reunião sobre mudanças climáticas causadas por vários tipos de poluentes, que contribuem para o aquecimento global, quando estourou uma guerra.
A região sempre foi palco de várias disputas pelas riquezas entranhadas em seu solo. Agora representantes de vários países estavam presos no lugar porque os voos foram suspensos.
Ele colocou um roupão, pegou o celular e saiu do quarto do hotel como uma flecha disparada por um arco. No corredor, pessoas apavoradas corriam para alcançar o subsolo e tentar sobreviver ao ataque.
José nunca teve que enfrentar uma situação como essa. Morava em uma região com muitas carências, mas pacífica. Vários bombardeios já tinham atingido a cidade em pontos diferentes, mas este, pelo jeito, poderia alcançar o hotel.
A garagem já estava fervilhando de pessoas quando chegou. Os rostos assemelhavam-se a máscaras franzidas pelo medo. Ele observou uma menina que, agarrada à mãe, chorava assustada pela situação desconhecida e incompreendida.
Seu pensamento fez o voo, que ele não podia fazer, para voltar para sua esposa e a filha de seis anos. Precisava, mais uma vez, manter a calma e a lucidez para superar a ansiedade, que lhe tomava a alma.
Num impulso instintivo, José aproximou-se da criança e a pegou no colo, tentando acalmá-la, cantando uma música infantil e a balançando como se estivesse brincando. A criança parou de chorar. Os olhos apavorados da mãe o atingiram e o obrigaram, comovido, a usar o idioma inglês para apaziguar a menina.
De repente, vários estouros se seguiram, acompanhados pelas sirenes enlouquecidas pelo ataque, no entanto, naquele subsolo, o silêncio reinava, como se as pessoas quisessem se tornar invisíveis e invulneráveis.
Subitamente, o som ensurdecedor do bombardeio foi diminuindo. As pessoas ergueram os olhos para o alto, como se pudessem ver o céu, onde os drones mortíferos haviam passado, destruindo tudo o que havia abaixo deles. José entregou a criança à mãe e percebeu que as mãos dela tremiam incontrolavelmente. A impotência e a piedade por aquela mulher indefesa fizeram com que mordesse seus próprios lábios.
Aos poucos, os hóspedes e os funcionários do hotel foram se movendo calados. Estavam vivos, mas sobreviveriam se houvesse outros bombardeios?.
José subiu para seu quarto. O celular tocou. Era a esposa. Ele deu um profundo suspiro e modulou a voz para disfarçar o perigo que havia enfrentado e disse estar tudo bem. Quando desligou, uma lágrima desceu sorrateira por sua face.
Quando sairia daquele caos. Viera para um encontro, que almejava melhorar e mesmo preservar o planeta de desastres naturais, mas o homem, em busca de mais poder e riquezas, fazia guerras e destruía o que estivesse em seu caminho para conseguir o que queria.
Com gestos automáticos, tirou o pijama e foi tomar um banho. A água tépida caiu como um bálsamo em seu corpo, lavando e levando para o ralo o medo, que lhe tolhia a alma.
Vestiu-se e desceu para tomar o café da manhã. Os garçons corriam de um lado para o outro como se nada tivesse acontecido. Ele pensou, sacudindo a cabeça, como os homens conseguem disfarçar seus medos mais profundos.
Sentou-se a uma mesa perto da janela e olhou para o jardim florido, um pássaro pousou em uma folha, na sua inconsciência não havia percebido o perigo que correu. O celular tocou. O promotor do encontro sobre as mudanças climáticas avisava que em uma hora passaria um microônibus para levá-los até a fronteira, onde entrariam no país vizinho que não estava em guerra e embarcariam em um avião, que os levaria a um país neutro, de onde seguiriam para casa.
José inspirou fundo e soltou o ar pela boca. O alívio amenizou sua expressão contraída. Levantando os olhos, viu a jovem mãe e a criança, que acabara de entrar no salão. Sem hesitar, levantou-se e dirigiu-se a ela, perguntando se ela queria sair do país, explicando como era o esquema escolhido.
Um sorriso emocionado iluminou o rosto da moça e ela apenas moveu a cabeça para dizer que sim.
Uma hora depois, estavam no veículo, que os levaria para longe daquele inferno. O grupo estava calado, cada um imerso em seus pensamentos. A tensão pairava no ar. O pequeno ônibus ia avançando pela estreita estrada e só se ouvia o roncar do motor. O grupo permanecia em silêncio, os olhos rondavam a redondeza. O medo de outro ataque era visível no rosto sério de cada um.
A criança era a única passageira, que apontava para os campos, que corriam velozes pelas janelas, onde carneiros pastavam indiferentes e inconscientes ao que podia ocorrer a qualquer momento.
Outro bombardeio eclodiu. Os fugitivos olharam-se assustados, as palavras ficaram guardadas dentro deles, mas os olhos disseram tudo o que a voz não conseguia articular. O motorista virou para trás e gritou em um inglês tosco que o ataque estava sendo muito longe, atrás deles. O medo, porém, é um algoz, que altera o raciocínio dos seres humanos e os prende em uma teia de emoções desencontradas. O grupo ficou rígido, os músculos contraídos.
Enfim, a estrada foi sendo vencida e longe surgiu uma ponte fortemente vigiada por militares do país vizinho.
Os passageiros levantaram a cabeça e um 'graças a Deus' saiu da boca de um deles.
O micro-ônibus parou no começo da ponte e todos desceram para apresentar os documentos e explicar por que estavam no país em guerra. O motorista também apresentou os seus. Não queria voltar para aquele inferno. Era um imigrante e não tinha família lá.
Os soldados autorizaram o veículo a continuar a viagem até uma cidade próxima. Depois de cerca de quarenta minutos, chegaram à cidade, em que pegariam um voo, que os levaria a outro país neutro. Duas horas depois, estavam aterrissando no país, em que tomariam o rumo de casa.
José despediu-se emocionado do grupo, que almejava um mundo melhor e que fora pego pelo pior que o homem pode causar: uma guerra para ter mais poder.
Ao se despedir da mãe e da criança, lágrimas de gratidão molharam o sorriso dela e, com a voz embargada, ela se apresentou: Sou Catherine e ela é Mary e ele também disse o seu nome.
No voo para o seu país, José enviou um WhatsApp para a esposa. “Estou voltando.” Um ícone sorrindo e um coração tentaram traduzir sua alegria de voltar para casa.
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