O Sequestro
Adelaide Dittmers
Juliana acordou e tentou olhar ao seu redor. Estava tudo meio nublado. Ela piscou várias vezes para tentar enxergar com mais nitidez. Onde estava? Um cinto a prendia. Que barulho era este? A consciência foi se iluminando pouco a pouco. Estava em um avião. Como chegara aí? Sacudindo a cabeça, como se quisesse pôr em ordem os seus pensamentos, olhou pela janela. Nuvens brancas passavam rapidamente, deixando entrever um céu azul.
A lembrança foi aparecendo lentamente, como se estivesse em câmera lenta. Estava em casa, quando surgiu um homem que colocou um lenço no seu nariz. Ela tentou se soltar, mas ele era muito forte, agora estava em um avião e ainda sentia o cheiro da droga, que a havia apagado.
Quis se desvencilhar do cinto, mas não conseguiu, ainda estava fraca. E, desesperada, gritou, enquanto sacudia a amarra que a prendia.
— Aonde estão me levando?
Imediatamente, um homem apareceu ao seu lado. Atrás da máscara, dois olhos verdes penetrantes a olhavam e o franzir da testa denunciava a sua frieza.
— Calma! Disse alterado. Atrás dele, outro mascarado surgiu.
— O que vocês querem de mim?
— Nada de mais. E um sorriso cínico apareceu nos olhos do primeiro a aparecer. Apenas 30 milhões de dólares.
— Vocês estão loucos! Não tenho esse dinheiro. A surpresa e o pavor contraíram suas feições.
— Mas seu marido tem até muito mais do que isso. Um olhar carregado de desprezo caiu sobre ela.
Juliana mordeu os lábios. Seu marido era muito rico, mas ele daria essa quantia absurda para salvá-la? Não tinha certeza, porque antes de tudo, era um ferrenho homem de negócios. Ela sempre se sentira uma boneca, que ele exibia a todos como se ela fosse um troféu. Mas a vida de luxo a seduziu e ela se deixou levar pela vaidade dele.
O coração dela galopava no seu peito. Os pensamentos atropelavam-se. O que iriam fazer com ela? Roger estava na Europa tratando de negócios. Pareceu que o homem leu seu pensamento, porque, com uma voz dura, disse saber da viagem do marido e que já tinham se comunicado com ele. E que a tinham em seu poder.
Juliana não conseguia chorar. Os olhos estavam secos pelo horror da situação em que estava. Com certeza, Roger ofereceria uma grande quantidade de dinheiro para eles, mas iria negociar até o que fosse possível. E eles aceitariam?
Ela os encarou.
— Para onde estão me levando? — perguntou novamente com voz trêmula.
Um dos homens respondeu que era para um lugar onde nunca a achariam. Juliana encolheu-se na poltrona. O que eles queriam era uma quantia absurda. Será que ela valia tanto assim para Roger?
— Se meu marido der a quantia que estão exigindo, o que farão comigo?
Os dois homens se entreolharam.
— Aí vamos pensar o que fazer com você.
— Ela estremeceu. Mas, de repente, resolveu jogar com eles. Talvez sairia viva de tudo isso. Encarou ambos e, pela primeira vez, sua voz soou firme.
— Na verdade, meu casamento está por um fio. Meu marido só pensa nos grandes negócios dele e eu sou a bela mulher que exibe para todos. Vou fazer duas perguntas: se ele pagar o resgate, vocês me deixariam em um lugar qualquer, onde eu possa me virar e sumir da vida dele, ou se ele recusar de dar essa alta quantia, eu vou com vocês.
Os dois homens se entreolharam. Os olhos falavam mais do que qualquer palavra.
— Você está blefando!
— Não estou blefando. Disse com voz convincente.
Horas depois, o avião pousou em uma pista precária. Eles a conduziram para fora. Havia uma casa rústica à frente de uma floresta.
Passaram dias ali, negociando com Roger, que era tão frio e calculista como os sequestradores. Uma senhora fazia a refeição de todos. Juliana podia passear pelos arredores, sempre com a companhia de um deles.
Finalmente, chegaram a um acordo com o marido, que mandaria o dinheiro para um banco fora do país. Ela perguntou o que realmente fariam com ela. Eles responderam que a deixariam em uma cidade próxima. Na manhã em que partiriam, ela levantou muito cedo. Estava ansiosa, que não dormira quase nada. Ao chegar à cozinha, os três homens estavam tomando café sem máscaras. Ela parou assustada. E gaguejou que não iria dizer a ninguém sobre suas fisionomias. Eles sorriram, iam mesmo sair do país, então não tinha importância.
Juliana soltou um suspiro de alívio. Eram homens bonitos, não pareciam bandidos. E um deles que chamou mais a sua atenção era o de olhos incrivelmente verdes.
— Vocês nem parecem, como direi, homens capazes de praticar um crime como um seqüestro.
— E seu marido parece um homem que, para ganhar mais dinheiro, pode vender até a sua alma ao diabo.
— Mas meu marido ganha o dinheiro de forma legal, trabalhando.
— Como você está enganada! Ninguém que tem uma fortuna como a dele ganhou o dinheiro sem prejudicar ninguém.
Ela ficou calada, mas no fundo concordou com o que disseram. O medo havia evaporado. E, com uma voz pausada, ela disse:
— A boneca de Roger virou gente. E se vocês aceitarem, quero ir com vocês, como já tinha dito. E olhou longamente para o homem de olhos verdes.
Os homens abriram a boca espantados. E ela completou:
— Quero recomeçar uma nova vida, em que serei dona de mim mesma e do meu destino, seja ela qual for.
Os três homens ficaram em silêncio, até que um deles disse
— Tudo bem! Até já nos acostumamos com sua companhia.
E os três levantaram e deram a mão para ela.
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