No
meio do percurso…
Hirtis Lazarin
Caminhava eu feliz e confortável por uma estrada
larga e promissora. A sombra do verde que a ladeava protegia-me do calor
escaldante do sol e das tempestades que, inesperadamente, chegavam. Os troncos
resistentes das árvores eram a minha segurança; agarrava-me a eles quando a
ventania tentava me arrastar.
A lua observava-me silenciosa e sua
luminosidade tênue não permitia que eu me desviasse do caminho. Punhado de
estrelas inspirava-me a fazer poesia.
O amanhecer, com suas cores, aromas e brilho,
rejuvenescia-me e enchia-me de energia. Aprendi a reconhecer cada pássaro pela
melodia do seu canto. Em voo livre, sem medo e sem direção, fizeram-me
valorizar a liberdade.
Aprendi a exercitar o silêncio. O silêncio não
comete erros, não magoa ninguém e acalenta nossos sonhos. É no silêncio que
encontramos respostas às nossas dúvidas tão frequentes e comuns.
Mas… Eu não sabia que existia a palavra “MAS”…
Fui pego de surpresa. Uma porta enorme, feita de
ferro pesado, caiu do nada, a minha frente, e interrompeu minha andança. Dei um
pulo atrás para que meu pé não fosse dividido em dois. Foi tudo tão rápido que
não deu tempo pra eu ver como foi plantada ali, bem pertinho de mim. Cair do
céu ela não caiu. Um mistério.
Tentei arrumar explicações várias; primeiro,
utilizando meus conhecimentos de física e matemática, mas todos passaram por
ingênuos e descartáveis. Examinei-a, cuidadosamente. Era compacta. Alguém
poderia estar escondido? Nenhum rastro, nenhum ruído diferente, nada que
indicasse a presença de um estranho.
Cheguei até a pensar em bruxaria ou coisas do outro
mundo. Joguei esse pensamento longe, pois não era o momento para superstição.
Senti raiva, gritei palavrões e perdi o autocontrole
quando, inexplicavelmente, o dia virou noite. Não enxergava mais nada. Chutei e esmurrei
a porta, por quantas vezes não sei. Só parei quando o sangue escorria pelas
minhas mãos e pés.
Atônito e sem saber o que fazer, joguei-me ao chão.
Senti muita… muita dor. Espinhos, que a relva fresca escondia, feriram-me o
rosto e, pela primeira vez, chorei. Chorei até à exaustão.
Adormeci. Sonhei com monstros que devoravam cada
pedacinho de mim. Só restava meu coração para que a morte me engolisse.
Não sei quanto tempo se passou…
Acordei com o toque de uma varinha mágica. Abri os
olhos e tudo continuava escuro. Ouvi palavras macias e acolhedoras. Conselhos
de mãe.
Levantei-me sem pressa. Depois de algumas flexões,
senti os músculos enrijecidos.
Sem nada enxergar, arrastei os pés até a porta que
permanecia desafiadora. Tateei-a, detalhadamente, sem pressa nem alvoroço. Era
uniforme e não tinha fechadura.
Mas… Outro “MAS”… apareceu.
À esquerda, bem lá no topo da porta, senti um
pontinho saliente, perdido no negro inabalável. Ensaiei várias vezes até
tocá-lo levemente. Nada aconteceu. Criei coragem e, sobre ele, pressionei o
dedo indicador com toda força que eu tinha.
A porta deslizou sobre os trilhos, silenciosa e
macia. Tão macia quanto o levantar voo de um cisne.
Não podia perder tempo nem a oportunidade.
Corri para o outro lado. Venci o obstáculo.
Sem olhar para trás, continuei minha caminhada.
Reconectado à esperança…
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