quinta-feira, 9 de março de 2017

A história de Mariluce - Dinah Ribeiro de Amorim




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A história de Mariluce.
Dinah Ribeiro de Amorim

Mariluce era uma mulher gananciosa e arrogante, vivia esbanjando a pequena herança deixada pelos pais. De festas em festas, lojas e lojas, namoros escandalosos, sua futilidade era tanta que chegava a ser desprezível, aos olhos de algumas famílias conservadoras.

Tratava seus empregados com severidade, estupidez, considerando-os inferiores e medíocres. Não se importava com problemas alheios, com dores ou tristezas quando as ouvia, interessando-se somente por pessoas ricas, de cargos importantes, que lhe trouxessem alguma vantagem.

Como pessoas assim, existem muitas no mundo, sentia-se rodeada de amigos e interesseiros, como ela.

Citada em rodas festivas, comemorações, exposições importantes e em cada assunto frívolo e inútil, lá estava ela, muito bem acompanhada.

Mulher bonita atraía olhares cobiçosos, embora transmitisse uma certa frieza. Cativava inicialmente muita gente, vivia intensamente vários romances, não durando muito esses relacionamentos. Trocava-os com muita facilidade. Não se prendia a ninguém.

Demonstrava a todos uma felicidade que, intimamente, não sentia. Algo faltava para preencher esse coração vazio e amargo. Só não sabia o que.

Os anos foram passando, a maturidade chegando, o dinheiro acabando, a velhice aparecendo.

A saúde, começando a dar sinais de preocupações, desgastada por excessos, levou-a ao médico.

Aconselhada a uma vida mais calma e saudável, procurar lugares sossegados e algum trabalho voluntário, porém negou-se a seguir  tais conselhos, continuando na mesma de sempre.

“médicos, bolas, só falam besteiras!”

Como seu gênio não mudou, ao contrário, só piorou com os problemas da idade, os amigos desapareceram, a solidão chegou, os empregados saíram à procura de melhor  emprego,  ela ficou só.

Sozinha na casa que restou, sem alguém para  servi-la nos momentos difíceis e  socorrer quando necessitasse.

Começou então a pensar na vida passada e no que fizera.

Olhava pela vidraça a casa em frente, vizinhos que mal cumprimentava, porque eram simples e pobres, reparando agora, com inveja, em como eram mais felizes. Alegres, cheios de filhos e netos, festejando, brincando, entrando e saindo. A mais velha, que deveria ser a avó da turma, tomando sol na varanda, em cadeira de balanço ou com um crochezinho nas mãos, parecia estar bem e feliz. Sempre rodeada por trepadeiras e as lindas rosas do seu jardim. Transmitia paz, sossego, prosperidade.

Uma vez, viera até sua porta, trazendo-lhe um bolo, manifestando amizade. Negara-se a abri-la, considerando-a humilde e mal vestida demais, para ser sua amiga. Como se arrependia agora! Amaria provar aquele bolo e conhecê-la, nos tempos atuais. Não sabia cozinhar nada e nem pensava em comer fora. O dinheiro mal dava para suas despesas. Fez investimentos errados, aconselhada por falsos amigos e, perdeu quase tudo, restando-lhe pouco para sobreviver. 

Uma casa velha, um jardim abandonado, mato crescendo, sem flores, no lugar das lindas begônias, plantadas por sua mãe. Haviam murchado junto com ela.
A vida muda de repente e Mariluce nunca se preparou para nada.  Restou-lhe vender a casa e ir para um asilo.


Arrependida, pensou, pela primeira vez, na existência de Deus.

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