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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Amizade x Traição - HIRTIS LAZARIN

 



Amizade x Traição

HIRTIS LAZARIN

 

Eu sou o último sobrevivente de uma caixa com doze garrafas. Produto de excelentíssima qualidade, impecável na cor, aroma e paladar. Somos compartilhados com pessoas de alto nível na sociedade. Gente poderosa e exigente.

 

A família me ofereceu num jantar servido numa mesa clássica e versátil, onde brilhavam castiçais de prata, rodeados de arranjo com lírios e alecrim.

 

A comida estava tão boa quanto deveria estar, mas nem tudo aconteceu como deveria acontecer. Então, vamos lá…

 

Todos se foram. Só sobrou ele. Debruçado sobre a mesa, parece dormir. Da sua boca escorre um fiapo de baba avermelhada, misturada a palavras desconexas.

 

Você sabia que o vinho fala e tem língua solta? Observe o bêbado do buteco, o convidado indesejado, o santo bobo da corte.

 

O vinho é um ventríloquo e tem um milhão de vozes. Solta a língua, arrancando segredos que você nem nunca quis contar, segredos que você nem sequer sabia.

 

O vinho grita, vocifera, sussurra e muitas vezes chora. Fala de grandes planos, amores perdidos, terríveis traições. Ele gargalha aos berros. Ele dá risadinhas para si mesmo.

 

“Cuidado comigo! Eu posso ser  amigo ou traiçoeiro”.

 

Parafraseando “O Pensador”:

                  A primeira taça de vinho é por desejo…

                   A segunda, porque o vinho é do Alentejo…

                A terceira, por simples e puro prazer…

                 A quarta, porque não tinha mais nada a fazer…

 A quinta… como é que eu vou saber!!!

 

 

INFÂNCIA - PEDRO HENRIQUE

 




Infância

Pedro Henrique

 

     Ouvi do mar a canção, delineada pelas mãos do destino, que consagrava o corpo da jovem ao fardo de velejar pelos mares da solidão. 

     De seus olhos verte o sangue que encharca o manto branco com o qual se protege dos homens, da vida, do silêncio…
      Procura, cava, vasculha na lama a possibilidade de sair pelas vielas do extraordinário para analisar se lá há de encontrar algum sentido para seu pobre corpo.
     Tudo aqui me é um tanto estranho, todavia real, e o real me assusta.
Vi-a quando comprava cigarros no bar e seu olhar, longínquo, humano e odioso, emanou um perfume de berros e gemidos das entranhas do indizível, portanto me intriguei em mapear o que de inquietante havia ali.
     Olhando com mais afinco, pude notar que se tratava de família. Sei como relacionamentos permeados de arames farpados podem dissolver a alma no copo da amargura, então, sim, legitimei minha tese e fui buscar as respostas, com isso voltei em uma parte crucial de sua vida: infância.
     Ao averiguar, vi uma cena que provocava-me ao extremo:

     Uma criança, com asas prontas para o voo no céu dos devaneios, dando banho em uma senhora. 

     Começou derramando água em seus cabelos grisalhos, em seguida sobre o seio tímido e indo ao pé. Vi que do olhar da pequena lágrimas indeléveis caíam, batizando seu próprio ser à coragem de defrontar-se com a vida e dizer: aqui estou, eu aguento.
     Esta cena me fez procurar pelo seu começo, que encontrei no abandono da pequena pela própria mãe. E assim sendo, foi jogada nos braços da avó paterna que teve de cuidar dela.

     Vasculhei mais um pouco aquela casa e encontrei um homem alto e com a aparência de cães sarnentos e veiacos, sim, o pai da menina. Porém, não era o suficiente, tive que ir mais a fundo.

     Encontrei a certidão de nascimento dela com o registro apenas do nome dele, então soube: a mãe fugira para sempre.
     Tinha desejos, sonhos, ambições e tudo isso tinha um preço imposto pelos bancos do destino e o amor materno não foi forte o suficiente para prender aquela que tinha em si as elevadas metrópoles, as festas e as passarelas da grande São Paulo.
     A avó pegou para cuidar a pedido do pai que trabalhava como camioneiro e nunca parava em casa, mas não importava, bastava a escola particular estar paga, o balé e o inglês em dia e pronto, era o melhor pai do mundo. Não importa a atenção, o sentimento, o beijo antes de dormir, os parabéns no aniversário.
     Porém, quem pode julgar um pobre ser que fez de seus trapos, roupas e tenta, mesmo sem saber como, ser pai?
     A avó, então, teve que olhar para o rosto daquela que delatava na arquitetura da face ser filha da mulher que destruiu a vida de seu primogênito.
     Ah, mas isso não ficaria por isso mesmo, não poderia pegar a mãe, entretanto a filha? Essa podia tudo. Beliscões, tapas, serviço pesado e noites trancada no quarto e devia agradecer: “Se não fosse eu, você estaria em um orfanato.”
     Com isso, erguia seu manto de dor, secava as lágrimas de angústia e se perguntava por quê?
     Mas quem tem essa resposta, não é mesmo?
     Tinha uma amiga: Ana Paula. Era lá que ia quando não aguentava segurar o fardo de ser a eleita pela violência e desamor.
     Ana tinha uma coleção de bonecas que dava à nossa pequena a chance de descortinar o que seria a felicidade.
     Aqueles vestidos ínfimos, aqueles cabelos loiros e as imitações e onomatopeias mostravam a ela que sim, infância podia ser uma palavra presente em seu vocabulário.
     Com o passar dos anos, o corpo foi ganhando forma e revelando mais ainda sua origem, o que fazia a avó se enterrar nas plantações do ódio que nutria desde o dia em que seu filho revelara que seria pai da filha da mulher que ela desaprovava como nora, portanto podia intensificar a violência. 

     Não precisava mais do cinto nem do chinelo, tinha direito a vassoura ou ao bico de boi que comprara para mostrar que podia, sim, dissolver sua raiva com as chibatadas e sentar-se na mesa farta da vingança.
     No entanto, desconhecia que o coração do homem tem suas idiossincrasias e que sob pressão, não existe submissão nem civilização, só nos entregamos à nossa forma primitiva e dela forjamos nosso louvor à sobrevivência.
     Isto posto, temos o fato que engendra a abertura deste texto. Falo do bico de boi ser utilizado como objeto de medo pela avó e tal fato homologado pelas feridas nas costas da neta que a cada chibatada domava dentro de si o animal que clamava para ser desenjaulado e ao ter seu anseio aparecido e aprovado voou para abater seu algoz, mas nem teve chance, esta se apavorou e transigiu o corpo para trás de tal forma que quando se deu por si, estava no final dos degraus da escada da casa com uma poça de sangue ao seu redor.
     E como um coração ferido não esquece dos espinhos, a neta permaneceu imóvel e, se não fosse o pai chegar naquele exato momento, a avó estaria jazendo embaixo da terra, contudo viveu para contrariar todos os que desejavam vê-la gritando no lugar onde todas as almas ruins gritam. 

    Ah, mas a vida é sábia e o que se faz aqui, se paga aqui. Viveu? Sim, entretanto, não falava nem gesticulava. Tetraplegia, disse o médico.

     E assim sendo, o carro do pão passou no dia seguinte, os automóveis continuaram a buzinar, o pai, o caminhão, pois para andar e a vida com todo seu labor, teve de se movimentar. Ela? A pequena? Coitada, teve que da avó cuidar. 

     Dar banho, trocar fraldas, fazer a comida, lavar as roupas, etc., etc., etc. 

     Um dia, enquanto arrumava o quarto, encontrou o bico de boi e sentiu em seu peito um sentimento já um tanto familiar se aproximar. Olhou para o chicote e para a avó sentada na cadeira de rodas defronte à janela do quarto e resolveu experimentar. 

 

 

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Depois vem a calmaria… - Hirtis Lazarin

 





Depois vem a calmaria…           

Hirtis Lazarin                         

 

São Pedro da Aldeia é o mais simpático vilarejo que já conheci. Algumas ruas e uma pracinha. Ali, ao amanhecer, passarinhos chegam em bando numa cantoria que harmoniza sons cristalinos e estridentes. Pra que relógio se todos já sabem que é chegada a hora do dia começar?

A rua principal sombreada por ipês amarelos vai até onde começa o mar. O quintal imenso da última casa beija a areia umedecida pelas ondas que, em ritmo do vai-e-vem, carrega consigo as mangas maduras e bicadas espalhadas pelo chão. E da varanda, pode-se ver o horizonte alaranjado deitar-se no chão. O dia termina exalando cheiro de ouro derretido, enquanto as luzes dos postes de madeira clareiam a noite que chega. Devagarinho aparece a lua misteriosa com seus feitiços.

É também a hora em que os gatos procuram uma parceira e se arrastam pelos telhados com gritos de uma agonia feliz. Os grilos, moradores eternos do jardim, se levantam do chão molhado, espalhando o perfume de terra.

E a capelinha “São Pedro da Aldeia”? Pintura sempre renovada na cor do céu azul. Simples e singela, reflete a humildade e a fé dos moradores. Foi construída com pedras retiradas das águas e com madeira aproveitada de embarcações antigas. O ladrilho desenhado com peixinhos coloridos encanta as crianças.

Uma pequena sala guarda réplicas de barcos e redes, velas e imagens de santos em agradecimento aos milagres alcançados. Espaço que demonstra a esperança nas orações e a fé em Deus e na natureza. 

Mas a vida dos moradores não é tão poética quanto a natureza nos leva a crer. São homens pescadores que, diariamente, entregam o destino às incertezas do mar, ora calmo, ora com força implacável.

Alfredo fala com orgulho de nascer numa família de pescadores. Aprendeu com o pai que aprendeu com o avô. Recorda todos os sacrifícios e apuros que já enfrentou. Até teve oportunidade de mudar, mas não se via fazendo outra coisa.”Eu sempre pesquei, não tem jeito.”

Os barcos carregando redes, cordas, remos e outros acessórios são vistos ancorados na água, próximos da areia. Impregnados com o cheiro salgado do mar, do peixe e das algas, balançam suavemente com o movimento da maré. E a tinta sempre fresca escreve, no casco, em letras graúdas, o nome que cada pescador escolheu pra sua embarcação.

Já faz mais de um ano. Era madrugada de um dia de intenso calor. Repentinamente, os galhos das árvores se agitam. Portas e janelas batem desesperadas. As roupas do varal se desprendem e nunca mais são encontradas. O vento uivante empurra tudo com força incontrolável. É assustador, um assobio agudo nunca ouvido antes. Uma sequência de trovões. Um raio destrói ipês da rua principal.

O mar torna-se uma massa de água revolta e instável. Ondas gigantescas se erguem, chocam-se com violência e quebram-se em cristais espumantes. O nível da água sobe.

Os barcos, como folhas ao vento, são sacudidos violentamente e virados de um lado para outro, pra cima e pra baixo. Os acessórios embarcam nas ondas e desaparecem.

A chuva impiedosa cai. 

Os moradores se trancam em casa. Nada se pode fazer a não ser esperar e ver o que sobrou lá fora. Outros temporais já aconteceram, não dessa magnitude. As crianças choram e se escondem debaixo da mesa. As mães tentam acalmá-las com chá de camomila e outras ervas disponíveis. Nada se podia fazer. Era esperar a tempestade ir embora ver o que sobrou lá fora. Outros temporais já aconteceram, não dessa magnitude.

Os mais fervorosos acendem velas aos santos, outros agarram o terço e, ajoelhados, imploram uma graça a Nossa Senhora. São Pedro, com as chaves do céu, é louvado em voz alta. A fé e as orações transformam o pesadelo em esperança, esperança de que tudo vai ficar bem.

Já amanhecia quando o vento perdeu sua força e a chuva ficou miudinha. Os                  moradores, aos pouquinhos, foram deixando suas casas. 

O vilarejo estava rebuliçado. Áreas alagadas, árvores caídas na rua, calçadas esburacadas, algumas casas destelhadas. “Ninguém ferido, graças a Deus” — gritou o padre Leôncio, convidando a todos para uma oração.

Conferir o estrago e calcular o prejuízo ficava pra depois.


 

UMA NOVA TERRA, UMA NOVA VIDA! - Dinah Ribeiro de Amorim

 



UMA NOVA TERRA, UMA NOVA VIDA!

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Fui passear de manhã na praia. Um lindo dia de sol! Vários navios aportados descansam e se balançam, levemente, em ondas suaves.

Enquanto os observo, percebo que um deles acabou de chegar. Ainda despacha bagagens e vários tripulantes descem. Estrangeiros, imigrantes, na sua maioria.

Um casal um pouco diferente chama a minha atenção. Pele morena, vestimentas compridas, a mulher de cabeça coberta, devem ser remanescentes de guerras, penso logo. Árabes, com certeza, iranianos ou persas.

Lembro logo os resultados finais dos últimos noticiários.

Brasil, meu país, com tantos problemas, tantas preocupações, mas de coração grande, solidário, aberto a receber qualquer nacionalidade.

Quantas raças diferentes temos! Muita gente estrangeira fez parte da nossa civilização. E contribuíram muito para a nossa formação.

O casal continua desembarcando, descendo vagarosamente, medrosamente, as escadas do navio ancorado.

Percebo, na mulher, uma calma, uma paciência solidária, o conformismo e a sabedoria feminina que resplandece no rosto envelhecido.

O homem, seu companheiro, marido talvez, desce rápido, empurrando-a levemente, aflito, com sinais de um nervosismo evidente.

Procuram os dois, com olhares curiosos, alguém ou algum sinal de conterrâneos, à espera.

Ainda os observo e vou me afastando, sabendo que isso, esse transporte de pessoas de longe, não é mais novidade para nós. Simplesmente desejo que se adaptem e melhorem as condições de suas vidas.

Lembro-me, saudosa, dos meus familiares, tios queridos do lado materno, e das tias com quem se casaram, na maioria de famílias árabes, há muito tempo estabelecidas no Brasil.

Mamãe teve muitos irmãos e irmãs, família numerosa mesmo, descendente longínqua dos primeiros portugueses. Seus irmãos, meus tios, casaram-se com mulheres árabes, tias queridas, amigas, as minhas prediletas, de grande influência na minha infância e adolescência.

Atualmente, todos falecidos, guardo gostosas recordações.

Saudades da delicadeza, educação, fidelidade e amor ao marido e à nova família que receberam.

Gostavam também muito de mim. Não sei bem o porquê, talvez a neta mais velha, talvez, dos meus avós. Respeitavam muito a família.

Hoje, dia de finados, dia dois de novembro, o único do ano para recordar os familiares que já se foram, por coincidência, estou lembrando e pensando nas tias. Saudosa de todas elas. Nossas conversas, aprendizagens de comidas, passeios feitos, amava os comentários e preocupações comigo.

Família faz falta, sentimos isso quando diminuem, vamos envelhecendo e também a perdendo, em grande parte. Resta-nos uma boa lembrança.

Quem sabe ainda nos encontramos? Costumo sonhar às vezes com elas. Um novo nascimento na família é muito comum, eu sei. Afinidades que tiveram comigo, eu acho.

Saudades dos meus falecidos, hoje, ou a chegada dos novos moradores ao Brasil, sei lá! Mamãe, papai e meu pequeno irmão, quase um primeiro filho, sinto todos os dias!

Espalho retratos de comemorações pela casa toda. Era bom quando batíamos fotos e mandávamos revelar os filmes. Fotos pelo celular são práticas, mas ficam guardadas nos documentos, não mais se revelam, como antigamente.

Ah! Idade! Já estou preferindo o passado!

Uma noite mágica no Allianz Park - Alberto Landi

 



Uma noite mágica no Allianz Park

Alberto Landi

 

A cidade parecia respirar com o estádio. As luzes verdes tremulavam no céu de São Paulo como auroras tropicais. No estádio, cada coração batia no mesmo compasso, o da esperança.

O placar era cruel: três a zero contra. O passado recente pesava nos ombros da equipe e nas gargantas engasgadas da torcida.

Parecia impossível. Mas é justamente no impossível que o futebol encontra sua poesia.

Alan, o primeiro herói da noite, carregava no olhar o fogo de quem recusa o destino.

Quando a bola beijou a rede pela primeira vez, o grito do estádio não foi apenas de gol, mas de renascimento.

Veiga veio depois, herói dos 25 minutos jogados, sereno como quem sabe a dimensão da própria fé. Cada toque seu parecia conversar com o tempo. E, quando marcou, o Allianz explodiu: as arquibancadas se transformaram em ondas, os cânticos em tempestade.

De repente, o impossível já não morava mais ali. O placar agora igualado parecia pedir mais um sopro, mais um milagre.

E veio. No último lance, o grito contido atravessou o campo, ruas e a cidade, libertando o que há de mais humano no futebol: a emoção de acreditar até o fim.

Naquela noite, não foi apenas um estádio, foi altar, palco e coração pulsante de uma fé verde que se recusou a morrer.

Há noites que não se explicam, apenas se vivem e se lembram para sempre.

Quando o apito final ecoou, não era apenas o jogo que terminava, era uma história que ficava gravada na alma.

Noventa minutos no Allianz foi muito!

 


Princesa Isabel - Alberto Landi

 




Princesa Isabel

Alberto Landi

 

O Palácio de São Cristóvão estava estranhamente silencioso naquela manhã de novembro, num silêncio pesado que contrastava com o burburinho febril vindo das ruas do Rio de Janeiro.

A princesa, com seus olhos azuis geralmente firmes, observava a névoa cinzenta que cobria o jardim.

Ela não precisava de jornais para saber o que estava acontecendo, o ar estava carregado de traição.

Ela não era uma rainha, mas carregava o peso de uma coroa que nunca usaria plenamente. Seu legado, a abolição, o ato de libertação que selou o destino da Monarquia, agora era a bandeira usada contra o seu próprio trono.

Seu marido, o Conde d’Eu, entrou na sala, o rosto pálido, dizendo:

— Isabel, o Imperador assinou. Não haverá resistência, eles estão nos forçando ao exílio.

Isabel assentiu lentamente, sem surpresa, apenas com uma tristeza profunda.

Caminhou até a janela e lá fora o rumor da multidão mudava de tom: do protesto para a celebração ruidosa.

A República havia chegado, não como um grito de união, mas com um sussurro de conspiração militar.

Eles não entenderam, Gastón, ela disse com a voz baixa, mas clara. Eles pensaram que o trono era a coroa, o cetro, mas o trono era a responsabilidade, era assinar a lei Áurea, sabendo que isso custaria tudo, era olhar para o futuro mesmo que ele nos rejeitasse. 

— Nós não caímos por fraqueza, mas por sermos excessivamente rígidos em nossos princípios. A nação que libertamos não soube nos proteger.

Ao embarcar no navio que os levaria para longe, sob o olhar frio de canhões republicanos, Isabel não chorou. Olhou para a costa brasileira que se afastava. O golpe havia sido rápido, cirúrgico, mas sabia que a verdadeira marca de seu reinado não estaria nos decretos derrubados, mas na liberdade conquistada.

Enquanto o navio ganhava o mar aberto, ela apertava um relicário, buscando conforto e proteção no objeto. Era a herdeira que nunca reinou. Nele residia a figura de uma era imperial que se recusava a morrer nos corações dos fiéis, um símbolo de poder deposto, mas de honra e dever ainda vivos.

O exílio era a prova final de sua renúncia, não a dignidade.

A República tinha o poder, mas Isabel levava a memória do que foi justo.

 

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

O Tempo que nos Resta - Hirtis Lazarin

 

O Tempo que nos Resta

Hirtis Lazarin

 

Joaquim não se levantou para o café da manhã como fazia religiosamente todos os dias, às seis horas da manhã. 

— Pai, não precisa levantar tão cedo! Repetia a filha, Benê, com paciência nenhuma. Ela não entendia que esse hábito foi incorporado àquele corpo durante trinta anos de trabalho e repetido todos os dias. Ainda bem que a surdez de Seu Joaquim não o deixava ouvir com clareza todas as reclamações. 

A tarde era de verão e o sol, de tão intenso, amoleceu o asfalto da rua. Maria faxinava a casa e o idoso, pra não atrapalhar a movimentação lá dentro, foi levado ao jardim numa cadeira de braços desprovida de qualquer vestígio de conforto — uma capa de plástico cobria a palhinha dura e áspera — e, apesar da alta temperatura, uma manta xadrez cobria-lhe o joelho. A cabeça caída no peito e um fio de baba escorria da boca. 

Ali isolado, só lhe restava o lirismo e a poesia da natureza: o perfume do jasmim, as flores amarelas da giesta e as folhinhas do chorão faiscando — verde, verde! Ainda bem que a sensibilidade e o gosto pelo belo e colorido permaneciam imutáveis.

Vontade de viver? Não, não lhe sobrou nada. A esposa, companheira maravilhosa, já se fora após anos de sofrimento. Berê, a única filha, sempre sem paciência e irritada, dirigia poucas palavras ao pai. O neto, um adolescente chato que só sabia reclamar do suco que estava muito doce; peixe, ele não gostava; tênis novo, roupa nova… Não raramente, passava a semana inteira sem ver o avô. 

Ler um livro, assistir a um filme, nem pensar. Após o derrame, os olhos vermelhos e embaçados deformaram as letras, as imagens…

A dor da solidão é imensurável. É maior que morder a língua, bater a cabeça na quina da mesa, pedra no rim. Ela chega impiedosa quando nos conscientizamos de que os pedaços bons da vida foram ficando pelo caminho. Aparecem em flashes, migalhas de satisfação passageira. A mesa cheia de gente e comida boa,  aniversários com estouro de bexigas coloridas e muitos parabéns, o choro da menina inconformada com o presente que não queria, o pneu furado e as horas perdidas na estrada compensadas pelo banho de mar.

Sentir o perfume da esposa era, para Seu Joaquim, um abraço apertado de muito amor, conforto e prazer.  

Raramente, ele se olhava no espelho. Não se conformava com o estrago que o tempo lhe causou. Outrora, um homem ousado e cativante. Sempre elegante nos ternos de cores sóbrias e corte impecável. A coleção de gravatas era de causar inveja.  A cabeleira vasta e esvoaçante virou meia dúzia de fios brancos. E o mais deprimente era aquela caspa na sobrancelha grossa e desgrenhada que o fazia sentir-se uma barata leprosa.

Na sombra das folhas, ele adormece…

De repente, acorda com gritos: 

— Eu recolho a roupa e você, Maria,  fecha as janelas. Já prendeu o Thor, Ricardinho? 

Rebenta com fúria um temporal. Foi rápido, mas intenso, com ventos e sequência de trovões.

Aos trancos, Joaquim ergue o rosto, a chuva escorre na boca torta e o olho vermelho revira em agonia. É uma coisa esquecida na confusão de recolher a roupa e fechar as janelas.

Joaquim vale menos que as roupas, menos que o cachorro? 

O quarto do Seu Joaquim está vazio. 

Um caminhão estacionado à frente da casa transporta mobílias para doação.

 

 

A TRISTEZA IMPOSSÍVEL! - Dinah Ribeiro de Amorim

 

 


A TRISTEZA IMPOSSÍVEL!

Dinah Ribeiro de Amorim

 

 

Era um moço muito quieto, quase não se mexia nem falava. Era um ninguém no mundo. Na escola, pensavam até que fosse mudo, mas não era. Respondia somente às perguntas dos professores. Enfim, respondia somente o que era impossível não enviar uma resposta. Semelhante a um aparelho, quando ligado.

Em casa, também bastante quieto e comportado, somente falava o necessário com o avô, única família que possuía, após a morte dos pais em acidente de carro, quando pequeno.

Com a velhice, seu avô foi também impossibilitado de conviver em sociedade, dificultando mais a sua timidez ou tristeza, ou depressão, ou temperamento, sabe-se lá o que dificultava a sua normalidade, como jovem, sadio, aparentemente normal.

O único frequentador da casa, como pessoa mais íntima, era o Dr. Afonso, advogado particular das finanças e bens do avô. Sabia respeitar o ambiente e a natureza dos seus clientes, explicando as situações mais difíceis, calmamente, a Joel, o neto de temperamento estranho, que conheceu desde criança.

Falava-lhe somente o necessário, embora também estranhasse, às vezes, esse olhar entristecido, essa ausência completa de um pouco de vivacidade, normal à idade. Jovem, forte, bonito e rico, sim, de vida econômica muito atraente.

Joel, com um pouco mais de alegria, seria um grande partido, desejo de qualquer moça com ideias casadouras.

Com o passar do tempo, em idade já avançada, o avô de Joel falece, tendo Dr. Afonso que comparecer à casa inúmeras vezes para resolver assuntos de herança.

Era um verdadeiro sacrifício porque o rapaz não manifestava nada, nenhum sentimento. A mesma fisionomia apática e triste que o acompanhava sempre permanece nessas reuniões. Nem tristeza, nem dor pela morte do avô, nem a alegria em ficar mais rico e herdeiro dos bens para ele deixados. Que moço estranho, esse neto, pensa Dr. Afonso. “Cada vez que tenho que ir lá, saio pensativo, triste, algo estranho parece que me consome, passo o dia deprimido, reclamo até do meu trabalho!”

Joel, ao ficar sem o avô, caminha silenciosamente pela casa, observa retratos, descobre figuras que lembram seus pais, sua vida em pequeno, recorda-se, lentamente, de alguns momentos alegres que teve, como criança. Sabe que é diferente dos outros, percebe reações estranhas quando é obrigado a se dirigir a terceiros. Mas nunca deu muita importância a isso. É um deprimido ou um triste mesmo, em relação à vida. Nada o entusiasma, nada decide colocar em prática. Somente vive, come o necessário e dorme. Às vezes, alguma leitura ou caminhada, para manter a cabeça e o corpo em dia.

Se encontra algum vizinho pelo caminho, desvia rapidamente, no que é respeitado, não deseja amigos nem eles o querem conhecer.

É ajudado, em casa, por uma senhora gorda, Dona Berta, cuidadora do avô há muitos anos. Faz todo o serviço em silêncio, acostumada com o temperamento de Joel. Não costuma falar à toa nem puxar conversa.

Da. Berta, preocupa-se com ele, mas sabe que não adianta fazer nada, o rapaz deve ter traumas difíceis, desde a morte dos pais. Nem o avô conseguiu arrancar essa tristeza dele, levando-o a vários médicos. Joel não abria a boca.

Numa tarde, Dr. Afonso aparece para vê-lo e discutir um assunto sério. A venda de uma casa na praia, lugar aprazível, COCOA BEACH,  famosa por esportes náuticos, próxima ao Centro Espacial Kennedy, deixada pelo avô, que um casal queria comprar.

Joel recebe-o de má vontade, achando um grande esforço só ouvi-lo. Dr. Afonso traz até fotos lindas do local. Aconselha-o a vender, como um bom negócio, já que ninguém utiliza a residência. Bonita casa sujeita a se desfazer.

O rapaz fica de pensar no assunto e, aborrecido, despacha logo o advogado, assim que consegue. Sente-se cansado, incomodado com tanta invasão de privacidade.

Numa tarde, Dona Berta, o chama para mostrar umas fotos dele, em criança, na casa de praia. Quer auxiliá-lo a se decidir.

Não é que desperte nele alguma curiosidade! Demonstra um certo interesse e olha as fotos com ligeiro sorriso.

A figura dele pequeno, alguns amiguinhos por perto, seus pais e os avós ainda vivos, dá-lhe certa saudade. Espanta-se com isso. Nem sabe mais como é sentir… Dona Berta se entusiasma.

Para Joel, tanto faz o lugar, mas sente vontade de voltar a ver o mar. Será que será diferente? Sentirá algum sentimento novo? Estranho isso nele. Há muito não sabe o que é ter vontade…

Arruma algumas roupas, dirige o carro que lhe restou do avô, dirigir, para ele, um ato mecânico, prático, como andar ou comer, e vai em direção à praia, ao mar que nunca mais viu.

Em meio ao caminho, sente um cheiro diferente, meio de peixe, meio de maresia, fica um pouco enjoado, quer voltar.

O tempo ensolarado muda, aproxima-se um cheiro de terra molhada, uma cor escura nas nuvens, uns barulhos mais fortes que prenunciam a mudança no clima. Melhor continuar quieto em casa, voltar.

Para voltar, naquela hora, impossível, uma barreira feita na estrada impede os automóveis de retornarem. O jeito, arrependido, é seguir em frente.

Continua pela estrada e só para quando chega à casa à venda, a casa que ainda é sua.

Abre-a e a memória volta, aos poucos, reconhecendo objetos e ambientes. Lembra-se de alguns momentos de sua infância, embora se desgoste disso.

Repara pela janela que os vizinhos estão agitados. Pessoas saem pelas ruas às pressas, movimentam-se, parecem fechar rapidamente suas casas, temem alguma coisa.

Examina o mar azul e calmo, da mansidão da sua infância. Parece que já não está tão baixo e manso como era. Suas águas furiosas enviam ondas quase tão altas como as residências.

Um vizinho bate à sua porta e vem avisá-lo de que estão temendo forte tempestade, talvez até a vinda de um tornado. ”Péssimo dia para o senhor voltar!”, exclama.

Joel tremula um pouco as pernas com a visita, não pelo assunto, mas pela palavra com um estranho, o que o atemoriza. Detesta vozes alheias, aliás, não gosta de voz nenhuma.

Agradece o aviso e, quando vai fechar a porta, o vizinho anuncia que, se precisar, poderá ajudá-lo a se refugiar no porão de sua casa.

Joel pensa: “Não recorrerei a ele, nunca, nem que a casa caia em minha cabeça!”

Fecha tudo rápido, deita-se em sua cama, presta atenção nos sons. Aguarda a tão falada chuva forte! As ondas do mar transformam-se em rugidos fortes semelhantes a leões que cavalgam em fúria contra rochas endurecidas.

Ela chega logo. Os trovões e raios atormentam seus ouvidos. Um vento ligeiro e cantador soa alto, parecendo levar tudo que encontra.

As janelas abrem e algumas voam e só param quando encontram algo mais forte que elas ou alguma árvore alta e resistente.

Na verdade, Joel começa a sentir medo, há tempos que não sentia. É bem provável que acabe voando também. Talvez a cidade enviará seres humanos como foguetes espaciais, pensa, com ironia.

O medo o ataca de tal forma que ele se levanta rápido e corre para o porão da casa vizinha. A água do mar subiu e fez sumir a praia, chegando às casas.

Bem acolhido, reúne-se ao grupo de albergados da rua, que se abraçam e o recebem carinhosamente. Sente-se bem no meio deles, o que há tempos não sentia, junto aos outros.

Esse terrível temporal, como veio, foi. Levou horas e muita coisa com ele. Fez estragos.

Com calma, saíram os que restaram para examinar as sobras.

Muita coisa mudou. Muitos se entristeceram. Perderam quase tudo. Alguém se reencontrou… Mudou com essa chuva terrível! Difícil de explicar… Joel, menos assustado e muito falante, abraça os novos amigos e começa a auxiliar seus vizinhos da rua a recolher os objetos que poderiam ser aproveitados.

A simpatia e o acolhimento dos amigos, nessa hora difícil, o sentimento de medo e dor, transformam a vida do rapaz eternamente triste, de uma depressão incompreensível! Joel muda o seu temperamento, torna-se um homem justo e responsável, um auxiliar da comunidade, mudando-se para essa casa na Flórida e refazendo sua vida.

 Anos mais tarde, recebe a visita da antiga Dona Berta, que encontra um homem feliz, casado agora com Mary e pai do pequeno Robson.

Ainda treme um pouco com o barulho das ondas quando quebram na praia ou o barulho de um foguete lançado ao espaço, mas, o filho, ama ouvi-los!

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Duas taças de Vinho Vinho Tinto de Sangue” - Hirtis Lazarin

        


"Duas taças de Vinho

 

Vinho Tinto de Sangue”


Hirtis Lazarin

 

Igreja. Há quanto tempo não a frequento. Lá em casa, sempre sempre  IGREJA!  Missa, catecismo. Padre, roupa preta. Diamante Negro, preto DELÍCIA! Comer chocolate só no sábado no cinema. Comer hóstia pode? Pecado. Nem encostar no dente. Leite quente faz bem pra gente. Ah! Meu terço perdi. “Menina desastrada, só não perde a cabeça porque está grudada no pescoço”. Doce-de-leite grudado na panela. DELICIOSO! Procissão a pé. Cinco da manhã. Frio tô com sono. Férias pra dormir. Vela acesa mão queimada, dor na mão, dor no pé. Sapato apertado, dinheiro apertado.  “Hora da missa bicicleta não”, a pé, pé de cachimbo que bate no sino. “Menina o cachorro tá preso”. Meu coração também tá preso. Medo do cachorro, medo de Deus. Medo do castigo de Deus.  Papai nunca me castigou. Confissão dos pecados, confissão do meu amor por você paizão. Eu falo “você” pro padre? Ou “Alteza”? O rei de Portugal é Alteza. Dona Luci me ensinou. Ave-Maria, cheia de graça… esqueci a letra. 7 de setembro, desfile esqueci a letra do Hino Nacional. Mãe, por que você está ajoelhada cochichando com quem? Vai demorar? Água benta. Pode beber? Tô  com sede de carinho, de amor, de atenção. “Suba aquelas escadinhas. Veja as estátuas. Não corra, menina”. Eu também estou correndo das orações. Será que Deus entende? Minha mãe não me entendia. Eu era complicada. Deus é poderoso. Aquela imagem de Nossa Senhora carregando o Menino Jesus… É angelical e sofredora. Sofredora como eu. Vela vou acender uma vela, pra Jesus e Nossa Senhora, duas velas. “Cuidado, vai queimar o dedo”. Eu queimei meus livros de oração. Todos. “ Lá fora, o que está acontecendo”?  Um estalo, outro estalo, um estrondo, meu Deus! Não chore, eu te protejo. Por que fiquei sozinha? Sinto uma dor forte na cabeça, sangue escorre em bica e adoça minha boca. Eu adoro doces. Menina, cadê você? Esqueço-me da menina e de mim também.



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