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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Antes do último capítulo - Hirtis Lazarin





Antes do último capítulo Hirtis Lazarin O relógio na parede do restaurante marcava exatamente 19:45 horas quando a porta da frente travou pela décima vez.
O burburinho era ensurdecedor, uma mistura de mil conversas paralelas.
O cheiro de manjericão e de alho fritando escapava da cozinha, cada vez que o garçom passava equilibrando três pratos de cerâmica apoiados sobre um único braço. Confesso que tive um pensamento maroto: “Tomara que caia”.
Enquanto isso, a confusão na recepção aumentava com a chegada de um grupo de jovens, sem reserva. A recepcionista, com os olhos presos no tablet, tentava inutilmente encontrar um espaço que não existia. — “O tempo de espera é de cinquenta minutos” — anunciou ela, recebendo em troca um coro de suspiros frustrados.
Foi então que, no auge do movimento, as luzes piscaram três vezes e se apagaram por minutos — os minutos mais compridos que já vivi.
Quando a energia voltou, uma garrafa de champanhe estourou na mesa sete, acompanhada do tilintar de muitos garfos batendo nas mesas.
Na mesa de canto, um senhor solitário ignorava o caos ao seu redor. Folheava um livro antigo de capa vermelha e dura. Ele parecia o habitante da ilha do silêncio, em meio a um mar de famintos. Aguardava sua taça de vinho, a segunda da noite, com a paciência de quem já venceu mais de sete décadas de vida.
A paz do idoso, porém, era um alvo frágil para a engrenagem dinâmica do salão. No instante em que levava a segunda taça à boca, um garçom, acuado pelo fluxo de crianças no corredor, tropeçou levemente ao desviar de uma cadeira. O impacto no ombro do idoso foi seco. O vinho tinto descreveu um arco no ar antes de golpear a camisa de linho branca, impecavelmente passada. O líquido espalhou-se pelo tecido como uma assinatura em papel virgem.
O homem permaneceu estático com a taça suspensa a poucos centímetros do seu rosto, enquanto o gelado da bebida atravessava o tecido e molhava sua pele.
O garçom não sabia o que fazer; a bandeja tremia em sua mão. “Meu Deus, me perdoe, eu… eu sou desajeitado” — puxando um pano de prato encardido que só serviu pra espalhar ainda mais a mancha vermelha.
Antes que o senhor pudesse reagir, a voz estridente do gerente cortou o salão. Em vez de socorrer o cliente, avançou sobre o garçom e, com o dedo em riste, gritava: “Incompetente! Eu disse pra ter cuidado!” A humilhação do rapaz era maior que a mancha vermelha.
A vítima não olhava para o garçom, nem para a camisa, nem para o gerente; seus olhos permaneciam fixos no livro aberto à página 94, como se tentasse proteger as palavras daquela confusão.”
Sob o peso daquela atitude compassiva, o gerente murchou quando já se preparava pra lançar outro grito contra o funcionário.
O restaurante, que, até então, era um mar de ruídos felizes, sofreu uma súbita queda de pressão. Não houve manifestações, mas sim um coro de pequenos suspiros de lamentação e olhares de empatia silenciosa e desconfortável. Era um pesar coletivo.
O senhor Frederico ergueu finalmente os olhos, não com raiva, mas com desprezo pela forma como o garçom estava sendo tratado diante de todos. Sem pronunciar uma única palavra, fechou o livro com a calma dos anjos.
Movido por uma dignidade explícita, depositou uma nota de valor expressivo sobre a mesa e lançou ao gerente um olhar gélido — não de raiva, mas de decepção profunda e educada.
Sob o silêncio atônito dos que observavam a cena, ele ignorou o incômodo da mancha vermelha, levantou-se com postura aristocrática e atravessou o salão com passos firmes e rítmicos.
O senhor Frederico Cavalcanti carregava sua gentileza como uma armadura, deixando pra trás um rastro de constrangimento.

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