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quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Joia de família - Pedro Henrique




Joia de família

Pedro Henrique

 

 Existem histórias que marcam toda uma geração e transpassam a outra como uma joia esporádica de família que, a cada nova vinda, troca de mão.

          No entanto, esta joia é daquelas que ninguém ambiciona, pois nos encontros dos caminhos não haverá aquele que desejará o arame farpado rasgando sua carne como forma de herança.

     Nesse sentido, ainda afirmo que a concatenação dos fragmentos dos diversos sentires furiosos até formar uma unidade única chamada raiva eleva-se em tamanha magnitude ao pensar que tal veredito é designado a um corpo específico: o preto.

     Acham que minto? Rio de vós. Não fazem ideia da correnteza desse rio que nasceu há séculos e séculos e que veio com seu perigoso e turbulento percurso até chegar a nós.

     Posso começar em Mãe África com os reis que se assentavam em riquezas, joias e tronos banhados a ouro ou com aqueles — que nas minas estreitas e precárias, onde somente o ouro era cobiçado — trabalhavam, e ai deles se pouca ou nenhuma pepita achassem.

     Não importa o sol escaldante ou a poeira demasiada que aprisionava-se em seus corpos, apenas trabalhe porque senão há um toco, batizado pelo medo, à sua espera.

     Ou então, posso partir de minha bisavó, que vivia no trabalho constante de limpar, esfregar, varrer, amamentar e dar ao seu patrão, suas intimidades, quando este bem-queria.

     Posso lhes contar se assim desejarem. Queres? Sim. Ok. Pensem. Uma casa grande. Uma esposa, um marido e um casal de filhos, todos morando em uma mansão repleta de pretos trabalhando para eles.   

     Agora, imaginem outra família; esta, por sua vez, não é rica nem branca. Esta tem que trabalhar e muito para prover o sustento.

     O pai labuta no cafezal dia e noite, preparando solos e mais solos, colhendo grãos e mais grãos, além de cuidar dos animais, construir cercas, fazer reparos na casa e demais instalações na fazenda.

     A mãe tinha suas atividades na casa grande, junto às duas filhas que a ajudavam com todas as demandas e servindo de babás para a filha mimada de sua patroa.

            A menina era cruel, ignóbil, implacável, selvagem. Vivia beliscando as coitadas e estas nada podiam incidir sobre a conjuntura. Ela era a concretização indubitável do velho e perene dito popular de que o fruto não cai longe da árvore.

          Afinal, sua mãe não se ressentia em denotar que, para ela, os negros não têm espírito, nem alma, só são corpos e os corpos só trabalham, não têm direito a regalias.

          Esperta, a filha aprendeu com esmero como as pretinhas da casa deveriam ser tratadas e decidiu colocar em prática os ensinamentos da matriarca. Para tanto, elegeu minha bisavó, uma das babás, como sua cobaia.  

          A filhinha linda e amável fecundava o desejo imensurável de fazer com que as pretinhas não se sentissem bem-vindas ao núcleo de seus domínios.

            Sendo assim, valia-se de todos os recursos possíveis, entre eles a palavra. “Feia”, “cabelo duro”, “escrava fedida”, “filha do demônio”, “mulata mal-educada”, “macaca” e todos os outros adjetivos que tangiam ao fedor, feio e indigno, se reduziram a meros micros eufemismos para o que queria factualmente expressar em relação às babás.

     Inerme, minha ancestral tentava se desvencilhar, mesmo sem saber como, de tudo aquilo, levava sua mente aos voos mais elevados e longínquos onde era convidada de honra no festejo do júbilo, usufruía dos devaneios e das esperanças.
 Ah… como cantava bem, mas tão bem. Entregava-se ao deleite de ao menos sonhar em haver uma utopia em que poderia viver disso. Sempre que suas palavras, plasmadas em mel aos ouvidos dos vivos, ganhavam musculatura e forma, sentia-se liberta de si e de suas correntes. O mundo paria cor e aroma, tinha cheiro de vida. 

     Fechava os olhos e seus pensamentos descortinavam tal realidade. Às vezes, até no trabalho, parava, olhava pela janela ao pôr do sol e o canto emergia de seus rachados lábios Vinha com glória e majestade, vinha denunciar um novo amanhã, um novo dilema, uma nova arquitetura. Ah, vinha pregar o amanhecer, o ceifamento das trevas, o andar nos campos do afeto.


 Pena que felicidade é uma madame hostil e que rejeita pobres e todos os que gritam por socorro na costa do oceano social. O que ocorreu é o que me perguntam? Pois bem! 

     Um dia, minha bisa gozava de seu canto visceral e os ecos de sua voz beijavam cada canto da casa grande, de modo a penetrar os ouvidos da sinhazinha e nela fez jorrar o ódio e a inveja.

     Não suportando, portanto, aquele som, saiu furiosa da sala de estar e foi à cozinha mandá-la se calar. Porém, a crueldade sabe o momento exato de dar o bote e fazer suas vítimas experimentarem, a contragosto, o odor que dela emana.

     A garota pegou um canecão de água que estava fervendo no fogão a lenha e, quando minha bisavó tomou ciência do mundo, já estava gritando, clamando por socorro.

     A sinhazinha foi acolhida pelos pais e sua versão da história de que a pretinha estava mentindo e que o canecão havia caído e, magicamente, parado em seu rosto, foi aceita.

     Minha bisa só não ficou cega por um milagre. Assim que gritou, minha trisavó veio como águia ver o que havia acontecido e logo socorreu a filha.

     Levou-a para o funesto casebre dos fundos onde moravam, chamou o marido e juntos rogaram ao Obaluaiê, pedindo-lhe cura e amparo.

     Com o tempo, minha bisavó voltou a abrir os olhos e cantar suas músicas, ainda que em pensamento, por angariar de maneira desumana o entendimento de que seu corpo nascera de tal forma silenciado e que o som que dele emergia era ceifado pelas mãos atrozes daqueles que ditavam os mandos.

          E foi sob este cenário, caro leitor, no qual a insegurança e a perversidade humana entoavam seu louvor peremptório, que minha bisavó cresceu.

     Porém, também tinha seus momentos de deleite, nutria um sentimento único por plantas, vivia regando as rosas e tulipas de sua patroa, chegou até a fazer um canteiro de camélias no jardim que havia na parte externa do grande casarão.

          Afirmava com propriedade que as plantas eram suas filhas. Quando acompanhava seu processo de afloramento, divagava pelas trilhas do devaneio, imaginando que ela também era assim: uma rosa em desenvolvimento, pronta para revelar suas pétalas e encantar a todos que a vissem.

     Entretanto, era “feia” e sentia em seu coração que nunca alguém olharia para ela com encantos.

     O pior de tudo foi ter que se cobrir com a casca da maturidade muito cedo, afinal, com doze anos, enquanto servia café no escritório do senhor da casa, foi surpreendida por suas mãos repugnantes agarrando seu braço e a colocando virada para si em cima da mesa.

     Quando gritou, movida por um sentimento que se ramificava desgovernadamente por suas vísceras, cuja nomenclatura é medo, só teve a oportunidade de vislumbrar o punho do patrão visitar seu rosto.

          Além disso, teve de ouvir com todas as letras e fonemas que, caso não se calasse, teria de sair da casa dele e ir morar na rua, como o resto dos pretos.

     Sendo assim, ela apenas se calou e aceitou seu destino sem hesitar, afinal, o que poderia fazer?

     Desta forma, as águas impiedosas que compunham esse rio chamado existência seguiram.

    Com quinze anos, engravidou de minha avó e a vida como palco para a apresentação do horror havia injetado em seu corpo todas as chagas, lepras e espinhos do estar no mundo.

     Curioso ou não, a história perpetua-se. E, sob o pôr do sol de cada dia, nunca nasceu a esperança de que em algum momento as coisas seriam diferentes.

     Oramos para a maligna joia sair enfim de nossas mãos e nos deixar livres de toda condenação, pois sei como minha bisa e minha vó souberam que a alcateia não nos exime da mordida dolorosa, fria e lenta, em que só a morte tem o poder de colocar um ponto final.

 

 


quarta-feira, 12 de novembro de 2025

FRANCINE Adelaide Dittmers

 

 


FRANCINE

Adelaide Dittmers

 

Quando Francine entrou, o datilógrafo paralisou seus dedos no teclado.  Algo muito forte fez com que estremecesse perante aquela mulher, que lhe pareceu encher o ambiente com sua beleza e com seu olhar firme e sagaz.  Ela se dirigiu a ele com uma voz possante e impositiva, dizendo que tinha uma reunião com o Dr. Muraro.


Ofereceu-lhe cadeira e ela sentou-se, cruzando as pernas, a cabeça erguida e o corpo tenso.


O que ela quereria com um advogado criminalista, pensou.  Iria acusar alguém ou era a acusada?


Entrou na sala do chefe para avisá-lo da presença da mulher.


O advogado franziu o cenho e mandou-a entrar.  Dr. Muraro levantou-se para cumprimentá-la, ao mesmo tempo que analisava a postura altiva de Francine com um olhar inquisidor. Os dois se sentaram. O advogado iniciou a conversa:


— Estou sabendo do seu caso.  A senhora está reivindicando parte da fortuna de seu marido, que...

Ela o interrompeu bruscamente.


— Morreu em um acidente de carro, que estão me acusando de provocar.


Os olhos de Muraro eram duas setas, penetrando na expressão de Francine. Com uma voz calma e pausada ele continuou:

— Se quiser que eu cuide de seu caso, tem que me dizer a verdade, seja ela qual for, senão não poderei ajudá-la. Meu trabalho não é julgá-la e sim entender o que aconteceu e defendê-la.


O datilógrafo parou de martelar as teclas da máquina de escrever.  Os ouvidos atentos ao que iria ser revelado na outra sala.  O caso espalhara-se pela cidade e a ansiedade para saber o que seria revelado estremeceu seu corpo.


Ela deu um profundo suspiro.


— Meu marido, como é sabido por todos, era bem mais velho do que eu.  Quando o conheci já estava separado da primeira mulher, com quem teve três filhos.


Ao dizer isso, parou, como quisesse escolher cada palavra a ser dita. E continuou:


— Dizem por aí que casei com ele por causa do seu dinheiro.  Mas quando o conheci. fiquei  admirada pela sua inteligência, elegância e gentileza.  Foi uma atração mútua. Sempre o respeitei. Era um homem carismático.


O advogado a interrompeu:


— A senhora é considerada uma pessoa forte e, perdoe-me dizer, um tanto arrogante.


— Sim, é meu estigma, mas me tornei forte para me defender do contínuo falatório de que era apenas uma interesseira.


Muraro, então, entrou no assunto para o acidente que provocou a morte do marido.


— Pelo que verifiquei e pelo que corre por aí, o acidente em que ele perdeu a vida foi ocasionado por uma falha no freio do caro, que tinha sido alterado.


— De carros, só entendo de dirigir.


— Mas... quem mexeu nos freios, poderia ser um pau mandado por outra pessoa interessada em sua morte.


— Não fui eu.  Disse com a voz alterada e virando a cabeça de um lado para outro.


— A senhora tem ideia se ele tinha alguma desavença com alguém, alguma questão envolvendo dinheiro.


— Não.  Ela virou os olhos para cima, balançando a cabeça e apertando os lábios, como se procurasse se lembrar de algo nesse sentido. De repente parou e disse:


— A única coisa relativa a dinheiro, que houve há pouco tempo, foi que ele comunicou à família, que tinha modificado o testamento, deixando a metade de sua fortuna em espécie para mim.  A outra metade e a empresa de sua propriedade para os filhos.


— A senhora sabe como foi a reação deles?


— Eles aceitaram numa boa.


— Sra. Francine, diante do que me está relatando, vou ter que investigar o seu caso, confiando na senhora.


— Por favor, não precisa me tratar de senhora.

Muraro fixou o olhar nela.  Francine tinha despido o personagem altivo e diante dele estava a verdadeira Francine, uma mulher com medo de ser injustiçada e talvez condenada por um crime que não teria cometido.

O datilógrafo na sala contigua estava estático e se perguntava se ela estava dizendo a verdade.


— Então, Francine, vou fazer o meu trabalho para descobrir a verdade, confiando no que me contou.


A mulher sorriu apenas com os olhos.


— Obrigada, doutor!  E levantou-se.


O datilógrafo fingiu que estava escrevendo. Pensamentos desencontrados se chocavam em sua cabeça.  Adorava participar dos casos, que exigiam uma investigação. Por isso, ainda estava lá na sua simples função. Queria ser investigador.

 

Francine passou por ele vestida por seu personagem, apenas um tremor na mão, que segurava a bolsa, mostrou sua insegurança.


Ele sentiu o sabor desse caso com um sorriso de satisfação.


O advogado veio até ele.


— Temos um caso para resolver.  Como você adora investigações, vou contar com sua ajuda.


Os olhos do datilógrafo se iluminaram.


— Pode contar comigo, Doutor.


Durante os dias seguintes, os dois vasculharam a vida da suspeita, da família e de pessoas relacionadas com o milionário.


Francine era de uma família de classe média.  Trabalhava como gerente de um dos bancos, em que Rogério Dantas tinha conta.  Lá se conheceram.  Era considerada eficiente e séria.

 

Investigando a família de Rogério, a história foi se delineando, palavra por palavra, letra por letra e uma cortina de fumaça foi se desfazendo diante deles.


Ao fundo, foi aparecendo uma figura inesperada.  Foi surgindo uma mulher de fala mansa, discreta, com atitudes equilibrada, religiosa, amável, mas que guardava dentro de si um orgulho profundo, que se acentuara com a separação do marido e que se transformara em um ódio silencioso ao saber que ele se casara com a bela e jovem Francine. 


Ao tomar conhecimento do teor do testamento, a fúria a tomou por inteiro e a cegou. Discreta e serena, a mulher que vivia em uma bolha dourada, flutuando nas alturas, desceu para o lamaçal da vingança.


Ofereceu uma grande quantia a um dos empregados, que sabia estar precisando de dinheiro para custear a doença da esposa e pediu-lhe para encontrar alguém capaz de ajudá-la em uma questão particular.  Sabia que ele morava em uma grande favela e acharia a pessoa certa.  O homem deveria ser destemido e confiável.


Muraro e o datilógrafo foram desenrolando esse complicado novelo e a cada passo mais surpreendidos ficavam. A notícia caiu como um raio na cidade, quando a mulher que era conhecida pelo seus modos elegantes e benevolentes revelou-se uma assassina.  A família viu-se sacudida por um terremoto de emoções desencontradas. A mãe enlouquecera sem que percebessem.  O luto abateu-se sobre eles pelo pai morto mais profundamente pela mãe, que desconheciam.


A porta do escritório do Dr. Muraro abriu-se para uma mulher diferente, leve em seus passos e tranquila em suas feições.


O advogado a recebeu com um sorriso  caloroso. O datilógrafo levantou-se e os três uniram suas mãos.  A gratidão estampada no rosto  e a emoção derramando-se em gotas pelo rosto de Francine. 

 

 

Amizade x Traição - HIRTIS LAZARIN

 



Amizade x Traição

HIRTIS LAZARIN

 

Eu sou o último sobrevivente de uma caixa com doze garrafas. Produto de excelentíssima qualidade, impecável na cor, aroma e paladar. Somos compartilhados com pessoas de alto nível na sociedade. Gente poderosa e exigente.

 

A família me ofereceu num jantar servido numa mesa clássica e versátil, onde brilhavam castiçais de prata, rodeados de arranjo com lírios e alecrim.

 

A comida estava tão boa quanto deveria estar, mas nem tudo aconteceu como deveria acontecer. Então, vamos lá…

 

Todos se foram. Só sobrou ele. Debruçado sobre a mesa, parece dormir. Da sua boca escorre um fiapo de baba avermelhada, misturada a palavras desconexas.

 

Você sabia que o vinho fala e tem língua solta? Observe o bêbado do buteco, o convidado indesejado, o santo bobo da corte.

 

O vinho é um ventríloquo e tem um milhão de vozes. Solta a língua, arrancando segredos que você nem nunca quis contar, segredos que você nem sequer sabia.

 

O vinho grita, vocifera, sussurra e muitas vezes chora. Fala de grandes planos, amores perdidos, terríveis traições. Ele gargalha aos berros. Ele dá risadinhas para si mesmo.

 

“Cuidado comigo! Eu posso ser  amigo ou traiçoeiro”.

 

Parafraseando “O Pensador”:

                  A primeira taça de vinho é por desejo…

                   A segunda, porque o vinho é do Alentejo…

                A terceira, por simples e puro prazer…

                 A quarta, porque não tinha mais nada a fazer…

 A quinta… como é que eu vou saber!!!

 

 

INFÂNCIA - PEDRO HENRIQUE

 




Infância

Pedro Henrique

 

     Ouvi do mar a canção, delineada pelas mãos do destino, que consagrava o corpo da jovem ao fardo de velejar pelos mares da solidão. 

     De seus olhos verte o sangue que encharca o manto branco com o qual se protege dos homens, da vida, do silêncio…
      Procura, cava, vasculha na lama a possibilidade de sair pelas vielas do extraordinário para analisar se lá há de encontrar algum sentido para seu pobre corpo.
     Tudo aqui me é um tanto estranho, todavia real, e o real me assusta.
Vi-a quando comprava cigarros no bar e seu olhar, longínquo, humano e odioso, emanou um perfume de berros e gemidos das entranhas do indizível, portanto me intriguei em mapear o que de inquietante havia ali.
     Olhando com mais afinco, pude notar que se tratava de família. Sei como relacionamentos permeados de arames farpados podem dissolver a alma no copo da amargura, então, sim, legitimei minha tese e fui buscar as respostas, com isso voltei em uma parte crucial de sua vida: infância.
     Ao averiguar, vi uma cena que provocava-me ao extremo:

     Uma criança, com asas prontas para o voo no céu dos devaneios, dando banho em uma senhora. 

     Começou derramando água em seus cabelos grisalhos, em seguida sobre o seio tímido e indo ao pé. Vi que do olhar da pequena lágrimas indeléveis caíam, batizando seu próprio ser à coragem de defrontar-se com a vida e dizer: aqui estou, eu aguento.
     Esta cena me fez procurar pelo seu começo, que encontrei no abandono da pequena pela própria mãe. E assim sendo, foi jogada nos braços da avó paterna que teve de cuidar dela.

     Vasculhei mais um pouco aquela casa e encontrei um homem alto e com a aparência de cães sarnentos e veiacos, sim, o pai da menina. Porém, não era o suficiente, tive que ir mais a fundo.

     Encontrei a certidão de nascimento dela com o registro apenas do nome dele, então soube: a mãe fugira para sempre.
     Tinha desejos, sonhos, ambições e tudo isso tinha um preço imposto pelos bancos do destino e o amor materno não foi forte o suficiente para prender aquela que tinha em si as elevadas metrópoles, as festas e as passarelas da grande São Paulo.
     A avó pegou para cuidar a pedido do pai que trabalhava como camioneiro e nunca parava em casa, mas não importava, bastava a escola particular estar paga, o balé e o inglês em dia e pronto, era o melhor pai do mundo. Não importa a atenção, o sentimento, o beijo antes de dormir, os parabéns no aniversário.
     Porém, quem pode julgar um pobre ser que fez de seus trapos, roupas e tenta, mesmo sem saber como, ser pai?
     A avó, então, teve que olhar para o rosto daquela que delatava na arquitetura da face ser filha da mulher que destruiu a vida de seu primogênito.
     Ah, mas isso não ficaria por isso mesmo, não poderia pegar a mãe, entretanto a filha? Essa podia tudo. Beliscões, tapas, serviço pesado e noites trancada no quarto e devia agradecer: “Se não fosse eu, você estaria em um orfanato.”
     Com isso, erguia seu manto de dor, secava as lágrimas de angústia e se perguntava por quê?
     Mas quem tem essa resposta, não é mesmo?
     Tinha uma amiga: Ana Paula. Era lá que ia quando não aguentava segurar o fardo de ser a eleita pela violência e desamor.
     Ana tinha uma coleção de bonecas que dava à nossa pequena a chance de descortinar o que seria a felicidade.
     Aqueles vestidos ínfimos, aqueles cabelos loiros e as imitações e onomatopeias mostravam a ela que sim, infância podia ser uma palavra presente em seu vocabulário.
     Com o passar dos anos, o corpo foi ganhando forma e revelando mais ainda sua origem, o que fazia a avó se enterrar nas plantações do ódio que nutria desde o dia em que seu filho revelara que seria pai da filha da mulher que ela desaprovava como nora, portanto podia intensificar a violência. 

     Não precisava mais do cinto nem do chinelo, tinha direito a vassoura ou ao bico de boi que comprara para mostrar que podia, sim, dissolver sua raiva com as chibatadas e sentar-se na mesa farta da vingança.
     No entanto, desconhecia que o coração do homem tem suas idiossincrasias e que sob pressão, não existe submissão nem civilização, só nos entregamos à nossa forma primitiva e dela forjamos nosso louvor à sobrevivência.
     Isto posto, temos o fato que engendra a abertura deste texto. Falo do bico de boi ser utilizado como objeto de medo pela avó e tal fato homologado pelas feridas nas costas da neta que a cada chibatada domava dentro de si o animal que clamava para ser desenjaulado e ao ter seu anseio aparecido e aprovado voou para abater seu algoz, mas nem teve chance, esta se apavorou e transigiu o corpo para trás de tal forma que quando se deu por si, estava no final dos degraus da escada da casa com uma poça de sangue ao seu redor.
     E como um coração ferido não esquece dos espinhos, a neta permaneceu imóvel e, se não fosse o pai chegar naquele exato momento, a avó estaria jazendo embaixo da terra, contudo viveu para contrariar todos os que desejavam vê-la gritando no lugar onde todas as almas ruins gritam. 

    Ah, mas a vida é sábia e o que se faz aqui, se paga aqui. Viveu? Sim, entretanto, não falava nem gesticulava. Tetraplegia, disse o médico.

     E assim sendo, o carro do pão passou no dia seguinte, os automóveis continuaram a buzinar, o pai, o caminhão, pois para andar e a vida com todo seu labor, teve de se movimentar. Ela? A pequena? Coitada, teve que da avó cuidar. 

     Dar banho, trocar fraldas, fazer a comida, lavar as roupas, etc., etc., etc. 

     Um dia, enquanto arrumava o quarto, encontrou o bico de boi e sentiu em seu peito um sentimento já um tanto familiar se aproximar. Olhou para o chicote e para a avó sentada na cadeira de rodas defronte à janela do quarto e resolveu experimentar. 

 

 

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Depois vem a calmaria… - Hirtis Lazarin

 





Depois vem a calmaria…           

Hirtis Lazarin                         

 

São Pedro da Aldeia é o mais simpático vilarejo que já conheci. Algumas ruas e uma pracinha. Ali, ao amanhecer, passarinhos chegam em bando numa cantoria que harmoniza sons cristalinos e estridentes. Pra que relógio se todos já sabem que é chegada a hora do dia começar?

A rua principal sombreada por ipês amarelos vai até onde começa o mar. O quintal imenso da última casa beija a areia umedecida pelas ondas que, em ritmo do vai-e-vem, carrega consigo as mangas maduras e bicadas espalhadas pelo chão. E da varanda, pode-se ver o horizonte alaranjado deitar-se no chão. O dia termina exalando cheiro de ouro derretido, enquanto as luzes dos postes de madeira clareiam a noite que chega. Devagarinho aparece a lua misteriosa com seus feitiços.

É também a hora em que os gatos procuram uma parceira e se arrastam pelos telhados com gritos de uma agonia feliz. Os grilos, moradores eternos do jardim, se levantam do chão molhado, espalhando o perfume de terra.

E a capelinha “São Pedro da Aldeia”? Pintura sempre renovada na cor do céu azul. Simples e singela, reflete a humildade e a fé dos moradores. Foi construída com pedras retiradas das águas e com madeira aproveitada de embarcações antigas. O ladrilho desenhado com peixinhos coloridos encanta as crianças.

Uma pequena sala guarda réplicas de barcos e redes, velas e imagens de santos em agradecimento aos milagres alcançados. Espaço que demonstra a esperança nas orações e a fé em Deus e na natureza. 

Mas a vida dos moradores não é tão poética quanto a natureza nos leva a crer. São homens pescadores que, diariamente, entregam o destino às incertezas do mar, ora calmo, ora com força implacável.

Alfredo fala com orgulho de nascer numa família de pescadores. Aprendeu com o pai que aprendeu com o avô. Recorda todos os sacrifícios e apuros que já enfrentou. Até teve oportunidade de mudar, mas não se via fazendo outra coisa.”Eu sempre pesquei, não tem jeito.”

Os barcos carregando redes, cordas, remos e outros acessórios são vistos ancorados na água, próximos da areia. Impregnados com o cheiro salgado do mar, do peixe e das algas, balançam suavemente com o movimento da maré. E a tinta sempre fresca escreve, no casco, em letras graúdas, o nome que cada pescador escolheu pra sua embarcação.

Já faz mais de um ano. Era madrugada de um dia de intenso calor. Repentinamente, os galhos das árvores se agitam. Portas e janelas batem desesperadas. As roupas do varal se desprendem e nunca mais são encontradas. O vento uivante empurra tudo com força incontrolável. É assustador, um assobio agudo nunca ouvido antes. Uma sequência de trovões. Um raio destrói ipês da rua principal.

O mar torna-se uma massa de água revolta e instável. Ondas gigantescas se erguem, chocam-se com violência e quebram-se em cristais espumantes. O nível da água sobe.

Os barcos, como folhas ao vento, são sacudidos violentamente e virados de um lado para outro, pra cima e pra baixo. Os acessórios embarcam nas ondas e desaparecem.

A chuva impiedosa cai. 

Os moradores se trancam em casa. Nada se pode fazer a não ser esperar e ver o que sobrou lá fora. Outros temporais já aconteceram, não dessa magnitude. As crianças choram e se escondem debaixo da mesa. As mães tentam acalmá-las com chá de camomila e outras ervas disponíveis. Nada se podia fazer. Era esperar a tempestade ir embora ver o que sobrou lá fora. Outros temporais já aconteceram, não dessa magnitude.

Os mais fervorosos acendem velas aos santos, outros agarram o terço e, ajoelhados, imploram uma graça a Nossa Senhora. São Pedro, com as chaves do céu, é louvado em voz alta. A fé e as orações transformam o pesadelo em esperança, esperança de que tudo vai ficar bem.

Já amanhecia quando o vento perdeu sua força e a chuva ficou miudinha. Os                  moradores, aos pouquinhos, foram deixando suas casas. 

O vilarejo estava rebuliçado. Áreas alagadas, árvores caídas na rua, calçadas esburacadas, algumas casas destelhadas. “Ninguém ferido, graças a Deus” — gritou o padre Leôncio, convidando a todos para uma oração.

Conferir o estrago e calcular o prejuízo ficava pra depois.


 

UMA NOVA TERRA, UMA NOVA VIDA! - Dinah Ribeiro de Amorim

 



UMA NOVA TERRA, UMA NOVA VIDA!

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Fui passear de manhã na praia. Um lindo dia de sol! Vários navios aportados descansam e se balançam, levemente, em ondas suaves.

Enquanto os observo, percebo que um deles acabou de chegar. Ainda despacha bagagens e vários tripulantes descem. Estrangeiros, imigrantes, na sua maioria.

Um casal um pouco diferente chama a minha atenção. Pele morena, vestimentas compridas, a mulher de cabeça coberta, devem ser remanescentes de guerras, penso logo. Árabes, com certeza, iranianos ou persas.

Lembro logo os resultados finais dos últimos noticiários.

Brasil, meu país, com tantos problemas, tantas preocupações, mas de coração grande, solidário, aberto a receber qualquer nacionalidade.

Quantas raças diferentes temos! Muita gente estrangeira fez parte da nossa civilização. E contribuíram muito para a nossa formação.

O casal continua desembarcando, descendo vagarosamente, medrosamente, as escadas do navio ancorado.

Percebo, na mulher, uma calma, uma paciência solidária, o conformismo e a sabedoria feminina que resplandece no rosto envelhecido.

O homem, seu companheiro, marido talvez, desce rápido, empurrando-a levemente, aflito, com sinais de um nervosismo evidente.

Procuram os dois, com olhares curiosos, alguém ou algum sinal de conterrâneos, à espera.

Ainda os observo e vou me afastando, sabendo que isso, esse transporte de pessoas de longe, não é mais novidade para nós. Simplesmente desejo que se adaptem e melhorem as condições de suas vidas.

Lembro-me, saudosa, dos meus familiares, tios queridos do lado materno, e das tias com quem se casaram, na maioria de famílias árabes, há muito tempo estabelecidas no Brasil.

Mamãe teve muitos irmãos e irmãs, família numerosa mesmo, descendente longínqua dos primeiros portugueses. Seus irmãos, meus tios, casaram-se com mulheres árabes, tias queridas, amigas, as minhas prediletas, de grande influência na minha infância e adolescência.

Atualmente, todos falecidos, guardo gostosas recordações.

Saudades da delicadeza, educação, fidelidade e amor ao marido e à nova família que receberam.

Gostavam também muito de mim. Não sei bem o porquê, talvez a neta mais velha, talvez, dos meus avós. Respeitavam muito a família.

Hoje, dia de finados, dia dois de novembro, o único do ano para recordar os familiares que já se foram, por coincidência, estou lembrando e pensando nas tias. Saudosa de todas elas. Nossas conversas, aprendizagens de comidas, passeios feitos, amava os comentários e preocupações comigo.

Família faz falta, sentimos isso quando diminuem, vamos envelhecendo e também a perdendo, em grande parte. Resta-nos uma boa lembrança.

Quem sabe ainda nos encontramos? Costumo sonhar às vezes com elas. Um novo nascimento na família é muito comum, eu sei. Afinidades que tiveram comigo, eu acho.

Saudades dos meus falecidos, hoje, ou a chegada dos novos moradores ao Brasil, sei lá! Mamãe, papai e meu pequeno irmão, quase um primeiro filho, sinto todos os dias!

Espalho retratos de comemorações pela casa toda. Era bom quando batíamos fotos e mandávamos revelar os filmes. Fotos pelo celular são práticas, mas ficam guardadas nos documentos, não mais se revelam, como antigamente.

Ah! Idade! Já estou preferindo o passado!

Uma noite mágica no Allianz Park - Alberto Landi

 



Uma noite mágica no Allianz Park

Alberto Landi

 

A cidade parecia respirar com o estádio. As luzes verdes tremulavam no céu de São Paulo como auroras tropicais. No estádio, cada coração batia no mesmo compasso, o da esperança.

O placar era cruel: três a zero contra. O passado recente pesava nos ombros da equipe e nas gargantas engasgadas da torcida.

Parecia impossível. Mas é justamente no impossível que o futebol encontra sua poesia.

Alan, o primeiro herói da noite, carregava no olhar o fogo de quem recusa o destino.

Quando a bola beijou a rede pela primeira vez, o grito do estádio não foi apenas de gol, mas de renascimento.

Veiga veio depois, herói dos 25 minutos jogados, sereno como quem sabe a dimensão da própria fé. Cada toque seu parecia conversar com o tempo. E, quando marcou, o Allianz explodiu: as arquibancadas se transformaram em ondas, os cânticos em tempestade.

De repente, o impossível já não morava mais ali. O placar agora igualado parecia pedir mais um sopro, mais um milagre.

E veio. No último lance, o grito contido atravessou o campo, ruas e a cidade, libertando o que há de mais humano no futebol: a emoção de acreditar até o fim.

Naquela noite, não foi apenas um estádio, foi altar, palco e coração pulsante de uma fé verde que se recusou a morrer.

Há noites que não se explicam, apenas se vivem e se lembram para sempre.

Quando o apito final ecoou, não era apenas o jogo que terminava, era uma história que ficava gravada na alma.

Noventa minutos no Allianz foi muito!

 


Princesa Isabel - Alberto Landi

 




Princesa Isabel

Alberto Landi

 

O Palácio de São Cristóvão estava estranhamente silencioso naquela manhã de novembro, num silêncio pesado que contrastava com o burburinho febril vindo das ruas do Rio de Janeiro.

A princesa, com seus olhos azuis geralmente firmes, observava a névoa cinzenta que cobria o jardim.

Ela não precisava de jornais para saber o que estava acontecendo, o ar estava carregado de traição.

Ela não era uma rainha, mas carregava o peso de uma coroa que nunca usaria plenamente. Seu legado, a abolição, o ato de libertação que selou o destino da Monarquia, agora era a bandeira usada contra o seu próprio trono.

Seu marido, o Conde d’Eu, entrou na sala, o rosto pálido, dizendo:

— Isabel, o Imperador assinou. Não haverá resistência, eles estão nos forçando ao exílio.

Isabel assentiu lentamente, sem surpresa, apenas com uma tristeza profunda.

Caminhou até a janela e lá fora o rumor da multidão mudava de tom: do protesto para a celebração ruidosa.

A República havia chegado, não como um grito de união, mas com um sussurro de conspiração militar.

Eles não entenderam, Gastón, ela disse com a voz baixa, mas clara. Eles pensaram que o trono era a coroa, o cetro, mas o trono era a responsabilidade, era assinar a lei Áurea, sabendo que isso custaria tudo, era olhar para o futuro mesmo que ele nos rejeitasse. 

— Nós não caímos por fraqueza, mas por sermos excessivamente rígidos em nossos princípios. A nação que libertamos não soube nos proteger.

Ao embarcar no navio que os levaria para longe, sob o olhar frio de canhões republicanos, Isabel não chorou. Olhou para a costa brasileira que se afastava. O golpe havia sido rápido, cirúrgico, mas sabia que a verdadeira marca de seu reinado não estaria nos decretos derrubados, mas na liberdade conquistada.

Enquanto o navio ganhava o mar aberto, ela apertava um relicário, buscando conforto e proteção no objeto. Era a herdeira que nunca reinou. Nele residia a figura de uma era imperial que se recusava a morrer nos corações dos fiéis, um símbolo de poder deposto, mas de honra e dever ainda vivos.

O exílio era a prova final de sua renúncia, não a dignidade.

A República tinha o poder, mas Isabel levava a memória do que foi justo.

 

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

O Tempo que nos Resta - Hirtis Lazarin

 

O Tempo que nos Resta

Hirtis Lazarin

 

Joaquim não se levantou para o café da manhã como fazia religiosamente todos os dias, às seis horas da manhã. 

— Pai, não precisa levantar tão cedo! Repetia a filha, Benê, com paciência nenhuma. Ela não entendia que esse hábito foi incorporado àquele corpo durante trinta anos de trabalho e repetido todos os dias. Ainda bem que a surdez de Seu Joaquim não o deixava ouvir com clareza todas as reclamações. 

A tarde era de verão e o sol, de tão intenso, amoleceu o asfalto da rua. Maria faxinava a casa e o idoso, pra não atrapalhar a movimentação lá dentro, foi levado ao jardim numa cadeira de braços desprovida de qualquer vestígio de conforto — uma capa de plástico cobria a palhinha dura e áspera — e, apesar da alta temperatura, uma manta xadrez cobria-lhe o joelho. A cabeça caída no peito e um fio de baba escorria da boca. 

Ali isolado, só lhe restava o lirismo e a poesia da natureza: o perfume do jasmim, as flores amarelas da giesta e as folhinhas do chorão faiscando — verde, verde! Ainda bem que a sensibilidade e o gosto pelo belo e colorido permaneciam imutáveis.

Vontade de viver? Não, não lhe sobrou nada. A esposa, companheira maravilhosa, já se fora após anos de sofrimento. Berê, a única filha, sempre sem paciência e irritada, dirigia poucas palavras ao pai. O neto, um adolescente chato que só sabia reclamar do suco que estava muito doce; peixe, ele não gostava; tênis novo, roupa nova… Não raramente, passava a semana inteira sem ver o avô. 

Ler um livro, assistir a um filme, nem pensar. Após o derrame, os olhos vermelhos e embaçados deformaram as letras, as imagens…

A dor da solidão é imensurável. É maior que morder a língua, bater a cabeça na quina da mesa, pedra no rim. Ela chega impiedosa quando nos conscientizamos de que os pedaços bons da vida foram ficando pelo caminho. Aparecem em flashes, migalhas de satisfação passageira. A mesa cheia de gente e comida boa,  aniversários com estouro de bexigas coloridas e muitos parabéns, o choro da menina inconformada com o presente que não queria, o pneu furado e as horas perdidas na estrada compensadas pelo banho de mar.

Sentir o perfume da esposa era, para Seu Joaquim, um abraço apertado de muito amor, conforto e prazer.  

Raramente, ele se olhava no espelho. Não se conformava com o estrago que o tempo lhe causou. Outrora, um homem ousado e cativante. Sempre elegante nos ternos de cores sóbrias e corte impecável. A coleção de gravatas era de causar inveja.  A cabeleira vasta e esvoaçante virou meia dúzia de fios brancos. E o mais deprimente era aquela caspa na sobrancelha grossa e desgrenhada que o fazia sentir-se uma barata leprosa.

Na sombra das folhas, ele adormece…

De repente, acorda com gritos: 

— Eu recolho a roupa e você, Maria,  fecha as janelas. Já prendeu o Thor, Ricardinho? 

Rebenta com fúria um temporal. Foi rápido, mas intenso, com ventos e sequência de trovões.

Aos trancos, Joaquim ergue o rosto, a chuva escorre na boca torta e o olho vermelho revira em agonia. É uma coisa esquecida na confusão de recolher a roupa e fechar as janelas.

Joaquim vale menos que as roupas, menos que o cachorro? 

O quarto do Seu Joaquim está vazio. 

Um caminhão estacionado à frente da casa transporta mobílias para doação.

 

 

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...