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quarta-feira, 18 de março de 2026

O JOVEM ALTAIR - HENRIQUE

 O JOVEM ALTAIR

HENRIQUE



O Jovem Altair sempre foi diferente dos seus colegas, geralmente não brincava aquelas brincadeiras infantis que toda criança adora, seus interesses eram outros, era tremendamente curioso e ia atrás de coisas diferentes e misteriosas.

Ao que tudo indica puxou a personalidade de seu pai, que também era dado a investigações de mistério, tal pai tal filho, o fruto nunca cai longe do pé.

O quarto de Altair era cheio de coisas que impressionavam: bonecos com aparência um tanto estranha e na verdade, só o menino entendia o significado daqueles bonecos um tanto quanto sombrios e assustadores. Havia também certo bichos que Altair cassava e mumificava” os bichinhos pareciam ter vida”.

A mãe dele reclamava muito da bagunça que sempre estava naquele quarto. Mal podia ela entrar naquele circo de horrores, e as vezes ralhava com ele para ver se as coisas melhoravam, mas em vão, não conseguia sucesso na tentativa de mudar as coisas no quarto do filho.

Todo santo e sagrado dia lá ia Altair fazer uma caça as bruxas com a finalidade de levar algo novo para seu circo de horrores.

Determinado dia sedento de novidades, entrou mata adentro que existia ao lado de sua casa. A mata era bem cerrada, mas o menino era corajoso e ia em frente com o coração batendo aos pulos, não por medo, mas sim na emoção doque iria achar para seu zoológico uma ou duas ou mais coisas interessantes para pegar e levar.

Em determinado ponto da procura Altair para estático praticamente emocionado, tinha avistado um bicho, completamente diferente dos tantos que já pegara. Tinha um corpo estranho, um olho só, tinha o tamanho de um coelho pequeno, andava só com três patinhas e era muito peludo. A sua aparência assustava um pouco, mas o menino não desistiu e com um puçá pegou o bicho que não se debateu muito.

Altair se deu por satisfeito com seu achado e resolveu voltar para casa já que com sua descoberta, ficou satisfeito por esse dia.

Voltou para casa e como todo menino sapeca tentou esconder da mãe oque estava trazendo. Arrumou uma gaiolinha e colocou o bicho dentro que estava imóvel parecendo sem vida. Altair ficou ali a observar a criatura por muito tempo.

Depois saiu para a cozinha da casa atraído pelo aroma muito gostoso da comida que sua mãe estava fazendo, ele adorava tudo o que a mãe fazia, já que ela era excelente cozinheira de doces e salgados.

Almoçou e no final “lambeu os beiços” e saiu para o quintal da casa de seus pais que era muito grande, cheio de arvores com frutas e lindas flores. Assim o dia passou para Altair alegre e satisfeito.

A noite se recolheu cedo para o seu quarto, para observar os seres estranhos que lá existiam. E mais curioso ainda com a novidade que era o bichinho que pegou naquele dia, quando de repente para estático e se arrepiando todo, pois a gaiolinha estava com a porta aberta e bicho saiu e o menino ficou todo arrepiado. O que aconteceu?  Onde ele está? Começou a procurar amedrontado, tentando achar o danadinho do bichinho.

Com o corpo tremulo, começou a procurar no quarto grande, onde estava o fujão. De repente sai debaixo da cama o procurado. Todo se balançando, inclusive o pequeno rabinho e chegou próximo de Altair, lambendo suas pernas num gesto de carinho.

Altair se emocionou com a atitude do animalzinho, que o pegou no colo e o acarinhou, logo lhe deu o nome de Peludo. Essa amizade cresceu e onde Altair estava, lá estava o Peludo ao dele pedindo colo. Os pais a princípio ficaram incomodados com aquela situação, mas com o tempo aceitaram e até passaram a gostar do Peludo que se tornou um membro da família.

E assim viveram felizes por muito tempo Altair, Peludo e seus pais.

 

 

Uma família - Elidamares Bianchi Rosa

 




Uma família

Elidamares Bianchi Rosa

 

No final da minha rua, havia uma família estranha. Todas as tardes, saíam de casa, andavam sempre juntos, as três meninas na frente, a mãe e o pai de mãos dadas atrás. Quase não olhavam para as outras pessoas ou para trás. Raramente se falavam. Caminhavam firmes, com determinação, e desapareciam na esquina.

Observando bem, percebia-se haver muito amor envolvido, mas havia medo. Caminhavam como se o lugar para onde iam fosse o único refúgio além da casa onde moravam, no final da rua.

Sei que voltavam tarde, depois que já havia escurecido bastante. Nunca soube para onde iam, poucas vezes os vi voltando, sempre com a mesma sensação de cuidado e medo.

Por longo tempo observei essa rotina cotidiana, até que certo dia, depois de perceber que não passavam mais, soube que mudaram, partiram para outro lugar que ignoro, desapareceram do meu mapa.

 



A Fadinha Pop - Hirtis Lazarin

 




A Fadinha Pop

Hirtis Lazarin

 

A fada Lily vivia no “Reino das Asas Brilhantes”. Ela não era famosa pelo seu brilho ou pelas mágicas surpreendentes que fazia com a varinha mágica.

 

Enquanto as outras fadas pousavam graciosamente nas pétalas de rosa e nos lírios brancos, Lily, toda desajeitada, enterrava o nariz na toca do Jaime, o esquilo mais agitado e impaciente da floresta; ou então, quando voava mais alto, lá onde o vento sopra mais forte, ela perdia o controle de suas asas e acabava num verdadeiro pesadelo:  presa nas teias de aranha. O toque pegajoso dos fios de seda prendendo seus pés e o medo de ser picada por uma aranha eram apavorantes. Cada movimento deixava-a ainda mais presa naquela armadilha invisível. Numa hora dessas, só restava uma saída: acalmar-se, ficar paradinha no ar pra que nada desse errado e acionar a varinha mágica.

 

Era de manhãzinha e sua missão naquele dia era simples: transformar o orvalho matinal em diamantes coloridos, mas após um espirro exagerado, esqueceu de acionar o freio das botas mágicas e transformou o rabo do gato Grandalf num enorme algodão-doce azul.

 

Dona Mel, a fada-chefe que usa os óculos na pontinha do nariz, toda paciente, nunca dá broncas em Lily e sempre repete: “Oh, querida! Acho que precisamos calibrar novamente a sua varinha. Ela está com algum parafuso solto. Acho que, solto está um parafuso na cabecinha da fada.

 

E, mesmo quando ela deveria se aquietar na biblioteca estudando mágicas, o livro que, aberto em suas mãos, ficava estacionado o tempo todo numa página só.

 

E onde estava a sua cabecinha?

 

Viajando num flashback, revivendo, em câmara lenta, cenas de suas trapalhadas.

 

Vamos lembrar juntos:

 

Lily passava perto de um formigueiro e sentiu um cheirinho desagradável — “Vou dar um jeito nisso” — e, ao tentar perfumar o local, ela apertou um botão errado e a varinha disparou um jato de glitter colante, transformando o exército de operárias em minúsculos pontos de luz.

 

As formigas, antes de cor marrom e discretas no vai-e-vem monótono de carregar folhas, decidiram aproveitar o novo visual: organizaram uma festa numa competição com a luz cheia da lua.   Descobriram que, com aquele brilho todo, nenhum tamanduá teria coragem de chegar perto. Afinal, quem comeria um lanche que brilha mais que um poste?

 

E o vexame das xícaras saltitantes? 

 

Lily foi incumbida de separar xícaras para o chá da tarde. Distraída com um bando de borboletas amarelas, trocou as palavras mágicas e deu “pernas de grilo” para a louça de porcelana. Sentindo-se livres e eufóricas --- sozinhas, nunca haviam saído do mesmo lugar ---- pularam a janela da cozinha e correram para o jardim. O resultado foi uma perseguição digna de cinema. A fada corria desesperada na tentativa de consertar a trapalhada e as xícaras, numa sequência de “poc-poc-poc”, saltavam por cima das margaridas e dos girassóis. Algumas ficaram arrebentadas e acabaram no lixo.

 

Num outro momento, Lily resolveu que as margaridas do jardim estavam muito pálidas e precisavam de uma cor toda especial. Sacudiu a varinha com elegância, mas bem na hora do feitiço, um beija-flor passou zunindo no seu ouvido.

 

O resultado? Em vez de dar um brilho perolado às pétalas brancas, transformou-as em pipocas gigantes que, ao calor do sol, saltitavam enlouquecidas. O gato Grandalf, que tirava uma soneca todo esparramado sob o sol, deu um mortal pra trás e uma flor-pipoca estourou na ponta do seu nariz. Outra, ah! Outra gigante! Grudou e tapou seu ouvido. Indignado e com seus pelos arrepiados, miou tão forte que mais parecia o rugido de um leão em miniatura.

 

Lily, paralisada e com a varinha na mão, não sabia se pedia desculpas ou se saía correndo antes que o felino resolvesse que ela seria a próxima coisa que ele iria caçar.

 

Bem nessa hora, a dona Mel surgiu flutuando, calma que só ela só. Não gritou nem se desesperou com o cenário de cinema montado no jardim. Tirou do bolso um saquinho de “biscoitos de erva-de-gato” e estendeu a mão. “Ora, ora, meu grande guerreiro, acalme-se. É apenas a Lily sendo a Lily”. Ele cheirou o petisco, disfarçou uma cara de mal e...  Não é que ele gostou?

 

Dona Mel, olhando por cima dos óculos de cristal, encontrou Lily escondida atrás da samambaia-de-metro.

 

Dessa vez, Dona Mel olhou firme pra Lily e deu seu veredicto: “Querida, já que você transformou nosso jardim nessa confusão, sua missão será organizar o primeiro “Festival de Pipoca Alada” do Reino. Vai guiar o gato Grandalf e as formigas brilhantes pra colherem todas as flores-pipocas antes que elas estourem. Vai também pentear cada fio do bigode do gato até ele recuperar sua dignidade real”.

 

A fadinha deu pulinhos de alegria por não estar de castigo, mas, logo à frente, tropeçou nos próprios pés, enquanto tentava convencer o esquilo de rabo azul de que ser colhedor de pipoca era a profissão mais importante do mundo.

 

No final do dia, o jardim estava calmo, exalando um cheirinho doce de milho que atraía fadas de todos os cantos. Lily, exausta e com glitter nas bochechas, sentiu-se orgulhosa por cumprir a missão.

 

Percebeu que, apesar de suas mágicas nunca saírem como planejado, elas acabavam criando histórias muito mais coloridas e divertidas do que qualquer feitiço perfeito.

 

Satisfeita da vida, a fadinha atrapalhada fechou os olhos, torcendo para que, no dia seguinte, sua varinha criasse juízo. Mas lá no fundinho sabia que com ela por perto, o “Reino das Asas Brilhantes” nunca teria um dia monótono.

 

Moral da História: Às vezes, um erro atrapalhado e barulhento é muito mais divertido do que um acerto silencioso e perfeito.

 

 

 

O prazo acabou. - Hirtis Lazarin

 



O prazo acabou.

Hirtis Lazarin 

 

O escritório do Dr. Marcos Vinícius de Albuquerque Júnior, localizado no quadragésimo andar, tinha vista privilegiada pra toda a cidade, mas ele preferia olhar para a pequena cicatriz circular no pulso sob o relógio Ômega. Para os filhos, ele era o titã da empresa e, para a esposa, o porto seguro que nunca levantava a voz.

 

O silêncio da cobertura foi interrompido pela vibração de um celular antigo, guardado numa gaveta de fundo falso que nenhum sensor de segurança jamais detectaria. Na tela, apenas três palavras aparecem: “O prazo acabou.”

 

Marcos sabia que a frase “O prazo acabou” não se referia a um contrato de banco ou a uma dívida financeira comum. Era um ultimatum.

 

Ele fechou as cortinas de seda e, pausadamente, acendeu um cigarro, depois outro, depois outro… Enquanto a sala se enchia de fumaça, a mensagem do celular antigo queimava sua mente. O que vai acontecer com seu império imobiliário?

 

Aquele não era um alerta de dividendos ou uma fusão corporativa. Era o eco de uma vida que ele acreditava ter enterrado há quase vinte anos. Soube, então, que o muro de vidro que o protegia  estava prestes a cair.

 

Olhou as horas e levou um susto. Não percebera que o tempo havia passado tão rápido. Já estava bem atrasado para o jantar de aniversário que a esposa havia preparado para o tio Luizinho, o mais velho e o mais querido da família.

 

Saiu tão às pressas que, ao chegar à garagem, não pôde entrar no automóvel. As chaves estavam no bolso do paletó esquecido no escritório. Quem olhasse para Marcos, naquele momento, não o reconheceria: sobrancelhas franzidas, olhos fixos e injetados, mandíbulas cerradas e a boca aberta pronunciando uma sequência de palavrões. Pense bem: eram quarenta andares pra subir… e quarenta pra descer… 

 

Quase uma hora de atraso e o verbo “atrasar” nunca fez parte do seu vocabulário. As mãos suavam no volante do veículo e do rosto escorria suor em gotas.  O celular vibrava insistentemente com mensagem de Lena: “As velas já estão acesas. Onde você está?” Ele sabia que não era verdade.

 

Marcos é casado com Helena e tem dois filhos:  Christina, que estuda nos Estados Unidos, e Vitor, que estuda e se prepara pra trabalhar na empresa do pai. A mãe vem de uma família tradicional que perdeu prestígio financeiro, mas manteve o sobrenome. Quando conheceu Marcos, ela viu nele a força e a estabilidade que faltavam em sua casa. Ela não é apenas uma socialite envolvida em causas beneficentes, mas uma mulher estrategista atenta aos negócios da família.

 

Ao chegar, Marcos entra no lavabo, lava o rosto com água fria e sabonete de perfume suave; penteia os cabelos grisalhos e fartos; faz exercícios faciais para “destravar” aquela expressão de tensão e só se dá por satisfeito quando o espelho mostra um homem disfarçado de suas preocupações.

 

O cenário da sala de jantar é digno de uma revista de decoração. A mesa está posta com cristais e flores; o cheiro do jantar preparado por chefs profissionais faz a boca faminta salivar.

 

O empresário entra pedindo desculpas pelo atraso. “Incidentes acontecem”, beija a testa de Helena, dá um toque nas costas do filho e saúda com um forte abraço o aniversariante do dia.  O tio Luizinho levanta-se com dificuldade, mas o sorriso rasga-lhe o rosto.

 

Marcos Vinícius tenta se comportar como se não tivesse acabado de ser ameaçado por um fantasma do passado. Sorri, abre um vinho de cinco mil reais e agradece pela vida que a família tem.

 

Helena conhece cada trejeito, cada expressão do marido. Sabe que algo importante o aflige. Não é o momento pra explicações. 

 

O jantar transcorre normalmente em clima de festa. Os assuntos são atualizados; até a política do país e o nome do presidente americano entraram num debate acalorado.

 

O interfone toca e Marcos, que já estava em pé pra ir ao banheiro, corre até a cozinha e atende. “Doutor, peço desculpas pela hora, mas um entregador tem um pacote pro senhor e diz que é urgente. Ele disse que o senhor esqueceu isso no banco há vinte anos”.

 

Helena fica em alerta. Antes do casamento, Marcos contou-lhe, em detalhes, toda sua vida pregressa. Não escondeu nada, queria realmente construir uma família. Ela acredita que todos merecem uma nova chance na vida.  E por que não o homem que amava tanto?

 

O empresário autoriza a entrega do pacote e fica paralisado; os olhos fixos num ponto vazio enquanto o passado lateja em suas têmporas. A respiração é curta, errática, como se o ar tivesse se tornado subitamente pesado demais para seus pulmões. Cada vez que fecha os olhos, a cena do que fez se repete num looping cruel, nítido e implacável. Sente o estômago revirar e uma náusea ácida enche-lhe a boca. É a certeza de que o segredo poderá deixar de ser segredo.

 

Ao abrir o pacote na biblioteca, encontra algo aterrorizante: uma fita cassete e uma foto antiga, quase sem cor. Era do estacionamento de um banco, onde um jovem desesperado e sem máscara foge carregando uma maleta. Era a foto de Marcos dos tempos da malandragem, uma época em que ele e o amigo Vitor fugiram pra outro Estado. Abandonaram a vida regrada de estudo e trabalho e ingressaram numa outra, perigosa e cheia de adrenalina: o mundo do crime.

 

Começaram com pequenos assaltos e, numa carreira vertiginosa, se especializaram em assaltos a banco, até o dia em que se desentenderam numa briga que quase acabou em morte. Marcos Vinicius apanhou muito e ficou machucado: um corte profundo no punho esquerdo que sangrava e um braço quebrado. Vingou-se e denunciou o parceiro. Vitor foi preso e o traidor fugiu com todo o dinheiro roubado. Era muito dinheiro.

 

Marcos viveu de forma anônima até que a poeira se assentasse, pois os riscos eram constantes. Nesse período, não perdeu tempo e se preparou para voltar à vida normal. Dinheiro não lhe faltava. Ajudado por uma equipe de advogados competentes, trocou de identidade e montou uma pequena empresa imobiliária. Vida nova que exigia muita cautela.

 

Após quinze anos de prisão, Vitor estava livre, leve e solto. A frase: “Seu tempo terminou” era um aviso de que a hora do acerto de contas chegara: ele queria a participação na empresa como sócio com cinquenta por cento do valor total. isso ou a entrega das provas dos crimes para a polícia e para a imprensa.

 

A conta chegou e ele não sabe como vai pagar.

 

Os dias seguintes foram, para o empresário, dias de descontrole emocional e pânico. Levantava mais cedo, comia pouco e não saía do escritório. Ligava mais vezes à esposa, pois temia que ela fosse atacada pelo seu inimigo. “São negócios que não estão dando certo”, era sua explicação à família. Helena foi orientada, mas ainda não sabia quão grande era o perigo do que poderia vir.

 

Era uma segunda-feira e amanheceu cinzento na Avenida Faria Lima. Marcos, num terno impecável, entrou no prédio da empresa com olheiras profundas. Estava sempre de alerta, esperando uma ligação, uma ameaça por mensagem ou até a polícia. Mas o que encontrou foi muito mais perturbador.

 

Vitor não estava escondido num beco. Ele estava sentado na cadeira de couro da sala de espera, lendo calmamente o jornal “Valor Econômico”. Não usava terno, mas uma jaqueta gasta que cheirava a cigarro barato, um contraste violento com o luxo do ambiente. Ele olhou para Marcos e sorriu de um jeito que fez o homem recuar.

 

Levantou-se com um sorriso largo e fingido. Cumprimentou-o como se fossem melhores amigos. “Bom dia, sócio! Dormiu bem depois daquele presente que te mandei?” Ele falava alto o suficiente para que a secretária e os estagiários ouvissem.

 

Após uma conversa curta, Vitor passou o dia caminhando pelos corredores da empresa e bebericando café. Observava os funcionários e fazia perguntas sobre o faturamento. Sentia-se   dono da empresa, usando o medo de Marcos como um passe livre.

 

O momento mais tenso foi quando  entrou na sala de Marcos, sentou-se na borda da mesa e  começou a folhear  relatórios em pastas abertas. “Sei que você é bom com números. Pena que os números do seu passado  não batem com a honestidade que prega hoje, não é?”

 

Marcos engole seco, sente  náusea  e nojo vendo o inimigo manuseando os relatórios. É como ver um lobo brincando com as roupas de uma ovelha. Para um empresário do seu nível, o escritório não é apenas um local de trabalho, é o local onde ele construiu sua nova identidade.

 

Foi no final da tarde que o inimigo  deu o  bote final. Não queria dinheiro escondido, queria legitimidade. Vitor entregou-lhe um contrato de consultoria  com um valor mensal astronômico. Era a sua proposta.

 

 

— “Se você assinar isso, o dinheiro sai limpo da sua conta para a minha. Eu me torno um consultor. Se não assinar…” e, apontando para o celular, “… aperto o 'enviar' naquele e-mail para a Polícia Federal. Acho que você já sabe o que vai acontecer. Vamos trabalhar juntos… Ou prefere ver a imprensa divulgando sua vida hoje à noite?”

 

O “prazo havia acabado”.  Vitor passou vinte anos em uma cela enquanto via, pelas capas de revista, o seu antigo parceiro se tornar um magnata.

 

Vinte anos atrás, ele não era  “Dr. Marcos Vinícios”.  Era “O Contador”, o homem que desenhava a logística para os assaltos. Crimes que deixaram mortos e feridos.

 

O empresário tem que resolver o problema de forma controlada. Precisa ser um estrategista frio, o mesmo que construiu um império. Na verdade, o primeiro pensamento foi matá-lo, mas sabia que isso criaria um problema policial imediato.

 

Aceita assinar o contrato de consultoria que Vitor exigiu. É colocado na folha de pagamento oficial, com um crachá e um espaço bem equipado ao lado da sala do presidente. O novo integrante da equipe é apresentado a todos os funcionários.

 

Depois de saber todos os detalhes da vida de Marcos e Vitor, Helena vai à empresa mais vezes do que costumava ir. Trata o desafeto, não com simpatia, mas com autocontrole para evitar conflitos. Limita-se a saudações básicas “bom dia, boa tarde”, alguns acenos e comunicações essenciais, sem abrir espaço para intimidade.

 

O casal pensa junto. Por que não aceitá-lo como sócio legítimo e transformar o inimigo em amigo? Afinal de contas, ele tinha direito à parte do dinheiro que deu início àquele empreendimento.

 

E por que não começar um bom convívio convidando-o para um jantar em família? A sugestão de Helena foi aprovada e, no sábado seguinte, receberam o convidado com zelo esmerado.

 

Helena é extremamente gentil e Marcos mostra-se arrependido do que fez, justificando seus atos como falta de maturidade. “Éramos jovens gananciosos”. Estava pronto para resgatar o tempo que Vitor perdeu na cadeia e pagar a dívida com juros e correção monetária.

 

O jantar prolongou-se até de madrugada, por conta do vinho de primeira qualidade. Sobre a mesa restavam quatro garrafas vazias e a quinta garrafa só não foi aberta porque Helena sugeriu terminar a noite com um licor digestivo cítrico, o mais recomendado após o jantar.

 

Ela se dirigiu ao aparador e foi lendo o nome dos licores cítricos para o convidado escolher. Ele escolheu “Limoncello Villa Massa”, um dos mais tradicionais da Itália, feito com limões sicilianos.

 

“Escolheu acertadamente. É um dos melhores que temos”. Antes de servi-los, Helena foi até a cozinha em busca de uma bandeja pequena; os criados já tinham sido dispensados  por conta do avançado da hora. Ela demorou minutos a mais, o gatinho da casa pedia água.

 

Helena serviu o licor numa bandeja espelhada que reproduzia em dobro as taças de cristal. Um gesto que selava o acordo que começava a se materializar.

 

Vitor está descontraído e feliz. Pega a taça e vira num gole só. Acho que não deu nem tempo pra apreciar o sabor. Estica os braços em direção a Helena: “Quero mais”. O tempo não foi suficiente pra que fosse atendido. Vitor solta um grito estridente e cai sobre a mesa.

 

Ele está morto.

 

Caro leitor, você acha que o plano de envenenamento foi combinado pelo casal? Ou o Dr. Marcos Vinícios não sabia?

 

 

A NATUREZA EFÊMERA DA VIDA - PEDRO HENRIQUE

 




A NATUREZA EFÊMERA DA VIDA

PEDRO  HENRIQUE


       Sob o manto denso e caloroso da cidade grande residem os múltiplos edifícios que beijam o céu com sua glória. Dentro deles se desenrola o cotidiano laborioso das cansadas almas que buscam um dia melhor para seus corpos.

       Entre esses prédios, se destaca o rosto irritado de Ricardo. Ele corre, xinga e olha o relógio com uma velocidade surreal. Isso que dá querer arrumar a mala faltando pouco tempo para seu ônibus partir.

       O rapaz decidiu desfrutar um pouco do ar fresco que só uma cidade do interior pode proporcionar.

       Ficará uns dias no sítio de sua família. Aquela que não larga, nem sob tortura, a criação de galinhas, a ordenha das vacas, muito menos o subir nas árvores frutíferas. Nunca abandonariam este paraíso para se sublevarem com o trânsito das grandes metrópoles.

Já pensou? Buzinas pra cá e pra lá. Gritos e engarrafamentos. Não. Deus me livre.

       Para eles, não há nada como pôr o pé no chão e sentir a vida correndo.

       Ricardo sabe que precisa disso. Os últimos dias foram de extrema exaustão. Passava-os sentado defronte à tela do computador, revisando documentos e fazendo reuniões.

Isso não é vida.

       Ricardo fecha a porta e corre para a rodoviária a tempo de pegar seu ônibus. Em poucas horas verá todos os seus afetos: pai, mãe, irmãos e primos. Além das antigas paixões que outrora lhe descortinaram sentimentos, vontades…

       Lembra-se de quando era pequeno? Quando, junto aos irmãos mais velhos e primos, mergulhava nas águas do rio que ficava a poucos metros de sua casa. Nelas, Ricardo tinha o infinito bem na palma de suas mãos.

       Como gostava de tudo aquilo: correr junto aos cachorros, exigir dos cavalos a velocidade de um automóvel de Fórmula 1, furtar frutas dos sítios vizinhos e saber que no dia seguinte tudo começa outra vez com o mesmo nome e aroma.

       Queria tudo que a terra podia oferecer, queria tudo que a infância tinha. Tristeza é saber que um dia chegou a tal vida adulta e todo seu íntimo infinito ruíu por seus olhos feito uma casa que, durante uma enchente, não vislumbra em si estrutura para manter-se de pé, e não havendo outra opção, desaba.

       Ricardo seca uma lágrima que abraça seu rosto paulatinamente. Até os mais brutos choram.

       O ônibus para e, ao chegar na saída da rodoviária, vê, como quando menino, os braços fraternos de sua mãe estendidos, aguardando para lhe revelar que, apesar dos anos, sempre será aquela coisinha singela e chorona que saíra de seu ventre.

       “Oh, meu amor.”

       “Mãe.”

Abraço.

 

       “Filho.”

       “Pia.”

Abraço.

       “Vamos, vamos, o pessoal está nos esperando.”

       Ao chegarem à casa, toda a família estava reunida para receber o homem que retornou às suas raízes. Faz um certo tempo que não conseguiam juntar todos assim.

       Foram tantos abraços, apertos de mão, beijos e “como você está diferente” que o rapaz ficou um pouco enjoado.

       A felicidade enfim debutava nos rostos daqueles que, por Ricardo, nutriam amores e saudades.

       Saudade talvez seja o que o nosso formoso moço sentirá da última pessoa a cumprimentá-lo. Trata-se da filha de uma vizinha querida pela família, que há pouco tempo havia se mudado para o sítio ao lado.

       É uma moça edênica, olhos de felina, rosto de mulher feita e personalidade de alguém que sabe o que quer e não tem medo de chegar e dizer “eu quero”. Ela vai e pega. E como pegou.

       Ofereceu ao rapaz um beijo na bochecha, que este retribuiu com uma certa fraternidade que não é entregue àqueles a quem não se deseja profundezas.

       “Olá.”

       “Olá.”

       Um pouco de conversa. Nome: Helena. É nova por aqui? Sim.

Silêncio.

       Mais conversa e depois a vida segue com lampejos de um desejo submerso, mas que logo invade a terra já arada e firma seu império na mente, no peito, na língua…

       Ricardo se dirige aos irmãos e antigos amigos. Relembram juntos os velhos fragmentos do tempo. Riem, refletem, zoam.

       Muitos já haviam se tornado pais. O pelo havia tomado o corpo, trazendo barba e responsabilidades. Tornaram-se pessoas que cuidam de outras pessoas.

       Um dos antigos amigos chama uma garotinha de cabelos castanhos saltitantes que vem correndo e o abraça. Ele a pega no colo, vira para Ricardo, que não precisa de palavras para decodificar.

       “É a sua cara.”

       “É. Durante os primeiros meses, acreditávamos que era menino, mas depois…”

       Ricardo acaricia o rosto da garota antes de o pai colocá-la no chão para que faça do jardim um sublime laboratório de fantasia e criação.

       Eis o cerne da infância: criar.

       À tarde, segue e com ela muitos olhos. Olhos de Helena. Olhos de Ricardo. Olhos dos pais que começaram a perceber que, pelo visto, teriam mais do filho do que imaginavam.

       Ah, as paixões têm disso: permanência.

       Os dois iam e vinham, entre conversas e risadas. Pareciam uma canção tão congruente e afável de se ouvir.

       Não demorou muito para o sol morrer entre as montanhas.

       Pouco a pouco, a família foi se dissolvendo, não sabendo quando iriam se ver de novo, mas Helena estava lá. Ela sempre esteve lá.

       Ela conversava e Ricardo observava. Ele brincava com as crianças e ela sentia. Eles riam um para o outro e a alma girava e girava, dançando como uma bailarina, que por um instante esquece que é humana e brinda a Terra com seus passos angelicais.

       O rapaz vai ao antigo quarto, toma um banho. Descobriu que a moça fez de sua antiga residência a casa dela. Ela tem liberdades aqui. Tudo é dela. Tudo.

       Assim que termina de pôr a roupa, vê, lá do alto, o cabelo de um anjo ganhando o abraço afagoso dos ventos.

Vou lá. 

       “Oi.”

Ela olha.

       “Oi.”

Silêncio.

Silêncio.

Silêncio.

       “Senta aqui.”

       Ricardo encara o espaço ínfimo que tem no banco.

       “Acho que não dá para me sentar aí.”

       Helena o observa e seus olhos transpassam a alma daquele rapaz que não sabe se é mais fácil ser atacado por uma onça ou sentir o peso daquele olhar sobre si. De todo modo, preferiria a onça.

       “Por que não?”

Irônica.

       “Olha para mim.”

Sedutor.

        A moça o analisa.

De fato, é um homem.

       Braços que brigam com a camisa para saber quem aguenta quem. Ombros proeminentes, mãos que dariam duas dela. Sem considerar o rosto que desafia a pulcritude de muitos atores.

       Helena se levanta, ousada, firme, faminta…

       “Sente-se.” Ricardo olha para ela, não compreendendo sua atitude, mas a alma arrepia e ele gosta. Como gosta.

          “Sente-se.” Ela aponta com os olhos para o pequeno banco.

       Sem pestanejar e incapaz de qualquer reação, o rapaz obedece.

       Assim que suas nádegas encontram a superfície rígida da pedra, Helena se põe no colo dele com uma delicadeza que o faz desejar o mundo com aquela mulher.

          Helena acariciou delicadamente o rosto de Ricardo. Bochecha, barba, clavícula…

       Tensão?

       Sim.

       Há lábios, lábios que há poucas horas sorriam um para o outro. Agora, encontra-se nesta noite de muitas promessas para uma dança fermentada de voluptuosidades.

       E lá de cima, lá do quarto que um dia aguardava limpo, o pequeno Ricardo emerge os rostos de seus pais que, abraçados, contemplam que o pequeno se tornou homem.

 

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...