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quarta-feira, 4 de março de 2026

Bernardete - Elidamares Bianchi Rosa

 


Bernardete 


A casa estava em silêncio agora. A filha Simone fora a última a sair.  Bernardete parecia ainda ouvir o diálogo com a filha: “mamãe, não quer ir comigo?”.   “Não é necessário, ficarei bem aqui...”.  Mas, naturalmente, não estava tão bem assim. Sentada na varanda, olhava a estrada que seguia até a porteira da fazenda, pensando que vivia ali há mais de cinquenta anos, ali criara os filhos... 

Com a morte repentina de Hermes e toda a agitação que se seguiu até o sepultamento do marido, entrara em um redemoinho de sentimentos e emoções. Primeiro o corre corre quando Hermes caiu no escritório. A ambulância chamada e a constatação da morte. Avisar os filhos. Amigos e conhecidos chegando. Acertar os detalhes do enterro, Haroldo e Lauro se encarregaram junto com outros mais próximos. Simone ficou sempre ao seu lado, chorava muito pelo pai. Ela agradecia as palavras de condolências e continuava ali, quase não chorara, sentia-se alheia, vazia.

O vento balançava as folhas dos coqueiros e Dete, como as irmãs a chamavam, parecia ouvir a própria voz cantando com sua irmã: “Vento que balança as palhas do coqueiro/Vento que encrespa as águas do mar...” Lembrou-se da mocinha sonhadora, sonhava conhecer o mundo, conhecer o mar... Casada aos dezoito anos, começou com os deveres de dona de casa, cuidando do sogro doente. Logo vieram os filhos e a menina se transformou na mãe da família Fischer.

Agora na solidão da casa vazia poderia até se lembrar de si mesma. Pensou passado é passado, amanhã será outro dia. Entrou, trancou a porta e foi se ajeitar para dormir.

Acordou bem cedo, foi para cozinha onde Antonia já passava o café. Tomaram café juntas em silêncio. Antonia sempre fora prestativa, mas reservada como Bernardete. Hermes que sempre fora de mais prosa. Trocaram algumas recomendações sobre o desenrolar do dia e a matriarca se encaminhou ao escritório do marido.

Sentou-se na cadeira da escrivaninha e começou a colocar os papeis espalhados em ordem. Sempre cuidava dessa organização, mas hoje não havia muito a ajeitar. Abriu uma gaveta e pegou a chave do cofre que ficava no canto.  Haroldo prometera contatar o advogado para o inventário, queria ver se poderia adiantar alguma coisa, embora sempre fosse o marido que cuidava de tudo. Encaminhou para o cofre e abriu com a chave e o segredo. Isso ela sabia, pois o marido sempre deixava algum dinheiro em espécie, caso fosse necessário, quando viajava.  

Não havia dinheiro nenhum, talvez um dos filhos tivesse usado para alguma emergência do enterro ou Hermes nem tivesse colocado já que ultimamente quase não se ausentava. Havia, sim, vários documentos e entre eles um   documento que ela nunca notara antes.

Abriu o documento dobrado em quatro dentro da capinha que o conservava. Estacou sobressaltada: o que significava aquilo, será que Haroldo ou Lauro tinham conhecimento disso? Se tinham, porque nunca comentaram? Será que Hermes teria deixado no cofre pensando que ela veria e perguntaria? Por que nunca comentara?  Leu e releu. Não, não tinha imaginado. O documento era real. Precisava agora pensar no que viria a seguir. Dobrou mansamente o papel já amarelado e colocou-o novamente junto aos outros documentos e fechou o cofre.

 

 

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