Papai
Pedro Henrique
Adentrei na boca preciosa do tempo, nadei por suas vísceras, pulei em seu coração, berrei em seus orifícios… Defrontei-me com aquele rapaz jovem, esbelto e sorridente que há muito abandonei nas vielas de algum lugar qualquer. Comi as migalhas que dele restaram e, de certa forma, o reconheço, ainda em mim. Sei que nem eu, nem a morte, muito menos o Alzheimer, poderão obliterá-lo da minha existência.
Caminhei aqui com a casca morta do que sou e acho que hoje há de emergir em mim coragem para traçar a rota rumo ao lugar profano do meu pecado e de tudo isso que me envolve e constrange.
Sou um homem de muitas faces, e algumas delas não me consagram à glória. Vivi tal qual todos: sorrisos, afetos, dramas e deleites. Sou filho de duas pessoas que aprenderam a duras penas que talvez a união não seja para todos. Logo, fui enterrado no porão das brigas e do caos. Tive, na infância, o dilema de defrontar-me com o espetáculo de dois adultos, os quais haviam de se berrar muito, bater o quanto conseguem e xingar o outro com palavras que cortam a carne com fúria e lágrima.
Lembro de olhar ao redor e ver, por trás do manto que envolvia meu corpo, a minha única presença naquele teatro. Sei que o diretor pairava entre nós com suas vestes sujas, derramando medo e angústia naquele pobre garoto que não teve culpa de se forjar no ventre de Satã. Foi preciso aprender a trançar a própria existência para não cair no mesmo abismo que seus pais.
Então, surge a adolescência com todos os seus encantos e fulgores, e a paixão angaria a terra e a fertiliza, ou seja, o jovem rapaz transmuta-se em homem que descobriu na carne o prazer da vida.
Quando tinha 16 anos, foi domado por uma menina cuja cintura cantava nas madrugadas a fundo e teve com ela seu primeiro filho. Um belo fruto que nasceu para dizer aos homens daquela família que o passado resigna-se no passado e que, doravante, tudo pode ser escrito por outra caligrafia, a qual dará vida a novos vocábulos e frases.
Meu filho, meu precioso garoto, deu-me a alegria de ver a vida sob o mar da criatividade. Ele era tão diferente de mim, não tinha medo de nada, sentia a terra correr por seus poros e sabia que tinha de pegar a existência nas mãos sem deixar nada.
Acredito que herdou isso de sua mãe. Ela sabia que, se o vento viesse lhe visitar, você precisava abrir a porta, convidá-lo a sentar-se e contemplar o quão valioso era aquele momento.
E os anos foram se seguindo; tudo, pouco a pouco, ganhou textura, forma, vigor. A mão do homem construiu, sim, com outra caligrafia, um novo roteiro.
Já a caminho da velhice, há uma nova peça que se descortina para mim. No fundo, uma velha, de roupas rasgadas, andar corcundo e olhos curiosos e astutos, se apresenta, vai até minha esposa e beija sua boca, levando-a para o fundo do palco e empurrando-a na terra fúnebre da qual gozam os mortos.
Em seguida, meu querido amor, meu lindo filho, que não tinha culpa de nada, e mesmo assim foi levado. Por que eu fiquei? É tão injusto eu ter ficado. A vida passou a ganhar novos tons. Seus textos passaram a ser escritos com a mão sangrenta de um homem semimoribundo que desistiu de tocar a vida. Até que outro personagem se desenrola nesta peça: o Alzheimer.
Nunca o compreendi bem. É estranho, parece o prelúdio de um desmaio. Pouco a pouco, sua mente fica turva, a névoa impossibilita a lembrança, porém sinto-a lá, sei que está lá, algo me diz que ela está lá.
Vez ou outra, uma fresta brinca em meu imaginário; sorrio para ela e sentimentos desaguam com veemência. Nessas horas, a lágrima se torna o único recurso para tentar tocar no fio que sobrou após tudo ser tirado.
Acredito que escrevo isso, pois hoje deleitei-me em um sonho no qual minha alma rompeu um pacto, quase que peremptório, com este plano em que estou inscrito. Vi-me embrulhado pelo êxtase do ontem, do agora e do há de vir: sonhei que meu menino de 5 anos levantava do caixão e derramava bálsamo sobre minhas chagas ao me chamar de papai.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
DEIXE AQUI UMA MENSAGEM PARA O AUTOR DESTE TEXTO - NÃO ESQUEÇA DE ASSINAR SEU COMENTÁRIO. O AUTOR AGRADECE.