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domingo, 25 de agosto de 2024

O SEQUESTRO - Dinah Ribeiro de Amorim

 

 




O SEQUESTRO

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Amy Lancaster, famosa modelo americana, destaca-se muito no meio da moda pela sua beleza e porte. Cria tanta fama que recebe convite para participar como convidada especial numa famosa exibição de moda, em Paris.

É o sonho de toda modelo, tornar-se de fama internacional, principalmente, em Paris, o mundo da moda.

A empresa que a contrata, na América, estabelece contatos com a equipe em Paris, reservando-lhe o melhor hotel da cidade e outras mordomias.

Amy, vaidosa, sente-se, finalmente, realizada. Consagrou-se, após muito treino e esforço.

Ao chegar a Paris, seu coração acelera, só ao avistar as lindas paisagens.

É o sonho que se realiza, após tantas fantasias imaginadas, a esse respeito.

Acompanhada de duas amigas, também modelos, descansa no quarto de hotel, até serem chamadas para fotos e ensaios do desfile.

Em Paris, o mundo da moda é lindo, de fama mundial, sendo os rumores e as intrigas costumeiras, internas, sabiamente não divulgadas.

Iriam desfiar duas equipes, com suas modelos e inovações: a formada pelo famoso Lui Le Blanc, antigo, de conhecimento mundial, mas considerado, por muitos, já ultrapassado e, Maurice Coteaux, um novato, exibicionista, que ameaça derrubar o colega.

Como em toda profissão, existe a inveja, o poder, a briga, a conquista pela soberania que, se necessário, poderá chegar às brigas e às loucuras.

Apesar das novas modelos convidadas, serem bem guardadas, com acompanhantes e guardas secretos, existe a preocupação de sofrerem qualquer desagravo. Vieram para desfilar para Lui Le Blanc e são guardadas pela equipe dele, apesar dos muitos serviçais infiltrados em sua empresa, para espionarem as atividades, a serviço de Maurice Coteaux.

Claro que Amy e as amigas não sabem disso. Paris representa o ideal delas, em assunto de moda e nada de perigo as perturba e as acomete.

Uma tarde quente, não prevista, invade Paris. Amy, vendo que estão sem água gelada, enquanto as amigas dormem, sai ao corredor à procura de gelo, com alguma camareira de plantão. Parece que todos dormem devido ao calor.

Não a encontra. Percorre, curiosa, os arredores do belíssimo hotel, cheio de detalhes do tempo dos reis de França. Admira-se com quadros e enfeites, distraída, quando é agarrada, bruscamente, por braços fortes que lhe prendem as mãos e, antes que consiga gritar, colocam um tampão em sua boca. Sente-se empurrada para uma porta de saída e, antes que emita algum som, fazem-na adormecer com algo que lhe dão para cheirar.

Adormecida, é colocada em um carro que sai às pressas, antes que alguém os aviste.

Pobre Amy, acorda algumas horas depois, sonolenta, prisioneira, colocada numa cama malcheirosa, num quarto pequeno, que revela o lado pobre de Paris.

Muito assustada, trêmula, pergunta ao rapaz feio, de boné preto, que toma conta dela, onde está? Por que fizeram isso?

Ele não responde. Pensa nas amigas do seu quarto. Será que darão por sua falta?

As modelos que ficaram dormindo, acordam e, assustadas, descobrem que Amy não está. Tentam avisar a guarda do hotel, a empresa que as contratou, e também a polícia.

Logo, o quarto delas é invadido por policiais, investigadores, jornalistas, querendo mais informações e novidades sobre esse famoso rapto.

Lui Le Blanc, o famoso estilista que a contratou, descabelado e eufórico, tem uma leve desconfiança do acontecido. Maurice Coteaux deve estar por trás desse rapto. Não quer que seu nome apareça mais que o dele. É capaz de tudo por ambição e exibir seu nome.

A sujeira da bela moda e dos desfiles caríssimos também existe em Paris.

Aconselhado pelo advogado, resolve suspender o dia do desfile, até encontrarem a linda modelo Amy Lancaster. Não haverá mais nenhuma exibição, e tranca-se em seu escritório.

Os jornais e revistas noticiam o fato e a polícia de Nova Iorque é chamada para auxiliar a investigação.

As notícias pela televisão só falam nisso e até Amy, prisioneira, fica ouvindo sobre o seu rapto. Se pudesse se comunicar com eles, de algum modo, como seria bom.

O rapaz que está com ela, tomando conta, impede que fuja, mas não parece muito ruim de todo. Serve-lhe as refeições, arruma-lhe a cama para dormir, olha-a às vezes, com curiosidade. Parece entender de moda também.

Amy pergunta seu nome e chama-se Gilbert, natural de Givenchy, a terra de Monet. Como ele, gosta também de pintura.

Amy aproveita a arte para que ele se abra mais e converse com ela. Gilbert acaba confessando sua paixão por pintura e ter entrado na moda como auxiliar de Maurice, por falta de dinheiro. Confessa também que foi raptada para não brilhar no desfile de Lui, o grande rival que a contratou, sendo achada logo após, e devolvida à América. Ele e seus companheiros receberiam muita grana com o seu rapto e fugiriam de Paris, auxiliados, antes que alguém os descobrisse.

Amy começa a arquitetar um plano de fuga dali, após a conversa com o rapaz, que se torna amigável.

Ouve, por uma fresta da janela, os sinos que tocam, várias vezes ao dia, então deduz que está próxima à matriz Notre Dame. Pela mesma fresta, consegue ver os contornos da Torre Eifel, está próxima ao centro, não muito longe do hotel.

Percebe que muitos passantes caminham por ali. Seria fácil jogar algum bilhete na rua ou uma bola de papel neles. Como conseguir escrever algo?

Gilbert, enquanto toma conta dela, desenha o tempo todo. Tem papel e lápis. Deve estar desenhando seu rosto, percebe porque ele a olha, ocasionalmente.

Amy tem uma ideia. Embebedá-lo, atraí-lo, quem sabe consegue pegar o papel e jogá-lo pela janela.

Numa estante velha, jogada num canto, percebe uma garrafa de rum.

Fazendo-se tristonha e chorosa, convence o rapaz a tomarem uma bebedeira, já que estão juntos e ficarão lá algum tempo.

Gilbert cheira a garrafa e acha que ficarão mal, é muito velha.

Não faz mal, afirma categórica Amy, rum não estraga, quanto mais velho, melhor. E os dois entram na bebedeira. Ela toma cuidado para não cair em exagero, derrama um pouco na roupa, que fica cheirando álcool.

Gilbert, exagera, sentindo-se meio liberto da culpa que anda a sentir e Amy apanha disfarçadamente o retrato e joga pelo buraco do vidro da janela, feito um canudo.

O papel é encontrado, reconhecido por uma senhora idosa que vê muito a televisão. Entrega-o ao guarda da rua que, imediatamente, o leva à delegacia. A senhora informa onde o encontrou.

Pelo barulho, Amy entende que a descobriram e espera a sua liberdade. Gilbert, sonolento e bêbado, nem percebe quando o carregam, após abrirem a porta do quarto.

A modelo famosa torna-se mais famosa ainda, depois que é liberta.

Gilbert é preso e obrigado a revelar seu mandante, Maurice Coteaux, o invejoso, afastado do desfile e obrigado a se defender da acusação de rapto.

Acontece o desfile de Lui Le Blanc, com muita pompa e modelos famosos. Ainda é a coqueluche de Paris.

A carreira de Amy se desenrola muito, após isso, que percorre o mundo todo.

 

UMA NOITE NA ARENA DE VERONA - Alberto Landi

 



UMA NOITE NA ARENA DE VERONA

Alberto Landi

 

Era uma noite mágica em Verona e a lua cheia iluminava a cidade antiga.

Curioso, decidi explorar a famosa Arena, um magnífico anfiteatro romano que resistiu ao tempo.

Ao entrar, fiquei maravilhado com as imensas pedras que formavam as arquibancadas.

O som da multidão ecoava nas paredes, como se o próprio passado estivesse vivo.

Os habitantes da cidade se reuniram para assistir um espetáculo grandioso: uma peça teatral que contava as histórias de heróis e deuses da mitologia romana.

O ar estava carregado de expectativas enquanto as pessoas se acomodavam em seus lugares, vestindo trajes coloridos da época.

Encontrei um lugar próximo ao centro, onde poderia sentir toda a energia da apresentação.  

À medida que as luzes se apagavam, um silêncio reverente tomou conta da Arena. Os atores surgiram sob a luz das tochas, trajando roupas elaboradas que brilhavam à luz da chama.

A história começou a se desenrolar diante de meus olhos: guerreiros lutando por honra, damas em busca do amor e reinos em conflito. A atuação era tão intensa que parecia que os próprios deuses estavam presentes.

Deixei-me levar pela emoção da cena, sentindo cada golpe, cada suspiro como se fizessem parte da minha própria vida. O calor das tochas aquecia meu rosto e o cheiro do incenso perfumava o ar, transportando para aquele mundo distante.

No intervalo, observando os outros espectadores, notei que havia comerciantes, nobres e camponeses. Todos unidos pela paixão do teatro. As histórias compartilhadas entre risadas e sussurros criavam uma conexão imediata entre todos. 

Um sábio contador de histórias nos disse:

— A arena não é apenas pedra, é o coração pulsante de Verona!

Quando a peça recomeçou, estava ainda mais atento à experiência.

As batalhas eram representadas com tanta habilidade que parecia sentir a adrenalina correr nas veias. O clímax do espetáculo trouxe lágrimas aos olhos de muitos, uma cena poderosa onde os amantes eram separados pela guerra.

Ao final da apresentação, a multidão explodiu em aplausos ensurdecedores.

Levantei-me com todos os outros, coração batendo forte, com a emoção do momento. Os atores fizeram uma reverência profunda agradecendo ao público por compartilhar aquele instante mágico na histórica Arena de Verona.

Na saída, sob o brilho das estrelas, senti que havia sido parte de algo muito maior do que apenas uma apresentação teatral.

Aquela noite ficou gravada em minha memória para sempre - um testemunho da beleza do teatro e da capacidade humana de contar histórias que transcendem o tempo.

Verona não é apenas uma cidade, mas um lugar onde o passado e presente se entrelaçam em um espetáculo majestoso e eterno.

 


segunda-feira, 19 de agosto de 2024

HELENA - Pedro Henrique

 



HELENA

Pedro Henrique

 

     Perigo. Sim, perigo é com essa palavra de significado forte que abro este texto. Pois esta história é perigosa. Sempre me questionei por que os homens são sedentos por dinheiro e poder. Acho que até o dia de minha morte não reunirei em mim sequer uma argumentação que legitime essa prática.

     Não compactuo com a idolatração do que é material. Para mim, devemos nos atentar ao interno, aos valores, àquilo que ouro e prata nenhum compram. Vocês devem se perguntar neste momento o motivo de eu estar expondo minha opinião sobre o que penso do amor ao capital, porém lhes adianto que não se preocupem, tudo será esclarecido.

     Sou um narrador metódico. Meu nome? Bom, não sou afeiçoado a revelar minha identidade, gosto mesmo é de residir no anonimato. Sobre esta história, acho que já lhes disse muito, senão tudo, exceto pela crueldade que aqui habita. Eu mesmo gosto de me prevenir do mal. Você não? Ah, temos de ter muito cuidado, caro leitor, o mundo está rodeado de demônios famintos por almas ingênuas. Isso posto, começarei a contar o que vim contar.

     Então, essa história começou na cidade de Goiânia, quando Daniel Afonso Melo Cardoso repousou seus olhos em uma moça que passava bem à sua frente, enquanto esperava seu voo para São Paulo.

     A mulher tinha cabelos negros longos, olhos que cintilavam um brilho angelical e um jeito cativante de ser. Daniel encarava cada centímetro do seu corpo, querendo memorizar cada detalhe.

     A moça parecia um tanto perdida. Olhava de um lado para o outro sem saber o que fazer. Daniel rapidamente raciocinou, percebeu haver na moça tudo o que procurava, e, assim, levantou-se em um pulo só e foi em direção a ela. Foi aí, neste exato momento que o diabo selou tudo.

     — Posso ajudá-la?

     A moça o encarou por um breve momento, e uma espécie de magnetismo se instalou entre ambos.

      — Estou perdida, não sei o que fazer. Meu voo era para ter saído agora, porém foi cancelado. Meus pais estão à minha espera, hoje é aniversário da minha mãe, pensei que chegaria a tempo, porém…

     Daniel investigou com seus olhos de caçador e seu faro felino tudo que podia acessar sobre a moça que estava em sua frente. Notou a ingenuidade que pairava sobre ela, e não me refiro somente ao vestido florido, típico daqueles que vemos quando vamos a uma feira, mas à sua maneira de falar, de olhar, de ser…

     Não sei se foram esses traços que chamaram a atenção de Daniel. Contudo, posso afirmar-lhes que ele viu algo nela. Algo que gostava, que queria, que sabia que lhe seria de grande valia.

     — Ah, me perdoa. Nem perguntei seu nome e já lhe joguei um monte de informações sobre a minha vida.

     — Não tem problema. Me chamo Daniel.

     — Daniel?

     — Sim, Daniel.

     — Que nome bonito.

     — Obrigado!

     — E você, como se chama?

     — Helena.

     — Helena.

     Repetiu Daniel, degustando cada uma das sílabas que constituíam “Helena”. O rapaz se encantou ainda mais pela mulher, pensando o quão divertido era encontrar uma pessoa que se parecia com o nome.

     Os dois ficaram conversando por um bom tempo até o horário do voo de Helena chegar. Daniel deu algumas instruções para ela sobre como lidar com a cidade grande e com essas situações que, vez ou outra, nos surpreendem.

     A chamada para o voo de Helena soou.

     — Tenho que ir.

 

 

 

     Ambos se abraçaram, e Daniel viu ali naquele momento a possibilidade de lhe dar um beijo, entretanto não foi tão ousado e só a beijou na bochecha. Helena pareceu ter gostado do beijo, sorriu para Daniel e seguiu seu caminho em direção ao avião.

     Mais tarde, a chamada para o voo de Daniel também soou. Ele entrou no avião, tomou seu assento e ficou pensando: quem é aquela mulher? Ficou fascinado pela estranha que acabara de conhecer. Algo rugia dentro dele por mais informações a respeito de Helena. Porém, se acalmou quando lembrou que havia deixado o seu e-mail com ela. Se questionava se ela realmente escreveria para ele, mas não havia nada que pudesse fazer a não ser confiar e esperar.

     Pensou que o destino não dá ponto sem nó, e acertou. Passadas três semanas, chega um e-mail no computador de Daniel. Ele, rapidamente, sabia de quem se tratava. Helena lhe disse no corpo do texto que não se esqueceu dele, agradeceu mais uma vez por toda a ajuda prestada naquele momento conflitante que passou, e disse que talvez o destino a tenha feito perder o voo para conhecer um homem tão agradável como ele. Disse que sente saudades e que roga aos céus para poderem se encontrar outra vez.

     Daniel se sentia vitorioso por Helena não o ter esquecido. Ele a retorna e diz que ela não precisa se preocupar, que ele teria feito aquilo com qualquer outra pessoa que estivesse naquela situação, e diz que, de fato, o destino pode tê-los feito se encontrar.

     Fala que foi um prazer conhecer uma mulher tão bonita e cheirosa como ela. Fala que também roga aos céus para que se encontrem outra vez. Ele pensa em propor algo, como talvez ir para a cidade onde ela mora para jantarem juntos, mas fica com medo e acha melhor não. Pensa: “ainda não”.

     Horas depois, Helena responde dizendo que talvez eles devessem se encontrar, que talvez devessem sair para beber alguma coisa. Revela que estará de novo em Goiânia no próximo mês. Daniel fica surpreso e alegre, respondeu à Helena que seria um prazer encontrá-la. Propõe irem a um restaurante que ele frequenta bastante e que acha ser o local ideal para terem um primeiro encontro.

     Helena aceita, e 23 dias depois, ambos estão sentados em um dos locais mais chiques da cidade de Goiânia, degustando do vinho mais caro que a casa tem a oferecer, comendo dos melhores pratos, cujos nomes são tão complexos que nem sei pronunciar. Helena, confessou-lhe que tem uma pequena loja onde vende itens de costura e disse que nunca esteve em um lugar tão bonito.

     Daniel se manifestou indiferente ao relato da moça; só queria uma coisa dela e sabia que em breve conseguiria. Todavia, pensou que deveria revelar algo seu, portanto disse a moça que era corretor de imóveis rurais. Ela achou interessante sua profissão.

     — Que bacana.

     Daniel olhava para ela não só com desejo e interesse; também havia fervura, havia ambição. Os dois conversaram sobre suas idealizações para o futuro, sobre suas opiniões políticas, suas ideologias, seus princípios; conversaram sobre que carro queriam ter dali a cinco anos, onde queriam morar, onde queriam se casar e como.

     — Penso em um vestido longo, lindo, detalhado por belas rosas de renda que se estendem por todo o vestido. Penso também em me casar na igreja do Padre Joaquim.

     Ele é quem faz todos os casamentos lá na minha cidade. Daniel se interessa em imaginar Helena do jeito que ela acabara de se descrever para ele. Idealiza que seria interessante desposá-la, entretanto, sabe que é um rato sujo, sem moral, caráter e ética. Seria até um crime ele pensar em tal coisa.

     Casamento é algo sagrado. Algo que deve ser respeitado, coisas estas que ele desconhece. Não achem que sou exagerado; já, já, poderão ter ciência da indignação que percorre com ódio mortal as minhas veias.

     O jantar termina e ambos têm uma decisão difícil a tomar. A chama do calor que ultrapassa os séculos chega até os dois com fúria. Daniel decide apresentar seu apartamento a Helena. Ele apresenta não só o apartamento, mas também a sua cama, seu corpo, apresenta tudo aquilo que lhe foi ensinado pelo pai, pelo tio e pelo irmão.

     As horas se passam e a vida mostra a Helena que isto aqui não é uma peça shakespeariana, mas sim lamaçal, chorume, crueldade, solidão, realidade…

     Helena acorda em um lugar completamente diferente daquele em que fechara seus olhos.

     Viu-se num quarto completamente imundo, as mãos algemadas numa alça fixada à parede. Ela grita, ela chora, ela brada, mas é como se estivesse conversando com a parede. Parecia que algo a consumia por dentro, como uma chama, que queima tudo que vê.

     Não falo de pavor, pois tal sensação pode ser mensurável. Falo do sentimento de se defrontar com a camada mais áspera e medonha da maldade. Falo de olhar o diabo nos olhos e sentir suas garras adentrando sua garganta, falo do desespero de saber que o preparado para você é o maligno.

     Pense, leitor, se coloque no lugar de Helena, olhe para ela. Ela é você. Você está preso, você grita, você clama, você roga. Ouça o que seu coração lhe diz, ele fala o quê? Revela que está histérico? Temeroso? Conta-lhe que não aguenta nem sequer o peso da própria pele? Diz que anseia cravar as unhas no corpo e arrancá-la? Diga-me, leitor. O que te diz. Conta-lhe que sabe e por saber amaldiçoa a vida? Conta-te de medo? De receio? De raiva? Confidencia-lhe que prefere a morte ao invés do destino?

      Ah… Está assustado, caro leitor? Não fique, o pior ainda está por vir.

     As horas passam e um homem entra em seu quarto. Quando os olhos de Helena repousam sobre aquele ser, a incredulidade espanca seu corpo.

     — Não, não. Seu maldito. Maldito.

     — Oi, princesa. — Daniel se aproxima e acaricia o rosto de Helena, que hesita com nojo, como quem ingeriu o vômito, ao seu toque.

     — Tira a mão de mim. Desgraçado. Onde eu estou? Que lugar é esse?

     — Seu novo lar.

     — O quê? Me tira daqui agora. Me tira daqui. Seu desgraçado. Infeliz. Maldito. Maldito.

Daniel ri de Helena. Ele se levanta e dá um violento tapa no rosto da moça.

     — Cale a boca. É melhor se preparar, porque já, já, você começará. E é bom você não fazer besteira, sua puta. Ai de você se o cliente não gostar.

     Helena olha para Daniel apavorada, assustada, amedrontada. Não demora muito para as lágrimas se encontrarem com seu rosto outra vez. Ela se questiona com ódio de como pôde ter sido tão ingênua, tão burra.

     Daniel se retira do quarto rindo e debochando da moça. Não demora muito para Helena começar a sentir seu corpo débil, como se ele não obedecesse aos comandos de seu cérebro. Ela tenta buscar na memória algo, mas não encontra nada. A única coisa que vem é uma imagem ininteligível de alguém lhe aplicando um medicamento.

     Depois, com muita dificuldade, tenta buscar outra imagem, e vê alguém lhe dando um murro no rosto. Tenta reconhecer o rosto de quem o fez e se ira quando consegue.

     — Maldito.

     Ela grita mais uma vez, mas não há nada que possa fazer. Clama aos céus por uma gota de misericórdia, porém nada lhe é dado. Sempre digo que o que há na vida é senão dor. Não há quem consiga fugir desse sentimento. Sempre me questionei até onde a maldade humana iria. Até onde a perversidade de um homem seria capaz de chegar por ambição, por dinheiro.

     Disse-lhes que esta história era perigosa, adiantei-lhes sobre o mal que habita no coração do homem. Acreditais? Bom, espero que sim. Ah, coitada dessa moça.

     Não sei se tenho estômago para narrar o que acontecerá com ela, não me culpem, tenho em mim a humanidade, entretanto preciso dar o xeque-mate, preciso terminar esta história.

     A porta do quarto se abre e um homem alto e obeso, com tatuagens de demônios e animais que cobrem todo o seu rosto e corpo, entra. Ele fecha a porta e se aproxima da moça, retirando o cinto. Helena grita. Grita. Grita. E compreende ali, naquele momento, que não existe piedade, nem compaixão, que o que habita no mundo é a inevitável perversidade.

 

IN BOCCA AL LUPO! - Alberto Landi

 



 IN BOCCA AL LUPO!

Alberto Landi

 

Era um dia ensolarado, início de primavera em Roma, o Circo Máximo pulsava com a energia de uma multidão animada.

O grandioso estádio com sua arquitetura imponente, com arquibancadas repletas de torcedores, era um verdadeiro símbolo da vida romana.

Havia pessoas transitando pela via Appia, a principal estrada da cidade, todas a caminho para assistir as emocionantes corridas.

O Circo Máximo era um local emblemático em Roma, não apenas para esse tipo de evento, mas também como um espaço onde as intrigas políticas e sociais se desenrolavam. Era lá que o povo se reunia, a presença de figuras ilustres e poderosas como imperadores e governadores podiam influenciar a opinião pública.

As corridas eram uma forma de entretenimento, mas também serviam como uma plataforma para os políticos demonstrarem seu poder e ganharem a simpatia da população.

As vitórias e derrotas nesses eventos, poderiam refletir as alianças e rivalidades políticas da época. Além disso, era um local onde os cidadãos podiam expressar suas emoções, seja em apoio ou oposição a seus líderes.

Eu um jovem plebeu, sentia meu coração acelerar enquanto me misturava à multidão e mal podia esperar por essa competição.

O cheiro de pão fresco e vinho se espalhavam pelo ar, misturado ao clamor dos espectadores.

No centro do Circo erguia se a tribuna onde sentavam os membros do Senado e o Imperador Tibério, observando tudo com a seriedade que o evento exigia. Por convite do imperador, estava presente na tribuna o governador da Judeia, Poncio Pilatos.

A presença deles impactava o acontecimento e a tensão política da época, dando um ar mais grandioso à ocasião, onde todos sabiam que suas decisões poderiam ser influenciadas pela emoção do espetáculo. Além disso, poderia criar um contraste interessante entre a grandiosidade da competição e as intrigas do poder em Roma.

Os carros puxados por esplendidos cavalos estavam alinhados na pista.

Cada um era uma obra-prima adornada com cores vibrantes e símbolos que representavam suas respectivas equipes. Eu acompanhava os Verdes, eram conhecidos por sua velocidade e astúcia. Era adornada com tons vibrantes que refletiam a personalidade de seu condutor. Os emblemas ou insígnias que a decoravam poderiam representar a família ou alguma vitória anterior. A cor simbolizava a esperança, renovação e até mesmo a natureza, enquanto o branco podia representar pureza e honra. Juntas elas criavam uma imagem forte e memorável.

Essas cores impactavam a percepção do público durante a disputa, talvez os seguidores gritassem em apoio devido à beleza e da simbologia.

 Lúcios, um jovem aristocrata filho de uma família influente em Roma, buscava provar seu valor nas corridas para ganhar prestígio e a aprovação da família. Apesar de suas habilidades excepcionais como condutor, enfrentava intrigas e traições no Circo Máximo.

Ele trazia um legado forte, talvez seus antepassados tenham sido generais ou senadores do império romano. Isso criava uma pressão sobre ele para corresponder as expectativas familiares. Gostava de ser condutor, mas sua família preferia que ele seguisse a carreira política.

Quando os competidores estavam prontos para começar, a multidão se unia em um clamor ensurdecedor. E com um grito uníssono todos exclamavam:

— “In bocca al Lupo”.

 A energia no ar era palpável era como se aquele desejo de boa sorte pudesse realmente influenciar o resultado da corrida.

Enquanto as trombetas soavam e as bigas começavam a se mover, a adrenalina tomava conta de todos nós. Gritava com os outros torcedores, apoiando nossa equipe e tentando adivinhar quem seria o vencedor.

Elas cortavam a pista com uma força impressionante, os condutores habilidosos controlando os animais em um espetáculo de velocidade e coragem.

Lúcios, homem alto e destemido, chamava atenção e era conhecido por suas manobras ousadas e habilidade em ultrapassar os adversários. Quando ele se aproximava da curva mais apertada da pista, prendíamos a respiração.

Fazia um movimento audacioso, deslizando pela curva com uma destreza que parecia mágica. A multidão explodiu em aplausos e gritos de incentivo. Era como se estivéssemos correndo com ele.

No final da corrida quando cruzou a linha de chegada em primeiro lugar, não conseguimos conter nossa alegria. A vitória dos Verdes era celebrada como uma conquista épica!

Juntei-me a multidão que dançava e cantava celebrando não apenas a vitória, mas a emoção daquela experiência única.

A corrida não era apenas um evento esportivo, mas uma celebração da vida romana, uma demonstração de coragem e habilidade.

E naquele dia, não era apenas um espectador, era parte da história que se desenrolava diante de mim.

Mas ao acordar aqueles gritos vibrantes ainda ecoavam na memória     assim como a imagem dos corajosos cavalos galopando furiosos em busca da linha de chegada, desafiando os limites e a própria sorte!

 


quarta-feira, 14 de agosto de 2024

NAMORO À DISTÂNCIA - Dinah Ribeiro de Amorim

 





NAMORO À DISTÂNCIA

Dinah Ribeiro de Amorim

 

O amor é uma coisa estranha! Cada um o sente de uma maneira, quando o sente.

Às vezes, um gesto diferente, um olhar, uma atitude, uma palavra, desperta a atenção do outro e o amor brota, nasce uma chama no coração.

Se houver incentivo, ele desenvolve e inflama ou cria sementes, galhos e flores, como verdadeiro jardim.

Isso aconteceu com Izilda e Gilberto, através de simples troca de pensamentos, comunicação de postais, cartas e e-mails pela Internet.

Começaram em um site de intercâmbio e, sem se conhecerem, nem troca de fotos, iniciaram pequena conversação.

As ideias entre eles foram tão interessantes, os pensamentos a respeito de tudo tão semelhantes, que isso durou uns dois anos.

Ele, um corretor de imóveis e, ela, uma vendedora de artesanatos em pequena feira.

Incrível a dependência um do outro, a combinação dos horários, o olhar prazeroso que demonstram quando ligam o computador e iniciam o diálogo. Parecem crianças quando avistam brigadeiros em festa de aniversário.

O silêncio que exigem ao redor, a atenção que fixam na tela, a compreensão que se estabelece.

Izilda transforma a vida solitária e triste, o trabalho exigente, a ausência de notícias alegres, em momentos de sorrisos e prazer.

Refletia felicidade naquele horário do dia, que Gilberto chamava.

Queria sempre notícias de lá, Portugal, através do computador.

Ela, brasileira, falava do seu dia aqui. Ele, português, do seu dia de lá.

Assim foi nascendo aquela amizade que se transformou em hábito diário, convivência virtual, amor.

Gilberto, ansioso, com o tempo, queria conhecê-la, vir ao Brasil.

Izilda, com imensa vontade de tê-lo, se não viesse, faria o impossível, iria até ele.

Já economizava um pouco, imaginando uma viagem surpresa. Quem sabe, iria antes dele e, como toda mulher decidida e apaixonada, realizaria seu sonho.

Guardava, no íntimo, um pequeno segredo. Com tanto tempo de conversa e intimidade, escondia dele algo que sempre a preocupou em relacionamentos amorosos, era deficiente visual.

Utilizava, ao falar com ele, um computador em braile. Suas frases eram traduzidas na linguagem comum, para ele, e, as dele, para o braile, no computador dela.

Isso a entristecia porque sempre foi um problema a enfrentar e, agora, tão interessada nele, o problema se torna maior.

Aconselhou-se com amigos íntimos, como deveria agir. Falar francamente de sua deficiência ou deixar acontecer, quando a visse.

Gilberto, também ansioso, estranha seu silêncio, deixando-o alguns dias sem comunicação.

Ignora que a amada brasileira anda confusa. Insiste em chamá-la, mas ela não responde. Seria alguma doença?

Ele também andava aflito, preocupado, desde que falou em vir ao Brasil.

Será que ela gostaria dele, do seu aspecto físico?

Sentiu-se inseguro, anos atrás, muito tímido na presença de moças, futuras namoradas. Agora, amadurecido, preparado, queria ir até o Brasil para conhecer Izilda. Venceu seus problemas, mas...

Ela, incentivada pelos amigos experientes, desiste de viajar e decide contar-lhe, por e-mail, a sua deficiência. Que angústia! Aguarda, em dúvida, a sua reação.

Alguns dias se passam e Izilda também se aflige com o silêncio de Gilberto. “Com certeza, ficou impressionado e aborrecido, não me ligará mais”.

Espantada, atende-o no horário costumeiro, após certo tempo. Desculpa-se pela demora alegando um resfriado súbito.

Izilda percebe-o calmo, conversa normalmente, nada revela medo ou constrangimento. Já em preparo, animado, para vir ao Brasil, conhecê-la, pede informações sobre sua localização.

E agora, preocupa-se ela, como fará para recebê-lo? A vida, o trabalho, no seu caso, é difícil e, embora acostumada, lidar com uma visita estranha, mesmo do seu gosto, causa-lhe inibição. Conta com uma amiga especial, Anita, que a auxilia nas dificuldades, mas, em namoro, a situação é outra.

Anita promete ajudá-la, mas sente também um pouco de medo. Qual será a reação com uma intermediária, entre eles?

Munido de passaporte e passagem comprada, Gilberto avisa o dia e a hora que chegará ao Brasil, pedindo para ir encontrá-lo no aeroporto de Guarulhos.

Começa a preocupação em Izilda, mas a curiosidade e a vontade de conhecê-lo é mais forte, o amor que sente por ele e a sua vinda, domina a sua deficiência. Pena não poder vê-lo, mas tê-lo perto já é o suficiente.

Junto a Anita, a amiga fiel, tomam um taxi rumo ao aeroporto, no horário combinado e ficam à espera.

O avião, após um voo tranquilo, chega na hora certa, e pousa, suave, no chão.

As jovens, rápidas, dirigem-se ao desembarque dos passageiros. Combinaram de se identificarem com os nomes escritos num papel, colado às roupas, semelhante ao encontro de turistas que procuram seus guias.

À medida que vão chegando, Anita vai descrevendo para Izilda como são e, nenhum, por enquanto, vem com a etiqueta de Gilberto.

Izilda, preocupa-se em perdê-lo, será que Anita se distraiu? A demora é grande.

Por último, vem alguém com o nome de Gilberto, colado.

— Chegou, grita Anita.

Caminha devagar, amparado por uma aeromoça, um rapaz alto, bonito, portando óculos, bengala e um cão guia. É Gilberto, também um deficiente visual, que é dirigido às moças, o namorado de Izilda.

Após o espanto e a curiosidade geral, Anita ajuda-os a saírem dali. Vão em direção à casa da jovem enamorada, meio aturdida com a novidade.

O tempo, esse companheiro constante, passa rápido e, Gilberto, permanece no Brasil. Forma com Izilda mais um casal de deficientes visuais, como muitos corajosos, que existem, na cidade de São Paulo.

São felizes? Com certeza, sim, após treinamento adequado e conhecimento melhor um do outro.

Tiveram filhos? Também sim, sendo pais dedicados e cuidadosos.

Ah! As duas filhas não nasceram com deficiência.

Cuidam dos pais, até hoje.

 

 

 

 

 

O SONO DE AMÉLIA - Helio Fernando Salema

 



O SONO DE AMÉLIA

Helio Fernando Salema

 

 

 

A festa junina do bairro estava no auge. Música alegre, grupos dançando quadrilha e a fogueira acesa. Em cada barraca, rigorosamente enfeitada, muita variedade de comidas típicas, todas elaboradas pelas mãos experientes das senhoras, que orgulhosamente exaltavam suas particularidades.

 

Amélia, uma jovem de pouco mais de vinte anos, corre para sua casa chorando, sem que ninguém perceba. Entra ofegante, quase tropeçando nas próprias pernas e vai diretamente para o seu quarto. Ao aproximar de sua cama se atira como se estivesse indo para outro mundo.

 

Seus pais chegam muito depois. Sua mãe, D. Esmeralda, ao ver a porta do quarto aberta se espanta, mas ao perceber que a filha estava deitada e acreditando que ela dormia pelo cansaço da festa, encosta a porta, para que ninguém a incomode.

 

No dia seguinte, todos se levantam e se dirigem a mesa de café. Em seguida percebem a ausência de Amélia. Enquanto o pai e o irmão tomavam café, sua mãe preocupada vai ao quarto da filha chamar por ela. Não obtendo resposta fica mais assustada ainda.  Na dúvida se acorda a filha ou a deixa descansar mais um pouco, opta pela segunda. E o coração de mãe que coloca a vontade da filha acima de qualquer coisa.

 

Depois que todos terminaram o café, seu irmão lembrou que Amélia lhe disse, no dia anterior, que iria cedo sair com a amiga Clélia para visitar alguém que estava se recuperando de uma cirurgia. Então, D. Esmeralda decidiu chamá-la.

 

Junto à porta repetiu o nome da filha várias vezes sem ter resposta. Caminhou, vagarosamente, até a cama. Muito levemente, colocou sua mão no braço da filha e não percebendo nenhuma reação sacudiu… Outra vez, mais uma… E veio o desespero. Começa a gritar por socorro. Marido e filho chegam e veem uma cena terrível. Mãe ajoelhada junto a cama da filha, em prantos, enquanto a filha sem reação alguma.

 

O irmão tenta animar Amélia e percebe que ela respira. Pede para o pai correr para o carro. Com todo cuidado a carrega e consegue colocá-la no colo do pai que estava sentado no banco traseiro. Grita com a mãe que Amélia está respirando, está viva.

 

No hospital, o médico de plantão a examina e confirma que os sinais vitais estão normais. A coloca no soro para mantê-la até que outros médicos possam examinar e dar uma resposta mais precisa.

 

A junta médica, após examinar a paciente, exaustivamente, conclui que ela poderá permanecer assim por um longo tempo ou até mesmo voltar ao normal a qualquer momento. Completa recomendando alguns cuidados e sem receber visitas, somente as do médico.

 

Depois de algumas visitas dos médicos, uma amiga tentou relatar para eles o que talvez fosse a causa. Porém, eles não quiseram ouvir.

 

Amélia sempre foi uma pessoa muito sensível. Muitas vezes chorava ao saber do falecimento trágico de alguém que ela jamais ouviu falar. Ficava muito triste ao ser contrariada ou receber uma crítica. Sempre foi a grande preocupação de seus pais.

 

Os dias foram passando, D. Esmeralda sempre cuidando da filha e se definhando. Estava no quarto observando a imobilidade de Amélia e como sempre fazia, rezando. Ao ouvir a campainha, sai apressada e desta vez esquece de fechar a porta. Era a vizinha que desejava saber notícias de Amélia para informar ao Padre Gerônimo, que sempre perguntava.

 

Enquanto isso, a porta do quarto permaneceu aberta, o cachorrinho que sentia tanto a falta da sua amiga, aproveita e entra. Sobe na cama e começa a se esfregar no braço, na mão e finalmente no rosto da Amélia:

— Din Dinho!!! Você veio me acordar. Amélia, aos gritos.

 

 

 

MINHA VIDA SOB NOVA DIREÇÃO: TININHA! - Dinah Ribeiro de Amorim

 



MINHA VIDA SOB NOVA DIREÇÃO: TININHA!

 Dinah Ribeiro de Amorim

 

 

Minha neta é sócia de um clube perto de casa, o estádio do Morumbi São Paulo.

Geralmente, gatas e cadelas passeiam muito por lá e, quando estão prenhas, perto de dar à luz, escondem-se nos lugares mais estranhos, no meio das plantas.

Encontrou, certa tarde, uma cadelinha recém-nascida, quase morta, com frio, fome e sede.

Trouxe-a para casa, mas, sabendo que o pai não gosta de bichos, pediu-me para ficar com ela.

Não teve jeito, lá fui eu cuidar de Tininha, nome que escolhi, cheia de dó e compaixão.

Como não havia desmamado, chorava a noite inteira, acordando os vizinhos, do meu prédio pequeno, principalmente um senhor irritadiço que mora no andar debaixo. Ele batia com a bengala até eu pegar Tininha nos braços e fazê-la dormir. Enfiava a cabecinha nos meus cabelos e dormia, acho que confundia com os pelos da mãe.

Foi mesmo uma movimentação na minha vida.

Aos poucos, foi se recuperando e, quando eu acordava, era um tal de abaixar e levantar, jogar no lixo os jornais que forravam o chão da cozinha, limpar as sujeirinhas que fazia nos lugares mais estranhos, embaixo do fogão, da geladeira, do armário, nunca nos lugares que eu preparava, nem no tapete higiênico que havia comprado para ela.

Com isso, minha coluna foi para caos total. Abaixa, levanta, limpa, cruzes, nem podia comigo. Agora, um cachorrinho.

Tininha foi crescendo, comendo, tomando vitaminas, recebendo visitas ao veterinário, descobriu-se que era um Labrador, ficaria alta e forte.

Não poderia ficar muito tempo comigo, em apartamento pequeno.

Ficou linda. Comparei-a com uma antiga pintura de cães, de anos atrás. Era idêntica. Parecia coisa de destino.

Aonde eu ia, ela ia loga atrás. Se não deixava, chorava.

Ganhou brinquedos, casinha, berço, mas queria colo, dormia comigo.

Como era ainda nova, fui aconselhada a não a levar à rua. Poderia pegar algum vírus.

E eu, em casa, com ela.

Fui me afeiçoando muito a essa cachorrinha e ela a mim. Até hoje, quando lembro, me comovo e quase choro.

Tive que dá-la, por sorte, a uma amiga que mora em sítio e queria um Labrador.

Surgiu uma viagem à Europa, meio longa, e não tinha com quem a deixar.

Quando a amiga me disse que havia um lago e, essa raça gosta muito de água, não tive dúvidas, deixei-a ir.

Que saudades de Tininha.

Deve ter ficado uma linda cadela, bege claro, de bonito porte.

Nos dias que ficou comigo, modificou mesmo a minha vida.

Levanto, às vezes, de manhã, olho para a cozinha, parece que vejo, num relance, um bichinho gracioso, peludo e saltitante, alegre a me esperar.

Lembro-me dela. Como estará Tininha?

 

 

Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...