quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

"Navegar é preciso" - Hirtis Lazarin


Resultado de imagem para CARTA NAUTICA SANDY ISLAND

"Navegar é preciso"
Hirtis Lazarin


          Na biblioteca pessoal de Olivier dá pra contar os livros que não se referem ao "Mar, seus segredos e mistérios".

          Essa paixão nasceu cedo, aos cinco anos de idade.  Foi quando passou férias,  pela primeira vez, em praias do Oceano Pacífico.

          A imensidão azul sem fim, o embalo ritmado das ondas volumosas quebradas contra os rochedos que, valentemente,  impediam que  ultrapassassem seus limites,  a brisa leve que despenteava os cabelos, o vento forte que revirava e arrastava os guarda-sóis na areia molhada, nada escapava aos seus olhos curiosos.  E o cheiro...Ah!  Aquele cheiro fresco e salgado impregnou-se pra sempre naquela cabecinha de cabelos cacheados.

          Aos sete anos, alfabetizado,  o menino já sabia escolher os livros que gostava de ler.  Sua biblioteca crescia e as miniaturas de navios, barcos, veleiros,  jangadas também.

          Estudou Oceanografia na Grã-Bretanha, a melhor escola da Europa.  Seu passatempo preferido era mergulhar em águas profundas.  Ali encontrou o  paraíso.  Paisagens intocáveis abrigando  animais de todas as formas, tamanhos e cores, vivendo em plena harmonia.  Além do prazer, adquiria mais conhecimentos que  complementavam  seus estudos.  

           Convenhamos, Olivier  era firme e decidido, traçou objetivos e corria atrás deles.

          Depois de formado, comprou um veleiro, idealizado todos os dias de sua  vida.  Depositou nele fantasias e muita esperança.  Esperança de não só enfrentar, mas desvendar segredos e  mistérios do mar.  O óbvio não lhe interessava.

          O rapaz organizou uma pequena expedição.  Juntou um colega de estudo,  mais três homens fortes e entendidos de mar.  Cinco homens a bordo. 

           O primeiro desafio já estava traçado.  Navegariam até  Sandy Island, a "Ilha Fantasma", localizada entre Austrália e Nova Caledônia.  Aparecia em mapas náuticos mais antigos sob a forma de um polígono preto.  Mas, inexplicavelmente, despareceu sem deixar vestígios.  A intenção era mergulhar na área em busca de materiais que comprovassem se ela existiu ou não.

         Tinham data marcada para o início da viagem, um mês calculado pra se chegar ao destino e um retorno incógnito.

          Já estavam em alto-mar há vinte e oito dias.  Alguns quilômetros apenas os separavam  da  área que seria explorada.  Tudo corria dentro do previsto.  Nenhum contratempo.

             Era  noite.  Uma pintura de céu.  As estrelas eram tantas que competiam espaço.  A lua, uma bola de fogo,  clareava o convés.  Os cinco homens esparramados bebericavam, jogando conversa fora até o sono chegar.  O dia seguinte seria de muito trabalho.

          Repentinamente, o veleiro se viu envolto por denso nevoeiro.   Uma ventania chegou virando e revirando tudo.  Objetos soltos misturaram-se num emaranhado de destroços e foram tragados por ondas gigantes e raivosas que rugiam feito animal acuado.  As velas e as estruturas metálicas dos mastros retorcidas sumiram como fumaça. 

          A tormenta durou poucos minutos...Intermináveis...  O suficiente pra destruir tudo.  Desapareceu do mesmo jeito que chegou.  Inacreditável!  

          O veleiro transformou-se em pedaços de madeira assustados, flutuando em silêncio.   Serviam de apoio aos cinco homens abalados e feridos. O medo foi se exaurindo.  Ficou a perplexidade.

         "Seria um aviso?  Há algo sobrenatural neste pedaço de mar?  Fomos alertados de que o local é intocável?" 

          Olivier permanecia calado. Mas conhecendo-o como o conhecemos, ele não desistiria.  Essa era apenas a primeira tentativa de outras que viriam.   Tirou um celular à prova d'água, amarrado à cintura debaixo do colete e comunicou-se com a guarda costeira.  Agora era só ter paciência e esperar.

           E, nessa espera,  com a cabeça apoiada na madeira, Olivier resmungava baixinho: "navegar é preciso, viver não é preciso".


          As estrelas, todas estavam lá  no céu e a lua também.  Testemunhas caladas.

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