quinta-feira, 25 de maio de 2017

O furação - Henrique Schnaider

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O furação
Henrique Schnaider

Era o final das férias de Ana, benefício pelo qual lutara tanto nos últimos anos, mas que pelo excesso de trabalho, tantas vezes fora adiado.

Ainda lhe restariam alguns dias diante daquela beleza natural. De um lado a mata virgem provendo o espaço de ar puro e muitos pássaros, de outro, o mar que lhe oferecia oportunidade de manter os pés na areia, e aquele horizonte sem fim onde se encontram céu e mar.

A antiga casa dos pais, nessa praia quase deserta com grande extensão de orla para caminhar pelas manhãs, tem sido seu refúgio sempre que consegue folga.

A jovem Ana estava sozinha na praia quando soube que se aproximava um furacão.

Ana sentiu certo pavor e por alguns momentos manteve-se estática, sem reação. Depois, os pensamentos já se embolavam na mente e a situação já era de verdadeiro desespero  e aflição...

Ana lembrava-se de quantas vezes, esteve naquela casa, junto com seus pais e irmãos, desde os seus cinco anos de idade, ela passava suas férias de verão e ainda tão jovem, conheceu Paulo, amigo de seu irmão e com o passar do tempo acabaram se apaixonando e namorando.

Como são todos os jovens, pouco precavidos, Ana acabou engravidando, mas ambas as famílias foram compreensivas e curtiram muito a gravidez e finalmente nasceu Aníbal, criança linda, que deu muita alegria a todos.

Os jovens Ana e Álvaro casaram-se e acabaram formando uma família linda.

Ela acabou se formando engenheira,  e Álvaro formou-se em Medicina. Ambos  alcançaram sucesso  nas profissões e conseguiram ficar bem financeiramente .

Na segunda gravidez foi uma felicidade geral e ela conseguiu uma licença maior, e foi curtir a sua maternidade na velha casa de pais na praia, o marido descia para encontra-la nos finais de semana.

Passados alguns dias o noticiário da televisão comunicou  que se aproximava um furacão naquela região. Subitamente, houve queda de energia e o sinal telefônico foi a zero, interrompendo todas as possibilidades de comunicação. A jovem engenheira passou rapidamente os olhos pelas colunas da velha construção,  tentava avaliar se a sua casa antiga resistiria à fúria dos elementos.

Lembrou-se do porão, lugar de esconderijo das crianças nas férias. Resolveu se esconder lá, pois lhe parecia mais seguro naquele momento E lá naquele subsolo escuro e abafado manteve-se trêmula aguardando a passagem da tempestade.

A hora não passava.  Tateava na escuridão a estrutura, e a casa muito bem construída, resistia bravamente.  Os pensamentos iam e vinham os dois filhos, o casamento tão bem afinado, a carreira de engenharia tão desafiadora, a infância que agora brotava no breu do porão com irmãos e primos se escondendo ou brincando com as ferramentas e redes do pai. Muitos planos ainda por realizar, e outros tantos que lhe brotavam.


Lá fora os ruídos iam aos poucos reduzindo. Sentiu que o tremor da construção estancou. Finalmente o furacão, transformou-se em apenas uma tempestade tropical. Ela subiu vagarosamente a pequena escada de madeira e viu-se no quintal arrasado  pela ventania. A pequena jaqueira resistiu firme guardando seus segredos de menina. Ela sorriu aliviada. Tratou de correr ao telefone e conseguiu comunicar-se com o marido. Naquele momento sentiu  que ainda teria um futuro brilhante pela frente.

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