Joaquina
Alberto Landi
Joaquina era conhecida na rua do mercado municipal por aparecer onde não era chamada. Curiosa, cheia de balangandãs e salamaleques, ofendia-se por quase tudo e dava opiniões como quem carrega sacolas por obrigação.
Numa manhã abafada, observou a vizinha Celeste cochichando no parapeito da janela com o padeiro. Bastou isso para Joaquina concluir que havia um segredo terrível entre eles.
Passou o dia espalhando suspeitas, fofocando e pensava: 'aí tem… Franzindo a testa e repetindo que certas coisas não acontecem por acaso. Creio que há algo errado, dizia.
Ao cair da tarde, a rua inteira comentava o suposto escândalo.
Joaquina acompanhava tudo da varanda, convencida de que havia descoberto uma grande verdade. Será?
Só após algum tempo, descobriram que Celeste encomendara um bolo surpresa para o aniversário do marido ao padeiro. Era esse o assunto comentado junto ao beiral interno da janela.
O silêncio que caiu sobre a rua foi pesado. Joaquina sentiu o peso das palavras ditas depressa demais.
Na manhã seguinte, pareceu mais discreta. Ainda usava seus balangandãs, fazia pequenos salamaleques, mas agora olhava e observava várias vezes antes de transformar desconfiança em certeza.
Aprendeu que alguns mal-entendidos crescem como o vento em janela aberta, entram pequenos e saem derrubando tudo pelo caminho.
Ela continuou vivendo na antiga rua do mercado, caminhando devagar entre as janelas abertas da vizinhança, os cheiros de café vindos do mercado. Continuava curiosa, cheia de melindres, mas já não se apressava tanto em julgar os outros.
Com o tempo, o episódio do bolo virou apenas uma lembrança engraçada entre a vizinhança.
Alguns deles riam baixinho quando Joaquina surgia, mas agora ria de si mesma, coisa rara para quem antes se ofendia por quase tudo.
E nas tardes silenciosas, sentada à varanda, compreendeu finalmente que há pessoas que passam a vida inteira tentando descobrir segredos alheios sem perceber que o maior mistério é aprender a cuidar das próprias palavras.
E assim, ela seguiu menos desconfiada, um pouco mais com sabedoria e finalmente em paz com todas as pessoas dos arredores e o principal, consigo mesma.
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