Eram cinco horas…
Hirtis Lazarin
O brechó cheirava a poeira acumulada. Ali o tempo foi esquecido e as identidades se misturavam. Entre os cabides de metal que rangiam sob o peso de tecidos, as peças de roupas pareciam esperar, com paciência resignada, que alguém as levasse dali. Não eram apenas roupas, eram a soma de momentos que já não pertenciam a mais ninguém.
Lívia caminhava entre as fileiras de lã e linho, até que seus olhos pousaram naquele blazer bem modelado. Era de um cinza profundo, quase fustigado, como se tivesse absorvido muita fumaça de cigarro antes de ser deixado ali, por um preço irrisório.
Tirou a peça do cabide, examinou o tamanho e o preço anotados na etiqueta: estava compatível com o que ela tinha na carteira. Aliás, ali estava tudo que restava da sua parca aposentadoria. O frio acabava de pôr as manguinhas de fora e o seu guarda-roupa estava vazio de peças quentes.
Ela fechou a porta do apartamento, deixando o ruído das ruas pra trás. Vestiu o blazer, a lã era áspera, mas trazia um calor que parecia vir de dentro das fibras, uma temperatura que não era dela. Diante do espelho, observou que a estrutura da peça moldava seu corpo, preenchendo vazios que ela nem sabia existirem. Ao ajeitar a lapela, num gesto automático de quem busca conforto, sentiu um pequeno volume estranho. Estava por trás do forro descuidado, preso por um fio de linha que insistia em não partir.
Lívia não hesitou; a curiosidade era bem mais forte que o pudor de mexer no passado alheio. Puxou o objeto, sentindo o metal frio contra a palma da mão. Era uma chave pequena, de latão leve e gasto, com uma etiqueta plastificada, onde se liam: o número 32 e o endereço de um antigo terminal ferroviário da cidade, um lugar que agora só abrigava sombras e o eco de trens que não passavam mais.
Enquanto a maioria das pessoas guardaria a chave numa gaveta como curiosidade de antiquário, ela não era dada a hesitações. Não tirou o blazer, sentindo que a peça era agora seu uniforme de investigação e, cinco minutos depois, já estava no carro.
Enquanto o metal da chave queimava em seu bolso, a ansiedade apertava seu estômago como o marinheiro aperta o nó da corda grossa. Respirava com tamanha dificuldade, que foi obrigada a encostar o carro por alguns minutos.
Ao chegar, o cenário vazio da estação era de uma beleza estática: as plataformas vazias e o relógio parado pareciam suspensos num tempo que não avançava mais. Lívia olhou pra baixo e viu os trilhos. Eles repousavam ali, entregues à própria sorte, como serpentes de ferro paralisadas pelo tempo. O ferro estava sendo devorado por uma ferrugem faminta, que vestia o metal com uma pele alaranjada e ressecada; e o mato crescia e se esparramava entre os dormentes de madeira podre, num esforço silencioso de apagar o caminho. E bem lá no meio do mato, um punhado de florzinhas pintou de amarelo aquele verde intenso.
Não havia mais o tremor do chão, nem o apito cortante, apenas o silêncio pesado de quem não tem mais pra onde ir.
Lívia caminhou decidida entre os ecos de seus passos até encontrar a fileira de armários metálicos, ainda organizados em numeração crescente. O 32 estava bem à sua frente. A tinta descascada revelava cicatrizes de décadas de partidas e chegadas.
A poeira acumulada em tudo que se via castigou seus pulmões e um acesso de tosse seca e persistente interrompeu o que ela pretendia fazer.
Depois de, aproximadamente, meia hora, ela pôde se posicionar à frente do armário. Seus dedos gelados, transformados em hastes rígidas de vidro, tremiam ao aproximar a chave da fechadura. Ela sentia que, ao girar aquele cilindro, não estaria apenas abrindo um armário, mas rasgando o véu que separava o seu presente do passado de um fantasma.
Depois de um estalo seco, o armário se abriu. Lá dentro, uma caixa de madeira gasta e sem brilho. Ao abrir, um susto: sobre um maço de cartas amarradas com barbante, repousava um relógio de pulso com o vidro trincado, parado às cinco horas. Cinco da manhã ou da tarde?
Sentada no chão frio da estação, com o blazer ainda abraçando seus ombros, Lívia abriu o primeiro envelope. No topo da carta, uma caligrafia pequena e apertada: “14 de dezembro de 1972”. A carta foi escrita numa noite de domingo, quase quarenta anos atrás.
À medida que lia, uma dor forte crescia no seu peito… Ela ainda era uma criança e o autor solitário sofria as dores da indiferença e do abandono.
Naquelas cartas não havia crimes ou perigos, apenas os destroços de alguém que insistia em não ser esquecido. As cartas não tinham selo; eram endereçadas a alguém que nunca as recebeu. Eram monólogos de um homem solitário e apaixonado. Agora, ela e aquele estranho compartilhavam o mesmo silêncio, separados pelo tempo. Lívia não havia adquirido, num brechó, apenas um blazer de boa qualidade; a sua curiosidade invadiu a privacidade de um estranho.
Subitamente, ela interrompeu a leitura e um peso denso abateu sobre ela: a curiosidade que antes a movia parecia agora uma invasão cruel, um sacrilégio contra a intimidade de quem nada mais tinha além daquele silêncio. Devolveu as cartas e o relógio ao seu repouso. Fechou o armário com o pesar de quem encerra um túmulo.
Ao sair da estação, jogou a chave num bueiro, ouvindo o tilintar final de um segredo que não lhe pertencia. Já na rua, sob a luz indiferente dos postes, despiu-se do blazer e o entregou à primeira pessoa necessitada que encontrou encolhida contra o frio.
Estacionou o carro em frente ao “Bar do Nenê” e pediu duas doses de uísque. À medida que o copo se esvaziava, o peso das cartas e do casaco ia diminuindo.
E o vento da noite, pela primeira vez, parecia soprar só pra ela.
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