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quarta-feira, 18 de março de 2026

O prazo acabou. - Hirtis Lazarin

 



O prazo acabou.

Hirtis Lazarin 

 

O escritório do Dr. Marcos Vinícius de Albuquerque Júnior, localizado no quadragésimo andar, tinha vista privilegiada pra toda a cidade, mas ele preferia olhar para a pequena cicatriz circular no pulso sob o relógio Ômega. Para os filhos, ele era o titã da empresa e, para a esposa, o porto seguro que nunca levantava a voz.

 

O silêncio da cobertura foi interrompido pela vibração de um celular antigo, guardado numa gaveta de fundo falso que nenhum sensor de segurança jamais detectaria. Na tela, apenas três palavras aparecem: “O prazo acabou.”

 

Marcos sabia que a frase “O prazo acabou” não se referia a um contrato de banco ou a uma dívida financeira comum. Era um ultimatum.

 

Ele fechou as cortinas de seda e, pausadamente, acendeu um cigarro, depois outro, depois outro… Enquanto a sala se enchia de fumaça, a mensagem do celular antigo queimava sua mente. O que vai acontecer com seu império imobiliário?

 

Aquele não era um alerta de dividendos ou uma fusão corporativa. Era o eco de uma vida que ele acreditava ter enterrado há quase vinte anos. Soube, então, que o muro de vidro que o protegia  estava prestes a cair.

 

Olhou as horas e levou um susto. Não percebera que o tempo havia passado tão rápido. Já estava bem atrasado para o jantar de aniversário que a esposa havia preparado para o tio Luizinho, o mais velho e o mais querido da família.

 

Saiu tão às pressas que, ao chegar à garagem, não pôde entrar no automóvel. As chaves estavam no bolso do paletó esquecido no escritório. Quem olhasse para Marcos, naquele momento, não o reconheceria: sobrancelhas franzidas, olhos fixos e injetados, mandíbulas cerradas e a boca aberta pronunciando uma sequência de palavrões. Pense bem: eram quarenta andares pra subir… e quarenta pra descer… 

 

Quase uma hora de atraso e o verbo “atrasar” nunca fez parte do seu vocabulário. As mãos suavam no volante do veículo e do rosto escorria suor em gotas.  O celular vibrava insistentemente com mensagem de Lena: “As velas já estão acesas. Onde você está?” Ele sabia que não era verdade.

 

Marcos é casado com Helena e tem dois filhos:  Christina, que estuda nos Estados Unidos, e Vitor, que estuda e se prepara pra trabalhar na empresa do pai. A mãe vem de uma família tradicional que perdeu prestígio financeiro, mas manteve o sobrenome. Quando conheceu Marcos, ela viu nele a força e a estabilidade que faltavam em sua casa. Ela não é apenas uma socialite envolvida em causas beneficentes, mas uma mulher estrategista atenta aos negócios da família.

 

Ao chegar, Marcos entra no lavabo, lava o rosto com água fria e sabonete de perfume suave; penteia os cabelos grisalhos e fartos; faz exercícios faciais para “destravar” aquela expressão de tensão e só se dá por satisfeito quando o espelho mostra um homem disfarçado de suas preocupações.

 

O cenário da sala de jantar é digno de uma revista de decoração. A mesa está posta com cristais e flores; o cheiro do jantar preparado por chefs profissionais faz a boca faminta salivar.

 

O empresário entra pedindo desculpas pelo atraso. “Incidentes acontecem”, beija a testa de Helena, dá um toque nas costas do filho e saúda com um forte abraço o aniversariante do dia.  O tio Luizinho levanta-se com dificuldade, mas o sorriso rasga-lhe o rosto.

 

Marcos Vinícius tenta se comportar como se não tivesse acabado de ser ameaçado por um fantasma do passado. Sorri, abre um vinho de cinco mil reais e agradece pela vida que a família tem.

 

Helena conhece cada trejeito, cada expressão do marido. Sabe que algo importante o aflige. Não é o momento pra explicações. 

 

O jantar transcorre normalmente em clima de festa. Os assuntos são atualizados; até a política do país e o nome do presidente americano entraram num debate acalorado.

 

O interfone toca e Marcos, que já estava em pé pra ir ao banheiro, corre até a cozinha e atende. “Doutor, peço desculpas pela hora, mas um entregador tem um pacote pro senhor e diz que é urgente. Ele disse que o senhor esqueceu isso no banco há vinte anos”.

 

Helena fica em alerta. Antes do casamento, Marcos contou-lhe, em detalhes, toda sua vida pregressa. Não escondeu nada, queria realmente construir uma família. Ela acredita que todos merecem uma nova chance na vida.  E por que não o homem que amava tanto?

 

O empresário autoriza a entrega do pacote e fica paralisado; os olhos fixos num ponto vazio enquanto o passado lateja em suas têmporas. A respiração é curta, errática, como se o ar tivesse se tornado subitamente pesado demais para seus pulmões. Cada vez que fecha os olhos, a cena do que fez se repete num looping cruel, nítido e implacável. Sente o estômago revirar e uma náusea ácida enche-lhe a boca. É a certeza de que o segredo poderá deixar de ser segredo.

 

Ao abrir o pacote na biblioteca, encontra algo aterrorizante: uma fita cassete e uma foto antiga, quase sem cor. Era do estacionamento de um banco, onde um jovem desesperado e sem máscara foge carregando uma maleta. Era a foto de Marcos dos tempos da malandragem, uma época em que ele e o amigo Vitor fugiram pra outro Estado. Abandonaram a vida regrada de estudo e trabalho e ingressaram numa outra, perigosa e cheia de adrenalina: o mundo do crime.

 

Começaram com pequenos assaltos e, numa carreira vertiginosa, se especializaram em assaltos a banco, até o dia em que se desentenderam numa briga que quase acabou em morte. Marcos Vinicius apanhou muito e ficou machucado: um corte profundo no punho esquerdo que sangrava e um braço quebrado. Vingou-se e denunciou o parceiro. Vitor foi preso e o traidor fugiu com todo o dinheiro roubado. Era muito dinheiro.

 

Marcos viveu de forma anônima até que a poeira se assentasse, pois os riscos eram constantes. Nesse período, não perdeu tempo e se preparou para voltar à vida normal. Dinheiro não lhe faltava. Ajudado por uma equipe de advogados competentes, trocou de identidade e montou uma pequena empresa imobiliária. Vida nova que exigia muita cautela.

 

Após quinze anos de prisão, Vitor estava livre, leve e solto. A frase: “Seu tempo terminou” era um aviso de que a hora do acerto de contas chegara: ele queria a participação na empresa como sócio com cinquenta por cento do valor total. isso ou a entrega das provas dos crimes para a polícia e para a imprensa.

 

A conta chegou e ele não sabe como vai pagar.

 

Os dias seguintes foram, para o empresário, dias de descontrole emocional e pânico. Levantava mais cedo, comia pouco e não saía do escritório. Ligava mais vezes à esposa, pois temia que ela fosse atacada pelo seu inimigo. “São negócios que não estão dando certo”, era sua explicação à família. Helena foi orientada, mas ainda não sabia quão grande era o perigo do que poderia vir.

 

Era uma segunda-feira e amanheceu cinzento na Avenida Faria Lima. Marcos, num terno impecável, entrou no prédio da empresa com olheiras profundas. Estava sempre de alerta, esperando uma ligação, uma ameaça por mensagem ou até a polícia. Mas o que encontrou foi muito mais perturbador.

 

Vitor não estava escondido num beco. Ele estava sentado na cadeira de couro da sala de espera, lendo calmamente o jornal “Valor Econômico”. Não usava terno, mas uma jaqueta gasta que cheirava a cigarro barato, um contraste violento com o luxo do ambiente. Ele olhou para Marcos e sorriu de um jeito que fez o homem recuar.

 

Levantou-se com um sorriso largo e fingido. Cumprimentou-o como se fossem melhores amigos. “Bom dia, sócio! Dormiu bem depois daquele presente que te mandei?” Ele falava alto o suficiente para que a secretária e os estagiários ouvissem.

 

Após uma conversa curta, Vitor passou o dia caminhando pelos corredores da empresa e bebericando café. Observava os funcionários e fazia perguntas sobre o faturamento. Sentia-se   dono da empresa, usando o medo de Marcos como um passe livre.

 

O momento mais tenso foi quando  entrou na sala de Marcos, sentou-se na borda da mesa e  começou a folhear  relatórios em pastas abertas. “Sei que você é bom com números. Pena que os números do seu passado  não batem com a honestidade que prega hoje, não é?”

 

Marcos engole seco, sente  náusea  e nojo vendo o inimigo manuseando os relatórios. É como ver um lobo brincando com as roupas de uma ovelha. Para um empresário do seu nível, o escritório não é apenas um local de trabalho, é o local onde ele construiu sua nova identidade.

 

Foi no final da tarde que o inimigo  deu o  bote final. Não queria dinheiro escondido, queria legitimidade. Vitor entregou-lhe um contrato de consultoria  com um valor mensal astronômico. Era a sua proposta.

 

 

— “Se você assinar isso, o dinheiro sai limpo da sua conta para a minha. Eu me torno um consultor. Se não assinar…” e, apontando para o celular, “… aperto o 'enviar' naquele e-mail para a Polícia Federal. Acho que você já sabe o que vai acontecer. Vamos trabalhar juntos… Ou prefere ver a imprensa divulgando sua vida hoje à noite?”

 

O “prazo havia acabado”.  Vitor passou vinte anos em uma cela enquanto via, pelas capas de revista, o seu antigo parceiro se tornar um magnata.

 

Vinte anos atrás, ele não era  “Dr. Marcos Vinícios”.  Era “O Contador”, o homem que desenhava a logística para os assaltos. Crimes que deixaram mortos e feridos.

 

O empresário tem que resolver o problema de forma controlada. Precisa ser um estrategista frio, o mesmo que construiu um império. Na verdade, o primeiro pensamento foi matá-lo, mas sabia que isso criaria um problema policial imediato.

 

Aceita assinar o contrato de consultoria que Vitor exigiu. É colocado na folha de pagamento oficial, com um crachá e um espaço bem equipado ao lado da sala do presidente. O novo integrante da equipe é apresentado a todos os funcionários.

 

Depois de saber todos os detalhes da vida de Marcos e Vitor, Helena vai à empresa mais vezes do que costumava ir. Trata o desafeto, não com simpatia, mas com autocontrole para evitar conflitos. Limita-se a saudações básicas “bom dia, boa tarde”, alguns acenos e comunicações essenciais, sem abrir espaço para intimidade.

 

O casal pensa junto. Por que não aceitá-lo como sócio legítimo e transformar o inimigo em amigo? Afinal de contas, ele tinha direito à parte do dinheiro que deu início àquele empreendimento.

 

E por que não começar um bom convívio convidando-o para um jantar em família? A sugestão de Helena foi aprovada e, no sábado seguinte, receberam o convidado com zelo esmerado.

 

Helena é extremamente gentil e Marcos mostra-se arrependido do que fez, justificando seus atos como falta de maturidade. “Éramos jovens gananciosos”. Estava pronto para resgatar o tempo que Vitor perdeu na cadeia e pagar a dívida com juros e correção monetária.

 

O jantar prolongou-se até de madrugada, por conta do vinho de primeira qualidade. Sobre a mesa restavam quatro garrafas vazias e a quinta garrafa só não foi aberta porque Helena sugeriu terminar a noite com um licor digestivo cítrico, o mais recomendado após o jantar.

 

Ela se dirigiu ao aparador e foi lendo o nome dos licores cítricos para o convidado escolher. Ele escolheu “Limoncello Villa Massa”, um dos mais tradicionais da Itália, feito com limões sicilianos.

 

“Escolheu acertadamente. É um dos melhores que temos”. Antes de servi-los, Helena foi até a cozinha em busca de uma bandeja pequena; os criados já tinham sido dispensados  por conta do avançado da hora. Ela demorou minutos a mais, o gatinho da casa pedia água.

 

Helena serviu o licor numa bandeja espelhada que reproduzia em dobro as taças de cristal. Um gesto que selava o acordo que começava a se materializar.

 

Vitor está descontraído e feliz. Pega a taça e vira num gole só. Acho que não deu nem tempo pra apreciar o sabor. Estica os braços em direção a Helena: “Quero mais”. O tempo não foi suficiente pra que fosse atendido. Vitor solta um grito estridente e cai sobre a mesa.

 

Ele está morto.

 

Caro leitor, você acha que o plano de envenenamento foi combinado pelo casal? Ou o Dr. Marcos Vinícios não sabia?

 

 

A NATUREZA EFÊMERA DA VIDA - PEDRO HENRIQUE

 




A NATUREZA EFÊMERA DA VIDA

PEDRO  HENRIQUE


       Sob o manto denso e caloroso da cidade grande residem os múltiplos edifícios que beijam o céu com sua glória. Dentro deles se desenrola o cotidiano laborioso das cansadas almas que buscam um dia melhor para seus corpos.

       Entre esses prédios, se destaca o rosto irritado de Ricardo. Ele corre, xinga e olha o relógio com uma velocidade surreal. Isso que dá querer arrumar a mala faltando pouco tempo para seu ônibus partir.

       O rapaz decidiu desfrutar um pouco do ar fresco que só uma cidade do interior pode proporcionar.

       Ficará uns dias no sítio de sua família. Aquela que não larga, nem sob tortura, a criação de galinhas, a ordenha das vacas, muito menos o subir nas árvores frutíferas. Nunca abandonariam este paraíso para se sublevarem com o trânsito das grandes metrópoles.

Já pensou? Buzinas pra cá e pra lá. Gritos e engarrafamentos. Não. Deus me livre.

       Para eles, não há nada como pôr o pé no chão e sentir a vida correndo.

       Ricardo sabe que precisa disso. Os últimos dias foram de extrema exaustão. Passava-os sentado defronte à tela do computador, revisando documentos e fazendo reuniões.

Isso não é vida.

       Ricardo fecha a porta e corre para a rodoviária a tempo de pegar seu ônibus. Em poucas horas verá todos os seus afetos: pai, mãe, irmãos e primos. Além das antigas paixões que outrora lhe descortinaram sentimentos, vontades…

       Lembra-se de quando era pequeno? Quando, junto aos irmãos mais velhos e primos, mergulhava nas águas do rio que ficava a poucos metros de sua casa. Nelas, Ricardo tinha o infinito bem na palma de suas mãos.

       Como gostava de tudo aquilo: correr junto aos cachorros, exigir dos cavalos a velocidade de um automóvel de Fórmula 1, furtar frutas dos sítios vizinhos e saber que no dia seguinte tudo começa outra vez com o mesmo nome e aroma.

       Queria tudo que a terra podia oferecer, queria tudo que a infância tinha. Tristeza é saber que um dia chegou a tal vida adulta e todo seu íntimo infinito ruíu por seus olhos feito uma casa que, durante uma enchente, não vislumbra em si estrutura para manter-se de pé, e não havendo outra opção, desaba.

       Ricardo seca uma lágrima que abraça seu rosto paulatinamente. Até os mais brutos choram.

       O ônibus para e, ao chegar na saída da rodoviária, vê, como quando menino, os braços fraternos de sua mãe estendidos, aguardando para lhe revelar que, apesar dos anos, sempre será aquela coisinha singela e chorona que saíra de seu ventre.

       “Oh, meu amor.”

       “Mãe.”

Abraço.

 

       “Filho.”

       “Pia.”

Abraço.

       “Vamos, vamos, o pessoal está nos esperando.”

       Ao chegarem à casa, toda a família estava reunida para receber o homem que retornou às suas raízes. Faz um certo tempo que não conseguiam juntar todos assim.

       Foram tantos abraços, apertos de mão, beijos e “como você está diferente” que o rapaz ficou um pouco enjoado.

       A felicidade enfim debutava nos rostos daqueles que, por Ricardo, nutriam amores e saudades.

       Saudade talvez seja o que o nosso formoso moço sentirá da última pessoa a cumprimentá-lo. Trata-se da filha de uma vizinha querida pela família, que há pouco tempo havia se mudado para o sítio ao lado.

       É uma moça edênica, olhos de felina, rosto de mulher feita e personalidade de alguém que sabe o que quer e não tem medo de chegar e dizer “eu quero”. Ela vai e pega. E como pegou.

       Ofereceu ao rapaz um beijo na bochecha, que este retribuiu com uma certa fraternidade que não é entregue àqueles a quem não se deseja profundezas.

       “Olá.”

       “Olá.”

       Um pouco de conversa. Nome: Helena. É nova por aqui? Sim.

Silêncio.

       Mais conversa e depois a vida segue com lampejos de um desejo submerso, mas que logo invade a terra já arada e firma seu império na mente, no peito, na língua…

       Ricardo se dirige aos irmãos e antigos amigos. Relembram juntos os velhos fragmentos do tempo. Riem, refletem, zoam.

       Muitos já haviam se tornado pais. O pelo havia tomado o corpo, trazendo barba e responsabilidades. Tornaram-se pessoas que cuidam de outras pessoas.

       Um dos antigos amigos chama uma garotinha de cabelos castanhos saltitantes que vem correndo e o abraça. Ele a pega no colo, vira para Ricardo, que não precisa de palavras para decodificar.

       “É a sua cara.”

       “É. Durante os primeiros meses, acreditávamos que era menino, mas depois…”

       Ricardo acaricia o rosto da garota antes de o pai colocá-la no chão para que faça do jardim um sublime laboratório de fantasia e criação.

       Eis o cerne da infância: criar.

       À tarde, segue e com ela muitos olhos. Olhos de Helena. Olhos de Ricardo. Olhos dos pais que começaram a perceber que, pelo visto, teriam mais do filho do que imaginavam.

       Ah, as paixões têm disso: permanência.

       Os dois iam e vinham, entre conversas e risadas. Pareciam uma canção tão congruente e afável de se ouvir.

       Não demorou muito para o sol morrer entre as montanhas.

       Pouco a pouco, a família foi se dissolvendo, não sabendo quando iriam se ver de novo, mas Helena estava lá. Ela sempre esteve lá.

       Ela conversava e Ricardo observava. Ele brincava com as crianças e ela sentia. Eles riam um para o outro e a alma girava e girava, dançando como uma bailarina, que por um instante esquece que é humana e brinda a Terra com seus passos angelicais.

       O rapaz vai ao antigo quarto, toma um banho. Descobriu que a moça fez de sua antiga residência a casa dela. Ela tem liberdades aqui. Tudo é dela. Tudo.

       Assim que termina de pôr a roupa, vê, lá do alto, o cabelo de um anjo ganhando o abraço afagoso dos ventos.

Vou lá. 

       “Oi.”

Ela olha.

       “Oi.”

Silêncio.

Silêncio.

Silêncio.

       “Senta aqui.”

       Ricardo encara o espaço ínfimo que tem no banco.

       “Acho que não dá para me sentar aí.”

       Helena o observa e seus olhos transpassam a alma daquele rapaz que não sabe se é mais fácil ser atacado por uma onça ou sentir o peso daquele olhar sobre si. De todo modo, preferiria a onça.

       “Por que não?”

Irônica.

       “Olha para mim.”

Sedutor.

        A moça o analisa.

De fato, é um homem.

       Braços que brigam com a camisa para saber quem aguenta quem. Ombros proeminentes, mãos que dariam duas dela. Sem considerar o rosto que desafia a pulcritude de muitos atores.

       Helena se levanta, ousada, firme, faminta…

       “Sente-se.” Ricardo olha para ela, não compreendendo sua atitude, mas a alma arrepia e ele gosta. Como gosta.

          “Sente-se.” Ela aponta com os olhos para o pequeno banco.

       Sem pestanejar e incapaz de qualquer reação, o rapaz obedece.

       Assim que suas nádegas encontram a superfície rígida da pedra, Helena se põe no colo dele com uma delicadeza que o faz desejar o mundo com aquela mulher.

          Helena acariciou delicadamente o rosto de Ricardo. Bochecha, barba, clavícula…

       Tensão?

       Sim.

       Há lábios, lábios que há poucas horas sorriam um para o outro. Agora, encontra-se nesta noite de muitas promessas para uma dança fermentada de voluptuosidades.

       E lá de cima, lá do quarto que um dia aguardava limpo, o pequeno Ricardo emerge os rostos de seus pais que, abraçados, contemplam que o pequeno se tornou homem.

 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Fora do meu CEP - Hirtis Lazarin

 


Fora do meu CEP    

Hirtis Lazarin                                                   

 

Faz mais de dois anos que Frederico decidiu morar sozinho, entre o concreto e o silêncio. Nasceu numa família barulhenta onde não existia privacidade e os conflitos eram constantes. Ter uma chave que só ele possuía e encontrar a xícara de café sempre na mesma posição trazia-lhe estabilidade emocional.

 

Era um domingo à tardinha.

O vento entrava pela fresta da janela como um fantasma de seda, gelado e invisível. Sobre uma mesa pequena, ao lado do sofá de um lugar só, estava uma xícara de chá que não fumegava mais; o que restou foi apenas uma mancha no fundo da porcelana. 

O telefone tocou diversas vezes. É claro que ele sabia quem estava do outro lado da linha, era um amigo que falava demais, tinha hora pra iniciar a conversa, mas não tinha hora pra acabar. Queria apenas terminar o dia assistindo a um bom filme na tv. Ele adorava os coreanos, já tinha assistido a três deles e adorou! O difícil era decorar os nomes compostos dos personagens: Y-seo, Seo-ha, Do-yom, Si-woo. Imagine um filme com meia dúzia de gente… Só mesmo escrevendo os nomes num papel.  

A tarde escureceu de chuva. Sentiu frio e se enrolou na manta que cobre o tecido rasgado do sofá — não sobrou ainda dinheiro pra comprar um novo — era mais prático e mais rápido do que buscar um casaco no quarto. Na verdade, acredito que Frederico é uma alma que cultiva a imobilidade.  

Com o controle remoto nas mãos, percorreu o Netflix e, rapidinho, o filme já estava rolando. Ali, no calor do tecido e no silêncio da noite, o sono não veio como um cansaço, mas como uma extensão da paz. Ele fechou os olhos e dormiu ali mesmo no sofá. Acordou apenas quando a luz pálida da segunda-feira chegou ao quarto. 

Pra ele, não havia o peso da “segunda-feira”, já que domina o próprio tempo. O despertar foi, simplesmente, o retorno à rotina. Com exatidão, ele estendeu a manta no sofá e preparou o corpo para o mundo externo: repetiu uma sequência de exercícios até sentir-se em plena forma pra enfrentar o dia. Escolheu cada peça de roupa sem vaidade, apenas como uma armadura necessária para atravessar o caos urbano. 

Ao fechar a porta do apartamento e ouvir o estalo metálico da fechadura, deixou para trás o seu santuário de concreto. Caminhou pelo corredor do prédio com a coluna ereta, levando consigo o mesmo silêncio que cultivara no final de semana. Ele não ia ao trabalho como quem é arrastado pela obrigação e, por mais barulhenta que fosse a rua, ele carregava no peito o silêncio do seu próprio apartamento. 

Como se seguisse um roteiro invisível, ele cruza a porta da padaria-de-todos-os-dias. O cheirinho do pão quente é irresistível. Sem precisar dizer uma palavra, recebe do atendente o mesmo café curto e a média na chapa caprichada. Senta-se na banqueta do canto e observa o vai-e-vem da rua. É um momento silencioso, o último respiro de calma antes que a engrenagem do dia de trabalho comece a girar. 

Mas houve um dia na semana em que ele deixou o trabalho todo atrapalhado. Tomou o ônibus errado e, quando percebeu, já era o ponto final. Estava igual barata tonta, batendo nas paredes e tentando decidir se vira de perna pra cima ou se continuava correndo. Entra num boteco e consome várias doses de cachaça.

 

Afinal, o que aconteceu naquele dia? 

A empresa onde ele trabalha, ao final de cada ciclo de metas, faz um sorteio entre os funcionários. O RH havia decidido que, daquela vez, o prêmio máximo não seria em dinheiro, mas em “experiência” — uma palavra que soava perigosa para alguém que passara os dois últimos anos vivenciando nada além do necessário.  

Entre copos de plástico e muita alegria, o nome foi anunciado pelo chefe.  O silêncio foi subitamente estilhaçado por gritos e aplausos acompanhados por olhares sem rumo que buscavam o sortudo do dia:  Frederico, o premiado, era o homem mais reservado da empresa.  

Com o mesmo desapego com que alguém caminha para um interrogatório, ele buscou o envelope-surpresa. Pensou em não abrir, mas não houve jeito diante da gritaria curiosa dos colegas. Gaguejou cada palavra que leu: “uma semana numa fazenda”.

Por um segundo, o mundo ao redor — o cheiro de café, o burburinho das conversas paralelas e a luz fluorescente do escritório — tudo pareceu perder a nitidez. Ele sentiu uma espécie de vertigem. Enquanto os colegas celebravam a 'sorte' com tapinhas nas costas, ele sentia apenas o peso de uma engrenagem quebrar dentro de si. A ordem que ele levara tempo para edificar no concreto de sua casa, acabara de ser atropelada pelo capricho do acaso. 

Na manhã seguinte, abriu uma mala grande e dobrou suas roupas com precisão matemática, preparando-se para o embate entre a sua ordem de cimento e o caos orgânico da terra. 

O veículo percorreu muitos quilômetros em três horas de viagem e parou. Quando Frederico abriu a porta, o ar não pediu licença e invadiu seus pulmões com uma densidade de terra molhada e mato que o concreto jamais permitira. O homem de cinza desceu do carro e sentiu, pela primeira vez em anos, a incerteza do solo. O cascalho rangia sob seus sapatos de sola lisa e não aceitava a sua pisada enérgica. Ele estava diante da sede da fazenda, mas seus olhos não buscavam a arquitetura, eles se perdiam na ausência de quinas. No campo, o céu não era pedaços entre prédios, era uma majestade esmagadora que o fazia sentir-se perigosamente pequeno. 

Ele caminhou em direção à varanda carregando a mala como quem carrega um escudo.  O silêncio da fazenda não era o silêncio limpo do seu apartamento, era um silêncio povoado. Havia o estalar da madeira que ficava ao sol, o farfalhar das folhas de uma imensidão de árvores e o som de pássaros que ele nunca viu. 

Ao entrar no quarto que lhe fora destinado, buscou imediatamente os limites. Passou a mão pela parede de alvenaria grossa, procurando a frieza que o confortava na cidade, mas encontrou apenas calor vivo. O quarto não era grande, mas confortável e os lençóis cheiravam a amaciante. Abriu a mala e começou a organizar seus pertences lentamente, tentando imprimir sua organização naquele ambiente rústico. Enquanto empilhava suas camisas sobre a cômoda de madeira antiga, ele percebeu o contraste: ele era uma linha reta e o mundo era feito de curvas.  

Durante o jantar, Frederico sentia-se exposto na imensidão daquela cozinha de teto alto. Entre as diversas opções de comida, serviu-se de caldo verde e mantinha os olhos fixos no vapor cheiroso que subia do prato de cerâmica; usava a colher com cuidado pra evitar que o metal batesse na louça e incomodasse aquela quietude. Quando os anfitriões tentavam uma investida — um comentário sobre o tempero ou o cansaço da viagem —, ele apenas oferecia um sorriso curto, apertado, e um aceno de cabeça que morria antes de virar frase.  

"Por que as pessoas aqui falam tão alto?”, ele se perguntava, enquanto o som da risada do anfitrião corria longe. No subúrbio onde morava, o silêncio era uma regra de convivência; ali, o silêncio era uma entidade viva que ele tentava preencher mastigando devagar, contando cada movimento da boca. Ele sentia o peso do olhar dos outros sobre sua mudez, uma pressão que o fazia desejar o barulho de um escapamento de moto ou a sirene de uma ambulância, qualquer coisa que justificasse sua vontade de se encolher. 

Frederico deitou cedo, esperando o silêncio absoluto, mas a cada estalo da madeira da casa antiga ou o barulho de gato andando nas telhas soava como uma invasão.  O pior de tudo eram os grilos e esperanças lá fora que pareciam estar fazendo um ensaio de bateria no quarto. 

Vira e revira na cama e, quando consegue pegar no sono, um galo, posicionado com precisão sádica logo abaixo de sua janela, soltou seu primeiro grito pra quebrar o silêncio da madrugada. Eram cinco horas da manhã. O homem encarou o teto do quarto tentando manter a serenidade, mas a ave que mal começara sua função, encheu os pulmões e soltou outro grito, tão estridente, que terminou num engasgo cômico.  

O homem levantou, abriu a janela, não mais com sua habitual calma, e encarou a ave. O galo, por sua vez, inclinou a cabeça, olhou-o com um olhar lateral e cínico, e soltou mais um brado, como se dissesse que, ali, quem ditava a pauta da manhã não era a disciplina, mas o instinto. 

Incrédulo, debruçou-se sobre a janela e acompanhou os passos da ave que caminhava com o peito estufado e arrogante como ela só. Sente, então, um cheiro forte que não é de café, mas sim de esterco vindo direto do curral, espalhado pelo vento da manhã.  “Acho que o “presente” de passar uma semana aqui foi, na verdade, uma pegadinha”.

 

E o dia de Frederico mal começou.

 

A mesa do café era um convite ao aconchego, farta com o cheirinho adocicado do café coado na hora e o brilho do queijo mineiro curado. Entre fatias de bolo de fubá úmido e pães caseiros ainda quentes, o cenário simples e rústico era um convite à gulodice isenta de questionamentos. 

Ele sentou-se à mesa e, enquanto tentava cortar uma fatia de queijo, uma mosca varejeira iniciou um voo rasante. Ele parou o garfo no ar, esperando a intrusa se retirar por vontade própria, mas o inseto pousou primeiro no queijo, depois lambeu a goiabada e finalmente descansou na ponta do seu nariz. O homem que nunca piscava diante de uma planilha de crise, viu-se cruzando os olhos num esforço patético para ignorar o inseto. E lá, do lado de fora, uma criança, que observava a cena, soltou uma gargalhada e saiu correndo.

 

“Frederico, você foi afrontado por uma mosca?” 

Não, ele vai acabar com ELA.

 

Ele não aceitaria aquela invasão. A mosca era a desordem que, em pleno voo, zombava de um homem estritamente suburbano. Abandonou o garfo e monitorou o trajeto do inseto desde que saiu do seu nariz. Quando a intrusa pousou na borda da mesa, o estalo foi seco: a mão que assinava relatórios desceu como um tijolo de concreto.

Houve um silêncio súbito. Ele levantou a palma da mão e encarou o pequeno ponto negro esmagado contra a madeira rústica. Não houve culpa, apenas satisfação por cumprir uma tarefa. Limpou a mão no guardanapo de pano, sentindo que, naquela pequena execução, havia retomado o autocontrole. Com calma gélida, ele espetou o garfo no queijo, atento apenas às delícias que estavam sobre a mesa. 

Mais tarde, ao tentar realizar uma caminhada pelo pasto, uma vaca que bloqueava o caminho como se fosse um pilar de sustentação. Ele parou a uma distância considerável, não teve medo, só esperando que o animal saísse amigavelmente da sua frente.  “Com licença”, ele quase disse. A vaca, no entanto, interrompeu a mastigação para encará-lo com a mesma lentidão com que foi encarada.  Ele tentou contorná-la pela esquerda e depois pela direita. Ela não saiu do lugar e balançou a cabeça. Um enxame de moscas, incomodado pelo movimento, migrou do corpo peludo diretamente para o rosto dele. O homem que não perdia a compostura nem no empurra-empurra do metrô lotado, nem no trânsito parado, viu-se, de repente, agitando os braços, desajeitados, contra insetos invisíveis.  A vaca olhava-o com profundo desprezo. 

Mas foi no galinheiro que aconteceu o ápice do dia. Ele se voluntariou para colher os ovos. Chegou ao recinto com a postura de um inspetor de obras, segurando uma cesta de vime como se fosse uma pasta de couro. O cheiro de palha acumulada atingiu suas narinas e ele começou a espirrar sem parar. Era alérgico. Para as galinhas, aquele homem era um intruso desajeitado que invadiu sua privacidade. 

Ao esticar a mão para alcançar um ovo branco sob uma galinha carijó, ele sentiu o golpe: uma bicada seca e precisa diretamente no nó do seu dedo. Sobressaltado, recolheu a mão e o movimento brusco foi o sinal de guerra que o galinheiro esperava. Em segundos, o ar se encheu de penas e cacarejos histéricos. As aves batiam as asas contra suas canelas e, contra seus pés, desferiam bicadas impiedosas e vigorosas, causando uma dor aguda a cada golpe certeiro. O terror se completou quando o galo se juntou ao massacre. Ergueu sua crista vermelha-escarlate como um estandarte de guerra e golpeou com fúria selvagem os pés do coitado. 

O homem do concreto, na tentativa de fuga, viu-se executando uma dança de passos desencontrados, em meio àquela nuvem de poeira e palha. A cesta de vime foi jogada longe e, enquanto ele recuava em direção à saída, tropeçou num poleiro e depois em outro.  E quando pisou, literalmente, em ovos, muitos ovos, sentiu que seria trucidado pelo bando enfurecido. Ofegante e sem forças, conseguiu trancar a grade por fora.  A camisa estava rasgada e manchada de penugem. Deu alguns passos e olhou pra trás: o galo e as galinhas o encaravam vitoriosos. Ele saiu dali arrasado. 

Frederico olhou para o relógio. O vidro estava quebrado e o mostrador ainda marcava o ritmo acelerado da cidade, mas o sol da fazenda não tinha pressa. Faltavam seis dias. Seis dias de embates com moscas burocráticas, vacas filosóficas e aves de rapina domésticas. 

Voltou para o quarto, dobrou suas camisas e fechou a mala com um estalo seco. Ele não esperaria o fim da semana. Sua paz dependia do isolamento acústico e da frieza das paredes que não respiram. Ao caminhar de volta para o automóvel, ignorando o galo que parecia ensaiar um último deboche, o alívio de quem retorna ao exílio voluntário.

  



quarta-feira, 4 de março de 2026

O LÍQUIDO ATROZ DA VIDA - PEDRO HENRIQUE

 



O LÍQUIDO ATROZ DA VIDA

PEDRO HENRIQUE

 

Dos olhos úmidos e trevosos da dançarina dos horrores, vertem o líquido atroz da vida. Este líquido beija meu corpo, cobre cada poro e reivindica de mim submissão.

Quer que me torne sua cadela fiel, que me ajoelhe diante de tua soberania, que me enterre na terra fúnebre do fato, porém o que se concentra na íris, na janela cristalina de minha pobre alma, é ódio, apenas ódio.

 Pego-o do vale sangrento, ponho-o em minha taça e degusto com lampejos de descanso nos ombros. Meu pai foi assassinado.

 Um homem que dava as bocas, com recorrência, sorrisos para baixo, que fazia da vida palco de distribuição de ofensas e maldições, agora está morto.

 Quando pequena, lembro de, em um jantar, um dos últimos com vovó Gilda, antes dela falecer, de ouvi-la dizer que a morte é a mais bela e feia dançarina. Desde quando entoamos nosso primeiro berro ao sair dos ventres de nossas mães, somos convocados para seu baile.

 Não há “eu não quero”. Você vai, a contragosto, mas vai. Ao decorrer da festa, ela dança, tão bela, tão feia. Seus passos são ágeis e leves, uma combinação perfeita de rigidez e espontaneidade. Como uma pena que não se importa de defrontar-se com o solo, quer é a performance magérrima do cair dançando entre os revigorantes ventos.

 E, com sua postura dominante, tira alguém para dançar. Uns demoram anos, outros, assim que entram no salão. Meu pai, pelo visto, já estava no radar dela há um certo tempo.

 Penso em querer também um pouco de morte. A morte talvez seja a única porta de escape para sentir-me flertando com a calma de não ter ciência do poder violento que reside na mão de um homem.

Mamãe sempre dizia que os homens são bichos que precisam ser domesticados. São como cães raivosos. Já nascem com uma necessidade inata de se provar viril. De honrar com brigas, palavrões, provocações e paixões calorosas o que a natureza lhe empregou entre as pernas.

 Mamãe era uma mulher completamente às avessas disso, detinha uma serenidade oceânica. Acredito que foi essa a característica que fez meu pai se entregar aos seus encantos e adormecer no seio afagoso de seu amor e acalento.

 Lembro que ela tinha a habilidade surreal de acalmá-lo nos momentos de histeria demasiada. Ela literalmente o pegava no colo e o ninava, como se faz com um recém-nascido.

 Uma vez, saímos todos juntos para jantarmos fora e no estabelecimento estava passando o jogo do time que meu pai torcia, todavia o grupo estava perdendo. Não havia nem terminado o primeiro tempo e levaram dois gols.

 Ele berrava descontrolado, amaldiçoava os jogadores, adjetivava a mãe do juiz enquanto a torcida do outro time vibrava. As veias dos torcedores faltavam pular de seus corpos suados e sorridentes. Parecia que de seus poros sairiam fogo de tão eufóricos que estavam. Era um sentimento tão incompreensível para mim. Porém, entendo que todos têm suas paixões, cabe a nós respeitá-las.

 Quando o grupo que estava liderando a partida fez o terceiro gol, foi a gota d'água para meu pai.

 Enquanto o torcedor do outro time, que estava à mesa ao lado, comemorava, meu pai dava a todos seu arsenal de palavras de baixo calão.

 Quando estas não lhe saciavam, batia na mesa. Quando compreendeu que isso também não seria suficiente, foi para cima do rapaz da mesa ao lado.

 Este experimentou amargamente o gosto de sangue inundando sua boca, como um rio que, em um período de chuvas robustas, domina, raivoso, todo o território.

 Foram tantos socos que meu pai desfigurou nele, foi laborioso tirar aquele bicho selvagem, sem controle, de cima do rapaz completamente inerme.

 O dono do estabelecimento mandou que nos retirássemos aos berros e meu pai nos conduziu para casa, também aos berros.

 Mamãe já sabia desse enredo e qual a metodologia aplicar. Quando chegamos em casa, ela me pôs para dormir e foi ter com meu pai. Enquanto ele xingava, ela passava as mãos por suas costas, beijava seu rosto, o abraçava, até que ele veio para seu colo e ela ninou para ele de modo que ele caiu no sono.

 Ninou para o bicho adormecer, ninou para não ter, outra vez, a tatuagem feita à mão de cinco dedos em sua cara. Ninou porque sabia que o animal fora da jaula tinha a cruel capacidade de fazer estragos indeléveis em seu corpo, em sua alma.

 Eu chorava quando isso acontecia. O que podia fazer? A lágrima se tornou meu único consolo. Era a forma mais gentil que tinha de dizer a mim: “Você não tem culpa.”

 Quando meu pai chegava do trabalho e o bicho vinha com ele, eu chorava.          

 Quando eu fazia alguma arte, ínfima sequer, e contemplava em seus olhos o animal horrendo subjugando seu corpo enquanto descortinava para mim, através da fivela do cinto, o poder violento que reside na mão de um homem, eu chorava.

 Nada estava ao meu alcance. Era como tentar pegar água na mão: inútil. Eu me sentia assim: inútil. Eu era assim: inútil.

 Um dia, quando mamãe voltou da escola onde trabalhava, o demoníaco bicho a aguardava. Ele já havia me visitado com sua mão violenta por ter me pego descobrindo que o beijo de um rapaz pode despertar paraísos dentro de nossos ansiosos corpos.

 Meu pai bateu no garoto e em mim. Eu não sabia que ele chegaria cedo do trabalho naquele dia.

 O mais triste foi que ele atribuiu a culpa de toda a conjuntura à mamãe, mesmo eu denunciando de forma veemente que ela não sabia de nada. Que não era para machucá-la. Machucasse a mim, que era a autora legítima do pecado, não a miserável que teve o extremo azar de cair em suas garras.

 Naquele dia, só ouvi os berros de mamãe, os gritos de meu pai. A fúria imperiosa que emergia daquele homem letal.

 Recusei-me a chorar. Recusei-me a ser uma inútil outra vez.

 Poucos flashes suscitam em minha memória no tocante ao nefasto momento: eu saindo do quarto, pegando o jarro de flores da mesa de centro, quebrando-o na mesa para que dele restasse somente algo pontiagudo e meu pai deitado no chão, bebendo o próprio sangue.

 Ali, naquele exato fragmento do tempo, contemplei, horrorizada, que dos olhos úmidos e trevosos da dançarina dos horrores, vertia o líquido atroz da vida. Líquido este que consagra o homo sapiens ao perpétuo caminhar na trilha espinhosa do existir em meio ao poder violento que reside na mão de um homem.

 

A HISTÓRIA DE FELICIANO GOTARD - Henrique Schnaider

 

 


A   HISTÓRIA DE FELICIANO GOTARD

Henrique Schnaider

 

Feliciano Gotard é um empresário bem-sucedido do ramo da navegação, já tendo construído mais de cinquenta navios petroleiros.

É um homem tranquilo, casado com Camila e, por muitos anos, feliz. Pai de Joana e Alex, filhos já adultos, ela com dezoito anos e ele com vinte anos.

Os filhos, Alex, cursando Medicina, e Joana, uma aluna exemplar de Engenharia.

Nos últimos dias, Feliciano está passando por momentos difíceis, já que está estranhando o comportamento de Camila, que não é mais a mesma pessoa que convive com ele há tantos anos.

Feliciano telefonou para um detetive indicado por seu melhor amigo Rodrigo, que lhe garantiu ser de máxima confiança.

O empresário teve uma reunião com o detetive Jarbas e o contratou para seguir Camila, onde ela estivesse, e assim lhe informasse sobre as atividades da esposa. Queria poder garantir que Camila era fiel e não estava tendo nenhum caso extraconjugal.

Feliciano estava no salão do luxuoso Hotel Green Wille, se preparando para um encontro com altos empresários ligados ao seu ramo de negócios. O projeto seria a construção de um navio de guerra, um enorme porta-aviões.

A reunião não havia iniciado, quando toca o celular de Feliciano e o seu coração bate descompassadamente ao ver o nome “Jarbas” no visor.

Mesmo com medo do que ouviria, Feliciano atendeu à ligação. Jarbas, então, lhe dá a triste notícia da constatação de que Camila estava lhe traindo com um homem bem mais jovem que ela. E acabaram de entrar num motel.

O golpe em Feliciano foi mortal, ele balançou o corpo e caiu desmaiado. Mais tarde, os médicos relataram que ele foi vítima de um derrame cerebral.

A vida de Feliciano acabou, apesar de ter sobrevivido ao derrame, vegetava, sem movimento dos membros inferiores e a fala que se embolava, um verdadeiro morto-vivo.

Camila arrependeu-se da traição, mas agora era tarde, não tinha como consertar o que aconteceu.

O castigo de Camila foi ter que cuidar do marido até o fim dos seus dias. A traição é a pior das atitudes de um ser humano, seja ela em que sentido for.



Bernardete - Elidamares Bianchi Rosa

 


Bernardete 


A casa estava em silêncio agora. A filha Simone fora a última a sair.  Bernardete parecia ainda ouvir o diálogo com a filha: “mamãe, não quer ir comigo?”.   “Não é necessário, ficarei bem aqui...”.  Mas, naturalmente, não estava tão bem assim. Sentada na varanda, olhava a estrada que seguia até a porteira da fazenda, pensando que vivia ali há mais de cinquenta anos, ali criara os filhos... 

Com a morte repentina de Hermes e toda a agitação que se seguiu até o sepultamento do marido, entrara em um redemoinho de sentimentos e emoções. Primeiro o corre corre quando Hermes caiu no escritório. A ambulância chamada e a constatação da morte. Avisar os filhos. Amigos e conhecidos chegando. Acertar os detalhes do enterro, Haroldo e Lauro se encarregaram junto com outros mais próximos. Simone ficou sempre ao seu lado, chorava muito pelo pai. Ela agradecia as palavras de condolências e continuava ali, quase não chorara, sentia-se alheia, vazia.

O vento balançava as folhas dos coqueiros e Dete, como as irmãs a chamavam, parecia ouvir a própria voz cantando com sua irmã: “Vento que balança as palhas do coqueiro/Vento que encrespa as águas do mar...” Lembrou-se da mocinha sonhadora, sonhava conhecer o mundo, conhecer o mar... Casada aos dezoito anos, começou com os deveres de dona de casa, cuidando do sogro doente. Logo vieram os filhos e a menina se transformou na mãe da família Fischer.

Agora na solidão da casa vazia poderia até se lembrar de si mesma. Pensou passado é passado, amanhã será outro dia. Entrou, trancou a porta e foi se ajeitar para dormir.

Acordou bem cedo, foi para cozinha onde Antonia já passava o café. Tomaram café juntas em silêncio. Antonia sempre fora prestativa, mas reservada como Bernardete. Hermes que sempre fora de mais prosa. Trocaram algumas recomendações sobre o desenrolar do dia e a matriarca se encaminhou ao escritório do marido.

Sentou-se na cadeira da escrivaninha e começou a colocar os papeis espalhados em ordem. Sempre cuidava dessa organização, mas hoje não havia muito a ajeitar. Abriu uma gaveta e pegou a chave do cofre que ficava no canto.  Haroldo prometera contatar o advogado para o inventário, queria ver se poderia adiantar alguma coisa, embora sempre fosse o marido que cuidava de tudo. Encaminhou para o cofre e abriu com a chave e o segredo. Isso ela sabia, pois o marido sempre deixava algum dinheiro em espécie, caso fosse necessário, quando viajava.  

Não havia dinheiro nenhum, talvez um dos filhos tivesse usado para alguma emergência do enterro ou Hermes nem tivesse colocado já que ultimamente quase não se ausentava. Havia, sim, vários documentos e entre eles um   documento que ela nunca notara antes.

Abriu o documento dobrado em quatro dentro da capinha que o conservava. Estacou sobressaltada: o que significava aquilo, será que Haroldo ou Lauro tinham conhecimento disso? Se tinham, porque nunca comentaram? Será que Hermes teria deixado no cofre pensando que ela veria e perguntaria? Por que nunca comentara?  Leu e releu. Não, não tinha imaginado. O documento era real. Precisava agora pensar no que viria a seguir. Dobrou mansamente o papel já amarelado e colocou-o novamente junto aos outros documentos e fechou o cofre.

 

 

O Padre Gigio - Alberto Landi

  O Padre Gigio Alberto Landi O padre Gigio estava no seu limite. O assédio das beatas nos momentos íntimos do confessionário tinha se torna...