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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Rock no brechó - Elidamares Bianchi Rosa

 



Rock no brechó

Elidamares Bianchi Rosa

 

Era uma viagem normal, igual tantas outras que já fizera com meus pais, mas naquele dia, logo de saída, pegamos um congestionamento gigantesco, que nos custou muitas horas parados na rodovia. Já passava das dez horas e minha mãe decidiu que era melhor pararmos, dormirmos e depois continuaríamos a viagem.

Paramos na próxima cidadezinha que chegamos e encontramos local para dormir em um pequeno hotel no centro. Na manhã seguinte, enquanto meus pais tomavam café, saí para espiar a redondeza. Ao lado do hotel, encontrei um brechó. Entrei.  O cheiro de coisas antigas e guardadas atingiram minhas narinas e espirrei. Sabia que tinha despertado minha alergia, mas a curiosidade pelos itens ali expostos era mais forte que o incômodo da rinite. Espirrando e me desculpando, fui entrando e olhando. De repente, vi uma jaqueta de couro por um preço ínfimo. Voltei correndo para onde estavam os meus pais e fui falando do meu achado. Minha mãe, que se assustou, inicialmente, com a minha chegada efusiva, foi comigo e compramos a jaqueta. Saí todo feliz com a minha aquisição.

Antes de retomarmos a viagem, eu já queria vestir a jaqueta, mas os cuidados de mãe me impediram: “Primeiro precisa higienizar”. No carro, ela me passou um lencinho higiênico e comecei ao chato trabalho de limpeza supervisionada.

A surpresa maior, porém, veio quando ao revistar a peça, encontrei no bolsinho interior um papel. Ao desdobrá-lo para examinar do que se tratava, imaginem só: era a entrada para o Rock in Rio, de 1991.

A empolgação chegou ao ápice. Parecia que estava recebendo uma epifania.

Deixem-me explicar:  eu estava com quinze anos, e desde os nove anos eu toquei violino na orquestra, mas também estava estudando violão e guitarra. E agora, no colegial, tinha montado com alguns amigos uma banda de punk rock, para desgosto do meu pai.

Era uma banda autoral e cover dos Ramones. Encontrar aquela entrada de show de rock era prenúncio de sucesso... A jaqueta passou a representar um talismã. E eu passei a assíduo frequentador de brechós, garimpando bottons e afins que, afixados no amuleto, valorizavam meu style.

Todas as vezes que íamos participar de algum show, usava a jaqueta com a riqueza do achado no bolsinho interno. Ela estava comigo quando toquei em shows underground de rock punk, ou com grupos covers dos Ramones, e até quando toquei guitarra com o baterista Richie Ramone. Felizmente, nunca engordei e a jaqueta do século passado  continuou a  fazer parte das minhas vestimentas artísticas-musicais, até começar a se  colapsar naturalmente, sem chances de vender em outro brechó para iluminar a imaginação de outro menino sonhador.

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