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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

O ENCONTRO SECRETO DE GILBERTO E SHILA NO PÍER NOVE - Leon Alfonsin

 




O ENCONTRO SECRETO DE GILBERTO E SHILA NO PÍER NOVE

Uma aventura intensa, um final....

 

                                                                                                                               Leon Alfonsin Vagliong



Gilberto nasceu na cidade de Lindo Vale num lar amoroso, filho de pais abastados e instruídos que lhe proporcionaram excelente educação integral. Em sua infância e início de juventude desfrutou do ótimo clima e da Natureza exuberante daquela tranquila cidade do interior, convivendo com uma sociedade de pessoas simples, mas felizes e de bons princípios.

Como resultado de tantas benesses e muito favorecido pela boa genética de seus pais, tornou-se um rapaz saudável e atraente, não apenas por seu rosto bonito e corpo de atleta, mas também por sua sensatez e ótimo caráter. Já era cobiçado pelas garotas de Lindo Vale e, mais ainda, pelas mães delas, que viam nele um ótimo partido para suas filhas. Mas era cedo, Gilberto ainda não se apaixonara, não passara de rápidos namoricos.

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Naquela tarde de sábado chovia muito na cidade de Lindo Vale, desanimando qualquer um a sair para a rua sem algum motivo imperioso.

Para um rapaz de dezesseis anos, uma situação entediante. Gilberto fuçava aqui e ali em sua casa, procurando alguma coisa para distrair-se, quando encontrou uma caixa de sapatos no armário de seu pai, cheia de livrinhos de bolso; uns quarenta. Curioso, verificou pelas capas que todos eram de histórias de espionagem estreladas pela espiã Brigitte Montfort, guardados meticulosamente na sequência dos números da edição. Pegou o primeiro, sentou-se numa confortável poltrona da varanda ao barulho da chuva, e pôs-se a ler.

Nessa história, a espiã Brigitte Montfort era a protagonista, vivendo momentos eletrizantes de ação, risco e mistério muito bem narrados, em que não faltava um clima de sensualidade, despertando um grande interesse e verdadeiro fascínio ao rapaz. A partir daí, sempre que tinha um tempo disponível, Gilberto lia algum desses livros. Apaixonou-se pelo assunto e, principalmente, pela imagem que fazia da espiã, caracterizada em suas aventuras como uma linda morena de olhos azuis, inteligente e sedutora, estimulando fantasias e bulindo com a sua imaginação de adolescente. Uma pena que ela não fosse real.

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Passados mais dezesseis anos, homem feito aos trinta e dois de idade, Gilberto ainda não tinha encontrado uma parceira fixa, alguém por quem se apaixonasse. Morando na capital desde os vinte anos, a sua vida amorosa continuava bastante tumultuada, muitas namoradas passaram por ela. Formou-se em Direito, trabalhou algum tempo num escritório de advocacia, e logo prestou concurso e foi aprovado como agente do Departamento Federal de Inteligência. Agora teria por função investigar assuntos ligados à segurança do país, frequentemente envolvendo ações de espionagem, e pensava no quanto aquelas histórias dos livretos tinham a ver com a sua situação atual.

Certo dia, logo após tomar posse de suas nas novas funções, percebeu um burburinho entre seus colegas mais antigos do Departamento. Ao perguntar, soube que era pela rara presença de uma Agente que, segundo eles, estava quase permanentemente em missão externa e, apesar de jovem, já era idolatrada e respeitada por todos no Departamento por seu pulso forte no comando das missões e, principalmente, pela audácia e autonomia que sempre demonstrara como agente infiltrada em perigosas organizações. Um autêntico mito.

   Um pouco depois, naquele mesmo dia, Gilberto realizava suas tarefas burocráticas de iniciante, quando ela entrou no mesmo salão de trabalho para terminar o relatório de uma missão encerrada. Ao vê-la pela primeira vez, ele lembrou-se imediatamente da espiã Brigitte Montfort, heroína das histórias que lia avidamente quando era adolescente; especialmente por sua beleza, que não ficava devendo em nada à imagem que ele fazia da espiã dos livretos. A não ser pelos olhos, que eram notoriamente verdes, em vez de azuis. Quanto ao restante, era também uma linda morena clara de uns trinta anos, de aparência reservada e sensual, com a vantagem de ser de carnes e ossos. E que carnes! pensou machistamente Gilberto, muito impressionado, desnudando-a em sua imaginação.

A presença do novo Agente no salão, entre os outros que ali tinham as suas mesas e ela já conhecia, não passou despercebida por Shila. Não foram apresentados, mas alguns discretos olhares seus que se cruzaram com os dele enquanto trabalhavam, revelavam que a curiosidade e o interesse eram recíprocos.

Quase três meses após a posse em seu novo cargo Gilberto ainda estava desempenhando funções burocráticas para conhecer e se ambientar com os serviços do Departamento, quando foi chamado à sala da chefia. Não tinha mais visto Shila, que estava envolvida com outros trabalhos externos.

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O Coronel Linhares, aos sessenta anos de idade, impunha respeito pela sua aparência. Alto e forte, cabelos grisalhos, sempre bem trajado, ostentava em sua face uma expressão que revelava a sua inteligência e perspicácia.  Chefe reconhecido pelo sucesso dos trabalhos realizados pelo Departamento sob seu comando, também sabia colocar-se adequadamente no relacionamento político, que muitas vezes demandava investigações delicadas envolvendo pessoas de destaque.

Ao receber Gilberto, procurou deixá-lo à vontade para dissipar qualquer eventual retraimento natural do novato.

— Seja muito bem-vindo ao Departamento, Gilberto. Finalmente surgiu a oportunidade da sua primeira missão externa. Tome um café enquanto conversamos para nos conhecermos melhor.

Apenas alguns minutos de conversa bastaram para que o Coronel e Gilberto granjeassem simpatia e confiança mútuas. Ao final da entrevista, Linhares anunciou:

— Você receberá hoje a primeira missão externa, será o teu batismo de fogo. Irá sozinho, mas não é nada muito complicado; apenas levará secretamente para a nossa agente Shila, que está numa ilha turística próxima, um malote lacrado contendo materiais importantes para a missão de espionagem em curso, devendo retornar no mesmo dia com o malote que ela vai te entregar e deverá merecer os mesmos cuidados quanto ao sigilo. E de quebra, vai ter a oportunidade de conhecer a nossa principal agente. Aliás, foi ela quem escolheu você e deu as instruções. Eu as imprimi, aqui estão. Faça tudo exatamente conforme ela mandou. Neste Departamento, todos nós, inclusive eu, seguimos rigorosamente as orientações que ela nos passa para os trabalhos de campo.

O Coronel esclareceu também que Shila havia chegado à ilha valendo-se da escuna do próprio resort onde ela se hospedara como turista. Porém, considerando que Gilberto ainda era muito novo no Departamento, não confiou a ele outros detalhes da incumbência da Agente, que havia sido designada pelo Departamento de Inteligência para investigar as atividades de um grupo sediado numa das mansões lá existentes, de propriedade de um conhecido Deputado cujo nome era mantido em sigilo, suspeito de estar praticando a importação clandestina de armas cuja destinação seria, provavelmente, para o crime organizado.

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                As instruções de Shila eram muito claras e precisas e Gilberto não teve nenhuma dificuldade em segui-las. Muito cedo, na quarta-feira, retirou do cofre do Departamento o malote lacrado que deveria levar, seguiu para o lugarejo litorâneo de Trindade, e alugou, na aldeia de pescadores, a pequena lancha com a qual rumaria no sentido norte por cerca de onze milhas, até a pequena ilha turística onde encontraria a Agente, no ponto por ela indicado, exatamente ao meio-dia.

Margeando a orla a uma milha da costa, ainda muito desabitada e de vegetação nativa, para evitar os rochedos que afloram no mar da região, Gilberto navegou por um bom tempo até localizar a ilha de seu destino, ao longo de cujas praias pôde visualizar, mesmo de longe, as belas casas e o prédio do resort daquele luxuoso condomínio onde ela estava hospedada. Aproximando-se, procurou um pouco mais, encontrando finalmente a pequena baía onde deveria atracar.

Adentrou a baía e dirigiu a pequena lancha cuidadosamente, bem devagar, até localizar o píer nove, conforme as instruções. Atracou a lancha sem dificuldade. Eram onze e meia da manhã, meia hora antes do horário combinado. 

Subiu ao píer e o percorreu até próximo da mansão à qual era ligado, que ficava no limite do luxuoso condomínio. Percebia-se que não era ocupada já havia alguns anos. Gilberto reconheceu que o local escolhido por Shila não poderia ser melhor do que aquele para um encontro secreto, sem testemunhas.  As plantas e o mato dos jardins abandonados haviam crescido muito, constituindo uma pequena selva fechada, proteção perfeita contra olhares externos; flores cor-de-tijolo e vermelhas das primaveras assomavam ao mato mais denso, embelezando o ambiente que ainda permanecia bastante agradável apesar do abandono. Voltando ao píer, sentou-se num velho banco de madeira para aguardar a chegada da sua colega.

A privacidade proporcionada pelo local e a expectativa do iminente encontro com a bela Shila povoaram de ideias a imaginação de Gilberto, que tinha permanentemente presentes em sua cabeça aquela provocante figura feminina e os olhares cruzados com ela, desde o dia em que a viu no Departamento. Enquanto esperava, só de pensar no encontro iminente, tanto a sua mente como o seu corpo reagiram, fazendo o seu coração bater mais forte, além de provocar outras respostas físicas menos nobres.

Precisamente no horário combinado, Shila chegou: linda, maravilhosa mesmo, para o encantamento de Gilberto. Trajes esportivos de muito bom gosto realçavam suas formas, e na privacidade daquele ambiente natural ela lhe pareceu ainda mais bela e sedutora do que quando a conhecera no Departamento. Por alguns segundos os dois se observaram de cima a baixo, sem disfarçar os olhares. A seguir, aparentemente satisfeita com o que viu e com um sorriso que pareceu malicioso, Shila ordenou:

— Pegue o malote e me siga.

Gilberto voltou à lancha, pegou o malote, subiu novamente ao pier e seguiu a espiã, que se dirigiu diretamente à casa desabitada, onde entraram, e esclareceu:

— Eu me hospedo no Resort para os contatos e ações, mas estou sediada aqui para os trabalhos de planejamento e guarda do material. Deixe o malote ao lado da mesa.

Shila havia providenciado a limpeza da grande sala, que estava impecável, e ainda aproveitara os móveis deixados em perfeito estado pelos antigos proprietários, redistribuindo-os como lhe convinha. Encostada à parede entre as janelas que davam para o jardim, uma grande mesa com duas cadeiras acomodava apenas um notebook, um bloco de anotações e alguns materiais de escritório. Ao lado dela, no chão, o malote que Gilberto iria levar no retorno, já lacrado. Nenhuma arma à vista. Em frente à mesa, do outro lado da sala, um grande e confortável sofá se sobressaía no exame do local e na imaginação atrevida de Gilberto. Nesse momento, os seus pensamentos foram interrompidos pela fala de Shila.

— Fui eu que disse ao Coronel para que mandasse você. Preparei uma refeição leve para nós, você vai embora mais tarde. Você é novo no Departamento, quero conhecê-lo melhor. Feche a porta e as cortinas para que não sejamos vistos.

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Após a refeição, a conversa foi deliciosa para ambos. Afinal, uma espiã também é humana, também gosta de conversas e outras coisas... Por isso, só se deram conta do tempo quando ouviram o som de um trovão ao longe. Eram quase dezessete horas. Abrindo as cortinas, viram pela janela que a tarde caía rapidamente e pesadas nuvens antecipavam o escurecer da noite que se aproximava.

Um pouco alarmado, Gilberto arrumou-se apressadamente. Tinha que voltar! Pegou o malote e seguiu com Shila até o píer nove, onde despediu-se dela com um longo e caloroso beijo; soltou as amarras e subiu na lancha, amarrou bem o malote para que ficasse seguro durante a travessia, tomou o timão, puxou o manche e zarpou em retorno ao continente. Ainda atordoado e exultante com a experiência por que tinha passado, nem pensou em vestir o colete salva-vidas.

No retorno teria novamente que rumar paralelamente à costa desabitada pelas onze milhas, até ver as luzes de Trindade, quando faria uma guinada de noventa graus e seguiria diretamente até a margem do lugarejo. Considerando a dificuldade de visão que o tempo oferecia, lembrou-se de guardar a distância aproximada de uma milha da costa durante a primeira parte do percurso, para evitar um acidente com aqueles pequenos rochedos.

Pouco depois que saiu as primeiras gotas de chuva molharam o seu rosto. Logo, já era um temporal. A noite também desceu de vez e a escuridão predominou. Com a mão sobre a testa para proteger os olhos da chuva, bem ao longe Gilberto já via as luzes de Trindade. Essas luzes seriam o seu guia naquele breu. Enquanto a lancha avançava, as ondas, cada vez maiores, desequilibravam a pequena embarcação, dificultando a navegação. De repente, uma vaga gigante atingiu a lancha lateralmente com forte impacto e Gilberto foi jogado ao mar.

Rapidamente a correnteza o arrastou para longe da embarcação e ele se viu perdido na escuridão. Tentou voltar para ela, que já se afastava, viu que seria impossível. Consciente da situação, o pavor o dominou. Ao nível da água, não conseguia nem ver as luzes do lugarejo distante para se orientar. Estava muito longe da costa e, mesmo sendo um bom nadador, encontrava imensa dificuldade para manter-se à tona, pois as vagas sombrias se sucediam impiedosamente sem que conseguisse vê-las a tempo de defender-se, devido à escuridão.

Várias vezes submergiu e ficou sem poder respirar. Voltava à tona com forte puxada de ar para encher os pulmões. A tempestade, inclemente, açoitava a sua cabeça; as vagas enormes se sucediam com violência, elevando o seu corpo por alguns metros, para depois soltá-lo no vazio, caindo novamente na água; o esforço que fazia era descomunal, o cansaço o estava vencendo. Já sem forças, mais uma vaga; engoliu água, engasgou-se; outra veio, tentou manter-se à tona, foi em vão, submergiu. Faltou-lhe o ar, foi-se a consciência...

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Naquele trecho deserto da praia, um pouco ao norte da aldeia dos pescadores, várias gaivotas alimentavam-se dos pequenos peixes e mariscos que haviam sido arrastados pela maré e encalhado na areia ainda encharcada. Algumas deslizavam no ar, em voos suaves e graciosos. A forte tempestade da noite anterior deixara as suas marcas no cenário. Por toda a praia viam-se ramos de árvores trazidos pelas águas, de algum lugar distante. O vento diminuíra de intensidade e o mar já havia serenado um pouco e recuado, alargando-se bastante a faixa de beira-mar, mas ainda grandes ondas se formavam e quebravam ruidosamente, invadindo a praia, num movimento nervoso de vai e volta. Já passava do meio-dia e o sol forte dominava o cenário, provocando um calor abafado.  

O corpo inerte de um homem jazia, solitário, estendido na areia...

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QUADRINHAS - Leon Alfonsin

 





QUADRINHAS

Leon Alfonsin

 

TENTEI, MAS NÃO DEU

Um dia encontrei uma planta

daquelas que a gente se espanta:

Tinha quase cem metros de altura,

só de olhá-la me deu tontura.

 

Mas isso não me ajuda, que azar,

minha inspiração não alcança,

se assim eu continuar, criar

versinhos para uma criança.

 

 

PAPAI SABIDO

O meu pai sabe mesmo de tudo,

sempre responde ao que lhe pergunto.

Mas se lhe peço ajuda no estudo,

prontamente ele muda de assunto.

 

 

MANHA, MAMÃE, FOGUETE E SORVETE

Eu chorei, a mamãe disse que “é manha”,

E veio me pegar como um foguete,

me apavorando: “agora você apanha

e ainda vai ficar sem teu sorvete”.

 

 

O RELÓGIO E O SUCO

Aquele relógio maluco

sempre fazendo tique-taque,

de repente ele faz um “claque”.

Está na hora do meu suco.

 

 

BANANADA

Está chovendo, estou te escrevendo.

Eu queria comer um doce, ainda mesmo que fosse

aquele gostoso, de banana, que você fazia usando o meu tacho.

Era muito bacana, pelo menos eu acho.

A gente comia juntinho, sempre bem devagarinho

para demorar com você bastante, minha querida amante.

Agora não tem mais bananada, meu tacho não serve para nada,

e ainda está chovendo. Vendo o tacho, o tacho eu vendo.

 

 

Estrepulias - Hirtis Lazarin

 

 


Estrepulias

Hirtis Lazarin

 

 

Pulando... Pulando...

Numa perna só

Zombava de todo mundo

Enrolava até a cobra-cipó.

 

                                

                                  

                           O gorro vermelho

                           Voou e caiu no rio

                           Avisou-lhe o velho:

                          “ O peixe grande engoliu”.

 

Ficou bravo

Atarantado

Fez estripulias

Pra todo lado.

 

 

                                                   Assustou a borboleta

                                                   Que cheirava a flor

                                                   Golpeou o cavalo

                                                   Coitado, gemeu de dor.

 

Entrou na cozinha

Da tia Maria

Jogou tanta farinha

Que entupiu a pia.

 

                                                  Enrolou o rabo do gato

                                                  Escondido no mato.

 

E feliz da vida

Saiu gritando:

Sou o saci-pererê

Mais ardente que óleo de dendê.


FUGA PARA O CANADÁ -- Leon Alfonsin

 


FUGA PARA O CANADÁ

Ou, versos sobre a frustração por uma história travada.

 

                              Leon Alfonsin

 

Eu preciso escrever um conto,

porém me atrapalho num ponto.

Penso muito, até fico tonto,

nada do conto ficar pronto.

 

Mas nem assim me desaponto.

Vou conseguir, não me amedronto.

Sigo em frente, aceito o confronto,

qualquer dificuldade afronto.

 

O conto, então, monto e remonto,

até tento algum contraponto,

mais uma vez, conto e reconto,

o meu lápis todo desponto.

 

Com o fracasso me defronto

enfim, e abatido, desmonto.

Humilhado, logo me apronto,

compro passagem sem desconto,

faço as malas, vou pra Toronto.


quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Fala, fala espelho meu... - HIRTIS LAZARIN

 

 


Fala, fala espelho meu...

HIRTIS LAZARIN

 

Dona Luíza entrou apressada no quarto da Elisabeth. Tinha pouco tempo para colocar ordem. Estava atrasada com os serviços do dia; as crianças e o marido logo mais chegariam para o almoço. Às quintas-feiras, Rui tinha que sair voando. As audiências no fórum não esperavam.

Como sempre, encontrou tudo como ela não queria: gavetas abertas, tênis jogados, roupas espalhadas por todo canto. Já tentou muitas vezes, com jeitinho e outras vezes, aos gritos, conscientizar a filha. Já estava na hora dela cooperar com a mãe.

Assim que abriu a janela e a claridade entrou, percebeu que alguma coisa estava diferente.  A bagunça era a mesma, mas...

Bem, não tinha tempo para ficar pensando. Ouviu o ronco do carro da família entrando na garagem e correu para terminar o almoço.

Elisabeth não é mais a menina que coleciona bonecas. Não foi de uma hora pra outra que seus pensamentos mudaram.  Tudo aconteceu aos pouquinhos, em doses homeopáticas.  E ela foi guardando para si. Não era extrovertida o suficiente para contar à mãe.

Não demorou muito e o primeiro sintoma extravasou: sentiu vergonha da coleção de bonecas que enchia a prateleira do quarto. Num ímpeto, escondeu todas.

E o espelho, o malvado espelho da penteadeira apareceu e tirou-lhe o sossego e a espontaneidade da infância.

Ele contou-lhe um segredo: ”a menininha manhosa foi embora”.

Elisabeth sentou-se à sua frente e ali ficou parada alheia à vida, como se nunca tivesse reparado que esse espelho existia.  

Teve tempo para conferir todos os detalhes do próprio corpo, dos cabelos e até das unhas mal lixadas. Examinou suas roupas e não gostou do que viu.   As expressões faciais, ora bem-humoradas, ora contrariadas, contavam seus sentimentos.

Dali em diante sua vida mudou. Passou a ser monitorada pelo espelho, o personagem que apareceu forte e autoritário em sua vida.

 E, assim, a vaidade brotou em flores e espinhos.

Ir à escola, até então, momento de alegria, passou a ser um tormento aos pais. Elisabeth colocava o relógio para despertar, levantava-se bem mais cedo que todos e perdia-se no tempo. O tênis não podia ser o mesmo usado no dia anterior, o moletom estava velho, a presilha tinha que combinar com o humor do dia. E o cabelo, coitado, era puxado pra cá, pra lá e perdeu a liberdade de seguir o caminho do vento. Chegar atrasada à aula virou rotina.

Descer à portaria para pegar uma pizza “delivery”, caso a mãe estivesse ocupada, era um inferno. Elisabeth consultava o espelho e ele, sem dó,  sempre torcia o nariz e apontava um item errado. Ela obedecia fielmente.

Já ocorreram vezes em que o motoboy, responsável pela entrega, perdeu a paciência e voltou com a mercadoria.

Os pais estavam preocupados, mas acreditavam que a crise, comum entre os adolescentes, era passageira.

Elisabeth foi convidada, com bastante antecedência, para ser dama de honra, no casamento da prima mais velha. Durante um mês, mãe e filha rodaram lojas e lojas de grife, em busca do vestido mais bonito e apropriado para a ocasião. Depois de desentendimentos, malcriações, mudanças nos detalhes e muito choro, a roupa foi escolhida.

Não era o que a mãe queria, mas o espelho orgulhoso venceu a parada mais uma vez.

O dia do casamento chegou. Estava bem frio, mas nada demais para o esperado no mês de julho.

A daminha de honra passou a manhã toda no salão de beleza. Deu trabalho, mas chegou em casa satisfeita. Horrorizadas ficaram as profissionais que atenderam a cliente.  “Nunca mais”, cochichavam entre elas.

Dona Luísa nunca passou tanta vergonha na vida e nunca desembolsou tanto dinheiro para pagar uma conta de cabelo. Foi esfolada viva.

O casamento estava marcado para as vinte horas. Já eram dezenove e Elisabeth ainda não estava pronta. Ao colocar o vestido, reclamou que alguma coisa, no avesso, cutucava-a.  A mãe procurava... Procurava... E não achava nada. Esse processo se repetiu, acho que por três vezes. Nessa confusão, o cabelo, preso no do alto da cabeça, despencou.

Fim de festa. Fim da tolerância.

“As regras, nesta casa, a partir de AGORA, serão outras. Aguarde, Elisabeth”.

O PODEROSO CORONEL RAMIRO - Henrique Schnaider

 




O PODEROSO CORONEL RAMIRO

Henrique Schnaider

 

Josué chegou naquela cidadezinha, no interior do Estado da Paraíba, de nome Cedró e não imaginava que, não era diferente o modo de vida dos pacatos cidadãos do lugarejo, aos da cidade grande. Desceu do ônibus na pequena estação rodoviária que mais parecia um ponto de ônibus de uma cidade maior.

Cedró toda tinha dois serviços de táxi, um que vinha e outro que ia, mas assim mesmo faltavam clientes para os taxistas. As pessoas andavam a pé. Josué pegou o táxi que ia, cumprimentou o motorista e perguntou onde poderia achar uma casinha para alugar. O taxista que depois se tornou amigo de Josué, respondeu que ia levá-lo lá onde havia casas para alugar.

Josué viu casa do seu gosto. Alugou a casinha. Ela mais parecia uma toca, mas servia para ele. Não havia exigências, era só pegar a chave, entrar e pagar o aluguel dali trinta dias. O taxista indicou também a Usina de Açúcar São João, onde ele poderia arrumar um emprego.

No dia seguinte Josué pegou o táxi que vinha, dirigido pelo Armando com quem simpatizou logo. Pediu para ser levado para a Usina de açúcar. No caminho foram conversando e o motorista falou sobre o Coronel Ramiro, dono da Usina e a pessoa mais importante da cidade.

Chegando na Usina, Josué se despediu do Armando e se dirigiu ao escritório, pensando que iria conhecer o tão falado Coronel. Mas não, nem sinal dele. Passou por uma entrevista básica e logo foi admitido como auxiliar de escritório. No dia seguinte no trabalho, só ouvia os colegas falando sobre o poderoso Coronel. Falavam de tudo, sobre os três filhos do Ramiro e sobre a esposa tão bela e formosa.

Passado um mês, Josué já na sua rotina, ia depois do trabalho para relaxar um pouco, antes de se recolher em casa, lá no bar do Cabeção, outra vez ouvia a ladainha, tudo sobre o Coronel. Ele percebeu que as futricas eram muitas, mas na verdade, eram poucas as pessoas que haviam visto ou sequer conversado com o poderoso senhor.

Festas aconteciam constantemente na casa do patrão, o dono da cidade de Cedró. Poucas pessoas do local, escolhidas a dedo frequentavam tais festas. O Prefeito cupincha de Ramiro, o Presidente da Câmara dedo mole e o dono das três lojas no centro da cidade,. Outros convidados, eram todos vindos de fora, de outras cidades importantes e que mantinham relações políticas com o Coronel.

Josué ficava de boca aberta com tamanho poder e influência do seu patrão, mas que não aparecia nunca. Estava sempre, ou viajando ou permanecia dentro de sua casa com um luxo invejável. Piscinas, imensos salões para as recepções e sem deixar de mencionar um belíssimo salão de jogos.

Todas estas histórias sobre a casa do Coronel, eram contadas pelas poucas pessoas que lá estiveram, mas que não chegaram a ver o dono da casa. Alguns tiveram o privilégio de ver Dona Olga a formosa esposa, que era quem dava as ordens na mansão.

Certo dia, Josué se considerou um sortudo, já que seu chefe lhe chamou ao gabinete e o incumbiu de levar um pacote que ele considerou como misterioso. Era todo embrulhado num papel finíssimo e muito bem amarrado.

Lá se foi Josué caminhando pela estrada em direção ao palácio do Coronel. Ficou imaginando, devido a importância do seu patrão, que o mesmo, deveria ser um homem alto, forte e muito charmoso. Emocionado, caminhou a passos largos, ansioso por chegar, e finalmente poder ver a tão importante e misteriosa figura.

Na porta da casa, tocou a campainha e com o coração aos pulos, aguardou emocionado para ver o patrão. Finalmente alguém abriu a porta e um senhor baixinho com um metro e meio, com um chapelão. Na opinião de Josué o homem era muito feio. Gaguejando ele falou.

— Boa tarde, gostaria de entregar este pacote ao Coronel Ramiro.

— O senhor respondeu, sim sou eu, pode me entregar. Josué capengando se dirigiu ao Coronel. Este por sua vez disse um até logo baixinho, virou as costas, entrou e fechou a porta.

Josué não cabia em si de tanta decepção com o poderoso chefão. Ficou ali parado, pensando no homem que acabara de conhecer. Saiu andando trôpego pela estrada de volta para a Usina. Pondo os pensamentos no lugar. Por fim chegou à conclusão de que, depois de ter visto o patrão, viu que aparência não é tudo, mas sim o poder e a fortuna se adquirem com muitas outras qualidades.

 

 

APARECIDA - LEON A. VAGLIENGO

 





APARECIDA

Uma pequena história que emocionou o autor.

                                                                                                                               Leon Alfonsin Vagliengo

 

        Estabelecido numa rua tranquila daquele bairro modesto de periferia, o açougue de Ricardo era pequeno, mas primava pela higiene e pelo bom atendimento. Isso combinava perfeitamente com ele, um comerciante muito correto, que adicionava a essa virtude e oferecia também, no atendimento a seus fregueses, a grande simpatia que brotava com naturalidade de seu bom coração.

        Por isso, ninguém estranhou a sua atitude naquela tarde, em horário de pouco movimento, quando aquela cachorrinha branca e preta, suja e magra como um palito, parou em frente ao estabelecimento e deu um pequeno latido, com um olhar suplicante para dentro do açougue.  Ao vê-la, Ricardo condoeu-se com o seu aspecto tão deplorável, correu para separar uns bons retalhos de carne que sempre sobravam dos cortes, e generosamente, com muito carinho, os ofereceu para ela.

        A cachorrinha abanou o rabo em sinal de contentamento e, para a surpresa de Ricardo, abocanhou a carne, mas não a comeu. Foi-se embora caminhando pela rua com o alimento na boca, carregando-o com alguma dificuldade. Ele ficou a observá-la, sem entender, até que ela virou a esquina; pelo aspecto faminto da cachorrinha parecia que iria engolir toda a carne no ato, vorazmente, mas não o fez.

        No dia seguinte, por volta do mesmo horário, ali estava novamente a cachorrinha: mesmo latido, mesmo aspecto comovente, mesmo olhar de quem pede ajuda. Quando a viu, Ricardo se enterneceu outra vez, e nem pestanejou: separou os retalhos de carne e os entregou carinhosamente para ela, que os abocanhou e foi-se embora com eles na boca, como no dia anterior.

        Quando ela voltou no terceiro dia, os empregados do açougue já comemoraram a sua chegada:

        — Olha a sua freguesa aí de novo! A Aparecida chegou, Ricardo! — disseram, entre risos, já batizando a cachorrinha.

        E assim aconteceu por vários dias seguidos. Ricardo já deixava separados os retalhos que daria para ela, e até separava os mais longos para facilitar o transporte, porque sabia que ela voltaria e procederia como sempre, mas continuava curioso: “por que ela não come aqui, como qualquer cão faminto faria? Para onde será que ela vai?”.

        O estranho comportamento da cachorrinha o deixava a cada vez mais intrigado. Depois de alguns dias em que tudo se repetiu, vendo que ela ia embora caminhando devagar devido ao alimento que transportava com uma certa dificuldade, Ricardo percebeu que seria possível segui-la, e assim o fez.

        No caminho, Aparecida parava de vez em quando para ajeitar melhor o alimento em sua boca, retomando a marcha de imediato. Andou por alguns quarteirões até entrar num depósito de ferro-velho, caminhando pelo chão de terra batida por entre peças e objetos empilhados ou largados a esmo no local. Finalmente, passou com alguma dificuldade por sobre algumas caixas de madeira que cercavam o pequeno quintal de uma edícula desabitada, já nos fundos do terreno.

        Ricardo vinha logo atrás, chegando a tempo de vê-la depositar o alimento no chão e dar um pequeno latido ao qual acorreram seus três filhotes, abanando os rabinhos perante a refeição que a mamãe lhes trouxe. Sua grande sensibilidade, então, falou alto: com um nó na garganta, as lágrimas assomaram a seus olhos ao constatar a situação precária daqueles bichinhos e compreender o instinto maternal superior daquela pequena cachorrinha.

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        Num sábado, alguns dias depois, Ricardo convidou seus dois irmãos e suas jovens famílias para um churrasco no quintal de sua casa. A conversa corria solta entre risos, comes e bebes, quando seu sobrinho veio correndo, todo animado.

        — Tio Ricardo! Tio Ricardo!

        — Que foi, Julinho?

        — O Senhor tem quatro cachorrinhos! Me dá o pretinho? Meu pai deixa levar ele para a minha casa!

        Ricardo pensou um instante em como responderia. Não queria frustrar o menino, mas o seu coração de ouro não lhe permitiu outra resposta:

        — Não posso, Julinho. Não tenho coragem de separar a mãe de seus filhos, seria uma maldade. Já pensou como a Aparecida e os filhotinhos ficariam tristes? Mas você mora perto, pode vir brincar com eles sempre que quiser, eles vão gostar; e ela, mais ainda, com certeza. Venha, sim!

 

A MENTIRA OCULTA - Helio Fernando Salema

 


A MENTIRA OCULTA

Helio Fernando Salema

 

Depois de muitas trocas de olhares e sorrisos, consegui falar com uma mulher que me encantava há alguns dias. Eu a admirava quando passava perto do meu trabalho, mas ela sempre parecia estar com pressa. Então decidi sair mais cedo e ficar de plantão até que ela aparecesse.

Quando a vislumbrei, logo preparei-me para iniciar a tão esperada conversa, ou quem sabe, conquista. Assim que estava bem próxima percebeu as minhas intenções e, um contido sorriso demonstrava o enorme desejo que ela não atrevia esconder.

Ali mesmo na calçada começamos a conversar e a convidei para um café ou jantar, à escolha dela. Ela sugeriu uma pizzaria que ficava bem próxima. A princípio pensei que a escolha dela era para mostrar-me quem decide. Não me importei, qualquer coisa eu faria para ter a presença dela.

Para demonstrar todo o meu cavalheirismo, deixei que ela escolhesse e, para surpresa foi a minha pizza predileta. Falamos de vários assuntos, a maioria das vezes era ela quem iniciava e eu prosseguia.

Quando ela olhou o relógio e disse-me que precisava ir, pois já era tarde, decidi arriscar um novo encontro:

 — Cremilda, foi um prazer enorme conhecer você. Gostei muito da nossa conversa, da escolha do local e saber que você também aprecia Pizza Marguerita, a minha preferida. Ficarei contente se nos encontrarmos outras vezes:

— Para mim também. Da próxima vez você escolhe.

Arrisquei apostando todas as minhas fichas, considerando o olhar e alegria que ela demonstrava. Então, sugeri o apartamento dela, que ficava bem próximo, como ela mesma dissera.

Ela mais uma vez demonstrando quem decidia, lembrou que eu mencionei que gostava de música e possuía uma esplêndida aparelhagem:

— No meu não é possível. Por causa de minha filha Sandra.

Com um semblante de enorme espanto:

— Sandro! Você não me disse que tinha uma filha.

Expliquei que pretendia falar mais tarde. Ela lembrou de que falei também de uma praia que eu adorava e frequentava sempre que podia:

— Então, você não vai me levar para conhecer aquela praia maravilhosa, que você vai sempre?

— Vamos sim.

— Mas, e sua filha?

Com muita tranquilidade, pois senti que ela já estava ”fisgada”, expliquei que iríamos só nós dois. Ela ainda insistiu querendo saber se minha filha não ficaria zangada. Comentei que eu a avisaria e, como sempre faço, direi onde e com quem irei.

Com os olhos arregalados e demonstrando satisfação, permaneceu por alguns segundos, pensativa:

— Então não há segredos entre vocês e, só não posso ir ao seu apartamento. Certo?

— Exatamente! Respondi quase soletrando.

— Lá… Não levo amigos e nem amigas.

No dia seguinte liguei e a convidei para um café após o expediente. Disse que não poderia, mas se eu quisesse ir ao apartamento dela outro dia, seria um prazer. Rapidamente pensei… E Decidi ver como estava o meu sucesso, perguntei se era para jantar. Deu uma risada gostosa e pediu para eu escolher o menu. Retruquei dizendo que gostaria de uma surpresa. Nova risada e confirmou que iria pensar, mas afirmou que estaria me esperando.

No dia combinado, após comprar na floricultura um belo vaso de flores coloridas e perfumadas, cheguei à “Casa dos Desejos Sonhados”. Ela abriu a porta e ao ver as flores externou uma imensa satisfação.

A minha surpresa não foi menor. Ela fez uma receita especialmente para aquela noite, inventada por ela mesma, Pizza de Marguerita com um molho à parte, todo especial também criado por ela. Insistentemente me pedia desculpas por não oferecer algo diferente, mas para não correr o risco de errar, preferiu escolher o que certamente me agradaria… Pizza de Marguerita. Respondi com toda sinceridade que foi uma excelente escolha.

Quando eu menos esperava ela pergunta pela minha filha. Assustou-me… Fingi que estava mastigando e assim pude pensar:

— Avisei que estaria no seu apartamento.

Ela levantou-se para ir à cozinha pegar a sobremesa... UFA!

Como a sobremesa era deliciosa passou a ser o assunto daquele momento.

O restante da noite foi tranquilo.  Acordei assim que o dia clareou, tomei um banho e arrumei-me para mais um dia de trabalho. Quando terminei, ela também estava pronta. Saímos para tomar café. Enquanto saboreávamos, ela sugeriu que no fim-de-semana fôssemos à praia:

— Boa ideia. Confirmarei nos próximos dias, preciso falar com a Sandra.

Parece que ela esperava outra resposta, ficou quieta e não tocou mais no assunto, nem eu.

 

VIAGEM À PRAIA

 

Dois dias depois telefonei para confirmar a nossa ida à praia, para eu fazer a reserva. Tudo acertado fiz a reserva e, só faltava arrumar a mala.  Saímos na sexta-feira no início da noite e em poucas horas estávamos na pousada.

Foi um fim-de-semana muito agradável e divertido. Ela concordou com tudo que eu havia dito sobre as maravilhas da praia. Sábado durante o café, perguntou quando eu estaria de férias, pois se coincidisse com as dela, poderíamos passar naquela pousada. Balancei a cabeça em sinal de dúvida … Ela imediatamente:

— Já sei… A Sandra pode não concordar.

— Não é isso. Minha filha não precisa concordar, apenas eu preciso acertar as coisas da casa com ela.

Silêncio fúnebre desceu sobre ela. Só algumas horas depois, quando a chamei para almoçarmos, foi que ela voltou a conversar normalmente.

Sábado à noite fomos a um restaurante de música ao vivo jantar e dançar. Eu que sempre me considerei um excelente dançarino e, outras mulheres também, fiquei estupefato. Dançava como nenhuma outra que conheci em toda minha vida, chequei a pensar que ela fosse dançarina. Ainda bem que ela elogiou a minha perfomance, também.

No domingo bem cedo,  um sol extranatural nos brindou até o fim do dia, quando tivemos que retornar acompanhados de uma saudade ”danada”.

 

DE VOLTA AO AP

 

 No domingo à noite, quando entrei no meu “AP” senti falta dela. Muito estranho, com trinta e cinco anos completos e mais de quinze morando sozinho, nunca senti no meu lar falta de uma mulher. Em momento algum pensei em levar qualquer pessoa, mesmo que fosse só para ver o meu ”recanto solitário”. Sensação estranha… Será que estou ficando velho? Pensei e fiquei preocupado.

Mesmo depois do verão, alguns fins-de-semana retornamos àquela pousada, viagem curta, rápida e boas recordações. Durante a semana nos encontrávamos para um café e depois um cinema ou teatro. Na maioria das vezes jantar no apartamento dela, quando ficávamos juntos até o dia seguinte. Poucas vezes ela mencionava alguma coisa sobre minha filha. Certo dia ao chegarmos, ela fez uma leve insinuação do anonimato de Sandra, fechei a porta do apartamento com toda força para mostrar a ela que quem manda no apartamento dela, sou eu.

 

 CASAMENTO

 

Seis meses de relacionamento, cada dia mais aumentava minha paixão pela Cremilda. Passar dias juntos era estar no paraíso sonhado. Não parecia real, especialmente quando retornava ao meu recanto, era  como se eu estive numa prisão solitária sem saber, nem compreender a razão de tal punição.

Reiteradamente tinha pensamentos inusitados… Casamento… Vida a dois. Sacudia a cabeça tentando jogá-los para bem longe, afastá-los da minha vida. Por pouco tempo eu até consiga quando me preocupava com outros problemas do cotidiano. Ao deitar-me sozinho, era como que aquela cama não fosse a minha, que meu corpo não estava completo e, a parte mais fundamental eu não a vislumbrava. Era estar inteiro num lugar e, em outro, apenas um pedaço de mim.

Depois de uma noite difícil, acordei tomei e uma decisão. Liguei para ela e avisei que iriamos jantar num lugar esplêndido… Uma grande e maravilhosa surpresa.

Ao sair do trabalho fiquei esperando, como sempre, no mesmo lugar da calçada. Assim que ela apareceu senti nela algo estranho. Aproximou-se … Entregou-me um envelope:

— Vá sozinho… Seu mentiroso… Você não tem filha.

Saiu com passos largos quase correndo. Assistindo o seu desaparecimento entre as pessoas, pensei… NEM FILHA … NEM VOCÊ.

 

Encontro misterioso - Alberto Landi

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