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quarta-feira, 15 de outubro de 2025

É pra Dong Xuan que eu fui - Hirtis Lazarin

 



É pra Dong Xuan que eu fui

Hirtis Lazarin

                                                 

Finalmente cheguei ao meu destino. 

 

Até onde minha vista conseguia enxergar em meio ao denso nevoeiro, eu era o único passageiro que desceu do trem. Senti o reflexo de uma solidão metálica refletida naquele imenso bloco de vagões quase vazios.

 

Uma placa de madeira meio gasta pelo tempo escrevia, em letras maiúsculas, o nome do vilarejo “Dong Xuan”. Li aquela palavra várias vezes pra me certificar . Sim, era ali que eu queria chegar. 

 

 Subi as escadas.

 

A pequena estação ferroviária, iluminada por uma luz morre-não-morre, parecia deserta. Apenas o  tic-tac cansado de um relógio de parede intercalado ao som pesado dos pés  de um idoso que se arrastava e recolhia o lixo acumulado. 

 

Puxei conversa, mas fui ignorado. Repeti as perguntas e nada. Não sei se o homem era surdo ou indiferente…Tive vontade de gritar bem alto. Pensei melhor e não insisti. Eu não queria ser notado por extravasar minha  falta de paciência.

 

Procurei um sanitário; precisava de água fria pra lavar o rosto sonolento. A porta  estava trancada e não obedeceu aos meus impulsos violentos.

 

 Senti fome e saí andando…Alguns palavrões escaparam da minha garganta.

 

Era um vilarejo com ruas estreitas e pavimentadas com paralelepípedos que cheiravam à maresia enlutada.  Era como se ali próximo, num pedaço de mar, restassem destroços de barcos e afogados; mortos  que a saudade daquele povo ainda cultuava. A maioria das casas, de tão humildes,  pareciam caranguejos se acotovelando. 

 

Caminhei bastante e não vi ninguém, nenhum carro. Só um cachorro magro revirando latas de lixo.  Minha boca estava seca e meus pés doíam dentro de um sapato de couro falsificado. Até minha mochila que trazia apenas um tênis e uma muda de roupa ficou pesada.  Senti frio, me sentei nos degraus de uma igrejinha e fumei dois cigarros.  Quarenta minutos se passaram até que um rapaz sem camisa e de braços fortes apareceu  de  bicicleta, no final da rua. Por sorte, conseguimos nos entender no seu “Inglês-vietanita” e ele  me levou até o único albergue do local. 

 

Entrei com cautela.

 

Finalmente encontrei gente reunida  e senti  o olhar curioso de todos voltado pra mim. Afinal, eu era um estranho naquele ninho. Não me intimidei e me aproximei do balcão do bar.  Queria me familiarizar com o ambiente e não ser rejeitado.

 

Bêbados, acompanhados por um violão, cantavam bem afinados. Um velho sem dentes conversava, animadamente, com uma jovem estrangeira de cabelos loiros que chegavam até a cintura. Um grupo de pescadores exagerava nas histórias de peixes tão grandes que não cabiam na embarcação, peixe que quase engoliu um amigo, peixe que voou de volta pro mar. O mais velho de todos, que tinha fascínio por jacaré-açu, jurou que, nas suas andanças de pescador, encontrara um que sabia assobiar nos modos gregos. Acho que era um torneio pra descobrir o mais mentiroso da turma.

 

Até a cozinheira tentava me impressionar, contando sua história e os horrores que o pirata  Zheng Yi  fizera com seus bisavós e o Padre  Văn Thuận, que se hospedava na igreja, matou-o com um tiro certeiro soprado no coração.

 

Sem que ninguém percebesse, tirei uma caderneta do bolso, mostrei algumas anotações a ela e cochichei: “Leia apenas com os olhos". À medida que lia, ela balançava positivamente a cabeça e eu, ansioso, acompanhava sua leitura. Acho que o inglês é a segunda língua falada naquele país e eu consegui dela todos os detalhes de que precisava. Um punhado de “Dong”  em suas mãos arrancou-lhe o sorriso mais agradecido que eu já vi.

 

Quando um bêbado, que já tinha tomado todas, aproximou-se do balcão, aproveitei pra me afastar e comer uma sopa rala com pão e uma fatia gorda de queijo. Duas taças de “Rượu gạo”, um vinho de arroz, foram suficientes pra me derrubar. 

 

Hora de me recolher.  

 

Me surpreendi com o quarto, era simples e bem cuidado. Os lençóis de tão brancos pareciam azuis, feitos de um tecido tão macio que até me acarinhavam. Eu já tinha esquecido de como era gostoso sentir a delicadeza do carinho.

 

Era meia-noite quando me joguei na cama.  Respirei fundo.  E aliviado. Até aquele momento tudo corria conforme meus planos.  Eu tinha apenas duas horas pra rever meus próximos passos e descansar esse corpo que tinha viajado quinze horas seguidas.

 

Todo esse pesadelo começou há mais de três anos. Quanto dinheiro já gastei com detetives? Não sei.   Só sei que minhas dívidas só cresciam com os empréstimos bancários. Como pagar? Preocupação para o futuro. 

 

Eu não me reconhecia mais. Bebia todos os dias. Olhava-me no espelho e perguntava: “Quem é esse homem desleixado, tão feio?  De onde brotou tanto sofrimento, tanto ódio”? Tinha dias seguidos que a raiva era o único sentimento honesto que me restava. Me afastei de todos. A minha solidão era uma farpa na carne a me consumir.  Eu não sabia o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não sabia como frear minhas lágrimas, não sabia como vencer a dor de um silêncio que nada preenchia, eu não sabia como encontrar saída aos meus pensamentos suicidas.

 

Até que um dia tive um sonho esquisito e acordei um pouco mais lúcido: vi duas saídas: procurar ajuda psiquiatra e tocar a vida pra frente na tentativa de encontrar a paz. Ou viajar para o Vietnã. E, ao final daquele dia, a resposta me apareceu clara e tomei a decisão: “Vou ao Vietnã.

 

Passei dias pesquisando no Google”. Fiz meu roteiro, calculei minhas despesas e cheguei neste fim do mundo chamado “Dong Xuan”.

O relógio me expulsou da cama na hora que combinamos.

Lá fora, a madrugada estava fria e o vento gelado cortava a pele, arrastando folhas secas pela calçada. O silêncio da rua era opressor, como se o mundo estivesse segurando a respiração. A rua escura, iluminada apenas por um lampião tremeluzente, parecia um cenário perfeito. Eu era apenas um vulto que se movia silenciosamente, os passos de um gato, quase inaudíveis. Andei por vários quarteirões, ruas que subiam e desciam. Já ofegante e cansado, encontrei a porta de madeira nada resistente, marcada com o número noventa e nove.  Tateei a maçaneta com cuidado e girei-a com toda força dos meus punhos. A porta se abriu. 

 

Entrei na casa.  Não posso negar que meu coração batia descompassado. A escuridão era quase total e afirmo que eu me sentia poderoso como um animal predador em seu habitat.  Os cômodos eram poucos e pequenos. Cheguei ao único quarto, a porta entreaberta revelou a figura adormecida na cama. Tirei o punhal do bolso e a lâmina   brilhou, refletindo a pouca luz que entrava pela janela sem cortinas.

 

O corpo deitado respirava pausadamente indiferente ao meu sofrimento. Nessa hora, assisti ao filme dos meus últimos três anos de vida amaldiçoada. A necessidade de completar a tarefa se fortaleceu mais e mais.

Aproximei-me da cama. A lâmina do punhal  rasgou o tecido da roupa e penetrou o coração da vítima. O som de uma vida sendo interrompida ecoou pelo quarto, mas logo foi abafado pelo som do vento lá fora. Abandonei o corpo sem vida no quarto que não viu nem ouviu. Saí daquela casa sem olhar para trás, deixando a escuridão e o silêncio guardarem o segredo de meu crime. 

 

Foi o que eu pensei…

 

Vós que me ledes, estais ainda entre os vivos, mas eu, que escrevo, parti há muito para o mundo das sombras. Na verdade, estranhas coisas aconteceram, coisas secretas serão reveladas e muito tempo decorrerá antes que essas notas sejam lidas pelos homens. E quando eles as tiverem lido, uns não acreditarão, outros porão as suas dúvidas e muito poucos entre eles encontrarão fecundas meditações nos caracteres que eu escrevo como se a caneta fosse um estilete de ferro singrando em tabuinhas de madeira.





 

 

 

A CASA ASSOMBRADA - Adelaide Dittmer



A CASA ASSOMBRADA

Adelaide Dittmers

 

A velha casa jazia em um terreno cheio de mato. Desabitada há muitos anos, tinha a fama de mal assombrada.

Histórias de fantasmas e gritos ouvidos em noites escuras eram contadas pelos habitantes daquela pequena cidade.

O povo simplório do lugar fazia o sinal da cruz ao passar por ela.

O pavor de entrar para descobrir o mistério que aquelas velhas paredes de pedra guardavam bloqueava qualquer aproximação.

Três meninos passavam por lá todos os dias no caminho da escola. Muitas vezes paravam e a ficavam observando. A curiosidade e o desejo de aventura cresciam dentro deles como ervas daninhas.

Certa tarde, de céu cinzento e árvores vergadas por um forte vento, entreolharam-se e batendo os punhos um nos outros, decidiram que iriam descobrir o que acontecia lá.

Afastando o denso mato, que a cercava, chegaram diante dela.  De perto era mais assustadora.  O silêncio, que os absorveu, só era quebrado pelo barulho do vento e dos trovões, que começaram a incendiar o céu.

Munido de coragem, um deles colocou a mão no enferrujado trinco e, com força, baixou-o. A pesada porta abriu com um alto gemido.

Eles entraram devagar, tentando enxergar algo na escuridão do interior.  Um deles tropeçou em uma mesinha, e o susto fez com que pulasse para trás. Outro abriu, com muito esforço, uma das janelas.  Uma tênue claridade revelou uma sala espaçosa, em que móveis antigos e cobertos de pó, espalhavam-se desordenadamente pelo ambiente.  O cheiro forte de mofo fez com que eles tapassem os narizes.

Adiante em um pequeno hall, uma escada de madeira escura subia para um segundo andar.

Pé ante pé, foram até ela.  Os degraus rangiam ao serem pisados.  Um barulho estranho vinha de cima.  Eles pararam.  Os olhares assustados se procuraram.  O barulho se repetiu.

Nesse momento, uma chuva forte despencou com estardalhaço sobre a casa.  Umas gotas caíram vdo velho telhado e eles recuaram.

Do andar de cima, o barulho veio mais forte e assustador.  Os olhares apavorados se voltaram para cima. 

— Viemos até aqui, não vamos desistir. Vamos subir. Um deles sussurrou.

Com os corações acelerados chegaram ao andar superior.  Um comprido corredor os esperava. Dando um passo e parando para ouvirem o esquisito barulho, foram seguindo.  O medo estampado no rosto de cada um.

De repente, algo negro passou por suas cabeças.  Eles se jogaram no chão, cujo assoalho rangeu.  O pavor retorcia suas feições.  Outra sombra negra voou pelo corredor, soltando guinchos aterradores. Dessa vez, o voo foi rasante e a criatura quase bateu na cabeça deles.  Um deles gaguejou:

— Não são almas perdidas.  São morcegos!

Trêmulos foram se arrastando até a escada, que desceram em disparada.  Chegaram à porta de entrada e estacaram.  A tempestade caia desenfreada.

— Temos que esperar a chuva diminuir.

Um raio partiu uma árvore ao meio.  Os três estavam pálidos e assustados, mas um riso nervoso escapou dos três.

— Descobrimos o segredo! Gritaram apertando as mãos uns dos outros.

— Morcegos! Horríveis, mas apenas morcegos!

E fizeram um pacto.  Não iriam contar nada a ninguém.  Afinal o fato mais importante naquela pacata cidadezinha era o pavor pela casa assombrada.

 

A Velha Rua - Adelaide Dittmers

 



A Velha Rua

Adelaide Dittmers

 

A estreita rua calçada por grandes paralelepípedos avançava mansamente no ritmo cansado de tantos anos ali estendida, marcada por tantas pegadas e rodas barulhentas de carroças.

Inúmeras vidas passaram por ela.  Algumas a pisaram levemente, quase não a tocaram.

Sorrisos jovens a iluminavam, ecoando alegria por ela.  Outras arrastaram pés cansados e rostos tristes, que espelhavam as agruras do caminho.

Rodeada por pequenas casas, abraçadas umas às outras, que guardam em suas entranhas histórias de lutas pela sobrevivência, desentendimentos, traições e uniões.

Uma delas, pintada de amarelo e janelas azuis.  À porta, uma senhora de cabelos brancos derrama um olhar cansado na placidez da rua.  As lembranças dançando nos olhos sem brilho, que lentamente percorrem o entorno, vislumbrando, talvez, brincadeiras e namoricos de outrora.

Ao lado, outra casinha pintada recentemente de verde e janelas brancas, onde vasos de gerânios coloridos dão um tom fresco e alegre, o choro de um bebê ecoa pela rua, enquanto uma canção de ninar suavemente o embala.

Em outra, gritos são ouvidos.  Dentro de cada uma, a vida se manifesta de várias maneiras, com risos, choros, alegrias e tristezas, conquistas e derrotas.

Fora, a velha rua apenas segue silenciosa no seu destino de deixar passar por ela as marcas de cada um, que a pisa e ouvir silêncios e cúmplice o desenrolar de tantas histórias, que se escrevem ao seu redor.

 

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

O segredo da Confeitaria Colombo - Alberto Landi

 



O segredo da Confeitaria Colombo

Alberto Landi

 

Era um fim de tarde quando a Confeitaria Colombo, no coração do Rio de Janeiro, começava a receber turistas curiosos e clientes fiéis. O brilho dos espelhos belgas refletia o burburinho e o cheiro do café misturava-se ao doce perfume de nata e dos bem-casados.

Sentada em uma das mesas centrais, Helena, uma jovem restauradora de arte, examinava atentamente um mapa antigo que havia encontrado nos arquivos esquecidos no antigo escritório do fundador.

O esboço parecia indicar a existência de uma sala secreta, construída ainda na época de sua fundação em 1894.

Na mesa ao lado, um homem bem vestido com terno escuro, Dr. Álvaro, advogado da família que herdara parte da Colombo, fingia ler o jornal, mas seguia cada movimento dela. Ele sabia do que aquele pergaminho se tratava.

O conflito se acendeu quando ele se aproximou:

— Esse mapa pertence à família Colombo. Não deveria estar em suas mãos.

— Pertence à história do Rio de Janeiro, e a história não tem dono — respondeu Helena, firme.

De repente, a luz oscilou e o supervisor do salão deixou cair uma bandeja. Entre o barulho de porcelana quebrando, Álvaro estendeu a mão, tentando arrancar o pergaminho, porém, ela segurou firme e a folha se rasgou em dois pedaços. Cada um ficou com uma metade.

Uma sala oculta guardava os acordos da República Velha. A história não se cala, apenas espera quem a conte.

Agora, entre os espelhos dourados e os vitrais imponentes, a confeitaria guardava um novo segredo.

Quem conseguiria primeiro descobrir a sala oculta e o que havia sido escondido nela há mais de um século?

Com metade do mapa nas mãos, ela saiu às pressas. Ele a seguiu decidido a impedir que ela revelasse qualquer coisa. O que estava escondido naquela sala poderia mudar não apenas a história da confeitaria, mas também da cidade do Rio de Janeiro.

Naquela noite, cada um estudou sua parte do pergaminho. Helena observou símbolos ligados à maçonaria, gravados nos arabescos da folha.

Ele, por sua vez, reconheceu assinaturas de políticos da República Velha, homens que costumavam se reunir em salões discretos, longe dos olhos da imprensa.

No dia seguinte, ambos retornaram ao local, disfarçados entre os turistas.

Um detalhe nos vitrais denunciava a entrada secreta: um touro esculpido em mármore olhava para um ponto exato do chão de mosaico.

Quando se preparavam para mover a peça, surgiu o maître. Não trazia bandejas nas mãos, nem o sorriso habitual que iluminava os salões. Seu olhar firme e silencioso lembrava menos o de um garçom, e mais o de um guardião antigo, como se a confeitaria fosse um templo e ele, o vigia de sua memória.

— Vocês realmente acham que são os primeiros a procurar? — Disse o maître com um meio sorriso. Essa sala guarda mais do que podem suportar, pensou Helena.

Ela e Álvaro se entreolharam. A voz do maître, baixa e firme, cortou o ar, mais um aviso do que uma saudação, rompendo o silêncio que pesava sobre os salões.

— Há coisas que não devem ser movidas sem compreender o que guardam.

— Esta confeitaria foi palco de encontros discretos — disse. Aqui se tramaram acordos que nunca chegaram aos jornais. E a sala que procuram guarda provas disso.

Sem hesitar, o maître moveu uma das pedras do mosaico.

O piso se moveu, revelando uma pequena escada em espiral, descendo as entranhas do prédio.

O ar era pesado, uma mesa de jacarandá ainda estava posta como se tivesse acabado de receber senadores e ministros. Em um baú no canto, Helena encontrou envelopes lacrados com selos da época. Ela leu em voz alta um dos documentos.

— Acordo firmado entre industriais do café e parlamentares, garantindo silêncio em troca de verbas para campanha presidencial.

Álvaro empalideceu.

— Se isso vier a público, o nome de famílias inteiras será destruído. Essas cartas falam de presidentes, de governadores, até da política de café com leite.

Helena, no entanto, via ali a chance de revelar uma verdade esquecida.

— Não são apenas nomes. É a história do Brasil que foi escondida. O povo tem direito de saber, disse ela.

Álvaro segurou-a com o braço firme e disse:

— Se publicar isso, pode desencadear um escândalo. E não se engane, ainda há descendentes poderosos desses homens, eles não hesitarão em calar você.

O silêncio da sala secreta foi interrompido apenas pelo ranger das tábuas antigas. Ali, sob os espelhos dourados da Colombo, nascia um dilema: revelar a verdade e enfrentar os poderosos ou proteger um passado sujo em nome da estabilidade atual.

Nos dias seguintes, ela começou a organizar o material encontrado. Cada carta e envelope era uma peça de quebra-cabeça que revelava como políticos e empresários moldaram a República Velha nos bastidores.

Álvaro, por sua vez, não a deixava sozinha, seguia-a nos momentos mais inesperados, em cafés próximos, em livrarias, até nas filas de museus, sempre com a mesma pergunta silenciosa: Você vai mesmo divulgar isso?

Helena percebeu que não precisava apenas proteger os documentos, mas também agir com inteligência.

Começou a registrar cópias de cada carta, escondendo uma parte em lugares diferentes. Cada movimento era calculado para despistar Álvaro, que respondia com cartas anônimas, ameaças sutis e telefonemas misteriosos.

Um dia, enquanto revisava os envelopes, ela encontrou uma assinatura que não esperava, de uma figura ainda viva, descendente direto de um dos senadores envolvidos.

Essa descoberta aumentou a tensão. Álvaro sabia disso e agora ela tinha um trunfo poderoso: podia negociar a forma como a verdade viria à tona, decidindo o momento certo e a intensidade do impacto.

O conflito atingiu o ápice quando ele a confrontou na própria confeitaria, agora vazia após o expediente.

— Você não entende. Isso não é apenas histórico. É poder!

— Pode destruir famílias, criar inimigos e até colocar sua vida em risco.

— Entendo, respondeu Helena, firme, mas esconder a verdade não devolve nada ao povo, e eu não temo enfrentar os poderosos.

Por um instante, o silêncio reinou, quebrado apenas pelo tic-tac do relógio. Ali, sob os espelhos e vitrais da confeitaria, o que repousava já não eram apenas documentos antigos, era algo que o tempo tentou esconder. Tratava-se agora de um duelo de inteligência e coragem, cada decisão, uma linha traçada entre o passado e o destino dos dois.

Meses se passaram desde que ela descobrira a sala secreta. Helena havia reunido cópias de documentos mais importantes e analisado cada detalhe. Ele continuou a observá-la, mas seus encontros se tornaram menos agressivos, como se ambos soubessem que o verdadeiro poder estava na informação e não na força.

Decidida, planejou sua jogada. Em vez de expor tudo de uma vez, organizou uma exposição histórica em parceria com um museu do RJ. Cartas e registros seriam apresentados como parte da história da República Velha, desvendando os bastidores ocultos da política sem expor diretamente os descendentes ainda vivos.

No dia da abertura, Álvaro compareceu. Observou em silêncio enquanto ela conduzia os visitantes pelos documentos e relatos da época. Havia conseguido transformar o que poderia ser um escândalo em uma aula viva de história, revelando o passado com coragem, mas com inteligência.

Ao final, se aproximou de Álvaro.

— Não destruí ninguém, mas todos aprenderam que a verdade pode ser contada sem vingança.

— Você venceu, de uma maneira que não esperava, admitiu Álvaro. Talvez exista um modo de usar o poder do passado sem criar inimigos.

A confeitaria voltou ao seu brilho habitual. Entre espelhos e vitrais, Helena revelou a história oculta daquele tempo: a verdade triunfou sobre o silêncio, sem destruir ninguém.

Agora havia mais do que doces e café, e sim uma história cuidadosamente revelada, que ensinava a coragem, estratégias e respeito pela memória da cidade.

Ela sabia que às vezes, o verdadeiro conflito não é vencer o outro, mas encontrar a maneira de contar a verdade!

 

 




A lenda de Leucasia: Amor e Tragédia em Leuca - Alberto Landi

 


A lenda de Leucasia: Amor e Tragédia em Leuca

Alberto Landi

 

Na ponta mais ao sul da Puglia, onde o mar Jônico encontra o Adriático, existe um lugar banhado por luzes e lendas: Santa Maria de Leuca. Ali, as falésias brancas e as águas profundas guardam histórias antigas que ainda sussurram aos viajantes mais atentos.

O promontório de Leuca não é apenas rocha avançando sobre o mar.

Para os antigos, era o lugar onde a terra se ergue como um altar e conversa com os deuses do vento e das águas.

No encontro dos dois mares, as ondas não apenas se chocam, mas se abraçam em contrastes de cor e salinidade.

Foi nesse limiar que nasceu a lenda.

Entre elas, a mais lembrada é a de Leucasia, uma sereia de beleza incomum, com cabelos dourados, olhos azuis e pele tão branca como o leite. Encantadora e melodiosa, ela atrai marinheiros e pescadores para as águas do Salento.

Um dia, Leucasia avistou Melisso, um jovem pastor que conhecia o ritmo do vento e o murmúrio das ondas, apaixonado por Aristula, uma camponesa da região, de tranças escuras que cultivava trigo e esperança sob o sol dourado da Puglia.

Movido por desejo e inveja, a sereia tentou seduzir Melisso com o seu canto e beleza, mas o jovem permaneceu fiel à camponesa. Enfurecida e com o coração partido, Leucasia provocou uma tempestade que afogou os dois amantes.

Comovida pela tragédia, Minerva, a deusa romana da sabedoria, da justiça e das artes, sempre atenta aos destinos humanos, transformou os corpos de Melisso e Aristula em pedras, dando origem aos promontórios de Punta Meliso e Punta Ristola, que hoje delimitam a baía de Leuca.

Cada pedra tornou-se um guardião silencioso do amor que resistiu à morte.

Consumida pelo arrependimento e tristeza, Leucasia desapareceu nas profundezas do mar.

Seus últimos suspiros se transformaram em brisas suaves que ainda percorrem a costa de Leuca.

Os paredões rochosos de calcário branco recebem os primeiros raios do sol nascente e diante deles os dois mares se transformam em eternos abraços líquidos. O Adriático e o Jônico, distintos em cor e sal, desenham na superfície uma linha visível, quase mágica. Mas a ciência nos revela que essa fronteira não é separação: são correntes que se tocam, massas de água que dançam até se misturarem, lembrando-nos que, assim como o amor verdadeiro, a união não apaga as diferenças, mas as transforma em harmonia.

E assim a lenda permanece viva, sussurrada pelo vento, narrada pelo mar e iluminada pelo sol, fazendo Santa Maria de Leuca um lugar onde mito e realidade se entrelaçam para sempre.

 


terça-feira, 23 de setembro de 2025

TRABALHANDO COM OS SENTIDOS - Dinah Ribeiro de Amorim

 



TRABALHANDO COM OS SENTIDOS

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Acordo de repente, assustada.

O barulho forte que ouço parece o som de um trovão.

Levanto-me rápida e penso em fechar totalmente a janela. Deixo sempre um pouco aberta.

Ameaça despencar forte chuva, penso logo, e fico com medo.

Escancaro as cortinas e examino o vidro.

Enxergo, maravilhada, um céu azul, cheio de nuvens brancas, que escondem, atrevidas, o brilho de um Sol ardente.

 

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Entro na sala fechada e fria.

Algumas pessoas, sentadas, calmamente esperam sua vez.

Um cheiro estranho permanece no ar. Seria falta de janelas, penso eu. Pouca ventilação no ambiente.

Dr. Ricardo abre sua porta e exclama:

— Quem é o próximo?

O avental branquíssimo e o odor de clorofórmio denunciam a sua presença.

 

 

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A cozinha da fazenda é enorme.

As várias bocas do fogão a lenha, acesas, suportam o peso das pesadas panelas de ferro. Estão fumegantes.

As fumaças que exalam denunciam vários tipos de alimentos: arroz, feijão, e, principalmente, carne.

Possuem aquele cheirinho especial...

Maria, a chefe da cozinha, recebe-me gentilmente e pergunta se estou com fome.

Aquele perfume apetitoso desperta o meu paladar.

Aceito o delicioso prato de carne ensopada que me oferece.

 

 

 

                           ***************************

 

 

 

A pele macia e nova transforma os meus sentidos.

Tapam-me os olhos e pedem-me para não olhar.

Tento adivinhar o que é? O porquê da brincadeira.

Apalpo delicadamente e sinto que é algo leve, suave, macio, perfumado.

Quando exclamam: “Pronto, pode olhar! Percebo, encantado, que seguro um gorducho recém-nascido, cheio de curvinhas e dobras.

 

“Olhai os Lírios do Campo” - Hirtis Lazarin

 

 

“Olhai os Lírios do Campo”

Hirtis Lazarin

 

 



 

Depois do estudo sobre Érico Veríssimo interessei-me pelo romance “Olhai os Lírios do Campo”.


Foi escrito em 1938 e o  título da obra foi baseado num trecho do Sermão da Montanha, também conhecido por ‘Olhai os lírios do campo”.

 

                           Resumo

 

A história de “Olhai os Lírios do Campo” trata da trajetória de Eugênio Pontes, jovem humilde da Porto Alegre dos anos 30 com aspirações de grandeza. Esforça para se formar em medicina as custas dos sacrifícios dos pais e decide dar um passo pragmático e polêmico: casar-se por interesse com uma refinada integrante da alta sociedade para ascender socialmente, ignorando os apelos do seu lado emotivo que apontam que, sem dúvida alguma. irá abdicar da companhia da mulher da sua vida. Decisão que ditará o rumo de sua vida e o colocará em debates constantes consigo mesmo, especialmente quando o passado retorna de forma abrupta e violenta, colocando-o em desesperada agonia.

 

                           Comentários

 

A linguagem que dá forma ao romance é um dos grandes trunfos do livro por conseguir em poucas linhas, com termos cirúrgicos e simples, retratar quadros vívidos de personagens e ambientes, qualidade que imprime dinâmica na narrativa mesmo quando se detêm em situações de cadência mais lenta, diálogos circunstanciais, avulsos, reflexões sobre aspectos secundários à trama, introdução de personagens e ambientes, resultando em uma leitura agradável de rápido consumo.

 

A estrutura da narrativa é bem trabalhada e exitosa, o que merece destaque, porque não se trata de esquema de simples execução, pois na primeira parte do livro o autor não segue uma narrativa linear. Veríssimo alterna, entre um capítulo e outro, relatos da infância, juventude e do presente de Eugênio, construindo um mosaico de memórias que traçam um panorama rico sobre a personalidade do mesmo e das principais figuras que viviam e vivem em seu entorno.

O esmiuçamento do lado psicológico do personagem, o seu modo de pensar, suas reflexões, seus medos, suas angústias, seus desejos são materializados no papel de forma muito competente. 

 

Um dos motivos que faz com que a primeira parte do livro seja mais cativante e atrativa, é a situação de constante emergência na qual o personagem está inserido no tempo presente contra o tempo. Ter esticado um pouquinho é bem compreensível, porque a resolução só poderia ser apresentada no último instante para fazer sentido.

Escantear o momento presente por muito tempo poderia provocar esquecimentos de detalhes importantes para a trama, gerando confusão no leitor. Entretanto, inseriu eficientemente atmosfera de apreensão, de angústia crescente, que praticamente obriga o prosseguimento da leitura até a resolução dessa crise.

 

Outro ponto favorável emOlhai os Lírios do Campo" são os momentos que exigem as virtudes de um olhar arguto e sensível que normalmente destaca os grandes escritores da multidão. O professor se destaca por saber transmitir conhecimentos, o médico se destaca por fazer diagnósticos precisos, o escritor de pedigree se destaca por desnudar a alma humana, revelando o que ela tem de melhor e pior, horrorizando e comovendo o público a ser entretido.

 

A sensação ao terminar a leitura de ‘Olhai os Lírios do Campo " é a de se ter adquirido uma visão mais nítida sobre o que merece ser prioridade, um revigoramento de convicções sobre o que é mais edificante, uma mensagem otimista, mesmo que agridoce. Apesar de todos os entraves que a vida proporciona, vale a pena trilhar os caminhos corretos. Olhai os Lírios do Campo” mostra uma visão mais nítida sobre o que merece ser prioridade, um revigoramento de convicções sobre o que é mais edificante, uma mensagem otimista, mesmo que agridoce. E apesar de todos os entraves que a vida proporciona, vale a pena trilhar os caminhos corretos.

 

 

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...