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terça-feira, 6 de agosto de 2024

O Despertar - Adelaide Dittmers

 



O Despertar

Adelaide Dittmers

 

O rapazinho de treze anos apertou os olhos feridos pela claridade súbita.  Quando conseguiu abri-los maravilhou-se com o que viu.  Muitas descrições, tinha ouvido sobre o lado de fora, mas o que estava vendo a tudo superava.  Era como se acabasse de ter saído do útero materno.  Como se nascesse naquele momento.

Árvores floridas, um céu vestido de um azul intenso, onde nuvens brancas desenhavam diversas formas.  Abaixo, um rio esverdeado e vigoroso correndo pelo seu leito pedregoso.

O jovem sentiu-se aturdido e sentou-se para recuperar o fôlego e as forças.  Lágrimas cristalinas rolaram de seus olhos. Ele perdera tudo isso por tantos anos.  Vivera na obscuridade ouvindo as diversas histórias dos mais velhos.

Um homem estendeu-lhe os óculos escuros.

— Coloque isso! Você precisa se acostumar com a claridade!

O menino o pegou e o colocou, mas o retirou.

Queria sorver toda aquela luz, queria sentir aquele mundo, que estava experimentando pela primeira vez.

O vento que lhe desmanchava o cabelo era uma dádiva inesperada e balançava a cabeça para senti-lo como se fosse uma carícia.

Saíra de uma caverna para outra realidade. E uma pergunta imperiosa surgiu em sua mente. O que lhe reservaria esse novo mundo... Imenso demais. Misterioso demais. Inesperado demais.

Levantou-se e, com passos incertos, começou a descer a encosta da montanha. O rio o atraia como um ímã.  Abaixava ocasionalmente para pegar uma flor e a cheirava como um animalzinho fareja algo delicioso.

Os outros, que com ele haviam saído do frio e triste bunker, pararam e o deixaram seguir.

A água fria do rio molhou os pés descalços e encharcou-lhe a roupa. Um arrepio de prazer percorreu-lhe o corpo. O menino pisava com cuidado no solo de pedras lisas, apreciando cada contato com aquela natureza, que desconhecera até agora.

Uma voz feminina ecoou à distância:

— Venha, filho.  Temos que ir.

Ele voltou-se vagarosamente.

— Posso ficar mais um pouco?

— Seu avô está sendo esperado.  Precisamos partir já.

O jovem saiu devagar da água e dirigiu-se para o grupo de pessoas, que o esperavam mais acima.

Na sua cabecinha fervilhavam lembranças desencontradas.  Os dias em que homens traziam suprimentos para o bunker e reuniam-se com o avô sob as lâmpadas, que espalhavam uma luz tênue no ambiente. Momentos únicos, em que traziam notícias do mundo exterior.

A guerra, na qual o país mergulhara na tentativa de conter a invasão por outro povo. A fuga desesperada do avô, que governava a nação, juntamente com a família e componentes do governo. O esconderijo naquele lugar escuro. A resistência daqueles que queriam libertar a terra nativa dos opressores e a fidelidade ao avô, escondida no coração de cada combatente. Histórias que ouvira e tivera dificuldade de entender.

Mergulhado nesses pensamentos, chegou perto do grupo.  Olhos emocionados pousaram sobre ele.  Um senhor de cabelos prateados aproximou-se e acarinhou-lhe a cabeça.

— Pedro, você tem muito a descobrir.  Vamos até a estrada.  Carros nos esperam.

Umas trinta pessoas começaram a caminhar até a estrada.  Já tinham lhe contado que os rebeldes conseguiram expulsar os invasores após tantos anos de lutas e armadilhas ao inimigo e o país foi liberto. O que aconteceria, agora?

Ao alcançarem a estrada, vários carros os esperavam. Os olhos de Pedro arregalaram-se.  Pela primeira vez, via um carro.  Um “Ahhh”, de surpresa, escapou-lhe da boca e deu uma volta pelos veículos, admirando cada detalhe.  O menino estava admirado diante daquela realidade, que conhecera apenas pelas descrições e fotografias.  Tudo era muito maior, mais impactante.    As longas conversas com os adultos, as perguntas constantes que fizera resultaram em uma pálida ideia do mundo exterior.

Sorrisos estamparam-se nos rostos das pessoas. O jovem tinha sido o filho de todos durante os longos e tenebrosos anos em que viveram naquele lugar inóspito.  Ele foi a única alegria e um dos fortes motivos de manterem a esperança de lá sair.

De repente, parou. A alegria e o espanto diante das descobertas chocavam-se dentro dele.  Correu para perto dos pais e abraçou-os como um bebê que pede colo para se sentir protegido.

O avô derramou um olhar carinhoso sobre o neto, compreendendo os sentimentos contraditórios que o deviam estar sacudindo.

— Vamos, Pedro! Entre no carro.  Precisamos ir para a cidade.  Estão nos esperando.

Todos tomaram seus lugares e seguiram pela estrada estreita de terra.

O menino tinha os olhos pregados na janela, observando a paisagem que desfilava rapidamente. O sacolejar do veículo e as curvas do caminho o nausearam e a comitiva parou para ele pôr para fora todo o espanto e emoção que aquele mundo novo estava lhe causando.

Algumas horas passaram e pequenas habitações surgiram.

— Casas! Estamos chegando?

— Ainda não!  Veja vamos pegar aquela estrada!

Uma estrada asfaltada estendia-se a perder de vista.  Os carros a acessaram, aumentando a velocidade. O mau estado da pista fazia com que desviassem dos inúmeros buracos, mas mesmo assim tudo parecia voar ao lado de Pedro.  Ao longe, plantações de diversas cores passavam por eles simetricamente alinhadas.  Aqui ou ali, viam-se construções em ruínas.

Muitos quilômetros depois, surgiu mais abaixo de uma colina uma grande cidade.

— Agora estamos chegando, não é?

— Sim, Pedro. É a nossa cidade. A capital do país. Respondeu o avô, com os olhos marejados. 

  Nesse momento, seus pensamentos voaram para a companheira de muitos anos, que não resistiu ao longo tempo de confinamento e que não compartilharia com ele a emoção de retornar ao que tinham deixado.

A cidade os recebeu engalanada.  Bandeirinhas agitavam-se nas mãos do povo para receber o chefe da nação, que a maioria julgara que estava morto.

Espantado, o menino encolheu-se no banco do carro.  As surpresas estavam sendo demasiadas para um único dia de sua curta vida. A angústia dele foi percebida pela mãe, que o enlaçou com um dos braços e acalmou-o com palavras ternas.

Edifícios destruídos eram avistados ao longo do trajeto.  Eram os vestígios da guerra e essa triste realidade abalou o jovem mais uma vez.

Mais adiante, chegaram a uma grande praça, onde uma bela construção se erguia.  O cortejo parou.  Uma multidão lotava o lugar e o nome do avô era ouvido em altos brados.  Saíram dos carros. O avô subiu as escadas lentamente.  Soldados enfileirados prestavam-lhe continência.  Ao chegar a um patamar, no topo das escadas, um microfone o esperava.  Virou-se devagar para o povo e acenou.  Alto, rosto traçado por vincos profundos e olhar intenso.  Transpirava carisma e integridade por todos os poros. A voz firme, mas emocionada, soou pelo lugar e um grande silêncio apagou o burburinho que reinava.

Em um discurso breve, ele agradeceu a todos pela luta pela liberdade e lealdade ao país e a seus princípios mais profundos.  Ao terminar, uma ovação explodiu.  Ele curvou a cabeça em sinal de agradecimento e respeito à coragem daquele povo sofrido. Acenou mais uma vez e virou-se, entrando no palácio. Os companheiros de exílio e aqueles que o ajudaram a reconquistar o país, o seguiram.

Na grande sala, abraçaram-se emocionados.  Uma mesa posta, com várias iguarias, os esperava. O avô, porém, recusou a refeição. 

— Estou exausto.  Preciso descansar.  Vejo vocês amanhã para traçarmos os próximos passos para reerguer o país.  Há muito trabalho a fazer.

E levantando uma das mãos, cumprimentou a todos com um sorriso e saiu da sala.  Os presentes acompanharam-no com olhares de respeito.  Admiravam a bravura daquele homem, que manteve a nação unida, oculto e preso em um bunker no âmago de uma distante montanha, orientando seus homens a resistir e lutar pela expulsão dos invasores.

Quando toda a população soube que o seu líder estava vivo e, mesmo escondido, ajudou a alcançar a vitória, o orgulho despedaçado pelos anos de submissão acendeu-se em cada homem, em cada mulher, em cada velho, em cada criança.

A refeição transcorreu em um clima festivo, que disfarçava uma certa tensão em cada participante, afinal o desafio de ora em diante seria enorme e já pesava nos ombros dos que ajudariam a levantar o país.

Pedro não escondia a agitação que lhe sacudia o íntimo.  Para os seus verdes anos, tudo era muito desafiador. Olhava de um lado para o outro, sentindo a emoção contraditória de cada um, ao mesmo tempo que se surpreendia com o brilho dos talheres de prata, com a louça de filetes dourados e com a alvura da toalha.

Quando o jantar terminou, já os últimos raios de sol incendiavam a sala de tons avermelhados. O jovem correu para a janela.

— O que está acontecendo no céu?

Os pais aproximaram-se:

— É o pôr-do-sol! Não é maravilhoso? Perguntou o pai e completou: Está anunciando o cair da noite. 

Pedro estremeceu:

— Não quero ver a noite! É muito escura!

Na sua memória, surgiu a imagem negra de uma tempestade que atingiu a montanha e do vendaval que abriu e quase derrubou a porta oculta do bunker.  Pessoas correndo para fechá-la. O susto e o medo que se apoderou de todos. A confusão que lhe permitiu ir até a entrada e presenciar a escuridão, o forte aguaceiro e os raios que riscavam o céu. O pânico que o paralisou e o contato com uma mão que o levou para dentro, onde a avó o acolheu em seus braços.

O pai tirou-o dos seus pensamentos.

— Sei do que você está recordando.  Aquela escuridão foi consequência do temporal.  Hoje o dia foi claro e ensolarado. Você vai ficar surpreso ao apreciar a noite.

 — Vamos subir, exclamou a mãe. Você precisa tomar um banho e descansar. Foram muitas as emoções. Mas antes de ir para a cama, vamos admirar a noite do terraço para afastar a má impressão que ficou daquela tempestade.

E, pegando o filho pela mão, subiram a escada. Mas Pedro virou-se:

— Pai, você sobe depois para vermos a noite juntos.

O medo ainda pairava sobre ele.

As luzes piscantes das estrelas e uma enorme e alaranjada lua cheia enfeitavam o céu quando saíram para o terraço.

— Meu Deus! Quantas estrelas! A lua é linda!  Estou vendo o universo, não é?

— Sim, uma pequena parte dele.  Respondeu o pai.

Um profundo suspiro exalou das mais profundas entranhas do menino.  Um torvelinho de pensamentos tentava processar tudo o que estava vivendo e descobrindo em um único dia.  Sacudiu a cabeça, tentando ordenar o que lhe passava pela mente.

— Estou cansado!

— Vamos entrar! Você precisa de um bom sono!

Já deitado, recebeu os beijos dos pais. A cama macia o abraçou e o aconchegou.

— Deixem a porta do terraço aberta!

O luar prateado, salpicado de estrelas, iluminou e embalou os sonhos de Pedro.


A CARTOMANTE - Alberto Landi

 

 



A CARTOMANTE

Alberto Landi

 

Em uma cidade movimentada como São Paulo, onde os edifícios se elevam em direção ao céu, vivia Franco, homem de negócios conhecido por sua determinação e carisma.

Ele era admirado por sua habilidade de conquistar qualquer desafio que surgisse em seu caminho, sempre confiante em seu destino, moldado por suas próprias mãos.

Um dia, estando de férias em um local pitoresco do Caribe, ele soube que havia nos arredores do hotel uma cartomante espanhola de nome Carmem, que diziam ter o poder de ler o futuro nas cartas de tarô.

Curioso e cético, decidiu entrar na tenda colorida para leitura do destino.

Enquanto aguardava ansiosamente para ser atendido, um ar de mistério e incerteza, uma senhora de olhos profundos mergulhou nas cartas velhas e desbotadas, buscando respostas no tecido do tempo.

Com uma expressão séria e concentrada, a vidente começou a revelar as visões que se desdobravam diante dela, descobrindo segredos ocultos e verdades enterradas sob as camadas do passado.

Franco, inicialmente cético, sentiu seu coração se encher de emoção à medida que as palavras de Carmem ecoavam na tenda silenciosa.

— “Vejo um caminho tortuoso que você percorreu cheio de desafios e tribulações” murmurou a vidente com uma voz suave, mas carregada de significado”, e também vejo uma luz brilhante no horizonte, uma oportunidade de renovação que aguarda suas escolhas.

Ele prendeu a respiração, capturado pela intensidade das palavras de Carmem, que pareciam penetrar fundo em sua alma, revelando verdades que ele próprio havia tentado esconder. As lágrimas brotaram em seus olhos enquanto ele reconhecia a sabedoria contida nas cartas misteriosas e no olhar perspicaz da vidente.

— Você carrega consigo o peso do passado, mas também o potencial do futuro. Continuando com seus dedos delicados, desenhava em um papel figuras complexas.

— “Sou seu guia no caminho para iluminação, com sabedoria estou aqui para ajudá-lo a encontrar respostas e alcançar a paz interior.”

A escolha é sua, dizia, aceitar o desafio da mudança ou permanecer estagnado na sombra do que foi.

Com o coração transbordando de emoção e determinação, ele olhou nos olhos da Carmem, vendo não apenas uma leitora de cartas habilidosa, mas sim uma orientadora empática que o convidava a abraçar seu próprio destino com coragem e esperança.

— Tudo na vida é como uma tempestade, mas vou te ajudar a passar por ela.

E assim, naquele momento efêmero entre o passado e o futuro, ele se sentiu renovado pela força das palavras e pelas promessas de um novo começo que aguardava além das sombras do passado!

 

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

A herança não pode tardar - Pedro Henrique

                          


 

A herança não pode tardar

Pedro Henrique

 

Dinheiro, sim, dinheiro, essa palavra que me delicia a boca. Que com cada uma de suas 8 letras e 7 fonemas tem o poder de reger a vida. Não há quem não o queira, não há quem não o deseje, não há quem não o ambicione. Se acham que vim aqui lhes contar algo simplório, convido-os a se retirar. Esta história é perigosa.

Uns dizem que tudo começou devido à vaidade, outros, ou por uma desgraça. Eu, porém, me coloco entre as afirmações e permito a visão macro dos fatos. Trata-se de uma mulher abastada, que teve acesso a todos os privilégios. Seu nome? Magnólia Monteiro dos Santos, filha de Lúcia Monteiro dos Santos e Rafael Vitório dos Santos, um dos empresários mais respeitados da indústria alimentícia, que infelizmente faleceu.

Toda sua fortuna recaiu nos braços de Lúcia, e não se importou com inventário nem com a distribuição da parte da Magnólia, afinal a filha ainda era uma criança. Ela, então, desfrutava de uma vida que, aos olhos dos outros, a inveja se fazia inevitável. Falo de jantares, viagens internacionais, roupas do mais fino tecido, uma casa que caberia um bairro inteiro, joias que valiam prédios e todas as coisas boas inerentes à vida daqueles que são agraciados com ouro e prata.

Criou sozinha a filha Magnólia. Claro, teve ajuda da babá e dos outros funcionários da casa, estes não sabiam como lidar com os mandos e desmandos da pequena Magnólia. A menina era autoritária; aí daquele que questionasse uma ordem sua. Se pedisse para você pegar o brinquedo que queria, deveria ir correndo, pois, se assim não o fizesse, se jogaria no chão em prantos e persuadiria, com a mais sofisticada das atuações, Lúcia Monteiro dos Santos, a entregar sua carta de demissão.

Além de tudo, era vaidosa. Não aceitava qualquer sapatilha, queria da Chanel; não gostava de qualquer maquiagem, queria a mais cara. Não lhe importava o preço, importava que era a melhor. Lúcia se deixava levar pelos caprichos da filha, e assim a menina cresceu se sentindo a verdadeira Cleópatra, a verdadeira rainha da terra. Muitos afirmavam que nela residia o próprio diabo. Era má e gostava de ser.

Magnólia cresceu e, como toda menina bonita, foi alvo dos olhares de um homem sedutor: Alberto de Campos Nunes, um grande empresário do ramo imobiliário da cidade de São Paulo.

Não havia uma que não se entregasse ao seu charme. Alberto, para Magnólia, não era senão uma questão de honra. Queria provar para si mesma e para todos que era capaz de seduzir quem quisesse.

Não demorou muito para ambos se casarem e terem sua primeira filha, Emanuela Campos dos Santos. Os anos se passaram e, com eles, a juventude de Lúcia também. Quando chegou aos 70 anos, uma doença bateu à porta. Todavia, não só a doença foi a grande questão entre a família. Havia algo acontecendo; a maldição começou a surgir das sombras e ganhar vida na multidão. A empresa de Alberto estava indo à falência, o assunto foi o mais enfatizado durante semanas na casa da família, não havia solução. Sendo assim, o casal arquitetou um plano para resolver o problema: acelerar a morte de Lúcia.

Pois, desta forma, Magnólia herdaria tudo e poderia ajudar o marido.

Quando Alberto contou o plano para Magnólia, ela nem ao menos se assustou. Pelo contrário, degustou a ideia como quem degusta o prato mais saboroso que já comeu até então. E juntos, estabeleceram uma estratégia para executar Lúcia. Era o seguinte: numa noite de sábado, quando Magnólia voltasse com Lúcia do hospital, deveria ser forjado um assalto em frente à garagem do casarão. O ladrão, no entanto, só teria um alvo, e não era o dinheiro.

E assim se sucedeu. Era uma noite fria quando Lúcia retornou para casa ao lado da filha, depois de sua passagem pelo hospital, como já era de costume devido à sua doença. Magnólia estacionou o carro em um ponto diferente dessa vez. Lúcia achou estranho e questionou a filha.

— Por que estacionou aqui fora?

— Ah, estacionei aqui porque só vou entrar com a senhora e depois vou sair com o carro. Vou encontrar umas amigas no shopping.

— Ah, sim.

Então, quando Lúcia colocou os pés para fora do veículo e foi em direção ao portão, a filha, ciente dos fatos futuros, se precaveu e ficou alguns metros afastada da mãe. Desta forma, como planejado, veio um homem das sombras, do nada, encapuzado como quem queria permanecer no anonimato, sacou uma arma e, em voz de mando, ordenou:

— Passa tudo, passa tudo.

Lúcia olhou assustada para o rapaz e depois levou seu olhar para a filha, percebendo que nela não havia nenhum pouco de desespero. Estranhada, olhou novamente para o rapaz que disparou três tiros. A bolsa permaneceu nas mãos de Lúcia, dinheiro nenhum foi levado, roubo nenhum foi cometido. Estava feito.

Lúcia tombou no chão. Sufocando, olhou para a filha e, com o pouco de voz que tinha, rogou-a:

— Me ajuda.

Magnólia se aproximou da mãe, abaixou-se ao seu lado direito e pegou sua mão.

— Ah, mamãe, eu queria tanto lhe ajudar, mas não posso. A senhora vai ficar bem, eu juro.

— Só me ajuda, por favor.

Magnólia levou a mão aos cabelos grisalhos da mãe, e Lúcia, como quem já foi graduada nas malandragens da vida, soube o que acabara de ocorrer. Olhava com espanto e medo, com terror, para a própria filha. Não reconhecia o ser humano que estava à sua frente, não reconhecia a menininha que tinha criado, dando-lhe de tudo. Se perguntava: "Onde foi que eu errei?" Pensava, como há muito tempo, que a vida era um local onde as crueldades fazem parte do ecossistema.

Era assim e sempre foi. O culpado? Bom, lhes digo: o dinheiro.

Lúcia, entretanto, em todos aqueles devaneios rápidos que passavam como um carro em alta velocidade por sua mente, só teve a capacidade de verbalizar uma única sentença, da qual precisava mais do que tudo dá resposta.

— Por quê?

— Ah, mamãe, a herança não pode tardar.

 



quarta-feira, 31 de julho de 2024

BOCA DE BEIJO - HIRTIS LAZARIN


     

Poema dedicado a Eny Cezarino, a menina de Bauru

 

Boca de beijo

 

 

          Garota menina, cheia de graça

          passa e rebola

          aos homens da praça.

                                De raça morena

                                de raça sacana.

 

                                           De boca vermelha, molhada

                                            provoca, desloca,

                                             enlouquece.

                                                      Dá calor

                                                       sem amor.

 

         É  boca de beijo

         ardente desejo.

         É boca de sexo

                        sem medo

                        nem nexo.

                                                   Garota menina

                                                   não sonha

                                                   nem ama.

                                                          Chora baixinho

                                                          jogada na cama.

                   

INVERNO EM PARIS. - Alberto Landi

 

(Guia do Estrangeiro)


INVERNO EM PARIS.

Alberto Landi

 

Visitando Paris em uma manhã de domingo de inverno, me surpreendi encantado, pois Paris se vestiu de branco como um cenário de conto de fadas.

A linda cidade coberta por uma camada de neve criava uma atmosfera mágica e romântica.

A neve caía suavemente, cobrindo o chão e as árvores com um manto gelado e branco. Os bancos dos jardins, normalmente ocupados, agora permaneciam vazios, cobertos pela neve fresca.

Nem mesmo a majestosa Torre Eiffel escapou da transformação, ficando envolta em um manto branco que a fazia parecer ainda mais imponente. Os monumentos icônicos ganharam um charme especial.

O reflexo das luzes na branca neve deixava as ruas ainda mais encantadoras e românticas.

Mesmo com o frio, mantém sua elegância e sofisticação, tornando-se um destino muito procurado por turistas e amantes da natureza.

 O ar gelado mordia meu rosto e o vapor da minha respiração se dissipava rapidamente, mas mesmo assim encontrei beleza na solidão e na nostalgia que ecoava em todos os flocos gelados.

 

O cenário era deslumbrante.

Mesmo diante dessa paisagem, havia uma serenidade na quietude da cidade adormecida sob o manto branco.

Era como se a neve tivesse congelado o tempo, permitindo um momento de reflexão e contemplação em meio à correria do mundo moderno.

E assim, entre passos silenciosos na neve fofa, encontrei encanto naquela manhã parisiense, onde a frieza do inverno se misturava com a suavidade dos flocos de neve, criando um cenário único e efêmero que tocava a alma e congelava o coração.  

Exausto após caminhar sob a neve fofa até Champs-Élysées e o Arco do Triunfo, finalmente um momento de descanso num pequeno e aconchegante café ao som da música de Édith Piaf, que revigorou minhas energias criando uma atmosfera bem parisiense como sempre me faz a música francesa com toda aquela carga emotiva e histórica e assim contribuiu para completar esse fantástico domingo invernal!

terça-feira, 30 de julho de 2024

AMOR NA TARDE! - Dinah Ribeiro de Amorim

 





AMOR NA TARDE!

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Fui descansar na casa de praia de um amigo, precisava de férias.  Local isolado, mas simpático, pequena construção em palafitas, no alto de um morro, para evitar a maré alta ou deslizamentos com fortes chuvas.

Logo cedo, mal o sol nascia e o dia clareava, levantava-me e ia passear na praia.

Molhava meus pés cansados e já gastos pela idade, nas primeiras ondas geladas que morriam na areia.

Observava, calmo, como criança, algumas conchas róseas e tartaruguinhas, recém-nascidas que procuravam o mar. Gaivotas voavam baixo, tentando abocanhá-las.

Numa dessas manhãs saudáveis, sentia-me melhor, avisto ao longe um vulto feminino que se encaminha em minha direção.

Uma mulher não muito jovem nem muito esbelta, de chapéu de abas largas e saída de banho esvoaçante, que anda devagar, saboreando também com os pés, a leveza das ondas.

Ao cruzarmos, olhamo-nos interessados como dois estranhos, numa praia deserta, que se cumprimentam, por educação.

Reparei que tirou os óculos, ao me ver e pude observar um par de olhos escuros, de brilho esverdeado, bastante chamativos e atraentes.

Sua fisionomia também era agradável e simpática, aparentando, apesar da idade um pouco avançada, grande vivacidade e energia.

Cumprimentamo-nos e seguimos nossos rumos diários.

Eu voltei para casa, mas, aqueles olhos, não me saiam da cabeça.

Continuei a andar, todas as manhãs, esperando encontrá-la. 

A solidão do local era agradável, sem barulhos de gente, aparelhos ou bichos. Ouvia-se apenas o movimentar das ondas que desmaiavam, sonolentas, até a areia e, outras, mais altas, movidas pela ventania, que batiam contra as rochas, no limite da praia. Beleza de paisagem litorânea.

Comecei a andar pelos arredores, um pouco além de onde estava.

Percebi algum movimento de pessoas, ultrapassando a região dos morros.

Pequenos grupos de jovens acampados, alguns tocando instrumentos pequenos, sons de músicas e vozes.

Um ou outro quiosque aqui e ali, com bebidas e alguns quitutes de praia.

Um pouco de gente também a fim do descanso das cidades e amantes da imensidão do mar. Ao longe, pequenas embarcações coloridas, balançavam, solitárias, à espera dos seus donos. Tudo convidando ao sabor da natureza e esquecimento de problemas. Belezas das praias.

Chego mais perto desse ajuntamento, um pouco tímido, sem demonstrar muita curiosidade, um estranho andarilho pela solidão local e avisto, num relance, a mesma figura feminina que me atraiu com seus olhos.

Sentada, bebericando um aperitivo, olha, sonhadora, para as águas, meditando, talvez, em algo escrito no livro que deixou cair ao colo.

Aproximo-me, calmamente, a cumprimento e ofereço-me para sentar-me ao seu lado. Uma boa dose de conversa seria interessante, para mim, um homem sozinho e, quem sabe, para ela, aparentando estar só.

Exibiu-me um belo sorriso convidativo e colocou seu livro fechado em cima da mesa. Ofereceu-me o drinque, que parecia saboroso, chamando o rapaz que a servia, delicadamente.

Assim, iniciei um bate-papo gostoso, que se estendeu por várias manhãs, enquanto estivemos juntos, nesse local.

A conversa iniciou-se com a nossa necessidade de descanso, trabalho excessivo, falta de distração até se encaminhar para família, tipo de trabalho, cuidados, atenção e sentimentos.

Valéria, além de mulher bonita, pareceu-me inteligente, simpática, atraente. Não sei se correspondi também a essas qualidades, mas sorria frequentemente, respondia meus assuntos com comentários e novas afirmações. Era uma escritora em férias, cansada, à busca de novas ideias.

Eu, um advogado também cansado, às vésperas da aposentadoria, queria esquecer um pouco das palavras divórcio, separação, guarda dos filhos, compartilhamento, divisão de bens, etc.

Valéria contou-me com poucos detalhes que era divorciada há anos, com dois filhos casados e quatro netos, adoráveis, conservando boa amizade com o ex-marido, já casado com outra e filhos menores.

Trabalhou um tempo como professora estadual de literatura, aposentando-se recentemente para dedicar-se a escrever, sua grande paixão. Já havia escrito alguns livros de sucesso, quando resolveu dar um descanso à mente ou preenchê-la com novidades.

Hospedou-se em pequena pousada de amigos que deixaram a cidade e buscaram as praias.  Já estava lá uns dez dias e gostando muito.

Eu, num bangalô também de amigos, há dias, contei-lhe que era viúvo, com esposa falecida de câncer há uns quinze anos, possuía um filho, estudando, atualmente, na Inglaterra, fazendo mestrado em paleontologia, assunto que o apaixona. Talvez nem voltasse mais ao Brasil. Falávamos através do Face-Time, toda semana, essa grande invenção. Preocupado comigo, queria que fosse viver com ele, mas ainda não tive coragem. Acostumado ao Brasil, com o nosso meio, reclamamos de muita coisa, mas não queremos mudar de vida, assunto que Valéria também concordou.

Das conversas amigas, passamos para caminhadas pelas praias, até conhecermos toda a região. Cansados, descansávamos nas barracas ou à beira-mar, com preguiçosos mergulhos, secando-nos ao sol.

Os amigos de Valéria, ao saber de nosso relacionamento, convidaram para um gostoso almoço, um peixe ensopado da região, conhecido como robalo, e uma farofa com arroz, à moda da casa. Foram muito gentis e terminamos com um bom vinho tinto.

Meio entontecido, bastante alegre, saí de lá achando que havia tido um momento memorável em minha tranquila e silenciosa vida. Devia isso, em grande parte, à companhia de minha nova amiga Valéria, a presença que estava ocupando, aos poucos, meus momentos e pensamentos.

 

Resolvi convidá-la também para almoçarmos no bangalô, embora desconhecesse como cozinhar corretamente os pratos principais. Ia tentar algo simples, e esconder, na realidade, o motivo principal, a sua companhia.

Valéria chegou, sorridente, como sempre, e, auxiliando-me, já retomamos nossas conversas intermináveis. Dessa vez, um aviso da editora. Estavam para lançar um novo livro e pediam sua presença para algumas correções e avaliação. Já estávamos falando, com tristeza, de retorno à cidade.

Mesmo assim, nosso almoço agradável, embora meio feito às pressas, sem muita habilidade, foi bom e, como sempre, permanecemos satisfeitos juntos.

Não sei se foi a pequena chuva que caiu de repente, a alegria de estarmos um com o outro, novo sentimento nascendo, o dia transcorreu rápido e adormecemos juntos, numa noite inesquecível, há muito tempo, novidade, para os dois.

Acordei feliz, na manhã seguinte, com um leve aroma vindo da cozinha, tapioca de bananas e café, diferente das minhas antigas manhãs rápidas e insípidas.

Permanecemos juntos por mais uma semana, Valéria transferindo seus pertences para o bangalô, até resolver voltar a São Paulo, por necessidades do livro a editar, e eu prometendo voltar a encontrá-la, alguns dias após, retornando também ao meu trabalho.

Nossos dias felizes não terminaram como um simples relacionamento de férias, continuamos a nos ver com maior frequência, terminando por morarmos juntos, em meu apartamento, um pouco maior que o dela, e a tentativa de um novo casamento para os dois, mais tarde.

Foram anos de convivência amigável, apaixonada e nada monótona, com nossas viagens frequentes a lugares desconhecidos e pitorescos. Fomos várias vezes à Inglaterra, visitar meu filho, já casado, com um filho de três anos.

Eu, que me sentia, anos antes, em final de vida, encontro, após aquelas férias, um recomeço, uma nova tentativa de felicidade.

O tempo, esse companheiro inseparável, amigo às vezes, inimigo quase sempre, cansou-se dos momentos felizes, aparecendo em Valéria, após dez anos, uma doença incurável, principalmente para uma escritora, amante das ideias aventureiras, o terrível mal de Alzheimer, em processo rápido. Após várias consultas a famosos especialistas, tentativas de internações em clínicas especializadas, chegou o momento de nossa separação mental, quando já não me reconhecia mais, seu amor na tarde, como dizia sempre. Enquanto suas células mentais morriam, desfaleciam também as minhas faculdades emocionais, meu coração desmoronou.

Vencida pela doença e debilidade física, seus momentos de ausência não demoraram a tirar-lhe a vida, deixando-me viúvo entristecido pela segunda vez.

Vejo-me agora mais velho, andar lento, cabelos totalmente brancos, à espera do meu filho Alfredo e do neto Lucas, que avisto de longe, no aeroporto Heathrow, de Londres, para uma mudança de ares. Finalmente, vou morar com eles, vontade inicial dele, antes do meu feliz recomeço.

 

 

 

UMA MANHÃ INESQUECÍVEL EM VIENA - Alberto Landi

 





 UMA MANHÃ INESQUECÍVEL EM VIENA

Alberto Landi

 

Era uma manhã bem ensolarada em Viena, a cidade da música, onde as notas dançavam no ar e os acordes ecoavam pelas ruas estreitas. Em um pequeno café, um jovem músico de nome Franz aguardava ansiosamente seu encontro com um renomado compositor que estava revolucionando o mundo musical, Ludwig Van Beethoven.

Com o coração palpitante, Franz viu a imponente figura de Beethoven adentrar o local. Seus olhos penetrantes refletiam uma intensidade única, e sua presença parecia encher o ambiente de eletricidade.

Franz levantou-se nervoso e reverente para cumprimentar o mestre.

Beethoven, percebendo a admiração nos olhos do jovem, sorriu de leve e convidou-o a sentar-se.

Entre xícaras de café e partituras espalhadas sobre a mesa, os dois mergulharam em uma conversa profunda sobre música, paixão e inspiração.

Enquanto trocavam ideias e experiências, Franz sentiu-se transportado para um universo paralelo onde as melodias eram capazes de desvendar os segredos da alma humana. Beethoven compartilhou com ele sua visão revolucionária sobre a arte musical, desafiando convenções e rompendo barreiras.

Ao final do encontro, Franz despediu-se do mestre com um misto de gratidão e reverência.

Aquela manhã ao lado do mestre transformou sua maneira de enxergar a arte e o inspirou a trilhar seu próprio caminho criativo com coragem e autenticidade.

E assim, naquele dia inesquecível, Franz descobriu não apenas o gênio musical de Beethoven, mas também a força transformadora que a arte pode ter na vida daqueles que se permitem ser tocados por ela.

 

Faz tanto tempo… - Hirtis Lazarin

 



Faz tanto tempo…

Hirtis Lazarin



Apesar dos quase oitenta anos, ele caminhava em ritmo acelerado pela trilha estreita, esquivando-se dos arbustos espinhosos e agressivos. 

Em casa, a esposa inquieta “ranzinzava” da cozinha pra sala, da sala para o quarto, do quarto pra janela da sala, aguardando a chegada do Joaquim. Franzia e apertava os olhos pra que a visão chegasse mais longe. Os óculos estavam quebrados. “Ele é muito teimoso. Insiste em ir sozinho até a vila. Que Nossa Senhora o proteja! Percebi que hoje ele estava mais lento das ideias”.

Dona Rosa correu até o pequeno altar da santa protetora e acendeu outra vela.

Meia hora mais tarde o homem chegou esbaforido, pingando suor. Jogou-se numa cadeira de palha. Todas eram de palha e já bem esgarçadas. Bebeu num gole só quase meio litro de água. O cachorrinho pulou no seu colo e Joaquim afastou-o. Estava cansado e sem ânimo para brincar. 

Arrastando os passos, chegou ao banheiro que ficava do lado de fora. Tomou um banho bem rápido pra evitar desperdício de água. O dinheiro da aposentadoria mal dava pro arroz, feijão, um pedacinho de carne e muitos remédios. Há algum tempo ele deixou de cuidar da horta que os servia com verduras e alguns legumes. O peso dos anos vividos causa estrago no corpo.

Enquanto Rosa preparava o jantar, Joaquim sentou-se nos degraus à frente de casa. Acendeu um cigarro e, entre uma baforada e outra, pôs-se a prestar atenção na paisagem. Sentiu-a melancólica. A tarde estava diferente das outras. Era o outono chegando trazendo um cheiro sonolento. A mangueira, até então verde brilhante, amarelecia. Muitas folhas já se soltaram dos galhos, deixando-se levar.

Lá embaixo, no píer abandonado, um barco pintado de azul à espera de mãos que o tirassem do ócio.

Uma viagem no tempo levou o velho senhor há muitos… há muitos anos. Apareceu nesse cenário um menino de oito anos que o acompanhava nas pescarias. Ajudava a cavar o chão à procura de minhocas, a carregar as varas com cuidado e, pacientemente, esperar os peixes se confundirem nos anzóis prisioneiros. Era uma felicidade maior que o mundo. Tudo aconteceu como tinha que ser.

Seu Joaquim, homem de olhar analítico e personalidade forte, aprendeu, não nos livros, e sim com a vida. Aprendeu onde nadam os peixes, pra onde voam as andorinhas, pra onde vão as correntes marítimas e se aquelas nuvens trariam chuva. E, pra dar certo, tudo tem que ter planejamento, que não vivemos sempre na calmaria, mas que ela volta. Temos que aprender a esperar…

Dona Rosa observava-o na porta. “Joaquim, a janta tá pronta”.

Sentados à mesa, a mulher nem percebeu que, dos olhos vermelhos do marido, escorreu um punhadinho de lágrimas, caiu no prato e deixou a sopa um tantinho mais salgada.

 

O ENCONTRO DE DOIS MESTRES - Alberto Landi

 




O ENCONTRO DE DOIS MESTRES

Alberto Landi

 

 

Em uma tarde ensolarada na Roma antiga, um jovem e curioso aprendiz de matemática chamado Aristóteles decidiu explorar os arredores de Roma em busca de conhecimento. Ao caminhar pelas ruas de paralelepípedos, ele ouviu falar de um sábio misterioso que vivia recluso nos arredores da cidade.

Dizia-se que esse sábio possuía um conhecimento profundo sobre os números e suas relações no universo.

Intrigado, Aristóteles decidiu seguir as indicações e trilhar o caminho até o local onde o sábio vivia. Ao chegar lá, viu um homem idoso de barba branca e olhar penetrante, sentado em meio a pergaminhos e tabuletas com símbolos matemáticos.

Era Pitágoras, o lendário matemático e filósofo.

Com humildade e respeito, Aristóteles se aproximou e iniciou uma conversa sobre os enigmas dos números, das formas geométricas e da harmonia do universo.

Pitágoras com sua sabedoria incomparável compartilhou com o jovem aprendiz ensinamentos sobre a natureza dos números, a importância da harmonia na matemática e a conexão entre a mente humana e o cosmos.

Ao longo da tarde, os dois sob a sombra de uma oliveira centenária, se reuniram com um pequeno grupo, em torno de um triangulo desenhado na terra por Pitágoras.

Com um pedaço de giz nas mãos, ele começa a explicar o teorema que leva seu nome de uma forma simples e acessível a todos.

Com maestria, ele desenha quadrados sobre cada lado do triângulo, enquanto explica como as áreas desses quadrados estão relacionadas e convida os presentes a observar atentamente a construção geométrica destacando a importância dos números e das proporções no mundo ao nosso redor.

Enquanto o vento suave balançava as folhas das árvores e os pássaros cantando ao longe, Pitágoras envolvia seu público com sabedoria e simplicidade demonstrando visualmente como a matemática pode revelar segredos e padrões ocultos na natureza.

À medida que o sol se punha no horizonte, o grupo de espectadores saiu do jardim com uma nova compreensão do teorema de Pitágoras, inspirados pela beleza da matemática e pela genialidade do sábio que trouxe luz a esse conhecimento atemporal em meio à serenidade do local.

Aristóteles admirou a elegância e a simplicidade desse principio matemático reconhecendo sua importância não apenas na geometria, mas também na filosofia. Aprendeu com ele, questionando o teorema de forma sábia, valorizando a experimentação e o processo de aprendizado.

Na cena da demonstração do teorema na terra do jardim, a experimentação e a pratica são destacadas como fundamentais para a compreensão, trazendo uma dimensão visual e interativa.

Ressaltou a importância de não apenas aceitar teorias prontas, mas sim questionar, explorar e aprender ao longo do caminho.

Por outro lado, Aristóteles transmitiu a Pitágoras temas como a lógica, ética, política, metafísica. Influenciou o pensamento filosófico e cientifico da época, trazendo uma nova perspectiva para o encontro dos mestres.

Pitágoras também aprendeu com Aristóteles que mesmo os grandes mestres podem se influenciar mutuamente e aprender uns com os outros. 

Assim, o encontro entre eles tornou-se um marco na historia do pensamento humano, unindo as disciplinas de filosofia e da matemática em uma conversa enriquecedora e reveladora.

A partir desse dia os mestres continuaram a explorar juntos os segredos do universo, inspirando gerações futuras com seus conhecimentos e sabedoria.

O Teorema de Pitágoras foi uma ferramenta essencial na construção da arquitetura romana durante o seu império, contribuindo para a grandiosidade e durabilidade das estruturas que ainda impressionam até os dias atuais!

 

Nota: historicamente Pitágoras viveu antes de Aristóteles.

segunda-feira, 22 de julho de 2024

VOLTA AO PASSADO - Adelaide Dittmers

 

 



VOLTA AO PASSADO

Adelaide Dittmers

 

O olhar do rapaz percorria os campos de trigo, absorvendo com prazer a fresca aragem da manhã, que fazia as espigas douradas dançarem brandamente em um belo espetáculo da natureza.

Sentado nos degraus da casa da fazenda, já gastos pelos anos, as sublimes lembranças de sua infância vividas naquele lugar vieram aos borbotões.  Os rostos dos avós meio apagados pelo tempo apareciam em sua mente, trazendo momentos que a vida deixou para trás.

O avô, um homem alto, de barba e cabelos brancos, voz áspera, mas quente, mãos grandes e calejadas de agricultor, mas macias no carinho que lhe dava.

As pescarias no rio que serpenteava pela propriedade, que aquele homem destemido tanto gostava de praticar. A suavidade com que o ensinou a manejar a vara e a ter paciência para fisgar um peixe. A alegria ao conseguir, que fazia aquele homem rude abrir um sorriso e bater nas suas costas para incentivá-lo a continuar.

A volta pelos estreitos caminhos de terra entre o trigal, onde às vezes um sapo saltava, fazendo com que ele também pulasse para trás, provocando a gargalhada do avô. O doce aroma do campo.

A satisfação de se deliciar com os pescados, que a avó preparava como ninguém.

As tardes em que, ao entrar na grande cozinha, seus olhos saborearam o cheiro do bolo de fubá, que saia do forno de lenha.

A grande cama que o abraçava, cheirando a palha, que recheava o macio colchão. O canto do galo ao amanhecer.

As histórias intermináveis e divertidas, que o avô contava, de tantos casos e lendas, que povoavam a imaginação das gentes do campo.

Aquele homem simples, mas cheio de sabedoria, muito lhe ensinou sobre a vida, não só com palavras, mas com exemplo.

Agora, sentado ali, a nostalgia de tempos que jamais voltarão, deu-lhe um banho de saudade. Num ímpeto, sacudindo a cabeça, levantou-se e foi até o barracão, que ainda guardava os instrumentos de pescaria.  Pegou a vara, que pertenceu ao avô, apertou-a como quisesse sentir a mão forte, que tantas vezes a segurara. Olhou em volta, um sorriso brotou em seus lábios, que, ao mesmo tempo, sentiram o gosto das lágrimas, que sorrateiras desciam pela sua face. 

Um forte suspiro irrompeu de seu peito e com passos firmes e alma trêmula foi até o rio.


UMA TARDE EM VIENA - Alberto Landi




UMA TARDE EM VIENA

Alberto Landi

 

Em uma tarde ensolarada na cidade de Viena, Sofia passeava pelas ruas da cidade encantada com a beleza e a música que ecoava por todos os cantos. Ao passar em frente ao imponente Teatro da Ópera, viu um cartaz anunciando um concerto do famoso compositor Mozart.

Curiosa e animada, decidiu comprar ingresso e assistir ao concerto naquela mesma noite.

Ao entrar na majestosa sala de concertos, sentiu seu coração acelerar de emoção. As luzes se apagaram, o maestro subiu ao palco e finalmente Mozart começou a reger sua própria obra.

Os acordes envolventes, as melodias encantadoras e a genialidade do compositor tocaram o coração de Sofia de uma maneira indescritível.

Ela fechou os olhos e se deixou levar pela música, sentindo como se estivesse em um mundo mágico, onde cada nota era uma emoção única.

Ao final do concerto, ela estava extasiada. Foi então que, ao sair do teatro, viu uma figura elegante se aproximando: era Mozart em pessoa.

Ele sorriu para ela e agradeceu por assistir ao concerto. Ela mal podia acreditar que estava diante de seu ídolo.

Em meio a uma conversa amigável, Mozart percebeu o brilho nos olhos de Sofia e viu o quanto a música havia tocado sua alma. Com um gesto gentil, ele pegou um papel e uma pena e escreveu algumas notas musicais, entregando a partitura para ela.

— Que estas notas inspirem você a seguir seus sonhos e a encontrar a beleza na música, disse Mozart, com um sorriso afetuoso.

Sofia guardou aquela partitura como um tesouro precioso, lembrando para sempre do dia em que conheceu o compositor e da magia da música que uniu seus corações naquela noite inesquecível!

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...