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quarta-feira, 4 de março de 2026

O LÍQUIDO ATROZ DA VIDA - PEDRO HENRIQUE

 



O LÍQUIDO ATROZ DA VIDA

PEDRO HENRIQUE

 

Dos olhos úmidos e trevosos da dançarina dos horrores, vertem o líquido atroz da vida. Este líquido beija meu corpo, cobre cada poro e reivindica de mim submissão.

Quer que me torne sua cadela fiel, que me ajoelhe diante de tua soberania, que me enterre na terra fúnebre do fato, porém o que se concentra na íris, na janela cristalina de minha pobre alma, é ódio, apenas ódio.

 Pego-o do vale sangrento, ponho-o em minha taça e degusto com lampejos de descanso nos ombros. Meu pai foi assassinado.

 Um homem que dava as bocas, com recorrência, sorrisos para baixo, que fazia da vida palco de distribuição de ofensas e maldições, agora está morto.

 Quando pequena, lembro de, em um jantar, um dos últimos com vovó Gilda, antes dela falecer, de ouvi-la dizer que a morte é a mais bela e feia dançarina. Desde quando entoamos nosso primeiro berro ao sair dos ventres de nossas mães, somos convocados para seu baile.

 Não há “eu não quero”. Você vai, a contragosto, mas vai. Ao decorrer da festa, ela dança, tão bela, tão feia. Seus passos são ágeis e leves, uma combinação perfeita de rigidez e espontaneidade. Como uma pena que não se importa de defrontar-se com o solo, quer é a performance magérrima do cair dançando entre os revigorantes ventos.

 E, com sua postura dominante, tira alguém para dançar. Uns demoram anos, outros, assim que entram no salão. Meu pai, pelo visto, já estava no radar dela há um certo tempo.

 Penso em querer também um pouco de morte. A morte talvez seja a única porta de escape para sentir-me flertando com a calma de não ter ciência do poder violento que reside na mão de um homem.

Mamãe sempre dizia que os homens são bichos que precisam ser domesticados. São como cães raivosos. Já nascem com uma necessidade inata de se provar viril. De honrar com brigas, palavrões, provocações e paixões calorosas o que a natureza lhe empregou entre as pernas.

 Mamãe era uma mulher completamente às avessas disso, detinha uma serenidade oceânica. Acredito que foi essa a característica que fez meu pai se entregar aos seus encantos e adormecer no seio afagoso de seu amor e acalento.

 Lembro que ela tinha a habilidade surreal de acalmá-lo nos momentos de histeria demasiada. Ela literalmente o pegava no colo e o ninava, como se faz com um recém-nascido.

 Uma vez, saímos todos juntos para jantarmos fora e no estabelecimento estava passando o jogo do time que meu pai torcia, todavia o grupo estava perdendo. Não havia nem terminado o primeiro tempo e levaram dois gols.

 Ele berrava descontrolado, amaldiçoava os jogadores, adjetivava a mãe do juiz enquanto a torcida do outro time vibrava. As veias dos torcedores faltavam pular de seus corpos suados e sorridentes. Parecia que de seus poros sairiam fogo de tão eufóricos que estavam. Era um sentimento tão incompreensível para mim. Porém, entendo que todos têm suas paixões, cabe a nós respeitá-las.

 Quando o grupo que estava liderando a partida fez o terceiro gol, foi a gota d'água para meu pai.

 Enquanto o torcedor do outro time, que estava à mesa ao lado, comemorava, meu pai dava a todos seu arsenal de palavras de baixo calão.

 Quando estas não lhe saciavam, batia na mesa. Quando compreendeu que isso também não seria suficiente, foi para cima do rapaz da mesa ao lado.

 Este experimentou amargamente o gosto de sangue inundando sua boca, como um rio que, em um período de chuvas robustas, domina, raivoso, todo o território.

 Foram tantos socos que meu pai desfigurou nele, foi laborioso tirar aquele bicho selvagem, sem controle, de cima do rapaz completamente inerme.

 O dono do estabelecimento mandou que nos retirássemos aos berros e meu pai nos conduziu para casa, também aos berros.

 Mamãe já sabia desse enredo e qual a metodologia aplicar. Quando chegamos em casa, ela me pôs para dormir e foi ter com meu pai. Enquanto ele xingava, ela passava as mãos por suas costas, beijava seu rosto, o abraçava, até que ele veio para seu colo e ela ninou para ele de modo que ele caiu no sono.

 Ninou para o bicho adormecer, ninou para não ter, outra vez, a tatuagem feita à mão de cinco dedos em sua cara. Ninou porque sabia que o animal fora da jaula tinha a cruel capacidade de fazer estragos indeléveis em seu corpo, em sua alma.

 Eu chorava quando isso acontecia. O que podia fazer? A lágrima se tornou meu único consolo. Era a forma mais gentil que tinha de dizer a mim: “Você não tem culpa.”

 Quando meu pai chegava do trabalho e o bicho vinha com ele, eu chorava.          

 Quando eu fazia alguma arte, ínfima sequer, e contemplava em seus olhos o animal horrendo subjugando seu corpo enquanto descortinava para mim, através da fivela do cinto, o poder violento que reside na mão de um homem, eu chorava.

 Nada estava ao meu alcance. Era como tentar pegar água na mão: inútil. Eu me sentia assim: inútil. Eu era assim: inútil.

 Um dia, quando mamãe voltou da escola onde trabalhava, o demoníaco bicho a aguardava. Ele já havia me visitado com sua mão violenta por ter me pego descobrindo que o beijo de um rapaz pode despertar paraísos dentro de nossos ansiosos corpos.

 Meu pai bateu no garoto e em mim. Eu não sabia que ele chegaria cedo do trabalho naquele dia.

 O mais triste foi que ele atribuiu a culpa de toda a conjuntura à mamãe, mesmo eu denunciando de forma veemente que ela não sabia de nada. Que não era para machucá-la. Machucasse a mim, que era a autora legítima do pecado, não a miserável que teve o extremo azar de cair em suas garras.

 Naquele dia, só ouvi os berros de mamãe, os gritos de meu pai. A fúria imperiosa que emergia daquele homem letal.

 Recusei-me a chorar. Recusei-me a ser uma inútil outra vez.

 Poucos flashes suscitam em minha memória no tocante ao nefasto momento: eu saindo do quarto, pegando o jarro de flores da mesa de centro, quebrando-o na mesa para que dele restasse somente algo pontiagudo e meu pai deitado no chão, bebendo o próprio sangue.

 Ali, naquele exato fragmento do tempo, contemplei, horrorizada, que dos olhos úmidos e trevosos da dançarina dos horrores, vertia o líquido atroz da vida. Líquido este que consagra o homo sapiens ao perpétuo caminhar na trilha espinhosa do existir em meio ao poder violento que reside na mão de um homem.

 

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