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quarta-feira, 13 de maio de 2026

VOAR - PEDRO HENRIQUE

 



VOAR

PEDRO HENRIQUE


     Quando o sol abraçou a Terra com seus raios, senti-me na obrigação de levantar, mesmo sendo a última coisa que eu quisesse fazer.

     Entretanto, não havia opção. O dia se desenrolava lá fora. Olhei para o relógio e, quando vi 6:30, percebi que estava atrasada. 

     Fui ao banheiro correndo e fiz meu ritual matinal em uma velocidade tamanha que até cogitei que, na próxima Olimpíada, na categoria corrida, o ouro seria meu. 

     Os minutos saltavam pelas minhas mãos. Haviam se passado 7 até então. Fui ao quarto, peguei um cachecol e vesti o primeiro jeans que encontrei, combinando-o com uma blusa branca: “É o que temos para hoje.”

     Ontem, meu supervisor disse aos berros que eu era uma incompetente, porque não batia a meta da semana passada. Dá para acreditar? Aquele ser sem um pingo de escrúpulos se sente no direito de me ofender em público por não alcançar algo que nem ele, quando era telefonista, conseguia. 

        Isso que dá querer dar asas à cobra.

     6:50, estava eu no ponto de ônibus para, como faço há 8 anos, atender telefones e dizer: “Bom dia, senhora! Bom dia, senhor!”

     Porém, ainda assim, sinto-me indignada. Não entendi como pode haver tanta gente ruim no mundo. 

     Eu também tenho certa culpa em tudo isso. Mamãe sempre me alertou que devia ter feito uma faculdade, mas… A vida foi acontecendo, e os passos foram percorrendo novas rotas e cá estou: exausta! 

     Passados três minutos, o ônibus corta a esquina e eu, nele, entro. 

     Certamente, havia mais de 40 pessoas rezando para não adentrar mais ninguém, pois já não havia possibilidade de movimentação no veículo. 

     E foi aí, neste singelo fragmento do tempo, que vi uma arara azul subjugando o vento. 

     Eu nunca vi uma arara-azul na vida! 

     Lembro, quando pequena, de assistir àqueles programas de TV que discorriam sobre os animais e, quando falavam sobre as aves, sempre aparecia uma arara azul. 

     Elas são tão lindas… E essa… Essa sou eu, ou, ao menos, o que eu queria ter sido e não fui. 

     Não há medo, nem angústia a permeando. Ela só submerge em seu voar.

     Quando o ônibus vira a rua XV de Novembro, a arara pousa em uma árvore e eu amaldiçoo este trambolho por andar tão rápido. 

     Porém, algo em mim está estranho. A vida correu tão depressa, voou como aquela arara. 

     Como pode? Estou constrangida por aquele bicho enfadonho. Ela me machucou. Machucou como ninguém antes havia feito. 

     Quero matar aquela arara. Quero vê-la morrer gritando, sufocando. 

     Não, não posso. Tenho é que agradecê-la. Montar um altar em sua homenagem e cultuá-la, tal qual uma serva leal ao seu deus.

     Obrigada, arara; obrigada, ararinha. Não há o que pestanejar. Está decidido, assim que chegar à empresa, pedirei demissão.


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