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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Papel e Alma - Hirtis Lazarin

 



Papel e Alma  

Hirtis Lazarin

 

 "O que você faria se descobrisse que, na pressa de mudar de vida, jogou toda a sua história no lixo?"       

 

O eco dos meus passos no assoalho vazio era o sinal mais claro de que eu já não pertencia mais àquele lugar.  Entre pilhas de caixas de papelão e o cheiro acre de fita adesiva, eu fazia uma triagem impiedosa. O que antes era essencial, agora parecia apenas peso. Joguei fora papéis amarelados, utensílios que nunca funcionaram e recordações que, pelo caminho, perderam o sentido. Cada saco de lixo que eu levava para fora era um quilo a menos na bagagem emocional que eu levaria pra nova cidade.

 

As últimas coisas a serem descartadas estavam no meu quarto:  algumas peças de roupas fora de moda — acumulei vestidos desde quando era solteira — e uma mala velha de couro, com o zíper quebrado e as alças esgarçadas. Ela já havia percorrido muitos quilômetros comigo, mas estava cansada demais para essa nova jornada. Ao descartá-la senti um misto de ingratidão e alívio. Algumas coisas não foram feitas pra serem consertadas, apenas deixadas pra trás. Fechei a última caixa com um golpe seco de fita, selando, não apenas meus pertences pra descarte, mas um capítulo extenso da vida que eu levara ali.

 

Eu não estava apenas mudando de cidade, estava tentando salvar um projeto de vida. Com uma filha de dois anos, as decisões ganham um peso diferente.  Olhava pra ela enfeitiçada com aquela bagunça e me enchia de esperança. Eu voltava pra cidade onde a família do meu marido fincou raízes, esperando que o solo de lá fosse mais fértil do que o daqui. 

 

O som do caminhão de mudança, manobrando na calçada, interrompeu a expectativa  da manhã. Ver aquele baú enorme engolir nossos móveis, nossas caixas e o berço desmontado da minha filha era como ver a nossa história sendo compactada para caber em um espaço de metal. Cada móvel que os carregadores levavam deixava um quadrado de poeira e uma marca no chão, revelando o quanto tínhamos ocupado aquele lugar.

 

Enquanto o caminhão se enchia, eu olhava para a mala velha, agora, cercada pelo lixo que eu decidira não levar e ela parecia pequena e patética perto da imensidão do caminhão.. Com a pequena no colo, sentindo o peso do seu corpo adormecido e o cheiro suave de bebê,  observei a última porta do baú ser trancada com um cadeado pesado. Tudo o que restava do nosso passado estava agora sobre rodas, pronto para percorrer os quilômetros que nos separavam da cidade dos familiares do meu marido.

 

Cada quilômetro percorrido parecia filtrar o que restava do meu casamento e da minha identidade. Eu estava me desfazendo da versão de mim que não tinha dado certo. Com o balanço do carro e o sono tranquilo da minha filha na cadeirinha ao lado, o aperto no peito foi, aos poucos, sendo substituído por pensamentos positivos “Tudo vai dar certo”.

 

A adaptação à nova cidade aconteceu com uma fluidez que eu sequer ousava esperar. Em poucos meses, as ruas antes estranhas tornaram-se familiares e o sotaque local já não me soava esquisito. A família do meu marido me acolheu com generosidade e a cada café tomado na varanda da nossa casa confirmava que a mudança havia sido a escolha certa. Eu estava tomada  por uma serenidade que me fazia acreditar que a vida, enfim, estava em ordem.

 

A poeira da mudança já tinha baixado e a casa nova exalava o cheiro do lar organizado; e Helena brincava feliz no quintal.  Faltava apenas organizar nossos  livros e documentos nas estantes do escritório que acabara de ser montado. Eu buscava uma pasta plástica onde estavam guardadas as fotos da minha infância e adolescência e o álbum de casamento dos meus pais. Muitas fotos de uma época em que os momentos mais importantes não ficavam armazenados num celular que nem existia.  

 

A cada caixa aberta,  meu coração acelerava mais. No instante em que meus dedos tocaram o fundo liso e vazio da última caixa, um soluço rasgado escapou da minha garganta. “As fotos…” eu tentei dizer, mas a voz sumia no peito apertado. Minha sogra, confusa e apavorada,  deu um passo atrás,  e eu já estava de joelhos no chão, as mãos enterradas no rosto, enquanto as lágrimas inundavam tudo. 

 

Era um choro de pânico, um desespero. Foi então que a memória me atingiu com um soco e, num flash cruel, surgiu à minha frente, a imagem daquela mala rasgada, com o zíper quebrado, desprezada na calçada, sob sol forte,  esperando pelo caminhão do lixo.   Revivi a cena de mim mesma, exausta e decidida, abandonando-a. Eu não tinha descartado só papel e tinta, mas os únicos pedaços de papel que provavam quem eu era, num passado distante.

 

O suor frio escorreu pela minha nuca  ao entender que, na minha pressa desesperada de me livrar do velho pra abraçar o novo, eu não tinha descartado só um objeto quebrado; eu tinha jogado no lixo o rosto da minha mãe jovem, o meu sorriso de noiva e as únicas provas palpáveis de quem eu era antes de ser esposa e mãe.

 

O recomeço, que estava tão bom, desfolhou-se como  as rosas amarelecidas do vaso.  Senti  um vazio na minha alma. Os dias que se seguiram foram nublados pelo arrependimento: “Por que eu não abri a mala”? Como  não percebi que ela estava pesada”? 

 

Os dias que se seguiram foram marcados por um silêncio pesado, onde cada canto da casa —- tão limpa e organizada —- parecia gritar a minha imprudência. Eu caminhava pelos cômodos assombrada pela imagem daquela calçada onde deixei meu passado entregue à sorte. O brilho da mudança apagou-se; a alegria de decorar cada cantinho  deu lugar a um nó constante na garganta, pois os rostos que deveriam habitar os porta-retratos estavam perdidos. Cada vez que o caminhão de lixo passava, o barulho do motor possante anunciava a chegada do fantasma da mala correndo pela minha casa. Eu me encolhia no sofá, mergulhada num luto solitário.

 

Mas a paciência do meu marido era o único sol que entrava pelas janelas da casa nova. Ele não me cobrou nem me julgou. Apenas me envolvia em abraços silenciosos, enquanto eu chorava o luto da mala de couro. Ele não descansava e, à noite, depois do jantar,  mergulhava em grupos de moradores da nossa antiga cidade, postando fotos da nossa casa e perguntando se alguém tinha visto aquela mala ou se conhecia o pessoal da limpeza. Ele, na verdade, buscava um milagre digital, um rastro que pudesse trazer de volta os papéis que, num momento de correria, eu entreguei ao esquecimento.

 

Essa busca não foi um estalo de sorte, mas uma verdadeira jornada de persistência que se arrastou por semanas e semanas de incerteza. Eu já tinha perdido as esperanças, mas ele se transformou num detetive digital, atravessando noites em claro. Mergulhou em grupos de “Bota-fora”, páginas de achados e perdidos e até em comunidades de bairros vizinhos. As mensagens se perdiam entre anúncios de móveis usados e reclamações cotidianas, mas ele não desistia. Cada notificação que chegava terminava com  “Que pena, eu não vi” ou a pista era falsa. Mas ele não desistia…

 

 A resposta veio de um perfil discreto, sem foto de capa, mas com uma mensagem que me fez perder o fôlego:

 

                   "Eu não podia deixar que esses olhares se perdessem no lixo”.

 

O senhor que resgatou a mala não era um passante qualquer; era o Seu Arnaldo, um fotógrafo que passou a vida capturando instantes, mas que nunca encontrou o palco das grandes galerias. Para ele, as fotos não eram apenas papel velho; eram composições, memórias vivas que ele considerava um tesouro. 

 

Na verdade, quando passou na rua, se interessou pela mala; precisava dela pra guardar muitos documentos que há tempos estavam esparramados pela casa.  

 

Enquanto eu via a mala como um objeto estragado, ele via-a como um objeto útil. E, ao abrí-la, descobriu um museu particular. Saber que minha história passou meses e meses sendo velada por alguém que amava a fotografia, trouxe-me tanta gratidão que nem cabia dentro de mim.

 

O nosso encontro com o Seu Arnaldo não aconteceu numa calçada fria, mas sob as luzes de uma pequena galeria improvisada, onde o cheiro de papel antigo misturava-se ao cheiro de café forte. Quando atravessei a porta, meu coração tropeçou: ali entre molduras de madeira conservadas e registros em preto e branco que o fotógrafo guardara por décadas, estavam os meus próprios fragmentos. O bigode espesso do meu pai, o rosto jovem da minha mãe, o momento em que entrei na igreja,  meu bouquet de noiva…  não eram papel e tinta descartados, mas protagonistas de uma exposição sobre a perspectiva da memória. Os visitantes é que determinariam a duração do evento.

 

Ao conhecer o homem responsável pelo resgate, vi em seus olhos o brilho do fotógrafo que o destino escolheu pra ser o guardião das minhas jóias. É isso mesmo…  Minhas jóias… Ele resgatou  meus rubis e diamantes.. 

 

Ao final da noite, antes de deixarmos o espaço, ele  prometeu nos fazer uma visita e despachar as fotos, organizadas na cronologia do tempo.

 

Caminhei  na calçada até onde estava  o carro e senti-me inteira outra vez. Olhar para aquelas fotos na parede, resgatadas  pela sensibilidade de um estranho me fez sentir inteira outra vez.

 

Finalmente as fotos estavam em minhas mãos. Retirei do envelope de seda a primeira delas: o registro do casamento da minha mãe, a mesma imagem que Seu Arnaldo havia destacado na exposição. Ao deslizar o papel antigo pra dentro do porta-retrato que reservei para o aparador da sala — foi inacreditável— encaixe perfeito. Olhei para o sorriso dela e depois para o meu marido e minha filha que brincavam no jardim, visíveis pela janela. Depois de colocar o retrato no devido lugar, respirei profundamente: tinha certeza de que o fantasma da mala deixaria de correr dentro de mim. 

 

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