A GRANDE JORNADA - CONTO COLETIVO 2023

AINDA HÁ TEMPO PARA AMAR - CONTO COLETIVO 2011

FIGURAS DE LINGUAGEM

DISPOSITIVOS LITERÁRIOS

FERRAMENTAS LITERÁRIAS

BIBLIOTECA - LIVROS EM PDF

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Cartomante Marieta - Dinah R. de Amorim

 



A CARTOMANTE MARIETA!

Dinah Ribeiro de Amorim

 

Marieta, menina quieta, tímida, sonhadora, vivia cismando pelos cantos da casa.

Sua mãe, preocupada, chamava-lhe a atenção e enchia-a de tarefas. “Que será que essa menina pensa tanto?”, perguntava-se!

A menina foi crescendo, estudando, aprendendo coisas novas, mas o temperamento não mudou muito: observava e estudava as pessoas! Sentia-se atraída pelo desenvolvimento e sentimentos humanos.

Talvez seja uma psicóloga, pensa a mãe, mas Marieta logo abandonou os estudos. Começou a dar conselhos e atendimentos particulares a quem dela precisasse. Tornou-se uma verdadeira cartomante, popularmente chamada, baseada nos seus instintos ou intuições.

Com o tempo, não só conversava, mas utilizava-se das cartas de um baralho velho, deixado por sua avó. Afeição a ela, com certeza.

Talvez fosse isso, pensava a mãe, o espírito da avó agindo nela. Um tipo de médium ou vidente, sabe-se lá. O fato é que ela começou a trabalhar com isso e cobrar seus conselhos, para ganhar a vida.

Com o tempo, ficou famosa, sendo procurada até por professores universitários, quando necessitavam.

Uma coisa era realmente verdade: todos tinham algum problema ou dúvida durante a vida e, à sua maneira, Marieta satisfazia as curiosidades.

Sua fama foi crescendo e a situação financeira também. Começou como uma sentimental, humana e crente a resolver e auxiliar o próximo, mas, gradualmente, tornou-se uma eficiente malabarista da profissão. Respondia mecanicamente a todos, sabedora das satisfações e insatisfações alheias.

Até então, todos que atendia saíam esperançosos e ansiosos para seguirem seus conselhos.

Teve um homem que apareceu nos arredores, atraído por sua fama. Era muito experiente em jogatinas e o baralho, sua preferência.

Incrédulo em favores do além, confiante em sua sorte e conhecimento, quis conhecer Marieta. Saber de onde e como vinham seus conhecimentos e afirmações. O dinheiro, principalmente.

Marcou uma consulta e resolveu estudá-la melhor. Observar o conhecimento do que afirmava, de onde vinha.

Marieta, ao recebê-lo, teve leve intuição: não era sincero, só queria estudá-la.

Perguntou-lhe sobre sua vida, seus problemas, o que o atraíra até ela?

O homem, chamado Mário, o jogador sortudo, como era conhecido em seu meio, queixou-se das finanças, da vida emocional, não encontrara em sua vida um verdadeiro amor.

Marieta foi mandando-o cortar o baralho em várias etapas e ele, conhecedor das cartas, foi logo percebendo quais seriam tiradas. Sobre as finanças, o Ás de ouro; sobre o amor, o Rei de espada; e assim por diante. Percebia até o que a mulher falaria sobre cada assunto.

Mário, intimamente, ria-se dela, sabendo que não possuía dom algum, mas somente conhecedora do significado sentimental de cada carta sorteada. Uma jogada popular, conhecida, sem nenhuma validade emocional mais profunda ou espiritual, somente sorte também.

Marieta, percebendo que o moço era também um conhecedor do assunto, concentrou-se melhor, pensou na avó, resolveu responder com a maior seriedade sobre o assunto, coisa que há tempos já não fazia!

Concentrou-se tanto, meditou alguns minutos, olhou-o firme e mandou que escolhesse uma carta mais pessoal. Mário tirou uma dama de paus.

Respondeu-lhe seriamente que era a carta da vida passada! Mário, curioso, sensibilizou-se um pouco e, atencioso, lhe escuta.

Marieta, nem sabe explicar como, palavras lhe saem, jorram de sua boca como tiradas de algum poço fundo, vindo à tona e derramadas, amargas como um remédio fétido.

Fala sobre o início da vida de Mário, sua infância triste, em um orfanato, distante dos pais e da família.

Crescido, envolve-se com jovens imaturos como ele, escapando de aprisionamentos e acusações maiores, devido à sorte que apresentou em diversas ocasiões.

Acometido de uma doença grave, infecciosa, quase levando-o à morte, sai-se dela, curado, sabe Deus como? Talvez devido à sorte também.

Começa a se envolver com jogos, principalmente baralhos, aproveitando o único modo de vida que o entretinha e que lhe trazia algum retorno.

Chega até ela, Marieta, com desconfiança e vontade de desacreditá-la publicamente, por puro exibicionismo, descrença e apostas feitas com amigos das jogatinas da cidade.

Marieta para, ofegante, respira fundo, nem percebe que o rapaz a olha espantado, com respeito e admiração.

Mário, cabisbaixo, pergunta-lhe como adivinhou certas passagens de sua vida, olhando simplesmente através das cartas de um baralho?

Sabia manejá-las bem, mas adivinhar o passado, falar sobre vidas pessoais, ele não conhecia nada.

Nem ela entende bem o que houve. Alguma inspiração lhe acontecia, de vez em quando, desde menina, sem saber direito o porquê?

Usava o baralho como única aprendizagem que sabia sobre o assunto.

E assim ficaram ambos, se olhando e meditando, procurando solucionar ou responder sobre o acontecimento, boquiabertos, mas sem emitir nenhum som.

Mário, sem saber como lhe agradecer a consulta, e Marieta, sem saber o que lhe acontecia, em verdade, por meio de um baralho ou não. Talvez o usasse, simplesmente, como desculpas para explicar às pessoas o que sentia realmente.

O tempo passa. Alguns anos transformam o rumo de nossas vidas. Fatos acontecem para modificá-la, melhores ou piores, dependem das nossas escolhas.

Estamos agora em frente a um Instituto Novo, que fornece estudos em parapsicologia. “Mente Sadia!”, fundado pelo teólogo Rogério Azevedo.

Muito procurado por pessoas interessadas, é auxiliado por uma simpática senhora, Dona Marieta, uma sensitiva, que atende os pacientes e os aconselha, simplesmente colocando as mãos em seus pulsos.

Já estão sendo reconhecidos pela Sociedade Nacional de Psicologia, através do sucesso em trabalhos realizados.

Quem é o secretário particular da instituição? O ex-jogador Mário, convertido a essa doutrina e marido de Dona Marieta.

 

 

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário

DEIXE AQUI UMA MENSAGEM PARA O AUTOR DESTE TEXTO - NÃO ESQUEÇA DE ASSINAR SEU COMENTÁRIO. O AUTOR AGRADECE.

Cartomante Marieta - Dinah R. de Amorim

  A CARTOMANTE MARIETA! Dinah Ribeiro de Amorim   Marieta, menina quieta, tímida, sonhadora, vivia cismando pelos cantos da casa. Su...