quinta-feira, 10 de maio de 2018

O INFERNO - Henrique Schnaider



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O INFERNO 
Henrique Schnaider

Meu nome é Samir, moro na cidade de Alepo na Síria, minha infância foi alegre, feliz com meus pais, muito zelosos. Éramos oito irmãos, quando sentávamos à mesa, era uma algazarra, nós e meus avós paternos, o aroma do pão pita que dominava o ar, exalando o perfume doce do trigo com o aroma peculiar da zátara.

Todas as tardes exatamente as seis horas do alto do minarete, o Muezim anunciava, que era hora de se ajoelhar e rezar em direção a Meca. Fazíamos nossas orações com a maior convicção, com o coração cheio de fé.  Como acreditávamos no profeta Maomé e que Alá é grande, nos protegeria de tudo e de todos os inimigos infiéis de poderes imensuráveis.

As aulas de Alcorão na mesquita de Al Aksa, ministrada pelo Aiatolá Mohamed, eram uma mistura de ar impregnado do doce e rubro carmim, todos nós sentados no chão, atentos à aula com uma mistura de respeito e medo, deliciados, ouvidos atentos ao Aiatolá que quando terminava nossos estudos, oferecia o Halawi, iguaria dos Deuses.

Até ali tinha uma vida feliz, mas quando começou a guerra na Síria, não entendíamos nada do que ocorria, apesar de ser um adolescente, não conseguia assimilar a crueza da guerra, que nos machuca como ferro em brasa.

A violência crescia cada vez mais. Bombas não paravam de cair, uma chuva de meteoros. Ora estávamos dominados pelo Estado Islâmico, ora os rebeldes adversários do Presidente Hafez Assad, também o exército sírio invadiam nossa cidade. Não importava quem nos dominasse, éramos nós que sentíamos a dor aguda dos bombardeios.

Nesse inferno que se tornou nossa vida, um dia, durante um bombardeio atroz, nossa casa foi atingida em cheio, pedaços de concreto voaram estilhaçados por todos os lados. Nossa vida passou a ser amarga. Morreram cinco dos meus irmãos, meus avós, meus pais.

A dor lancinante de tamanha perda, foi demais para mim. Desnorteado, sem saber o que fazer, a única coisa que sei, é que reuni meus irmãos e tratei de sair daquele inferno.

Foram dias de muito sofrimento, fomos em direção ao mar, na esperança de encontrar lá algum barco, que nos tirasse da Síria para qualquer outro lugar.

Já não tinha mais o que fazer, só restava orar à Alá. Chegamos na praia depois uma odisseia indescritível de dias intermináveis de sofrimento. Havia um barco no local com pessoas tentando entrar, nos juntamos ao grupo. Depois de uma luta terrível conseguimos adentrar no velho barco caindo aos pedaços.

Em algumas horas estávamos em alto mar, balançando ao sabor das ondas. Na embarcação que caberia no máximo trinta pessoas, havia cinquenta, sem água sem comida, pessoas passando mal, outras dependuradas vomitando o pouco que haviam comido. A cena no local era de puro desespero.

Rezava para Alá, agora já não mais com fé, mas sim com pura revolta, querendo saber o que fiz para merecer tamanha desdita. Não acreditava em mais nada como poderia haver um Deus que permitisse que aquilo acontecesse.
Depois de dias sem comer e beber, já haviam falecido umas vinte pessoas, estávamos em estado lamentável, nos sentíamos como ratos de esgoto.

Finalmente chegamos nas piores condições possíveis, próximo da Ilha de Lampedusa na costa italiana.

Vieram as autoridades de saúde da Itália, para nossa alegria ilusória que durou pouco, fomos tratados feito vermes, depois de algum tempo nos recolheram em um acampamento de refugiados onde nosso martírio continuou, aqui estamos aguardando o que vão fazer conosco, só Alá é quem sabe.

  







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