O BILHETE
Adelaide Dittmers
O sábado amanheceu frio e chuvoso. Carmen anda com cuidado pela calçada irregular e escorregadia. Chega em frente a um brechó, que ela frequenta há muito tempo. Fecha o guarda-chuva colorido, que resguarda da garoa. E entra.
Começa a vasculhar algo interessante nas araras cheias de roupas de todo tipo. Um casaco bege chama a sua atenção. Desliza a mão por ele e se encanta com a maciez do tecido. Tira-o do cabide e se surpreende pelo perfume suave que emana da peça. Veste-o e se olha no espelho. Está perfeito. O preço é inacreditável para um artigo tão especial.
Minutos depois, sai feliz pela boa compra. Com passos rápidos, vai pela rua, desviando-se das poças de água, que se formam no calçamento mal feito.
Depois de um bom tempo, serpenteando pelo bairro, chega à sua casa. Entra rapidamente, soltando os sapatos molhados no pequeno hall. E, com satisfação, sente o abraço quente e aconchegante de seu lar.
Tira da sacola o grande pacote e o veste novamente. Enfia as mãos nos bolsos e em um deles há um papel amassado, que ela puxa e lê:”Por favor, não me persiga mais. Aceite minha decisão de nos separarmos. A sua revolta pode levá-lo a algo de que você se arrependa tarde demais. Nosso casamento estava em frangalhos. Você nunca enxergou que seu ciúme doentio acabou com nosso relacionamento. Estou cansada de sempre viver sobressaltada com o que você possa fazer.
Estava endereçado para Fausto e a assinatura trêmula era de Lina. Por que ela não enviara aquele bilhete? Há quanto tempo teria sido escrito e deixado no brechó? Logo ela tinha que gostar desse casaco. O seu faro de investigadora policial lhe dizia que não podia ignorar o que estava escrito. Tinha que voltar ao brechó e tentar saber quem o deixou lá.
Na manhã seguinte, entrou na loja e, com passos decididos, dirigiu-se à dona, perguntando se ela lembrava quem entregara o casaco. A mulher não escondeu o espanto e, com uma voz nervosa, perguntou por que ela queria saber. Carmen esclareceu que havia achado um bilhete muito estranho em um dos bolsos do casaco e que lhe parecia que a dona estava em perigo, confessando que era investigadora policial. A mulher então falou que fora uma cliente, que tanto trazia roupas como comprava muitas peças da loja. O nome dela era Carolina e disse ter o endereço dela.
Em posse do endereço, Carmen agradeceu à mulher e saiu. O lugar era umas quatro quadras dali e ela percorreu esse percurso rapidamente. Parou em frente ao número indicado. Era uma bonita casa térrea, com um jardim bem cuidado, onde flores coloridas enchiam o lugar de vida.
Tocou a campainha. Uma senhora atendeu e a investigadora perguntou se Carolina estava em casa. A mulher ficou paralisada.
— Quem é você? Perguntou rispidamente.
— Sou uma amiga. Faz muito tempo que não nos vemos. Mentiu.
— Ela não está. Sofreu um acidente e está no hospital.
— Muito grave?
— Sim, mas está fora de perigo.
— Meu Deus! Quero vê-la! Qual hospital, senhora?
— São José.
Carmen agradeceu e chamou um táxi. Meia hora estava lá. Mostrou a carteira de policial sendo liberada para ver Carolina. Entrou no quarto, fixando seu olhar na mulher, que estava recostada na cama. Não devia ter mais do que quarenta anos e era muito bonita, apesar dos hematomas que tinha no rosto. Ela se apresentou e Lina estremeceu.
— Olá, Carolina! Quero saber como você se feriu.
— Um, um assalto. Gaguejou.
— Não minta para mim. Suponho que você foi ameaçada.
— Como você descobriu?
— Por um bilhete que você esqueceu no casaco que comprei no brechó.
Lina começou a chorar. Não queria que ninguém soubesse, porque iria piorar a situação.
Carmen pacientemente lhe aconselhou a não ter tanto medo. Que ela precisava ser protegida. Ela então confessou que o ex-marido era muito estourado e ciumento e cismava com qualquer um que se aproximasse dela e, quando ela quis a separação, ele ficou furioso.
Ela escreveu aquele bilhete, mas não teve coragem de enviá-lo a ele. Preferiu sair de casa, aproveitando uma viagem dele, e ir para a casa dos pais, entregando o caso a um advogado da família. Quando ele voltou, telefonou dizendo que finalmente aceitava a separação. Era uma noite escura quando se encontraram para conversarem sobre isso. Ele aproveitou a escuridão e a espancou no jardim da casa dos pais, que, ouvindo seus gritos, saíram desesperados. E, antes de ir embora, ameaçou meus pais caso levassem o caso adiante.
Carmen aconselhou-a a ficar alerta e nunca sair sozinha, e que ele iria ser preso. E, curiosa, perguntou por que havia vendido o casaco, e ela lhe disse que fora um presente dele e ela não queria nada que dele viesse. O bilhete iria ser entregue a uma amiga em comum para chegar a ele, mas na última hora não quis envolvê-la nessa história e o esqueceu no casaco.
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