A Dançarina de Flamenco
Adelaide Dittmers
Lucia, uma bela morena de cabelos negros e grandes olhos castanhos e provocadores, dançava no palco de um bar. Rodava o vestido vermelho e tocava as castanholas com destreza e graça.
Os frequentadores, na maioria homens, admiravam-na embevecidos, enquanto sorviam taças e taças de vinho. Ela era famosa no lugar. Fora do palco, porém, era reservada e conservava distância da maioria dos habitantes da pequena cidade, o que provocava várias divagações sobre sua vida.
Naquela noite, ela saiu pelas ruas desertas, com passos rápidos. Um enorme xale envolvia sua cabeça e ombros. Parou em frente a uma pequena casa revestida de pedras e empurrou a grossa porta de madeira, que rangeu ao se abrir.
Acendeu uma lâmpada, cuja luz fraca mal iluminou uma sala com móveis pesados e antigos. Jogou sua bolsa de pano em uma poltrona desbotada e rasgada e foi descalçando os sapatos pelo caminho.
Ao chegar à cozinha, colocou uma chaleira com água para fazer um chá e, enquanto esperava, sentou-se em uma cadeira com um olhar perdido.
A visão de uma criança encheu seus pensamentos. Um esgar contorceu seu belo rosto e ela tentou expulsar aquela visão, mas, enquanto a água fervia, mais ferviam cenas de sua vida.
A paixão por Pablo, filho de um homem poderoso, cujas terras se estendiam a perder de vista e o parreiral pendia com o peso dos cachos de uva. A gravidez indesejada pela família de Pablo, que não o queria envolvido com uma moça pobre e dançarina.
O nascimento do filho, que lhe foi arrancado dos braços por quem e com quem não tinha como lutar. O desespero, a desilusão e o ódio, que germinaram no seu coração. A perseguição para deixar o lugar.
A decisão de ir embora proteger seus pais de reprimendas e o perambular de cidade em cidade, dançando para ganhar seu sustento, até encontrar aquele vilarejo perdido, onde encontrou um pouco de paz.
Balançou a cabeça para expulsar aquelas lembranças e levantou-se para apagar o fogo da chaleira, que zumbia. Tomou o chá lentamente, mas o passado continuava ali presente. Quatro anos em que havia anulado sua alma e suas emoções mais profundas.
De repente, um pensamento atravessou sua mente com a força de um raio. Tinha que voltar para reaver seu filho. Em uma de suas andanças, um advogado, que se apaixonara por ela, disse-lhe ter esse direito.
Depois de tanto tempo, estava mais madura, mais vivida, mais forte. Iria lutar. Sabia que seria uma batalha insana. O filho não a conhecia, mas tinha que tentar.
No dia seguinte, procurou o dono da casa, pagou o que lhe devia e, carregando uma pequena mala, pegou o trem e partiu.
Os pais a receberam com alegria e emoção. Nunca lhes havia perguntado sobre a criança nas cartas que enviara. Não tivera coragem. Era uma ferida aberta em seu coração, que tentava fechar dançando flamenco.
Agora, sentada à beira de um braseiro para amenizar o frio intenso do inverno, as perguntas foram feitas aos borbotões. Soube que o menino fora batizado com o nome de Diego e era muito parecido com ela. Pablo havia tido um casamento arranjado e não era feliz. Andava pelos bares da cidade e muitas vezes se embriagava.
Ela os ouviu quieta, pesando cada informação para saber como agir.
No dia seguinte, foi ao bar mais famoso, onde havia apresentação de danças, e se ofereceu como bailarina. O proprietário a olhou atentamente e disse:
— Você não me é estranha.
— Sou Lucia, filha de Pedro e Consuelo.
— Lucia, quanto tempo! Está mais linda ainda!
Ela ficou séria, mas seus olhos sorriram.
— Quando quer começar?
— Pode ser hoje à noite?
— Sim, sim.
À noite, lá estava ela com seu vestido vermelho, dançando e encantando todos com sua graça e beleza.
A notícia correu pela cidade e, em pouco tempo, o lugar ficou lotado, pois todos queriam ver a bela filha da terra dando suas voltas pelo palco.
Ao saber da volta de Lucia, Pablo ficou atordoado e o álcool tomou seu corpo e seu coração. Cambaleando, andou pelas estreitas ruas sem rumo até se sentar à beira do rio, que cercava a cidade, e derramou sua dor por ser fraco e perdido a mulher que amava.
Lucia acordou cedo, agitada pelos próximos passos para se aproximar da criança. O sol estava nascendo quando, embrulhada em um pesado manto de lã, saiu para vaguear pela cidade adormecida, enquanto os pensamentos passavam vertiginosamente por sua cabeça. Tomou a direção do rio. Gostava de refletir, ouvindo o barulho tranquilo das águas. Ao chegar à margem, avistou um homem deitado e encolhido à beira da água. Estava morto? O frio era cortante. Aproximou-se. E, quando o virou para ver se respirava, deu um passo para trás.
— Pablo! A voz quase não saiu da garganta.
Depois, sacudiu-o e ele acordou sobressaltado. Os lábios roxos pelo frio. Olhou para ela, assustado. Somente o calmo barulho do rio testemunhou aquele momento.
Instintivamente, ela tirou o manto e o jogou sobre ele, que levantou com dificuldade e sentou.
— O que você está fazendo? Dormindo ao relento neste frio?
As palavras vieram fracas e trêmulas.
— Pensei que morrer seria uma bênção para mim.
Ela o fitou incrédula. E ele continuou:
— Soube de sua chegada. Isso me transtornou. O passado voltou a me atormentar. O meu erro de não lutar por você, a minha fraqueza, me atormentou todos esses anos. Fui e sou um vassalo de meu pai. Casei-me contra a minha vontade. Sou um fantoche.
A piedade inundou os grandes olhos de Lucia, mas a voz saiu firme:
— Voltei porque quero meu filho de volta. Nunca me perdoei por não lutar ou até fugir com ele. Não vim em paz, vim para travar essa batalha.
Ele a olhou admirado. Aquela era a mulher por quem se apaixonara.
— Posso fazer parte dessa batalha? Vai ser dura ou precisaremos agir com esperteza.
Ela o encarou, surpresa.
— Dois podem mais que um. E, com uma das mãos, limpou as lágrimas, que ardiam em seu rosto gelado.
À noite, encontraram-se na casa dos pais de Lucia, que entremeavam emoções de alegria e pavor. Refletiram que uma fuga seria mais favorável a eles. Ele pegaria o filho para um passeio em um fim de tarde e, à noite, o quatro e a criança sairiam da cidade.
Passaram dias elaborando esse plano com detalhes. Quando estavam prontos, Pablo colocou o menino no carro, dizendo que iriam pescar e voltar no cair da noite.
Nuvens escuras cobriram o céu e uma chuva fina e gelada cobriu a cidade. O carro percorreu as ruas estreitas devagar e atento. Ao alcançar a estrada, acelerou para se distanciar o mais rápido possível daquele lugar que o aprisionara por tantos anos.
O menino, assustado, perguntou aonde estavam indo. “Para um lugar que você vai gostar muito.”
Viajaram a noite toda até chegarem à fronteira com Portugal. Ele olhou para Lúcia, pegou sua mão e apertou. Ela o fitou. Palavras eram desnecessárias naquele momento. Uma nova e promissora vida os esperava naquele país acolhedor e longe do poder irracional paterno.
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