Rock no brechó
Elidamares Bianchi
Rosa
Era
uma viagem normal, igual tantas outras que já fizera com meus pais, mas naquele
dia, logo de saída, pegamos um congestionamento gigantesco, que nos custou
muitas horas parados na rodovia. Já passava das dez horas e minha mãe decidiu
que era melhor pararmos, dormirmos e depois continuaríamos a viagem.
Paramos
na próxima cidadezinha que chegamos e encontramos local para dormir em um
pequeno hotel no centro. Na manhã seguinte, enquanto meus pais tomavam café,
saí para espiar a redondeza. Ao lado do hotel, encontrei um brechó. Entrei. O cheiro de coisas antigas e guardadas
atingiram minhas narinas e espirrei. Sabia que tinha despertado minha alergia,
mas a curiosidade pelos itens ali expostos era mais forte que o incômodo da
rinite. Espirrando e me desculpando, fui entrando e olhando. De repente, vi uma
jaqueta de couro por um preço ínfimo. Voltei correndo para onde estavam os meus
pais e fui falando do meu achado. Minha mãe, que se assustou, inicialmente, com
a minha chegada efusiva, foi comigo e compramos a jaqueta. Saí todo feliz com a
minha aquisição.
Antes
de retomarmos a viagem, eu já queria vestir a jaqueta, mas os cuidados de mãe
me impediram: “Primeiro precisa higienizar”. No carro, ela me passou um
lencinho higiênico e comecei ao chato trabalho de limpeza supervisionada.
A
surpresa maior, porém, veio quando ao revistar a peça, encontrei no bolsinho
interior um papel. Ao desdobrá-lo para examinar do que se tratava, imaginem só:
era a entrada para o Rock in Rio, de 1991.
A
empolgação chegou ao ápice. Parecia que estava recebendo uma epifania.
Deixem-me
explicar: eu estava com quinze anos, e
desde os nove anos eu toquei violino na orquestra, mas também estava estudando
violão e guitarra. E agora, no colegial, tinha montado com alguns amigos uma
banda de punk rock, para desgosto do meu pai.
Era
uma banda autoral e cover dos Ramones. Encontrar aquela entrada de show de rock
era prenúncio de sucesso... A jaqueta passou a representar um talismã. E eu
passei a assíduo frequentador de brechós, garimpando bottons e afins que,
afixados no amuleto, valorizavam meu style.
Todas
as vezes que íamos participar de algum show, usava a jaqueta com a riqueza do
achado no bolsinho interno. Ela estava comigo quando toquei em shows
underground de rock punk, ou com grupos covers dos Ramones, e até quando toquei
guitarra com o baterista Richie Ramone. Felizmente, nunca engordei e a jaqueta
do século passado continuou a fazer parte das minhas vestimentas
artísticas-musicais, até começar a se
colapsar naturalmente, sem chances de vender em outro brechó para
iluminar a imaginação de outro menino sonhador.
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