Bernardete
| Elidamares Bianchi Rosa |
A
casa estava em silêncio agora. A filha Simone fora a última a sair. Bernardete parecia ainda ouvir o diálogo com
a filha: “mamãe, não quer ir comigo?”. “Não é necessário, ficarei bem aqui...”. Mas, naturalmente, não estava tão bem assim.
Sentada na varanda, olhava a estrada que seguia até a porteira da fazenda,
pensando que vivia ali há mais de cinquenta anos, ali criara os filhos...
Com
a morte repentina de Hermes e toda a agitação que se seguiu até o sepultamento
do marido, entrara em um redemoinho de sentimentos e emoções. Primeiro o corre corre
quando Hermes caiu no escritório. A ambulância chamada e a constatação da
morte. Avisar os filhos. Amigos e conhecidos chegando. Acertar os detalhes do
enterro, Haroldo e Lauro se encarregaram junto com outros mais próximos. Simone
ficou sempre ao seu lado, chorava muito pelo pai. Ela agradecia as palavras de
condolências e continuava ali, quase não chorara, sentia-se alheia, vazia.
O
vento balançava as folhas dos coqueiros e Dete, como as irmãs a chamavam,
parecia ouvir a própria voz cantando com sua irmã: “Vento que balança as palhas
do coqueiro/Vento que encrespa as águas do mar...” Lembrou-se da mocinha
sonhadora, sonhava conhecer o mundo, conhecer o mar... Casada aos dezoito anos,
começou com os deveres de dona de casa, cuidando do sogro doente. Logo
vieram os filhos e a menina se transformou na mãe da família Fischer.
Agora
na solidão da casa vazia poderia até se lembrar de si mesma. Pensou passado é
passado, amanhã será outro dia. Entrou, trancou a porta e foi se ajeitar para
dormir.
Acordou
bem cedo, foi para cozinha onde Antonia já passava o café. Tomaram café juntas
em silêncio. Antonia sempre fora prestativa, mas reservada como Bernardete.
Hermes que sempre fora de mais prosa. Trocaram algumas recomendações sobre o
desenrolar do dia e a matriarca se encaminhou ao escritório do marido.
Sentou-se
na cadeira da escrivaninha e começou a colocar os papeis espalhados em ordem.
Sempre cuidava dessa organização, mas hoje não havia muito a ajeitar. Abriu uma
gaveta e pegou a chave do cofre que ficava no canto. Haroldo prometera contatar o advogado para o
inventário, queria ver se poderia adiantar alguma coisa, embora sempre fosse o
marido que cuidava de tudo. Encaminhou para o cofre e abriu com a chave e o
segredo. Isso ela sabia, pois o marido sempre deixava algum dinheiro em espécie,
caso fosse necessário, quando viajava.
Não
havia dinheiro nenhum, talvez um dos filhos tivesse usado para alguma
emergência do enterro ou Hermes nem tivesse colocado já que ultimamente quase
não se ausentava. Havia, sim, vários documentos e entre eles um documento que ela nunca notara antes.
Abriu
o documento dobrado em quatro dentro da capinha que o conservava. Estacou sobressaltada:
o que significava aquilo, será que Haroldo ou Lauro tinham conhecimento disso?
Se tinham, porque nunca comentaram? Será que Hermes teria deixado no cofre
pensando que ela veria e perguntaria? Por que nunca comentara? Leu e releu. Não, não tinha imaginado. O
documento era real. Precisava agora pensar no que viria a seguir. Dobrou
mansamente o papel já amarelado e colocou-o novamente junto aos outros
documentos e fechou o cofre.
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