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quarta-feira, 29 de abril de 2026

VIRE A FOTO - PEDRO HENRIQUE.

 




VIRE A FOTO PEDRO HENRIQUE. Os gestos sutis do vento abraçam o corpo inerme de Arthur, prendendo-o em seu íntimo, de modo que, antes de o rapaz ir à entrevista, ele passa em um brechó perto do centro comercial onde reside o escritório do Dr. Leonardo Lacerda. Quando entra no estabelecimento, vê-se defronte a uma senhora um tanto idiossincrática: cabelos cor-de-rosa, brincos de abacaxi, saia colorida e óculos no formato de morango. “Ora, ora! Olá, bonitão! O que procuras aqui? Ah, já sei. Veio pedir meu número? Não, espera: veio me pedir em casamento?” A senhora o encara com um olhar provocativo. O garoto ri. “Acho que hoje não”. “Ah, sério! Ok, é você quem perde. Tá, chega de perder tempo. Nem te achei tudo isso mesmo. O que quer?” “Você é engraçada. Bom, queria um casaco, um blazer de preferência. Hoje é um dia importante. “Dia importante, bonitão?” Ela arqueia a sobrancelha. “Agora, você me lembrou da minha avó; ela dizia que todos os dias são importantes. Sabia que a velha morreu com cento e três anos de idade? Quem morre com cento e três anos? Mas deixa isso para lá. Vamos, vamos, se não estou velha demais para me lembrar, os blazers estão aqui. Ah! Como sou mal-educada. Você havia dito que hoje é um dia importante. O que fará? O rapaz a segue pelos corredores daquele pequeno lugar. “Tenho uma entrevista de emprego com um advogado que admiro muito”. “Que coisa chata.” Arthur fica boquiaberto, não acredita no que aquela pequena senhora tão peculiar acabou de dizer, entretanto leva tudo com muita tranquilidade. “Por quê?” “Achei! Tenho estes aqui. Ah, sim. Não leve a mal: acho Direito uma coisa chata. Sou mais da música, do teatro, das artes… Gosto de cor, de vida, de alegria.” O rapaz olha os blazers, avaliando não só o tecido, mas também o que a senhora acabou de afirmar. Pega um modelo azul-marinho e o coloca, olhando-se no espelho, verificando se a peça lhe caiu bem. “Bom, de fato não é uma área na qual os profissionais darão pulos de alegria diariamente; acredito ser justamente o contrário, porém, para quem gosta, pode ser um pouco divertido. Vou ficar com este. “É, pode ser, bonitão. Vamos, vamos, vou pôr em uma sacola para você”. Já no caixa, Arthur sinaliza que não precisa de saca, pois irá com o blazer à entrevista. Ele paga a peça e se dirige à saída; entretanto, antes, olha para a senhora que está com as duas mãos formando um coração para ele. “Volte quando quiser e não ligue para mim. Sou assim mesmo. Depois que se envelhece desta forma, é difícil mudar, entende?” Arthur ri genuinamente e, com certo afago por aquela moça engraçada, retribui o coração. *** A entrevista foi um sucesso. Dr. Lacerda não pestanejou quando apreciou o currículo do rapaz. A contratação foi inexorável. Agora, Arthur, finalmente, pode ligar para a mãe e contar que trabalhará com um dos advogados mais renomados da grande São Paulo. Antes, porém, há de ceifar a rigidez que os ambientes jurídicos reivindicam. Tira sapato, gravata, desabotoa os primeiros botões da camisa e retira o blazer e, quando o faz, percebe uma imagem no chão. Deve ter caído do casaco — pensa. Não demora para seus dedos tocarem a imagem, dando a ela a vida necessária para adentrar sua íris e despertar curiosidade. Reside na tela uma linda moça de mãos para o alto, sorridente e espontânea, no Cristo Redentor. Seu olhar parece um singelo sussurro que convoca Arthur a indagar-se: “Quem é?” *** Mal chegou ao escritório, Dr. Lacerda começa a pedir ao novo funcionário que leia os processos, dê início à escrita dos documentos e responda às toneladas de e-mails que parecem aumentar mais e mais. Todavia, há um certo olhar, sorriso e rosto que não se obliteraram da memória do advogado. Quem é aquela moça? Qual é seu nome? Seu cheiro? Seus gostos? Quando a tarde chega, Arthur levanta-se da sua mesa e segue rumo ao brechó. Se há alguém que pode ter alguma informação sobre a foto, esse alguém é aquela senhora louca. Assim que entra, ele ouve um grito espontâneo e logo em seguida: “Olá, bonitão! Sabia que você voltaria. Agora sim: veio me pedir em casamento?” Arthur leva tudo com muito humor. “Outra vez: hoje não. Na verdade, vim aqui porque queria saber a quem pertence esta foto”. A senhora para, respira e repousa os olhos sutilmente sobre a imagem. Investiga o rosto da jovem, seus singelos e pulcros traços, então, como quem viu um anjo e não vislumbra em si estrutura para subjugar a emoção, ela concede vênia a uma lágrima que caminha por sua bochecha. “É uma bela moça, não acha?” Afirma, secando o rosto. “Você sabe algo sobre ela? Achei esta foto no blazer que comprei ontem.” “Ah, sim, sim. Bom, não sei. Nunca vi essa moça”. “Tem certeza?” Ela o encara por alguns segundos, completamente séria, destoante daquela senhora afável e sorridente que ele conheceu. “Diga-me, garoto: o que tem nela que te seduz tanto?” “Não, não é isso, eu só queria saber quem é?” “Sei. Então, você está aqui só por curiosidade, bonitão?” Arthur olha para os lados pensando em correr para o mais longe que conseguir dali, mas de repente descobre que não sabe nada sobre aquela moça, então pergunta: “Qual é seu nome?” “Margarida e o seu?” “Arthur”. “Está aí um bom nome.” “Já que você não sabe nada sobre ela, vou deixá-la em paz; entretanto, vou te passar meu número. Se você se recordar de algo, qualquer informação que for, me manda mensagem contando; preciso saber mais sobre ela. Dito isso, o rapaz escreve seu contato, coloca sobre o balcão e vai embora. Margarida fica lá, boiando em seus devaneios, se perguntando o que foi que conheceu. *** Chegando à casa, o rapaz tira o paletó, afrouxa a gravata, prepara algo para comer e vai analisar processos em seu escritório. A noite há muito colocou seu manto sobre a Terra e os grilos já estão ensaiando sua ópera, no entanto, mesmo que tente, Arthur não consegue apagar a moça de sua cabeça. É como uma sentença perene e peremptória que os deuses lançaram sobre ele: você será condenado a ter em seus pensamentos a moça dos olhos bonitos, os quais sussurram seu nome nas madrugadas, e você será obrigado a descer as escadas desse olhar e lá, lá no fundo, encontrarás as respostas que tanto buscas. E, quando a elucubração dorme, ele tem uma epifania. Pega a foto, analisa-a novamente, vira-a no verso e lê: Rio de Janeiro, treze de julho de mil novecentos e cinquenta e sete. Ao observar, outra vez, a moça, sua mente é levada à Margarida. Olhos, sorriso, a lágrima escorrendo pela bochecha dela ao se deparar defronte à imagem. Ele averigua a roupa da garota. Tudo tão peculiar: muitas pulseiras, brincos grandes e extravagantes, um estilo meio hippie. Uma risada sai de sua boca. No dia seguinte, antes de submergir ao labor diário, entrará no brechó com um ramo de rosas e uma aliança.

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