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quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Como empregar os numerais no texto - NUMERAIS

  

Numeral – O que é

Os numerais são palavras que se referem ao número de seres ou ao seu número de ordem.

Classifica-se o numeral em:

a) cardinal
b)
 ordinal
c) 
multiplicativo
d)
 fracionário

Quanto à flexão o numeral pode ser:

O NUMERAL CARDINAL

É aquele que indica a sucessão natural dos números. São eles: um, dois , três., quatro, cinco, seis, sete, etc.


O NUMERAL ORDINAL

É aquele que indica ordem numa série. São eles: primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo…

O NUMERAL MULTIPLICATIVO

É aquele que indica multiplicação da quantidade numérica. São eles: duplo ou dobro, triplo ou tríplice, quádruplo, quíntuplo, sêxtuplo, séptuplo, óctuplo

NUMERAL FRACIONÁRIO

É aquele que indica, exprime e dá ideia de divisão de quantidade fracionária. São eles: meio ou metade, terço, quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo…


Como distinguir: ARTIGO UM e NUMERAL UM?

UM – UMA só são numerais quando designamos a unidade

Exemplo:

Com uma só mão, Pedro levantou a saca de café.

Reparem que neste caso ele se opõe a dois, três, quatro, etc.

As formas de plural: uns, umas pertencem exclusivamente ao artigo indefinido.

Podemos portanto dizer que: sempre em dada frase, pudermos passar para o plural as palavras um – uma e exigir o emprego de uns ou umas, trata-se de artigo indefinido e não de numeral. E se o plural de um , uma for dois, duas, ou melhor, se opõe a dois, três, quatro, é um numeral

Algumas observações

Em se tratando na nomenclatura de papas, reis, e na designação de séculos, capítulos de livro e artigos e parágrafos de lei, os numerais ORDINAIS são sempre empregados até DEZ e os numerais CARDINAIS de ONZE em diante

Exemplo:

D. Pedro primeiro.
Luís quinze.
D.. Henrique Oitavo
Papa Pio Nono
Papa Pio Doze
Papa João Oitavo
Papa João Vinte Três
Quarto século
Século XX (= Século vinte)
Artigo nono.
Parágrafo quinto.
Artigo treze
Parágrafo quinze.


 Nota – Geralmente, até dez, vem o cardinal antes do substantivo e por extenso na indicação do século. Porém, de onze em diante, o CARDINAL é usado em numeração ROMANA e depois do substantivo.

O numeral MEIO flexiona en gênero e número com o substantivo a que ele se refere, passa a ser numeral adjetivo.

Exemplo:

Comprei quatro quilos e meio de galinha.
Falei três horas e meia.
Andei três horas e meia
Há numerais que indicam coleção.
Casal, dezena, centena, cento, par, milhar, dúzia, grosa, ambos, quarteirão (= grupo de 25), semana, quinzena, quarentena.

Estes numerais flexionam-se em número como:

Casais
Dezenas
Centenas

Numeral – Palavra

Numeral é a palavra que quantifica exatamente os seres ou indica a sua posição relativa numa série: dois, dez, cem, décimo, quíntuplo, dobro, dois terços, um quarto, um vinte avos, ambos etc.

Cardinais: esclarecem a quantidade

Os numerais cardinais um, dois e as centenas a partir de duzentos sofrem flexão de gênero.

um balão dois balõesuma bola duas bolasduzentos homens duzentas mulherestrezentos carros trezentas motos

Milhão, bilhão e trilhão têm flexão de número.

um milhãodois milhõestrês bilhõescem trilhões

Ambos (que substitui o cardinal os dois) sofre flexão de gênero.

Trazia ambos os chapéus sujos. Usava ambas as mãos para cumprimentar.

Ordinais: indicam a ordem em determinada série.

Todos os numerais ordinais sofrem flexão de gênero e de número.

primeira mãosegunda mãovigésimo diavigésimos colocados

Multiplicativos: indicam a multiplicação

Os multiplicativos são invariáveis se usados como substantivos. Sofrem flexão quando usados como adjetivos.

Tenho o dobro disso (dobro = substantivo)  Pedira dois uísques duplos. (duplos = adjetivo)

Fracionários: indicam o fracionamento, uma divisão

Os fracionários flexionam-se conforme a flexão do numeral cardinal que faz parte da fração.

um quartodois quartostrês quartos
meio deve concordar em gênero com o designativo da quantidade de que é fração. Duas quadras e meia [quadra]. Meio-dia e meia [hora].


CardinaisOrdinaisMultiplicativosFracionários
UmPrimeiro(simples)
DezDécimoDécuplodécimo
Catorzedécimo quartocatorze avos
Setecentosseptingentésimoseptigentésimo


Coletivos

Os coletivos indicam um conjunto de elementos com número exato.

Bíduo (período de dois dias)decálogo (conjunto de dez leis)trinca (agrupamento de três coisas)

Leitura e escrita dos numerais

Para os cardinais devemos intercalar a conjunção e entre as unidades, as dezenas e as centenas: 46 = quarenta seis 763 = setecentos e sessenta e três

Entre o milhar e a centena, não se emprega a conjunção e: 1996 = mil novecentos e noventa e seis

Emprega-se a conjunção e entre os elementos de uma mesma ordem, omitindo-a quando ordens diferentes: 862 743 = oitocentos e sessenta e dois mil, setecentos e quarenta e três.

Numeral – Frase

Entre as palavras que se relacionam, na frase, ao substantivo há também o numeral.

Exemplo

Comprou duas caixinhas de música.

Numeral é a palavra que se refere ao substantivo dando a ideia de número.

O numeral pode indicar:

Quantidade

Choveu durante quatro semanas.

Ordem

terceiro aluno da fileira era o mais alto.

Multiplicação

O operário pediu o dobro do salário.

Fração

Comeu meia maça.

Classificação do Numeral

Cardinal: Indica uma quantidade determinada de seres.

Ordinal: Indica a ordem (posição) que o ser ocupa numa série.

Multiplicativo: Expressa a ideia de multiplicação, indicando quantas vezes a quantidade foi aumentada.

Fracionário: Expressa a ideia de divisão, indicando em quantas partes a quantidade foi dividida.

 

Quadro dos principais numerais

Numerais Cardinais

Numerais Ordinais

Numerais Multiplicativos

Numerais Fracionários

um

primeiro

dois

segundo

dobro

meio

três

terceiro

triplo

terço

quatro

quarto

quádruplo

quarto

cinco

quinto

quíntuplo

quinto

seis

sexto

sêxtuplo

sexto

sete

sétimo

sétuplo

sétimo

oito

oitavo

óctuplo

oitavo

nove

nono

nônuplo

nono

dez

décimo

décuplo

décimo

onze

undécimo

undécuplo

onze avos

doze

duodécimo

duodécuplo

doze avos

treze

décimo terceiro

treze avos

quatorze ou catorze

décimo quarto

quatorze avos

quinze

décimo quinto

quinze avos

dezesseis

décimo sexto

dezesseis avos

dezessete

décimo sétimo

dezessete avos

dezoito

décimo oitavo

dezoito avos

dezenove

décimo nono

dezenove avos

vinte

vigésimo

vinte avos

trinta

trigésimo

trinta avos

quarenta

quadragésimo

quarenta avos

cinqüenta

qüinquagésimo

cinqüenta avos

sessenta

sexagésimo

sessenta avos

setenta

septuagésimo

setenta avos

oitenta

octogésimo

oitenta avos

noventa

nonagésimo

noventa avos

cem

centésimo

cêntuplo

centésimo

duzentos

ducentésimo

ducentésimo

trezentos

tricentésimo

trecentésimo

quatrocentos

quadringentésimo

quadringentésimo

quinhentos

qüingentésimo

qüingentésimo

seiscentos

seiscentésimo

sexcentésimo

setecentos

septingentésimo

septingentésimo

oitocentos

octingentésimo

octingentésimo

novecentos

noningentésimo

nongentésimo

mil

milésimo

milésimo

milhão

milionésimo

milionésimo

bilhão ou bilião

bilionésimo

bilionésimo



Flexão do Numeral

Variam em gênero: os cardinais um, dois e os de duzentos a novecentos; todos os ordinais; os multiplicativos e os fracionários quando expressam uma idéia adjetiva em relação ao substantivo.

Exemplos:

um-uma.
dois-duas.
segundo-segunda.
septuagésimo-septuagésima.
João deu um salto duplo e um triplo e tomou uma dose quádrupla de vitaminas.
Comi meio abacate e meia banana.

Número do Numeral

Variam em número: os cardinais terminados em ão(bilhões de dólares foram perdidos com a crise), todos os ordinais(as primeiras pessoas passaram no teste), os multiplicativos com função de adjetivo(Tomei dois copos duplos de leite), os fracionários, dependendo do cardinal que os antecede(Gastou dois terços do salário).

Numeral – Classe

Classe que expressa quantidade exata, ordem de sucessão, organização.

Os numerais podem ser:

Cardinais

Indicam uma quantidade exata

Exemplo: quatro, mil, quinhentos

Ordinais

Indicam uma posição exata

Exemplo: segundo, décimo

Multiplicativos

Indicam um aumento exatamente proporcional.

Exemplo: dobro, quíntuplo

Fracionários

Indicam uma diminuição exatamente proporcional

Exemplo: um quarto, um décimo

DICAS

Numeral (cinco, segundo, um quarto) é diferente de número (5, 2º ,1/4). Evite usar números em seu texto. Eles deverão ser usados para dados, estatísticas, datas, telefones…

Leitura dos numerais

Numeral antes do substantivo

A leitura será ordinal: X volume- décimo volume; XX página- vigésima página

Numeral depois do substantivo

A leitura será ordinal de 1 a 10:

volume X– volume décimo
página XX
– página vigésima

A leitura será cardinal de 11 em diante:

pauta XII
pauta doze
século XX
século vinte

Numeral – Quantidade

Palavra que indica quantidade, número de ordem, múltiplo ou fração.

Classifica-se como:

Cardinal (1, 2, 3, …)

Ordinal (primeiro, segundo, terceiro, …)

Multiplicativo (dobro, duplo, triplo, …)

Fracionário (meio, metade, terço).

Além desses, ainda há os numerais coletivos (dúzia, par etc.)

Valor do Numeral

Podem apresentar valor adjetivo ou substantivo. Se estiverem acompanhando e modificando um substantivo, terão valor adjetivo. Já se estiverem substituindo um substantivo e designando seres, terão valor substantivo.

Ex.: Ele foi o primeiro jogador a chegar. (valor adjetivo) / Ele será o primeiro desta vez. (valor substantivo)

Emprego

Ordinais como último, penúltimo, antepenúltimo, respectivos… não possuem cardinais correspondentes

Os fracionários têm como forma própria meio, metade e terço, todas as outras representações de divisão correspondem aos ordinais ou aos cardinais seguidos da palavra avos (quarto, décimo, milésimo, quinze avos etc.)

Designando séculos, reis, papas e capítulos, utiliza-se na leitura ordinal até décimo; a partir daí usam-se os cardinais. (Luís XIV – quatorze, Papa Paulo II – segundo)

Observação

Se o numeral vier antes do substantivo, será obrigatório o ordinal (XX Bienal – vigésima, IV Semana de Cultura – quarta)

Zero e ambos /as (chamado dual) também são numerais cardinais. 14 apresenta duas formas por extenso catorze e quatorze.

A forma milhar é masculina, portanto não existe “algumas milhares de pessoas” e sim alguns milhares de pessoas

Alguns numerais coletivos

grosa (doze dúzias)

lustro (período de cinco anos)

sesquicentenário (150 anos)

Um – numeral ou artigo?

Nestes casos, a distinção é feita pelo contexto. Numeral indicando quantidade e artigo quando se opõe ao substantivo indicando-o de forma indefinida

Flexão

Varia em:

gênero
número

Variam em gênero

Cardinais: um, dois e os duzentos a novecentos; todos os ordinais; os multiplicativos e fracionários, quando expressam uma idéia adjetiva em relação ao substantivo

Variam em número

Cardinais terminados em -ão; todos os ordinais; os multiplicativos, quando têm função adjetiva; os fracionários, dependendo do cardinal que os antecede

Os cardinais, quando substantivos, vão para o plural se terminarem por som vocálico (Tirei dois dez e três quatros).

Fonte: www.graudez.com.br/br.geocities.com/www.weblinguas.com.br

Origem desta publicação: PORTAL SÃO FRANCISCO




quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Lembranças de tempo que não volta mais - ALBERTO LANDI

 


Lembranças de tempo que não volta mais

ALBERTO LANDI

 

A casa em que viemos habitar na pequena aldeia de Moncaras, no Alentejo, no outono do ano de 2012, era conhecida na vizinhança e em toda a aldeia como a casa de salmão, devido a cor de sua pintura, era a casa de minha família, os Ferreira.

Era um sombrio casarão de paredes internas pintadas de branco que dava a sensação de amplitude do ambiente, com 2 salas e 2 quartos.

A princípio tinha um aspecto triste, pois havia muitos anos que não era habitada, desde o falecimento de meus avós, há 12 anos.

Parecia mais uma residência eclesiástica.

Ao fundo da casa havia um quintal bem simples, abandonado pelas ervas daninhas, um pequeno cipreste, uma pequena cascata seca e uma estátua mediana em mármore logo reconhecida por ser uma réplica de Leda e o Cisne.

Segundo a mitologia Leda foi rainha de Esparta e Zeus transfigurado em cisne, objetivando seduzi-la.

Os Ferreira, era uma antiga família do Alentejo, sem muitas parentelas.

No interior da casa em uma das salas, havia uma bela tela de Van Gogh toda pintada de amarela e uma outra de uma mulher com tricorne de plumas   e vestido cor escarlate típico de uma caçadora inglesa, tendo como fundo uma paisagem enevoada.

Na outra sala, bem menor, um piano, duas tapeçarias de Gobelins, em tons cinza, e algumas faianças portuguesas produzidas na aldeia de Juncal.

Uma tela de Rubens, uma antiga relíquia da casa de meus avós, um Cristo na cruz, destacando   nudez sobre um céu de poente revolto e rubro.

 

Os quartos bem modestos e confortáveis, com tapetes artesanais da vila de Arraiolos e, 2 camas de casais, uma em cada quarto, em madeira de carvalho.

A aldeia de Moncaras tem magnificas histórias de reis audazes, cavaleiros templários e damas de belezas singulares.

A aldeia é constituída de pequenas ruas empedradas e que mantém a memória de muitas vidas que por ali passaram.

Há pequenos monumentos megalíticos que nos leva através dos tempos.

Há um turismo dinâmico, atraído pelo rico patrimônio cultural e gastronômico,

Há uma pequena igreja do século 16, a  Nossa Senhora de Monsaraz, de estilo gótico.

A parte frontal da igreja é decorada por um painel de azulejos e uma Cruz da Ordem de Cristo.

Em seu interior há um misterioso túmulo de um cavaleiro templário desconhecido.

Bem em frente à igreja, há um Pelourinho oitocentista.

Além das ruas empedradas, há uma grande rua principal, onde fica o pequeno comércio de artigos da região e também o centro gastronômico,

No interior da igreja um fato curioso, é que havia algumas telas de Portinari, o que mostra a ampliação de seu acervo cultural.

A pequena aldeia era muito interessante para visitação.

Sobre o altar principal, havia uma tela que mostrava Jesus e os apóstolos.

 

Foi nessa pequena aldeia, que fui morar, após anos de trabalho em cidades grandes, até chegar minha aposentadoria.

A casa de salmão, como era chamada foi uma herança de meus avós para mim, e também foi aqui que encontrei paz e tranquilidade junto com a família para desfrutar minha vida.  

Devo aos meus ancestrais que se sacrificaram muito no decorrer da vida, para que um dia pudesse ter uma vida melhor.

Não há palavras para homenageá-los|  

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

O DIA EM QUE ELA VOLTOU - Leon Vigliengo

 




O DIA EM QUE ELA VOLTOU

Leon Vigliengo

 

 

Quantas vezes a nossa mente nos libera memórias que nos trazem fortes emoções e nos fazem sonhar, mesmo acordados...

Quando eu era ainda muito pequeno, os meus pais foram morar provisoriamente na casa de meus avós maternos, no bairro do Bom Retiro, na Rua Ribeiro de Lima, 444, bem próximo ao Jardim da Luz, onde sempre me levavam para passear e brincar.

Ainda me recordo dos coquinhos amarelinhos que se destacavam no gramado muito verde e bem cuidado; muito doces, seus fiapos ficavam presos em meus dentes após saboreá-los. O verde das árvores predominava no Jardim, difundindo uma sensação de tranquilidade, e meu pai sempre encontrava e me mostrava algum bicho-preguiça movendo-se lentamente entre os galhos de alguma jaqueira, cujos frutos me impressionavam por seu tamanho. Lembro-me ainda de um lago redondo que lá existe, onde viviam muitos peixes coloridos. Enfim, o Jardim da Luz era um ótimo local para divertir e mostrar novidades a um menino de quatro ou cinco anos.

Naquela época, início da década de 1950, viviam no bairro, em casas modestas e até em porões, muitos imigrantes italianos, poloneses, espanhóis, portugueses, e uma representativa colônia judaica, todos contribuindo com seus hábitos culturais e seus sotaques para a formação de uma interessante e amistosa comunidade. As ruas do bairro e de quase toda a cidade eram calçadas com paralelepípedos, muitas ainda de terra batida, e à noite apresentavam uma iluminação fraca e com muitas sombras.

A casa de meus avós era de bom tamanho, embora antiga e modesta, daquelas que tinham a porta de entrada diretamente na rua, como era bastante comum na região. Se bem me recordo, tinha dois quartos, uma boa sala de jantar e uma área de passagem, ligados por um corredor que ao final passava por um banheiro e chegava à cozinha, lugar preferido por meu avô Manoel. Lá também ele recebia os amigos que vinham visitá-lo, como era costume naquela época. Lembro-me bem do senhor Domingos, que sempre me trazia garrafinhas de chocolate com licor.

Em sequência à cozinha vinha um patamar e uma escada que descia ao quintal, onde as roupas lavadas por minha avó quaravam sobre folhas de zinco, nas quais eu costumava arranhar as minhas pernas quando pedalava o meu velocípede, sempre seguido da Bolinha, a cachorrinha da casa.

No quintal, ladeando a cozinha e o banheiro, havia um corredor bem sombreado, largo e sempre fresquinho, com muitas avencas, begônias e samambaias cuidadas por minha avó Camila; nesse corredor estavam duas passagens abertas para o porão, que se estendia por baixo de toda a casa.

Um quartinho na lateral dos fundos do terreno, onde meu avô guardava algumas ferramentas, e um pequeno galinheiro ao lado desse quarto completavam a área.

Nesse ambiente reinava Dona Camila. Espanhola, muito católica, com o seu jeito altivo e seus conceitos austeros, próprios da época e de suas origens, viera para o Brasil já casada, mas ainda jovem, na década de 1910. Ela e meu avô, que por profissão conduzia trens como Maquinista da São Paulo Railways, conseguiram estabelecer-se em São Paulo e criar suas quatro filhas. A mais velha, porém, minha tia Rosalia, adoentou-se e faleceu aos dezenove anos. Um mês depois o sofrimento dessa perda já havia marcado de branco todos os cabelos de Dona Camila, que contrastavam com a sua vestimenta inteiramente de cor preta pelo luto que manteve durante todo o restante de sua vida. Suas três filhas se casaram e os sete netos que vieram lhe deram grande alegria, mas nunca se reduziu o seu sofrimento pela morte de sua filha.

Havia uma creche na esquina com a Rua Prates, onde ela me levava para brincar com as crianças. Desconfia-se que foi lá que peguei catapora, caxumba e sarampo, ficando imunizado para essas doenças. Durante o tempo em que morei com os meus pais em sua casa pude sentir todo o amor que uma avó tem por seus netos. Nada que eu fizesse era errado, eu tinha a companhia permanente e o total apoio dela, mesmo nas traquinagens. Ela ria feliz e me incentivava sempre. Esse relacionamento de convívio durante a primeira infância criou raízes muito profundas que permaneceram para sempre.

São memórias muito antigas, e o tempo as havia escondido de minha lembrança.

O meu avô Manoel faleceu em 1956 e a minha avó Camila em 1970.

Foi num domingo de 2019. Voltei para casa bastante cansado, mas feliz, após fortes pedaladas num longo percurso de bicicleta, como os de meu costume aos domingos. Após almoçar com muita gula e exagero, sentei-me no sofá da sala para assistir a um filme na televisão. Aos poucos, porém, o sono me alcançou e as imagens ficaram instáveis; ora sumiam, ora voltavam, até que sumiram de vez.

Não sei quanto tempo depois ela apareceu. Inicialmente apenas um vulto em um cenário escuro, que foi clareando até a nitidez. Ali estava a minha avó Camila a me olhar e sorrir para mim, depois de quase cinquenta anos de saudades. Mesmos cabelos brancos, mesmas vestimentas pretas; nada disse, não foi necessário. Amigos e cúmplices se entendem sempre, a qualquer tempo.

Acordei chorando pela emoção e pela saudade. Nesse dia ela voltou.


Encontro misterioso - Alberto Landi

  Encontro misterioso Alberto Landi A nave da Catedral de Chartres era ampla e alta; colunas robustas sustentavam os arcos que pareciam subi...