terça-feira, 16 de maio de 2017

É difícil perdoar? - Hirtis Lazarin


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É difícil perdoar?
Hirtis Lazarin

          Cresceram juntos, na mesma rua, na mesma escola, na mesma classe.  Leo e Renato tornaram-se inseparáveis e cúmplices.  Nas coisas certas e nas molecagens.

          Tornaram-se hábeis em pular muros.  O preferido era o do orfanato, no horário em que as freiras e as internas se dedicavam às intermináveis orações matinais.

          O que os atraía era uma mangueira prodigiosa.  Seus galhos carregados de mangas, envergavam com o peso até alcançar o chão.  Era ali que os meninos faziam a festa.

          Uma vez por semana, no mínimo, iam à periferia da cidade.  Ruas sem calçamento e esburacadas eram perfeitas para o "rally" de bicicleta.  Não havia pneus que resistissem a tanto sofrimento.

          Nos estudos, as aptidões tomaram rumos diferentes. 

          Renato brincava com a matemática.  "Debaixo dos caracóis de seus cabelos" havia uma mente onde os números pipocavam.  O rapaz, com destreza, jogava-os pra cima, deixava outros caídos ao chão pedindo socorro, encaixava um "x" aqui, eliminava o "y" trapalhão, arredondava a raiz quadrada e a equação estava resolvida.  Seu jeito de lidar com as ciências exatas refletia no seu jeito de vestir.  Gostava de calça social, camisa bem passada e sapatos intocáveis no brilho.

          Leo era descolado.  Vivia de jeans desbotado, camiseta e tênis desamarrado.  Era o artesão das palavras.  Juntava palavras aqui, eliminava outras ali, encaixava algumas roubadas de Machado de Assis, copiava outras do vocabulário de Suassuna, inventava muitas inspirado em Guimarães Rosa.  Embaralhava estilos e no papel surgia uma obra de arte.  Houve tempo em que andava pra baixo e pra cima com Fernando Pessoa.  Deu pra escrever poesias.

          Os dois já rapazes, se complementavam como o côncavo e o convexo.  A lealdade entre os dois era coisa bonita de se ver.  A lealdade leva tempo pra se instalar.  Só acontece quando há verdade, entrega e sinceridade no relacionamento.

          Leo tornou-se responsável por uma coluna no jornal da cidade.  E, pra socorrer os pais em dificuldades financeiras, aceitou trabalhar num editora fazendo traduções do português para o inglês e vice-versa.

          Nesse período Leo afastou-se das festas e diversões e sobrava pouco tempo pra namorada Helena.  Era Renato quem, muitas e muitas vezes, acompanhava-a às festas.   A juventude quer a felicidade a qualquer custo.  Parece que o mundo está prestes a acabar.  Não há tempo pra perder.

          Bem, o tempo passou... As pessoas mudaram... A vida também.

          A situação financeira da família de Leo foi resgatada e ele, nos próximos dias, deixaria a editora pra cuidar da própria vida. No momento, o vestibular e a Helena eram sua prioridade.

          Enfim chegou o seu primeiro final de semana livre.  Sabia que Helena passaria alguns dias fora.  Procurou Renato e não o encontrou.  Ninguém sabia informar seu paradeiro.  Nem seus familiares.  Achou estranho. Um sempre sabia do outro.

          Uma semana inteira passou e Leo recebeu um postal.  Helena e Renato estavam juntos.  O convívio entre os dois foi transformando amizade em amor.  Foi evitado, negado, mas não teve jeito.  Aconteceu.  E era amor de verdade.  Foram leais e fiéis até quando deu.

          Difícil foi contar a verdade.

          Se a amizade vai continuar, não sabemos.  Só o tempo dirá.



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