A Saga da Família Vargas
Hirtis Lazarin
Tudo começou no ano de 1880, com Elias Vargas, pescador de uma aldeia remota.
O céu ficou cor de chumbo. Ondas brutais e devastadoras jogaram o barco ocupado por três pescadores contra as pedras pontudas de uma costa esquecida. Apesar de habituados às condições austeras, ao sol, ao sal e ao frio, apenas um deles se salvou. Atirado por ondas revoltas e selvagens contra pedras afiadas, seu corpo sangrava. As feridas, expostas ao sol e sal, queimavam, sem pena nem dó.
Apesar dessa fúria desenfreada do mar, ele não sucumbiu. Feito um réptil à beira da morte, debateu-se e rastejou do jeito que pôde até alcançar a areia da costa. Agonizando ficou, por quanto tempo nunca conseguiu saber.
Febril
e já à beira da morte, Elias começou a alucinar. Via os companheiros, que o mar
levou, caminhando sobre as águas. Grita o nome deles, mas cadê sua voz? A
árvore de sua linhagem aparece-lhe, sucessivamente, à frente. As raízes
expandem-se a partir do amontoado dos seus ossos. Dois galhos crescem… crescem…
até onde seus olhos não alcançam mais. Em vez de folhas, ela produz engrenagens
de ferro.
Foi
quando, num desses delírios em que se arrastava sem rumo, tropeçou e caiu numa
depressão no centro da ilha. Ao tentar se levantar, seus dedos compridos e
calejados cravaram numa lama cinzenta: era sal puríssimo misturado a um mineral
metálico desconhecido.
À
custa de frutos silvestres, algas marinhas e coco, conseguiu recobrar a
consciência e sobreviveu. A sua vivência de cinquenta anos em contato com o mar
dava-lhe esperança de que, mais dia, menos dia, sairia desse encarceramento.
Utilizou restos de óleo de baleia e madeiras secas, que o mar trazia à costa,
para manter uma pequena chama acesa no ponto mais alto da ilha. No entanto, ele
não buscava apenas socorro, mantinha guarda, obsessivamente, à jazida que havia
descoberto.
Um
navio de patrulha costeira avistou a coluna de fumaça persistente. Ao
desembarcarem, os marinheiros não encontraram um náufrago desesperado, mas um
homem magro e febril, sentado sobre montes de sal e minerais que ele mesmo
havia organizado em pilhas geométricas.
Elias
estava com as mãos em carne viva de tanto cavar, mas se recusava a sair da ilha
sem suas “amostras”. Foi resgatado carregando apenas uma bússola quebrada,
salva dos destroços, e os bolsos cheios daquela terra cinzenta e salina.
Durante
toda a viagem de volta ao continente, não disse uma única palavra sobre os
companheiros que faleceram. Permaneceu no convés, afastado dos tripulantes,
olhando fixamente para o oceano. Um olhar de quem não estava só sendo salvo,
mas sim de quem estava partindo para uma guerra de conquista. Olhos frios de
quem imaginava que o sofrimento pode ser transformado em moeda.
Como
pescador e homem simples, Elias vivia, até então, em perfeita harmonia e
respeito ao mar e a tudo que ele lhe oferecia. Entretanto, esse mesmo mar
tentou arrebatar-lhe a vida. O naufrágio, os dias de horror na ilha e o medo da
morte atormentaram-no durante meses. Tudo isso quebrou essa confiança. Ser
“simples” significava ser “frágil” e frágil ele nunca mais seria, nunca mais
estaria à mercê de forças maiores que ele — fosse o oceano, o governo ou a
pobreza. Era a “fobia da impotência” em desenvolvimento.
Elias usou a pequena porção que trouxe nos bolsos para curar feridas de marinheiros no porto. A mistura mineral daquela ilha específica tinha propriedades antissépticas superiores a qualquer sal comum da época. Vendeu essas primeiras amostras como um “tônico milagroso”, conseguindo um capital inicial dez vezes maior do que o valor de uma carga comum de peixe.
Com
o dinheiro das vendas, ele não comprou barcos novos, mas sim o título de posse
daquela ilha deserta, que o governo considerava inútil. Ninguém entendia por
que ele queria um pedaço de rocha salina, até que começou a exportar o sal não só para a mesa,
mas para a indústria de conservas e curtumes, que pagava fortunas por um
produto que preservasse a carne por mais tempo sem estragar o sabor.
Para
expandir, Elias precisava de infraestrutura. Ele atraiu dois investidores,
prometendo sociedade eterna. Assim que o porto e as primeiras máquinas de
extração foram instaladas, ele utilizou as dívidas acumuladas durante a
construção para levar os sócios à falência, comprando as partes deles por uma
fração do valor. Foi nesse momento que as “mãos sujas de terra e sal” deixaram
de ser de um trabalhador e passaram a ser as de um empresário frio e ambicioso.
Em
menos de uma década, ele controlava todo o fluxo de sal da região, criando o
“Trono dos Vargas”, que, mais tarde, seria herdado e expandido pelo filho
Artur.
“A
moralidade é um luxo de quem tem o estômago cheio. Para que vocês jantem em
prata, eu preciso ter as “mãos sujas de terra e sal''. — Pensamento que Elias repetia sempre quando
a família se reunia à mesa farta.
Mesmo
após ficar rico, Elias nunca se sentiu seguro. Via o mundo como um lugar onde,
para alguém ganhar, outro tem que perder. Isso o tornou um empresário solitário
e paranóico. Não via concorrentes, apenas competidores que ainda não haviam
sido derrotados.
O pescador
que amava o horizonte morreu como um imperador que só conseguia olhar para o
chão, contando cada grama de cristal que saía de suas terras.
Elias
tinha três filhos: Edgar, Helena e Arthur.
Edgar
Vargas, o mais velho, pensava diferente do pai e se recusava a trabalhar nas
empresas da família. Queria estudar, viajar, desfrutar a vida e gastar o
dinheiro disponível. Sabia quão grande era a fortuna acumulada. Jamais
trabalharia nas minas de sal ou nos barcos, preferindo os livros. Para Elias,
isso foi visto como covardia ou fraqueza. No dia em que Edgar decidiu partir
para a capital e estudar, o pai cumpriu a promessa: deserdou o filho e o declarou morto; queimou
seus registros e proibiu Arthur e Helena de citarem seu nome. Dona Josefina, a
esposa, coitada! Chorou o resto da vida.
Helena
Vargas representava a consciência da família. Enquanto Artur construía, Helena
via as rachaduras. Ela ouvia as vozes das comunidades e gerações sacrificadas
para sustentar o luxo da mansão. Era a única que visitava as vilas dos
trabalhadores e entendia que a riqueza da família estava sendo extraída através
do sofrimento alheio.
Tentou
usar a fortuna para curar as feridas sociais causadas pelo pai e pelo irmão,
mas descobriu que o sistema dos Vargas era uma fortaleza e fora desenhado para
corromper. Sua vida foi uma luta constante contra as correntes que a prendiam
ao nome da família.
E
foi Arthur Vargas, o filho do meio, quem assumiu as empresas da família.
Arthur
transformou a ilha num complexo industrial.
Substituiu as pás de madeira por escavadeiras de ferro e correias
transportadoras. As engrenagens enferrujadas foram trocadas por máquinas.
Descobriu que o sal da ilha era essencial para a nova indústria de plásticos e
produtos de limpeza que surgia na Europa. Parou de vender sal para cozinhas e
passou a fornecer para as grandes fábricas do mundo, triplicando o valor do
negócio. Financiou ferrovias e portos privados apenas para escoar sua produção.
No seu mundo não havia espaço para a emoção. Tudo deveria ser funcional,
produtivo e controlado. A família era uma máquina, tanto que a sua rigidez o
impedia de validar qualquer sofrimento.
Se
ele foi a força que cimentou o império, foi também a marreta que estilhaçou sua
relação com Helena, a irmã altruísta e
visionária. Ela era a única que visitava as vilas dos trabalhadores e entendia
que a riqueza da família estava sendo extraída através do sofrimento alheio.
Representava a consciência sufocada de uma dinastia que se perdeu na ganância.
E para o irmão, a empatia dela era uma “falha mecânica” que ameaçava a
estrutura dos Vargas.
Como
não conseguia dobrar a vontade da irmã através da lógica empresarial, usou sua
rigidez para cercá-la. Removeu-a das decisões da empresa e a confinou à vida
doméstica e artística, acreditando que, se ela ficasse calada, o conflito
deixaria de existir.
A
moça não perdeu tempo. Num diário guardado a sete chaves, registrava,
detalhadamente, os acontecimentos importantes do dia a dia e os segredos
obscuros da família que ela descobriu em cartas antigas, abandonadas no sótão
da mansão:
— O naufrágio original não foi um acidente do
destino. O pai teria sabotado o barco da família rival para garantir a posse
exclusiva da ilha de sal. A fortuna dos Vargas não nasceu do esforço, mas de
uma traição que custou a vida de amigos próximos do patriarca.
— A
expansão industrial dos empreendimentos causou a morte de centenas de
trabalhadores por doenças respiratórias por conta da falta de segurança nas
minas de sal. O irmão sabia dos riscos, mas ocultou os relatórios médicos pra
não interromper a produção, tratando as pessoas como peças descartáveis.
— A jazida original estava em terras que
pertenciam a uma comunidade nativa dizimada por negligência. E documentos provavam que a fortuna era,
legalmente, um roubo.
— Artur usou a fortuna para subornar cientistas
e esconder que a extração intensiva estava matando a vida marinha local.
Helena
escreveu também sobre o medo de ser internada à força e como o irmão
interceptava suas cartas para advogados e ativistas.
“Um
legado não é o que você deixa para os seus filhos, mas o que você deixa de
carregar para que eles possam caminhar.” Essa frase aparecia em muitas páginas
do diário.
Arthur
não teve filhos e Helena nunca se casou.
Nenhum dos dois tinha herdeiros para aquele imenso patrimônio. O homem trabalhou tanto que não teve tempo
pra pensar nisso e Helena nunca se casou.
Quem
herdaria esse patrimônio?
Helena
vinha se preparando pra quando chegasse o momento em que a transmissão de poder
se tornasse inevitável. E esse momento
havia chegado. Às escondidas da família, esteve sempre em contato com Edgar, o
irmão deserdado. Manteve-o informado de tudo que acontecia nas empresas e o
ajudou muito financeiramente. Ele morava em Londres, onde se estabilizou
profissionalmente como advogado e construiu uma família linda com Emily e dois
meninos, Jasper e Harry.
O
ano era de 1965 e Arthur, que nunca se preocupou com a saúde e tinha a vida
desregrada com mulheres e muita bebida, adoeceu. O diagnóstico foi o mais
inesperado possível: câncer no fígado. Fez todos os tratamentos que a medicina
tinha pra oferecer, mas antes de um ano veio a falecer.
Era,
portanto, chegada a hora de Jasper, o filho mais velho de Edgar, entrar em
cena. Desde pequeno, fora treinado por Helena para a missão de, um dia, se
necessário fosse, assumir as rédeas do império “Vargas”. Ela sabia que isso
aconteceria e que a única forma de salvar a alma da família era destruindo o
“trono”. Ela previa que o sal acabaria por corroer a estrutura da mansão e da
linhagem, e que o sobrinho seria a força que destruiria as engrenagens
enferrujadas pela dor.
Jasper
tornou-se, legalmente, não só o guardião legal e financeiro de Helena, como
também assumiu o comando do patrimônio que a família havia construído. Mas, o
conflito interno de Jasper começou ali: ele amava a tia e ouvia seu grito por
justiça, mas também estava preso pelas engrenagens industriais que precisava
operar para não deixar a família naufragar.
Ele
passou quase dez anos tentando conciliar o legado de Arthur com a consciência
de Helena. Até que, na década de 1970, deu início ao longo processo de
cancelamento de contratos, venda do maquinário, devolução das terras ocupadas e
indenização justa aos funcionários e às famílias que choravam pelos que
morreram intoxicados pelo sal.
Helena
foi a verdadeira responsável pela libertação da família. Foi através de seus
escritos e do seu exemplo que Jasper encontrou a coragem para “deixar de
carregar” o fardo. Ela plantou a semente da mudança e a semente, em mente
fértil, floresceu.
A
primeira manhã de Helena e Jasper, fora dos portões da mansão, não teve o
brilho do ouro, mas a claridade ofuscante da verdade. Eles caminharam descalços
pela areia, sentindo o sal secar na pele, não mais como uma maldição, mas como
um batismo. Atrás dele, a mansão Vargas parecia encolher, tornando-se apenas
uma sombra cinzenta contra os penhascos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
DEIXE AQUI UMA MENSAGEM PARA O AUTOR DESTE TEXTO - NÃO ESQUEÇA DE ASSINAR SEU COMENTÁRIO. O AUTOR AGRADECE.