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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Quem disse que boteco não tem etiqueta? - Hirtis Lazarin

 



Quem disse que boteco não tem etiqueta?

Hirtis Lazarin


O relógio mal passava das seis da manhã, quando Seu Nico abriu o bar. O trinco de ferro ecoou pela calçada quase vazia, anunciando que aquele boteco de esquina já estava aberto. O cheiro de café recém-coado logo se misturou ao cheiro de creolina adicionada ao balde de água que ele jogou na calçada. 

Três gatos fogem depois de uma noite de estripulias; um homem de aparência cansada e olhos avermelhados desencosta da parede com dificuldade pra andar. É o primeiro a entrar no bar.  Solitário como um fantasma madrugador, ignora o proprietário, ignora as mesas e caminha até o balcão de fórmica lascada. Ali se escora e o corpo pesado encontra apoio.

Bem à sua frente, está uma garrafa de cachaça. Agarra-a bruscamente, temendo, talvez, que ela levantasse voo. Aproxima-a dos olhos na tentativa frustrada de ler o rótulo. Aproxima-a mais… e mais… Infelizmente a vista embaralha todas as letrinhas. 

Seu Nico, num movimento firme, estica o braço e puxa a garrafa das mãos do homem; separa um copo bem lavado e despeja o aguardente, cravando exatamente na risca da dose. O cliente olha para o vidro, depois para o copo e, com o indicador, bate duas vezes na madeira:

— Deixa o dobro. Quero duas — e, pelo tom assertivo, tudo indicava que não pretendia parar por aí…

O copo foi esvaziado em duas tacadas. Seu Nico olhou atravessado, mas colocou a terceira dose. Logo após esvaziar novamente o copo, o bebum não consegue segurar uma pressão forte no peito. O arroto vem traiçoeiro e cavernoso, daqueles que provocam eco nos azulejos desbotados da parede. 

O comerciante — filho legítimo da Calábria, de braços grossos e paciência curta — parou de passar o pano úmido no balcão. Sacudiu os braços, olhou feio para o sujeito — que não teve tempo nem pra limpar a boca na manga da camisa — e bateu um copo americano na madeira, com toda a força do mundo. Soltou os cachorros, usando o português de rua misturado aos palavrões de sua terra natal. 

— Ma che cazzo! Que falta de respeito é essa? Porca miseria! Aqui é um ambiente de família, vaffanculo você e a sua cachaça! Se quiser porquear, vá arrotar na casa do …! 

A saliva do italiano voava em arco pra todos os lados, brilhando contra a luz do sol que entrava pela janela grande e desengonçada. Parecia um chafariz de fúria calabresa. 

O cliente, encurralado entre o balcão e a ira do dono, recolheu o pescoço igual a uma tartaruga, esperando o temporal passar. E demorou…

Você já viu um italiano de meia-idade irritado? Eu já vi. Minha família é italiana. É melhor ficar calado até a poeira abaixar.

Quando, finalmente, Seu Nico puxou o ar, o silêncio no recinto ficou tão alto que dava pra ouvir a geladeira de cerveja tremendo no fundo. 

Nesse momento, entram três idosos esbanjando bom humor; vão até o fundo do estabelecimento e se acomodam na última mesa.  É ali que sempre se reúnem pra jogar dominó até a hora do almoço chegar.

O bebum, de um jeito manso, protestou, limpando a bochecha na manga do paletó:

— O senhor tá maluco? Gritou e cuspiu desse jeito por causa de um arroto? Parece até que quebrei o bar!  Eu exijo respeito!

Seu Nico, que sempre foi uma pessoa moderada, percebeu que sua reação foi exagerada, havia passado dos limites.  Coçou a cabeça, soltou um longo suspiro e mudou o tom.

— Mamma mia… Tá bom, tá bom, eu me exaltei. Mas, veja. O balcão tá uma nojeira e meu estoque de cachaça tá acabando. Você quer ficar? Então vai me ajudar. Tem três caixas de cerveja vazias ali no canto. Carrega aquilo até o depósito nos fundos e traz o garrafão novo de pinga de Minas que tá lá. Fazendo isso, eu esqueço o arroto e você pode tomar mais uma por conta da casa.

O rapaz resmungou, mas aceitou a proposta. Ajeitou o paletó amassado e puxou a gravata torta que lambia o molhado do balcão. Pegou o primeiro engradado pesado e foi para o fundo do bar, enquanto Seu Nico passava o pano definitivo na fórmica suja de cachaça e cuspe. A elegância daquele terno desalinhado desmoronava a cada passo, mas o trato estava feito. 

Minutos depois, ele voltou trazendo o garrafão novo de pinga de Minas. Com o balcão limpo e o humor recuperado, o italiano encheu dois copos americanos até a boca. Ergueu o dele, deu um sorriso de dentes de ouro e brindou: “Salute!”. 

O homem do terno virou a quarta dose de uma vez, mas, por garantia, tratou de manter a boca bem fechada.   


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