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quarta-feira, 29 de abril de 2026

A Última Página - Hirtis Lazarin

 


A Última Página   

Hirtis Lazarin                                                    


Joana acorda com a visão turva, como se uma película de vidro fosco estivesse entre ela e a realidade. Esfregou as pálpebras, esperando que as formas ao seu redor ganhassem nitidez.

A névoa dos seus olhos finalmente se dissipou, mas o alívio durou pouco. Em vez das paredes familiares do seu quarto, o que apareceram foram fileiras apertadas de poltronas e o brilho das luzes de um avião.

Assustadíssima, ajeitou-se na poltrona e olhou para a tela do sistema de entretenimento à sua frente, tentando se localizar. No mapa, um avião avançava lentamente sobre o oceano.

O zumbido constante das turbinas parecia vir de dentro da sua própria cabeça, uma nota única e persistente que a impedia de organizar os pensamentos; sentiu as mãos frias. Na bandeja à frente, um copo plástico com sobras de água e um guardanapo sujo.

Para onde estou indo?

 Ela não lembrava de ter embarcado, nem para onde estava indo. Tentou se mexer e seu braço esbarrou em algo sólido. Ao olhar para o lado, seu coração falhou numa batida e o ar lhe faltou. Um homem de ombros largos e expressão estranha ocupava o assento ao seu lado. Ele fechou o jornal que lia e a encarou. Tinha olhos cansados e uma expressão de quem já cruzara o mundo vezes demais.

Percebendo o estado confuso da mulher…” Estamos sobrevoando o oceano. Vamos fazer uma escala em Doha, Qatar”.

A fala do homem não trouxe o alívio que ela esperava. Ao contrário, as palavras “Doha” e “Qatar” ecoaram como um idioma estrangeiro. Ela nunca havia planejado sair do país, tinha medo de avião.

— Qatar? A voz dela saiu pequena, sem força, quase um sussurro sufocado pelo ruído da pressurização.

— Sim. Escala em Doha antes do destino final. O voo é longo, melhor tentar dormir um pouco.

Sem esperar uma resposta, o homem virou-se pro outro lado, abriu novamente o jornal, agindo como se não tivesse acabado de dizer algo   aterrorizante.

A cabeça de Joana entra em parafuso. Vira-se para o estranho e, antes de falar qualquer coisa, seus olhos recaem sobre a primeira página do jornal.  O papel está levemente amarelado nas bordas e o cheiro de tinta virou cheiro de coisa velha guardada. No topo da página, em letras garrafais, a data salta aos olhos: 15 de maio de 2006.  O jornal é de vinte anos atrás. As notícias falam de um mundo em que ela já viveu, de políticos que já se aposentaram e de tecnologias que hoje parecem pré-históricas.

— “Esse jornal…” — ela balbucia, apontando o dedo trêmulo. — Por que o senhor está lendo algo de duas décadas atrás? Ele finge não ouvir a pergunta.

Com sintomas de vertigem, Joana gira bruscamente o corpo em direção à pequena janela oval, buscando desesperadamente o seu próprio reflexo no vidro escuro. O rosto que a encarava de volta, emoldurado pelo azul profundo do oceano lá fora, não era o seu: a imagem mostrava uma mulher muito mais velha, com marcas de expressão que ela nunca tivera e um olhar de cansaço. — “Meus cabelos… Por que estão brancos”? 

Precisava de alguém que lhe dissesse que aquilo era um delírio. Procurou a bolsa de mão e não a encontrou.  Livrou-se do cinto de segurança e não conseguiu se levantar. As pernas pesavam como chumbo, desacostumadas com o próprio corpo. Apoiou-se nos braços da cadeira pra ganhar impulso e o homem ao lado nem sequer ergueu os olhos do jornal. 

Ao ficar em pé, a cabine rodopiou; olhou pro corredor e o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo ronco abafado das turbinas que os levavam a Doha, num tempo que claramente não era mais o seu. Sentiu-se só, dentro de um tubo de metal suspenso sobre o oceano, presa entre um homem que lia o passado e um exército de sombras que não pertenciam ao presente.

O homem olhou-a com reprovação e fechou o jornal tão bruscamente — os ouvidos dela estavam muito sensíveis — que o estalo do papel velho ecoou na cabine. Joana franziu a testa, escondeu o som com as mãos e gemeu. Ele não se apressou; dobrou a folha amarelada e a colocou sobre o colo; as mãos eram tão grandes e enrugadas que até cobriam a manchete de vinte anos atrás. 

“Sente-se, Bequinha” — um apelido que ela não ouvia há anos e que confundiu sua memória esquecida. — “O oceano é profundo demais pra quem fica em pé antes da hora. Doha é apenas o começo da sua… sua devolução”.

Antes que ela gritasse, suas forças se foram; desabou na poltrona que não era tão macia assim. O choro chegou de forma convulsiva; um soluço violento sacudia seus ombros e a deixava sem ar. Ela chorava pela lembrança da infância invocada naquele apelido e pelo terror de estar à mercê daquele desconhecido que parecia indiferente ao seu sofrimento. 

Sem dizer uma única palavra, ele tira algo do bolso e estende a mão direita em sua direção. Os dedos compridos seguram firme um ursinho de pelúcia com as orelhas descosturadas; era o seu brinquedo favorito, aquele que ela acreditava ter perdido num incêndio há trinta anos.

“Você o esqueceu no jardim, Bequinha”. — A voz, agora, era suave como uma canção de ninar distorcida. — “Não se preocupe, em Doha você poderá segurá-lo novamente.”

O toque de pelúcia, áspero em seus dedos, disparou uma última centelha de memória; o avião, subitamente, mergulhou numa turbulência violenta e, aos poucos, já planava leve feito uma pena. As luzes da cabine piscaram e o azul profundo da janela foi substituído por um branco-calmante; o ronco das turbinas foi se transformando num som rítmico e eletrônico: bip… bip… bip… A voz fraquinha da aeromoça, vestida de branco, não falava de escalas ou destinos; sussurrava um adeus carregado de choro. — “Ela está indo”. 

 “Será que já chegamos a Doha”? — Ela ainda conseguiu perguntar. — O jornal velho, o corpo cansado, o brinquedo perdido foram desaparecendo…

O homem, que a acompanhava há mais de um ano, levantou-se, fez uma prece e, delicadamente, alisou seus cabelos. 

O registro no monitor, que controla os batimentos cardíacos, tornou-se uma linha contínua, anunciando que Joana, finalmente, havia chegado ao seu destino.


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