quinta-feira, 18 de maio de 2017

Epopeia do pequeno Natan - Ana Catarina SantAnna Maues


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Epopeia do pequeno Natan
Ana Catarina SantAnna Maues

     O carregamento estava concluído. Vários animais de diferentes espécies seriam transportados para um bonito espaço e serviriam de atração aos futuros visitantes do local.  Arrumados em caixas sem muito conforto estavam, araras, periquitos, patos, gansos, uma cabra, um jumentinho, e alguns coelhos. A bicharada estava em polvorosa, cada um gritava mais alto que o outro. Na caixa dos coelhos, Natan era o mais animado, nada escapava a seus olhinhos curiosos e seu narizinho inquieto, viajava em companhia dos primos e agitado com tudo aquilo, pisava no pé de um, hora no pé de outro, que reclamavam e só silenciaram quando o caminhão deu partida e ali de dentro começaram a observar a paisagem que se descortinava para eles, pois deixavam a cidade,  com os prédios, carros e pedestres, avançando em direção a área rural, mudando por completo o visual.                                                                
           Chegando na autoestrada todo aquele verde tinha um cheiro especial, árvores enormes faziam sombra pelo caminho, ficando cada vez mais agradável tudo ao redor, a luminosidade branda, o vento fresquinho. Natan estava atento a tudo, vez por outra colocava o nariz pela fresta da espécie de gaiola e cheirava, e cheirava.  De repente o veículo fez uma curva e entrou numa estrada de terra, começando a   balançar muito quando o motorista desviava dos enormes buracos.  As caixas escorregavam de um lado para o outro, fazendo com que seus ilustres passageiros iniciassem novo alvoroço. Até que aconteceu algo terrível, o caminhão tombou derrubando tudo no chão. As caixas de transporte da cabra, jumento e patos, abriram com a queda, e os animais escaparam. Natan não tinha ideia do que sucedeu, só queria estar lá fora com eles  e por ser   magrinho  passou  por uma estreita  rachadura na caixa que o prendia. Solto apreciava a liberdade com cautela, em passos curtos afastava-se, desbravando os arredores, sem se importar com os apelos dos primos que ficaram presos.    
           Enveredou-se feliz mata  adentro.  Pegou confiança e corria e corria sem direção, extasiado. Passado algum tempo sentiu fome, e uma lembrança surgiu na mente. No seu pequeno mundo anterior não lhe faltavam cenouras, e agora perguntava-se, onde estariam?
      Próximo ao caminhão o motorista tratava de recolher os fujões. Deu falta de Natan, e como estratégia espalhou pedaços de cenouras para atraí-lo. Mas o tempo passou sem que ele retornasse. O socorro chegou e a bicharada seguiu viagem, deixando Natan para trás.

       A noite chegou rapidamente. Na mata Natan não encontrou cenouras, mas uns arbustos saborosos mataram sua fome. O cansaço o abateu,  agora precisava de um lugar quentinho pra dormir. Procurou por ali abrigo, entrou no buraco de uma árvore, mas foi expulso por uma família de esquilos. Andou mais um pouco e avistou uma caverna, ficou de longe analisando se havia algum morador, foi quando presenciou a revoada de morcegos gigantes, ele não sabia que eram morcegos, nunca havia visto aqueles bichos, eram milhares deles. Natan esperou e percebendo que não voltariam, entrou sem temor.  Estava dormindo relaxado quando sons estranhos vindos do céu escuro o acordaram, uma forte chuva caia com trovões e raios que clareavam o interior da caverna, nessa hora viu uma enorme sombra tomar conta de toda a entrada. Quem seria? Seus olhinhos nem piscavam, a sombra veio entrando lentamente e acomodou-se lá no fundo. Natan sentiu muito medo, não quis arriscar servir de alimento e saiu dali. Já do lado de fora os pingos gelados da tempestade ensoparam rapidamente seu pelo até então quentinho. Dormiu sem abrigo. Quando amanheceu ainda chovia, e ele novamente com fome lembrou das cenouras. Desta vez não queria os arbustos. Caminhou cheirando tudo por ali, e veio aproximando-se da estrada. Que alegria quando viu pedaços de sua comida preferida. Saboreou-os lembrando dos primos, a saudade invadiu seu coração. Ficou parado roendo e lembrando, do caminhão, da bicharada.  Ao longe vinha vindo o motorista, jogando migalhas de cenoura por onde passava, Natan o reconheceu, e correu para saudá-lo, não via a hora de reencontrar sua amada família.      

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