O pra
sempre, sempre acaba
Hirtis
Lazarin
Quem
diria que aquela garotinha se transformaria numa jovem inconsequente e odiada
por tantos? Uma garotinha que chegou a
esse mundo pra trazer esperança, alegria e vida a um casal que a aguardou por
mais de oito anos? Uma garotinha mimada que
cresceu não num quarto infantil rodeada
de brinquedos, mas num aposento de princesa.
Ana
Vitória descobriu bem cedo que tinha superpoderes naquela família. Usou e abusou deles...
Aos
quatro anos, quis muito o balé. Mas não
entendia que bailarina não combina com pratos de macarronada acompanhados de
brigadeiros. A sapatilha de ponta sofria
cada vez em que era obrigada a acomodar aqueles pezinhos gorduchos e
desengonçados. Vi muitas e muitas delas
descartadas no lixo, boca aberta pedindo socorro. A desistência só aconteceu depois de uma
queda roliça no “PLIÉ".
Na
adolescência foi a vez do piano.
"Quero um piano. A Julia tem
piano. Adoro o som do piano. Quero também tocar piano. O desafio durou alguns meses. Professores?
Vários. Impossível tolerar tanto
capricho e nenhum talento.
Depois
veio a pintura e outras artes... Eu me
angustio quando me lembro daquele corpinho jovem carregando uma menina que não
sabia ouvir não, que esperneava se contrariada.
Pais batendo a cabeça nas paredes e cheios de culpa quando o erro foi
amar demais.
Ana
Vitória não se dava por vencida. A mente
criativa e alerta, um farol em meio escuridão do mar, criou um perfil falso nas
redes sociais, uma rede de intrigas e fofocas que se tornou a brincadeira mais
gostosa de jogar. Misturava verdades e
mentiras, um jogo de xadrez onde movimentava as peças ao bel-prazer. Criar conflitos, brigas, inimizades era muito
divertido.
Além
de cuidar da vida dos colegas, mirava também a vida dos vizinhos. Da janela do seu quarto de frente pra rua e
protegida por cortinas fartas, ela via, ouvia e arquitetava planos. Bisbilhotar era o verbo que movia suas ações
o que lhe causava imenso prazer. Não se
importava com a fama que já alcançava distâncias.
Era
uma noite chuvosa. Ana Vitoria abriu
parte da janela para o último cigarro. A
rua arborizada cobria-se de folhas soltas pela ventania passageira. Um carro com faróis desligados apontou na
esquina. Deslizava silenciosa e
morosamente; parecia a procura de algo.
Ela apagou o cigarro e esgueirou-se atrás da cortina. Não poderia essa oportunidade de ouro, uma
boa história pra espalhar. Do seu jeito,
é claro! O carro parou onde havia sacos
de lixo empilhados à espera do coletor.
O motorista olhou pra todos os lados e abriu a porta. Um ouvido bem atento quanto ao de Ana ouviria
o “tec” da maçaneta da porta assim que foi acionada. Isso não aconteceu. Ele desceu, certificou-se da solidão da rua,
tirou uma mala grande do banco de trás e dispensou-a em meio ao lixo acumulado. Ao retornar ao veículo, relâmpagos
simultâneos fotografam detalhadamente o rosto do rapaz. Ana sufoca um grito antes que ele denuncie
sua presença. Ela conhece o homem que,
sorrateiramente, desaparece na escuridão.
Impressiona-a a sutileza e o cuidado dele ao abandonar aquele
fardo. Aquilo não lhe cheirava bem. Ali rolava um mistério.
Uma
chuva pesada desabou. Ela reacendeu o
cigarro não fumado. Mil pensamentos... O
primeiro foi sair e abrir a mala.
Caminhou até a porta da sala e abriu-a cuidadosamente. Já estava na sacada quando desistiu. Ainda bem que o bom senso nessa hora venceu a
curiosidade. Tentou dormir, mas
como? Pegou o telefone e ligou ao
serviço de emergência policial e fez denúncia anônima. Sua ansiedade só foi acalmada horas depois
quando o carro policial estacionou em frente ao endereço denunciado. A mala foi arrastada até o poste mais
próximo. Dentro havia o corpo de uma
mulher. Só foi retirado quando o sol já
estava alto com autorização da polícia técnica.
Durante
as investigações muitos moradores da rua foram convocados pra depoimento,
inclusive Ana Vitória. Um conflito
enorme martelava sua cabeça. A fama de
fofoqueira, de inventar e distorcer fatos e brincar com a vida das pessoas
conspiravam contra ela. Não teve coragem
de contar a ninguém o que viu. Essa
decisão custou-lhe noites e dias de tortura.
E numa dessas noites em que não conseguia dormir, acendeu a luz e
displicentemente buscou um livro na estante.
Um deles veio ao chão aberto na página treze. E ali estava escrito entre outras coisas:
"Síndrome de abelha: tem gente que pensa que é rainha, mas é apenas um
inseto". Ana Vitória leu e escreveu
essa frase mil vezes.
Hoje,
é na terapia intensiva que Ana Vitória busca forças pra se libertar do prazer
que o vício da fofoca lhe proporciona. E
quem sabe, esclarecer o assassinato da mala.
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