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segunda-feira, 11 de maio de 2026

A FOTOGRAFIA - Adelaide Dittmers

 


A FOTOGRAFIA 

Adelaide Dittmers


A jovem entrou naquela casa há muito abandonada.  Um mundo diferente e esquecido por anos a recebeu.  Móveis de madeira de lei, cobertos por uma poeira grossa, exalando um cheiro sufocante de passado, fizeram-na espirrar e colocar a barra da blusa no nariz.  Abriu, com dificuldade, as janelas e sentiu que estava acordando aquele ambiente de um sono profundo e repleto de histórias.

 Percorreu cada cômodo devagar, apagando o escuro ao abrir as janelas, que pareciam gemer ao serem empurradas.  Uma sala chamou sua atenção.  Era ampla e tinha uma bonita escrivaninha antiga.  Vários livros se enfileiravam em uma estante.  Ela aproximou-se da escrivaninha e tentou puxar uma das gavetas, que emperrada quase caiu em seu colo.

Várias fotografias antigas e amareladas estavam jogadas ali dentro.  Foi tirando uma a uma, sorrindo ao ver os trajes e o ar imponente daquelas pessoas de outra época.  De repente, segurou uma que lhe chamou a atenção.  Várias pessoas estavam reunidas em volta de uma mesa, provavelmente jantando tranquilamente.  Mas haviam riscado o rosto de uma das mulheres presentes.  Ela segurou a foto e virou-a, mas não tinha nada escrito no lado inverso.  Quem fez isso? Por quê?

Os seus pensamentos se atropelaram pela curiosidade de saber o que aquele retrato, ao mesmo tempo que mostrava, escondia.

Suzana sentou-se em uma poltrona, que gemeu ao sentir seu peso.  A briga pela posse da fortuna construída pelo bisavô fora proibida de ser mencionada.   Seu avô silenciava qualquer indagação sobre isso.  E ninguém ousava ir contra a sua vontade férrea.

Depois de muita discórdia, a casa ficou para seu avô, que viveu lá por apenas alguns anos, mas, quando se casou, a mulher se recusou a morar ali.  Acreditava que espíritos malignos se arrastavam por ela.  Achava que o peso da discórdia estava em cada parede, em cada canto. Resolveram então vendê-la, mas ninguém quis adquiri-la porque achavam que era mal-assombrada.

Agora, finalmente, uma grande construtora queria comprá-la por uma enorme soma de dinheiro.  E seus pais ficaram felizes de se livrar dela e ainda ganharem uma grande quantia inesperada e polpuda.

Suzana nunca acreditou nas histórias que diziam sobre a maldição daquela casa e, naquele dia, foi lá para avaliar o que guardava, já que seria demolida. Subitamente, um mundo diferente e perdido nos anos a impressionou.  E a fotografia da mulher riscada ocupava sua imaginação.

Ela sempre fora curiosa sobre o passado da família e nunca entendera a indiferença e o desconforto do pai pelo assunto.  Quando perguntado, respondia que essas histórias do arco da velha deveriam ser esquecidas.  Que, graças a Deus, viviam em outra época e longe dos mitos e mesquinharias de outrora. Quem era aquela mulher, por que fora riscada, como alguém indesejado?   Ela colocou a foto de lado e começou a vasculhar aquela gaveta repleta de um passado distante. Havia cartas e papéis soltos, desbotados pelo tempo, que ela lia um a um, apesar da dificuldade de entender as letras rebuscadas da época.

 Um grande envelope apareceu no meio da papelada. Ela o abriu devagar, como se quisesse se desculpar pela intromissão de estar tentando decifrar aquele passado tão distante. Dentro havia um papel, que ela começou a ler. Cada parágrafo era analisado com muita atenção.  Parou muitas vezes para respirar.  O incontável estava ali contado: a história da mulher, cujo rosto foi apagado.

Era uma carta direcionada a um padre, em que seu bisavô escrevia sobre a traição de sua esposa com um primo muito próximo a ele. Essa descoberta veio à tona anos depois, durante uma briga entre o casal.  O mais incrível é que ela teve um filho com o amante e nunca revelou qual deles era o bastardo.  Ele a havia espancado com violência, mas depois, quando a ira esfriou, resolveu encobrir o malfeito da mulher para evitar um escândalo, e viveram como dois estranhos, cada um representando seu papel. Uma assinatura que pareceu à Suzana feita com raiva terminava a confissão.

Ela soltou a carta e deu um profundo suspiro.   Por que aquela carta tão íntima e secreta havia sido jogada em uma gaveta? Por que o bisavô não a enviou para seu confessor? Eram perguntas que nunca teriam uma resposta.

Suzana levantou-se e olhou pela janela para respirar o ar do presente, porque o de outrora estava sufocante. Nas mãos, a carta reveladora, que ela foi rasgando e jogou pela janela. Aquele era um segredo e tinha que continuar sendo.

 Quem era realmente aquela mulher? Por que traíra o marido?  Será que ela o escolheu ou foi um casamento forjado pelas duas famílias deles? Essas perguntas ficariam para sempre sem resposta. 

E o seu avô, seria ele o filho bastardo?


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